quinta-feira, abril 16, 2015

O Dogma do Inferno – Parte II



As Dores Infligidas aos Réprobos no Inferno
Por Dr. Remi Amelunxen
Traduzido por Andrea Patrícia
 

 
O fogo do Inferno é um fogo real 


O Inferno foi revelado por Nosso Senhor pelo menos 50 vezes no Evangelho, como vimos no artigo anterior. Aqui nós iremos examinar as dores do Inferno, como os católicos devem pensar sobre o Inferno, o medo salutar que dele nós devemos ter, e como isso deve influenciar nossas ações diárias.
Algo predominante nas palavras da Escritura Sagrada sobre o Inferno é a tortura terrível do fogo. As Escrituras chamam o Inferno de “lago de enxofre e fogo”, “a Geena de fogo,” “o fogo eterno”, e a “fornalha ardente onde o fogo nunca se apaga.”
“O fogo do Inferno é um fogo real ”, afirma o Pe. François Xavier Schouppe em seu livro The Dogma of Inferno Illustrated by Facts Taken from Profane and Sacred History [O Dogma do Inferno Ilustrado por Fatos Extraídos da História Profana e Sacra].

“É um fogo que queima como o fogo do mundo, embora seja infinitamente mais ativo. Não deve haver um fogo real no Inferno, visto que existe um fogo real no Purgatório?”(1)
“É o mesmo fogo”, diz Santo Agostinho, “que tortura os condenados e purifica os eleitos.” (2)
A horrível agonia de ser consumido pelo fogo na terra termina quando o fogo consome a pessoa. Mas no Inferno a angústia das dores do fogo nunca cessa, já que o fogo de lá queima, mas não consome. É por isso que é bom para nós pensar sobre o Inferno como um meio de nos encorajar a desistir dos prazeres culposos, das amizades e das ligações que estejam nos levando para lá.
Só a visão de uma alma que cai no Inferno já causa incomparável dor. Santa Margarida Maria Alacoque observou a aparição de uma de suas irmãs na religião que havia morrido recentemente. Esta irmã disse à Santa Margarida Maria que ela estava sofrendo cruelmente no Purgatório, e implorou por suas orações e sufrágios.
“Veja a cama onde estou deitada” ela disse à Santa Margarida, “onde estou suportando dores intoleráveis.”
“Eu vi a cama” a santa reportou em seus escritos “e isso ainda me faz estremecer. Era toda eriçada com pontas afiadas e flamejantes que entravam na carne. A falecida disse-me que ela estava sofrendo esta tortura por causa de sua preguiça e negligência em observar a regra.”
“Mas isso não é tudo”, continuou a irmã. “Meu coração é rasgado em meu peito para punir meus murmúrios contra meus superiores. Minha língua sofre dor por causa de minhas palavras contrárias à caridade e minhas violações do silêncio. Mas tudo isso é coisa pequena em comparação com outra dor que Deus me fez experimentar. Embora não tenha durado muito, foi mais dolorosa para mim do que todos os meus sofrimentos.”
Então ela contou à Santa Margarida Maria que Deus havia mostrado a ela uma de suas parentas que havia morrido em estado de pecado mortal sentenciada pelo Supremo Juiz e lançada no Inferno, uma visão que causou a ela tal pavor, horror e dor que nenhuma palavra poderia descrever. (3)

 Todos os sentidos são atormentados pelos demônios no Inferno


Este é apenas um relato. Pe. Schouppe apresenta muitas histórias tanto de religiosos quanto de leigos revelando os horrores do Inferno. Um curto incidente envolveu um santo sacerdote que exorcizava um homem possesso. Durante o exorcismo, ele perguntou ao Diabo quais dores ele tinha no Inferno. Ele respondeu: “Um fogo eterno, uma maldição eterna, uma raiva eterna e um pavoroso desespero por nunca poder olhar para Aquele que me criou.”
Numa ocasião parecida, o exorcista inquiriu ao Diabo qual era a maior de suas dores. Ele respondeu com um tom de indescritível desespero: "Sempre, sempre! Nunca, nunca!" (4)
Outro sofrimento do Inferno é o mau cheiro corporal, que é mais insuportável que o mau cheiro dos cadáveres. Se o corpo de uma pessoa condenada, diz São Boaventura, fosse colocado na terra, ele somente seria suficiente para tornar a terra inabitável. Iria preencher a terra com seu mau cheiro e com infecção, como um cadáver deixado para apodrecer numa casa espalharia seu insuportável mau cheiro por tudo à sua volta. (5)
Perto do fim da vida de São Martinho de Tours, o Diabo veio tentá-lo sob uma forma visível. O espírito da mentira apareceu diante dele com magnificência real, uma coroa de ouro em sua cabeça, e disse que ele era o Rei da Glória, o Filho de Deus. O Santo Bispo reconheceu o tentador sob estas aparências de grandeza humana e expulsou-o com desprezo. O orgulhoso Satã foi confundido; ele desapareceu. Mas deixou o quarto cheio de mau cheiro imundo tão terrível que o Santo não conseguiu permanecer mais lá.

Pensar no Inferno para evitar cair nele

Um leitor pode objetar: “Qual o sentido de ouvir todas essas histórias aterrorizantes? É melhor pensar na bondade e na misericórdia de Deus.”
Isso não é difícil de responder. Antes do Vaticano II, confessores costumavam contar histórias como estas do púlpito, e encorajavam as pessoas a pensar sobre os tormentos do Inferno para preveni-las de cair nele. É muito fácil ser condenado, e o número de condenados é muito grande.
Santa Teresa D’Ávila compara aquelas almas perdidas a flocos de neve que caem no inverno, de tão numerosas que são. (6)
Um Bispo, por permissão especial de Deus, recebeu uma visita de um pecador que havia morrido impenitente pouco tempo antes. Esta alma condenada perguntou ao Bispo se ainda havia sobrado algum homem na terra. Então ele explicou: “Desde quando vim para esta triste habitação, eu tenho visto tal prodigiosa multidão chegar que eu não consigo conceber que ainda haja homens na terra." (7)
De fato, nós somos avisados exatamente disto no Evangelho. "Entrai pela porta estreita; porque larga é a porta, e espaçoso o caminho que conduz à perdição, e muitos há que irão para lá. Quão estreita é a porta e reto é o caminho que leva à vida, e poucos há que a encontrem" (Mt 7,13-14).
Para evitar o Inferno, é vital evitar o caminho para ele. Para isso, nós devemos evitá-lo sob todas as formas e lutar para permanecer sempre em estado de graça.
Quem quer que pense no Inferno está no caminho de evitá-lo. Pois, no momento da tentação, este pensamento irá ajudá-lo a não pecar. Nós temos o exemplo de São Martiniano, um eremita de Cesaréia na Palestina no século IV. Ele viveu 25 anos em solidão quando Deus permitiu que sua fidelidade fosse posta a prova num violento teste.

 Grande é o número de almas que caem na boca do Inferno


Um dia, uma cortesã chamada Zoe, disfarçada de mendiga, foi até a sua cela durante uma tempestade e implorou por abrigo. O santo anacoreta a deixou entrar e acendeu um fogo para ela secar suas roupas. Mas a prostituta, jogando a esfarrapada capa emprestada, apareceu num sedutor vestido e começou a usar de todo o seu charme fascinante.
Quando ele percebeu o quanto estava tentado, Martiniano sentou diante do fogo e colocou seus pés descalços dentro dele diante dos olhos da perplexa cortesã. A dor arrancou lágrimas dele, mas ele gritou: "Ai, minha alma, se você não consegue aguentar o fogo agora, como poderá suportar o fogo do Inferno?"
A tentação foi vencida, Zoe foi convertida e mais tarde tornou-se freira em Belém. Tal foi o efeito salutar do pensamento sobre o Inferno.
  
A sociedade dos demônios é horrenda

Outra tortura do Inferno é a horrível sociedade dos demônios e dos condenados. Algumas almas tolas suavizam este aspecto e até mesmo fazem piada sobre isso dizendo: “Bom, pelo menos não ficarei lá sozinho.” Na realidade, elas não irão encontrar consolo, mas a miséria dos condenados sentenciados a usar ferros juntos nas galeras. Mas mesmo um condenado pode encontrar algum consolo na companhia de outros seres humanos. Mas não é assim no Inferno, onde os condenados são torturadores mútuos.
Santo Tomás diz: “No Inferno os associados de uma alma condenada, longe de aliviar seu sofrimento, tornarão este ainda mais intolerável para ela.” (8) Mesmo a sociedade daquelas pessoas que foram os mais queridos amigos é insuportável para a alma condenada no Inferno.
No Inferno as almas condenadas lamentam pelo tempo perdido em diversões vãs, por deixar de cumprir sua obrigação dominical indo à Missa, por um pecado mortal intencionalmente não confessado. Então, elas anseiam retornar por uma hora para fazer uma boa confissão, mas não adianta nada. O tempo na terra previsto para eles por Deus terminou, e agora eles devem encarar a consequência que dura uma eternidade.
Pe. Schouppe conta-nos uma história verdadeira, sobre a qual nós faríamos bem em ponderar seriamente.
Um sacerdote, encontrando-se num lugar isolado onde estava retirado para rezar, ouviu gemidos pesarosos que só poderiam proceder de uma causa sobrenatural. Ele exigiu saber quem eram os autores daqueles gritos lastimosos, e o que eles tencionavam.
Então, uma voz triste respondeu: "Nós somos os condenados. É preciso que se saiba que estamos lamentando no Inferno o tempo perdido, o tempo precioso que desperdiçamos na terra em vaidades e crimes. Ah! Uma hora nos daria o que uma eternidade não nos pode dar mais." (9)

(Continua)
  1. Francois Xavier Schouppe, The Dogma of Inferno, Illustrated by Facts Taken from Profane and Sacred History, Rockford, IL: TAN, 1989, p. 21
  2. Ibid.
  3. Ibid., pp. 25-26.
  4. Ibid., p. 31
  5. Ibid., p. 30
  6. Ibid., p. 34
  7. Ibid.
  8. Santo Tomás de Aquino, Summa Theologica, Suppl. 9, 86, A.1., apud F.X. Schouppe, The Dogma of Inferno, pp. 30-31.
  9. F.X. Schouppe, The Dogma of Inferno, p. 34

Original aqui.