quinta-feira, janeiro 22, 2015

Intimidade divina

Pe. Bernard-Marie de Chivré, O.P.
Traduzido por Andrea Patrícia



Habitar: significa não apenas chegar, instalar-se e permanecer, mas significa por conta de tudo isso: mudar de mentalidade pelo próprio fato de uma presença equipada com a sua própria. Quando o visitante é Cristo, a Presença não é um estranho para nós. Ele conhece-nos, pesa-nos, e ama-nos.

Receba-O com a mentalidade de um membro da família: “Jam non dicam servos meos sed amicos meos - Eu não vos chamo servos, mas amigos". Não há necessidade de temer um conflito de opinião ou de gostos entre Ele, o Homem perfeito, e nós, no que possuímos como verdadeiramente humano, isto é, o bem natural e a virtude sobrenatural. Este aspecto humano está predisposto desde o início para dar-se bem com o visitante Divino. Este aspecto representa a região do nosso ser em que a sua presença vai sentir que era esperada e vai sentir-se em casa, instintivamente.

"Minha alegria é estar entre os filhos dos homens". Nossas qualidades naturais instigam a Deus em benefício das atividades de Sua graça. Sua chegada em nós, portanto, "não incomoda", e, em princípio, o ser humano verdadeiro e o verdadeiro cristão em nós devem sentir senão um desejo irresistível de recebê-Lo em conta da harmonia que é pré-estabelecida entre Ele e nós. Se nós O conhecêssemos do modo como Ele é para cada um de nós, se nós O conhecêssemos com o que Ele traz para cada um de nós, então haveria uma real recepção (sabendo que é esperado, sabendo que é recebido, sabendo que se implora a Ele para não ir embora).

"Habite em mim como eu habito em vós". Como eu habito em vós. Cristo vem a nós oculto, como se Ele não quisesse ser visto entrando em nossa casa, de modo que ninguém pode vir a incomodá-Lo durante a conversa que Ele quer ter com todos nós sozinhos. Escondido: pertencer a nós pelo maior tempo possível. Ele vem a nós sincero, tal como Ele é, o Redentor, ansioso para associar-nos com Ele, sem as convenções mundanas das aparências; como Ele é com Sua vida fabulosa, a explicação de Sua generosidade fabulosa. Ele vem a nós enterrado na humildade do presépio, intrépido na atividade do apostolado, fiel ao Seu redentor dever de Estado, desprezado em seu Calvário, cegando com a glória de Sua Ressurreição.

Não há necessidade de especificar se tal chegada vai criar uma atmosfera um pouco diferente da nossa magreza moral e espiritual. A prova: logo que há comunhão, as atividades habituais param. Aquelas que são manuais: passamos a ouvir a Ele que acaba de chegar; intelectuais: o fluxo de nossos pensamentos muda de direção, adotamos o fluxo de Seus pensamentos; psicológicas: as preocupações passam para ocupações superiores; voluntárias: as atenções são afastadas do natural e se voltam para o absoluto.

Está-se pronto para qualquer coisa. Amar é tornar-se o amor em aproximar-se de um ser amoroso. Quem é mais amoroso do que Cristo? Nossa morada oculta é banhada por um novo clima que responde às expectativas instintivas de nossas faculdades superiores. A Habitação tornou-se mais a nossa habitação, porque Ele está lá. Nós somos mais nós mesmos, e, em vez de estar com pressa para vê-Lo sair como um estranho, nós gostaríamos de vê-Lo prolongar Sua visita: "Mane nobiscum, Domine - Fique conosco, Senhor". Nosso coração volta-se durante o dia para a Comunhão da manhã.
Sua Presença sacramental vai embora, mas deixa a realidade de Sua presença oculta ou mística, que habita desde que o ato deliberado de um pecado mortal não tenha mostrado-Lhe a porta. A Visita Eucarística ocorreu. A permanência sacramental terminou. Mas a chegada definitiva foi realizada. De Visitante Ele tornou-se Convidado, e de Convidado Ele tornou-se amigo, isto é, Ele que fica para amar e ser amado.

Cabe a cada um de nós, então, dizer-Lhe: "Habite em mim", depois que Ele nos disse: "Como eu habito em vós". Amar é ter uma vontade de permanência. Como proceder para melhor imitar, por nossa vez, Sua maneira de apresentar-Se em nós:

1) Ocultar-se Nele: enterrar na Sua mentalidade luminosa, unificada, as nossas contradições que dividem. Renunciar nossos pontos de vista míopes; deixar de acreditar neles absolutamente; sacudir sua tirania. Inspirar profundamente Sua visão eterna da existência. Inspirar profundamente Suas fragrâncias libertadoras do Calvário. Assimilar totalmente Seu programa redentor intelectualmente por Sua doutrina do mundo; moralmente por Sua santidade de vida, socialmente por Sua ansiedade para servir e salvar, e tudo isso "em segredo" sem exibicionismo ou pretensão afetada.

2) Seja sincero como Ele: acolhê-Lo em nossa morada, depois de ter escovado o pó dos móveis pela nossa contrição, é claro, mas sem mover os móveis ao redor para dar-lhe a impressão de que sabe como receber em grande estilo, criando para si uma mentalidade artificial de nouveau riche, simulando um fervor artificial por Ele, um entusiasmo artificial, uma santidade artificial. Ele tem horror a tudo o que é fabricado e pré-fabricado.

Ele prefere ser acolhido no estábulo. Ele sente-Se em casa ali. A palha de nossos desejos maus, o burro de nossas vontades ruins, o boi de nossa natureza terrena, a nossa simplicidade; a gratidão sincera, humilde de um São José por ter sido convidado para vigiar perto Dele; a pureza dos desejos de Sua mãe. Aí está Ele na Sua habitação.

Ele prefere ser acolhido em Nazaré em uma oficina, aquela dos nossos esforços por Ele, de nossos arranhões veniais por causa Dele, do nosso cansaço moral, de nossas atividades apostólicas. Ele sente-Se em casa. "Habite em Mim". Ele prefere ser bem-vindo ao ar livre, onde quer que nossa caminhada apostólica nos encontre: na estrada de nossas resoluções que Seu encontro nos permite fortalecer; no meio da multidão de nossos chamados no qual Sua passagem nos permite impor o silêncio, para ouvir o que Ele pensa; nas idas e vindas de nossos sonhos apostólicos de influência e ação, aos quais Ele traz a decisão do "Sequere Me" [1]. Ali também, Ele está em casa. "Habite Comigo".

Ele prefere ser bem-vindo no meio do nosso Calvário, durante a agonia das nossas angústias que nascem dos nossos medos de não sermos capazes de ficar firmes no menosprezo de uma reputação ridicularizada ou incompreendida, a flagelação de uma sensibilidade arrependida, a coroação de espinhos de uma situação humilhante, o carregar de uma cruz de uma vida meritória, ou a crucificação de uma vida que não se aguenta mais.

Ali acima de tudo Ele reconhece-Se e encontra-Se em casa: "Habite Comigo. Faça sua habitação Comigo e perto de Mim". Em seguida, a Presença tem raiz e com isso nossos hábitos de pensamento se desenvolvem mais estranhamente; eles adquirem uma lucidez estranha sobre a filosofia humana, capaz de julgá-la como Cristo julgou e uma serenidade forte sobre o problema da existência, com a certeza de sua consumação, como Cristo tinha certeza de sua própria.

A Habitação é verdadeiramente habitada por Ele e por nós. Voltamos às nossas atividades com Suas atividades em nós, tanto que no retorno às nossas, descobrimos que elas são tanto Suas quanto nossas. Não há arrependimento por ter cedido o lugar a Ele, mas lamento por ter cedido o lugar a Ele tão tarde ou de forma tão desajeitada.
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Pe. Bernard-Marie de Chivré, O.P., foi ordenado em 1930. Ele foi um tomista ardente, estudante da Escritura, mestre de retiro, e amigo do Arcebispo Lefebvre. Ele morreu em 1984.

Original aqui.

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Nota da tradutora:

[1] Segue-Me.