quinta-feira, março 05, 2015

A Ressurreição: um fato historico

Por D. Williamson
Traduzido por Andrea Patrícia




Caros amigos e benfeitores,

Que o corpo material de Nosso Senhor, tendo sido pregado na Cruz e separado pela morte de sua alma humana, e sepultado na tumba de José de Arimatéia – que esse mesmíssimo corpo levantou reunido com sua alma, e ressurgiu vivo daquela tumba, é um fato histórico – FA-TO – tão fácil de provar agora quanto então, para qualquer mente sensata não blindada pelo preconceito. 

Então quando São Pedro convocou os judeus de Jerusalém a fazerem penitência e serem batizados em nome de Jesus Cristo (Atos Il), ele não argumentou que eles deveriam acreditar em Cristo para acreditar na Ressurreição, ao contrário, ele argumentou que a evidência da Ressurreição (Atos II, 32) era o argumento mais forte para Jesus ser o Senhor e Cristo em quem portanto eles deveriam acreditar (Atos II, 36, 38).

Ora, Pedro apelou em seu discurso primeiramente a um conhecimento do Antigo Testamento o qual a maioria dos judeus então possuía, mas o qual a maioria dos católicos não possui mais, e secundariamente às testemunhas oculares vivas da ressurreição do Senhor, que há muito havia morrido. Ainda assim podemos dizer que a Ressurreição é um fato tão provável agora quanto era naquela época, independentemente da Fé. Tudo o que é necessário é um mínimo reconhecimento das realidades da natureza humana e da história humana.

Existem dois argumentos principais, um positivo vindo do comportamento dos amigos de Nosso Senhor, e outro negativo vindo do comportamento dos inimigos de Nosso Senhor. Vejamos primeiramente o argumento positivo, do comportamento dos Apóstolos.

Quando Nosso Senhor permitiu ser capturado no Jardim do Getsêmani, eles não comportaram-se como heróis, todos eles fugiram (Mc. XIV, 50-52). Quando Nosso Senhor foi crucificado, apenas um deles, com um grupo de mulheres, ficou ao lado Dele (Jo. XIX, 25,26). Quando os Apóstolos encontraram-se na tarde daquele dia da Ressurreição, eles encontraram-se a portas fechadas, “como medo dos judeus” (Jo. XX, 19). E o incrédulo Tomé não estando com os outros dez naquela ocasião recusa-se a acreditar que Jesus apareceu vivo para eles, apesar de seu testemunho viril (Jo. XX, 25).

Esta não é a imagem da altivez de leões apostólicos, prontos para sair pelo mundo e conquistá-lo para Cristo. Ao contrário nós vemos aquilo que esperaríamos: um grupo de homens decentes comuns, consternados pela captura e morte brutal de seu amado Mestre, e totalmente desencorajados. 

Ainda assim 50 dias depois nós os vemos, liderados por Pedro, estabelecendo aquela conquista do mundo civilizado para Cristo, iniciando o processo de 300 anos de conversão do Império Romano, o que é um fato histórico. Este processo extraordinário de levantar todo um império corrupto às alturas de uma religião sublime mas exigente, só poderia ser iniciado por um núcleo original de homens profundamente confiantes. O que transformou um grupo de pescadores abatidos em tais conquistadores do mundo? A conquista é história. Qual pode ser a explicação humana?

Não é o bastante dizer que pescadores não científicos de 2000 anos atrás teriam aceitado qualquer bobagem devota, enquanto nós modernos somos mais racionais, etc. O incrédulo Tomé exigiu, precisamente, evidência cientifica e fatos que ele mesmo pudesse tocar. E ele recebeu-os (Jo XX, 27). Mas apenas imagine que ele realmente recebeu-os. Não é este o momento de virada quando um homem inculto desanimado começa a tornar-se um conquistador do mundo? São Tomé tornou-se o Apóstolo da índia onde ele foi martirizado, onde seu corpo jaz até hoje, onde a Igreja que ele fundou vive no sul do subcontinente. 

Tendo em conta os fatos da história e a teimosa natureza humana, poderia qualquer coisa menor do que as repetidas, diretas e pessoais aparições, espalhadas ao longo de 40 dias, do Senhor ressuscitado da sua terrível morte, explicar a transformação destes homens, o que sabemos que aconteceu? E mesmo a descida do Espírito Santo sobre eles no Pentecostes ainda era necessária. Mas essa descida fez deles, como Pedro, testemunhas irresistíveis do fato da Ressurreição (Atos II).

Mas existe um segundo argumento, um argumento negativo vindo do comportamento dos judeus. Estes eram então como hoje, com nobres exceções, inimigos implacáveis de Nosso Senhor. Eles O honram odiando-O e aos seus seguidores, porque Ele tira o “lugar e nação” (Jo XI, 48) deles. O mundo será governado do jeito deles, e Deus não interfere na supremacia deles. Então eles tiveram os gentios crucificando Cristo, e pensaram que assim estavam colocando um fim em seus problemas.
Então chega Pedro com seu bando de Galileus de volta ao seu baluarte de Jerusalém, gloriosa Sião, e baseado naquele negócio absurdo do corpo de Jesus levantando da tumba, Pedro levanta todo o problema novamente. No coração de Jerusalém! E ele está convertendo milhares ao Nazareno, como eles O chamam. É preciso colocar um fim nisso (Atos II, III, IV)!

Ora, se Pedro baseia seu argumento na Ressurreição, então para parar seu disparate de uma vez por todas, o melhor não seria descobrir o corpo de Jesus e apresentá-lo triunfantemente em público? (“Sinto muito Pedro, caro companheiro, mas...”). E é provável que Anás e Caifás fossem menos ricos, determinados, inteligentes, astuciosos e poderosos do que são seus sucessores hoje? Caso em que, com um motivo tão forte para encontrar o corpo de Jesus, nós podemos duvidar que eles teriam encontrado, se ele estivesse lá para ser encontrado? Neste caso, se, como é obviamente o caso, eles falharam em parar Pedro a continuar seu caminho, pode haver alguma outra explicação para seu fracasso do que o corpo não ter sido encontrado em lugar algum por seres humanos porque ele havia levantado dos mortos por Deus? 

Resumindo, quer pensemos nos amigos de Nosso Senhor ou em Seus inimigos, o sucesso gigantesco da religião Cristã pode ser contabilizado apenas pela Ressurreição de Nosso Senhor dos mortos ser um fato duro, muito duro. Dizer o contrário é negar a história ou negar a natureza humana. 

Mas então surge a objeção perniciosa: “Ah, mas quem precisa ARGUMENTAR a base de nossa bela religião? A Fé está acima de meros argumentos. É tudo tão adorável, e mais adorável por ser acreditada sem raciocínio”. 

A objeção é perniciosa porque parece colocar a fé bem acima da razão, de onde pertence. Entretanto, na verdade isso desconecta a Fé da razão completamente, e torna a fé questão de sentimento ou sensação. Mas os homens naturalmente conhecem tal verdade na mente não nos sentimentos. Portanto, neste julgamento a fé, deixará de ser verdade, e a Igreja será transformada numa mera fábrica de BSIs (Bons Sentimentos Internos).

Então a questão não é se a Ressurreição faz-me sentir bem ou não, porque isso depende de se ela é verdade ou não, o que é uma questão inteiramente diferente. A totalidade da Cristandade está doente com a noção de que a religião é questão de sentimento, não de verdade. Mentes piegas nunca fazem mártires. O protestantismo há muito foi apodrecido com “sentimentos”, mas o drama é que desde o Concílio Vaticano II, inúmeros “católicos” sofrem da mesma desconexão da religião com a realidade. Mas homens sempre irão insistir mais cedo ou mais tarde a viver na realidade – eles têm que fazer isso – então se a religião é desconectada disso, é a religião que será atirada pela janela. O atual colapso da Igreja “Católica” sente-sente é certo e apropriado. 

Então o fato histórico da Ressurreição é uma verdade acessível à razão, operando a partir de um conhecimento da história e da natureza humana, que todos os homens partilham. Sendo assim a religião católica não é apenas minha preferência pessoal, mas possui uma aderência e um clamor a todas as mentes humanas, e pelas suas mentes, em suas vidas. “Aquele que não crê será condenado” (Mc XVI, 16). Como pode ser assim se a crença é apenas uma questão de BSIs?

Que a Mãe de Deus possa obter para todos nós mentes católicas e corações católicos!


*Carta de março de 1997.

Traduzido de:

Bishop Richard Williamson. Letters from the Rector of Saint Thomas Aquinas Seminary,. True Restoration Press.