terça-feira, dezembro 01, 2015

Preconceitos e estereótipos: uma reflexão




INTRODUÇÃO

Ultimamente, a sociedade ocidental vem tendo seus fundamentos minados por um movimento contra-cultural que convencionou-se denominar como o “politicamente correto”. Os mentores desse movimento são ideólogos marxistas que criaram um engenhoso meio de adestrar a população vencendo-a pela linguagem, com o propósito de obter sua rendição cultural, subvertendo as relações sociais no âmbito da sociedade tradicional. A lógica do movimento é clara: promover a igualdade através de uma silenciosa guerra cultural. Mudam a linguagem para controlar a comunicação, recriando o próprio idioma, revisando e subvertendo conceitos-chave a fim de acomodar a sociedade a um viés igualitário.

Assim, mudando a linguagem dão nova roupagem à interpretação dos fatos, antes tratados de maneira neutra, são agora reinventados pela ideologia, revestida pela ética do marxismo. Desta forma, a comunicação não é mais um fenômeno espontâneo, geralmente vindo de baixo pra cima, mas, ao contrário, impositivo, resultado de técnicas de adestramento coletivo imprimidas pela ideologia dominante. Quando se fala do preconceito enquanto fenômeno a ser estudado no âmbito ideológico, não se fala do seu verdadeiro sentido etimológico. A etimologia da palavra como um “conceito ou opinião formada antecipadamente, sem maior ponderação ou conhecimento dos fatos. Calcado no francês préconçu"[1] é então substituída por outro significado: aversão e intolerância, geralmente dirigida contra grupos minoritários supostamente desfavorecidos.Desfigurado de seu real significado, o termo preconceito passou a abrigar um sentido completamente distorcido, para então ganhar a projeção social reservada aos propósitos do politicamente correto.

Combater o preconceito virou sinônimo de combater a “aversão”, o “ódio” e a “intolerância” a grupos minoritários, propiciando, assim, o surgimento de uma sociedade mais igualitária e promíscua, isto é, menos sensível às diferenças entre raças, religiões, sexos, preferências sexuais etc. Em uma simples operação de manipulação semântica, transforma-se a linguagem com o escopo de lucrar politicamente. É obra, portanto, de pura engenharia social, não apenas no Brasil, mas mundialmente.É nisso que consiste o fenômeno do politicamente correto. Uma revolução pela via da manipulação semântica.

E isso não é feito apenas com o termo “preconceito”, mas com outros termos como “tolerância” e “discriminação”, palavras que acabam sendo desintegradas de um contexto para serem seletivamente aplicadas ao sabor da ideologia igualitária. O termo “preconceito” ganha aqui mais relevo, pois ao contrário dos dois outros termos citados, é uma completa desfiguração semântica. É obra da revolução, do marxismo cultural, pois busca reeducar o indivíduo através de uma nova linguagem, mais aderente aos seus propósitos ideológicos, passando-se a cultuar o oprimido pela via da linguagem. O politicamente correto é, por assim dizer, o idioma oficial da esquerda; o idioma oficial do igualitarismo, e todo idioma para servir a tais propósitos deve ser bem comunicado.
E, assim, num toque de varinha de condão ideológica, como obra da revolução, uma palavra absolutamente neutra passou a portar uma fortíssima carga semântica negativa. Pode-se dizer seguramente que o “preconceito” se transformou no vício por excelência desta nova religião igualitária: o politicamente correto. Acusar alguém de “preconceito” é projetar-lhe o mal. Preconceito é uma verdadeira heresia da sociedade contemporânea. Incorrer em “preconceito” é simplesmente praticar “o mal”. Isto se explica naturalmente porque ter ou não preconceitos é interpretar a nova ordem moral desta nova sociedade, que acabou superando conceitos como “bem” e “mal”, que passam a ser termos relativos e ultrapassados. A igualdade imprime esta nova ordem ética – do ter ou não ter preconceito – para moldar as relações sociais contemporâneas.

Como visto, na luta contra os preconceitos ocultam-se os estandartes vermelhos do marxismo cultural e sua ferramenta verborrágica do politicamente correto. Trata-se, pois, da tentativa do triunfo sobre a estrutura tradicional da linguagem dando lugar a uma nova ordem semântica a ser comunicada: a utopia semântica que encontra no “preconceito” sua representação mais fiel. Com efeito, o recorrente uso da palavra “preconceito” vem a significar uma verdadeira guerra contra a tradição; uma guerra aos costumes tradicionais, visando apagar os seus vestígios para a implantação de uma nova sociedade: a sociedade igualitária, que é caracterizada pela ausência de toda sorte de distinções.

Deste modo, as presentes linhas visam demonstrar que a demonização do “preconceito” responde por um processo de decomposição intelectual da sociedade. Em outras palavras, sintoma de completo retardamento coletivo.

O QUE É PRECONCEITO?

Preconceito não é ódio. Nem aversão. Nem intolerância. É bem verdade que determinada pessoa pode, sob o véu do preconceito, encobrir sentimentos de ódio, aversão ou intolerância, mas o juízo extraído de uma comunicação nem por isso tem o condão de distorcer o significado de determinado termo. Por exemplo: uma determinada tese pode muito bem soar como absurda, mas nem por isso “tese” significa “absurdo”. A comunicação tornou-a absurda, mas nem por isso a tese perdeu seu significado de tese. Com o preconceito é a mesma coisa. Não é a percepção do sujeito que altera o significado do objeto, que permanece unívoco. Não é porque um carro pode ser usado como arma que vou chamar um carro de arma. Carro não é arma. Assim, é completamente equivocada a idéia de tomar preconceito como sinônimo de ódio, aversão ou intolerância.

Preconceito, como morfologicamente se explica, funciona como um juízo pré-concebido, como uma idéia não muito amadurecida sobre determinado objeto. Esta idéia formulada sem muita segurança encontra-se em estado de tensão com um conceito. É um estado de tensão, pois não há segurança ainda firme na formulação desta idéia. O que caracteriza o preconceito é justamente isso: ao contrário da ciência, que é conhecimento certo e seguro, o preconceito é conhecimento inseguro.Mas nem por isso deixa de ser conhecimento. Preconceito pertence ao mundo das idéias. Por isso é sempre imaginário, abstrato e nunca concreto. Fosse concreto, já não seria mais preconceito, mas conceito. Preconceito pode, então, significar premissa; pressuposição; proposição; previsão; tese.

Tentar eliminar preconceitos de alguma pessoa é uma luta perdida, pois o preconceito é da natureza humana. É um equívoco pensar que mesmo uma criança poderá ser educada livre de preconceitos.Como acentua Theodore Dalrymple em seu livro “In Praise of Prejudice”: “uma criancinha, constantemente consultada sobre seus gostos e desgostos, aprende que a vida é e deve ser governada por gostos e desgostos. Ela não é livre de preconceitos simplesmente porque é livre dos preconceitos dos seus pais. Pelo contrário, ela é uma escrava de seus próprios preconceitos.”[2]

O QUE HÁ DE IMORAL NO PRECONCEITO?

Rigorosamente nada. Faz parte da nossa natureza elaborar cálculos psíquicos tendentes ao enfrentamento de determinadas situações. Um exemplo é o cão pitbull. Pela experiência somos ensinados a evitá-los, pois geralmente são cães agressivos e perigosos. Isso não significa que todos os cães desta raça sejam perigosos, mas devido a um número substancial de casos que fez a sua má fama, é perfeitamente razoável que os evitemos. Sendo assim, longe de serem imorais, determinados preconceitos podem servir como nortes morais, já que nos aproximam do bem da vida, e dos seus consectários, como o instinto de auto-preservação, que é o princípio basilar da moral. Por conseguinte, o preconceito ao cão pitbull não pode ser imoral. Pelo contrário, ele tende a ser moral. Todo tipo de preconceito que se aproxima da norma da prudência tende a ser, igualmente, moral.

Entretanto, em teoria o preconceito em si não pode ser bom nem mau, pois tudo depende do caso concreto a ser enfrentado, e tal valor somente pode ser tomado na medida em que se afastar ou não da reta razão. Quando se aproxima da reta razão, o preconceito é certo e moral. Quando se afasta, o preconceito é errado e imoral. Deste modo, seu valor, em regra, só pode ser medido na prática. O erro moral do preconceito não está no objeto, mas no sujeito. Como assim? O erro na formulação deste tipo de preconceito não está no próprio preconceito, mas na pessoa que o comunica, quando visivelmente o faz para mascarar sentimentos de ódio irracional. O erro, assim, não está no preconceito, mas na comunicação.

Na mesma medida em que é tola uma pessoa que faz o mau uso de um preconceito, é sábia aquela pessoa que faz bom uso de preconceitos. De um modo geral, entretanto, arrisco em afirmar que há sabedoria na maioria dos preconceitos.

GENERALIZAÇÃO. REGRA E EXCEÇÃO. EXCEÇÃO E REGRA

Muitos são aqueles que afirmam que não se pode generalizar, e, portanto, preconceituar, pois existem exceções. Chegam a afirmar que toda generalização é burra, como se esta afirmação ambígua não fosse em si uma generalização (!)

Generalizações, no entanto, são práticas inevitáveis e consistentes com a experiência e a observação. O raciocínio científico invalida o argumento em defesa das exceções, pois o pensamento científico encontra consistência quando se demonstram regras e não exceções. O problema de quem pensa que toda generalização seja burra é estar justamente na contramão do pensamento científico. Pois estas pessoas não raciocinam através das regras, mas através das exceções. Vejamos por exemplo o que acontece com a produção de uma vacina. Quando um cientista busca uma vacina contra determinada doença, certamente estará ciente que haverá pessoas que não desenvolverão anticorpos com a introdução da vacina em seu organismo, mas o seu raciocínio funciona no sentido de que a maioria das pessoas deverá desenvolvê-los e não de que a minoria não irá desenvolver. Assim, mesmo que a eficácia da vacina não seja completa, ela é parcialmente válida. Quando, ainda, fazemos uma pesquisa, manipulamos dados estatísticos, que dão uma indicação próxima da realidade. Isso é generalizar.

Deste modo, cai por terra o argumento dos "não-generalizadores" de quererem se guiar pelas exceções, pois tal raciocínio está na contramão da ciência e do bom senso, pois nenhum cientista busca tirar conclusões da eficácia de determinada vacina com base em exceções. Tampouco as conclusões estatísticas podem ser invalidadas por existirem exceções. Regras são regras, e exceções não guiam nossas conclusões.

Entretanto, a mídia, obsequiosa à atmosfera do marxismo cultural e também maldosamente, manipula a opinião pública invertendo tal lógica. Fazem da exceção a regra e da regra a exceção.

Um exemplo são crimes motivados por homofobia. Crimes motivados por homofobia são raros e episódicos. A maior parte dos homossexuais é vítima de seus próprios parceiros. Apesar disso, quando há um crime motivado por homofobia, a mídia não hesita em apresentá-lo com uma superexposição tal como retratasse a regra, embora seja uma exceção. Já quanto à questão da doação de sangue por parte dos homossexuais, que estatisticamente formam uma proporção maior de contaminados por AIDS comparada a sua população geral[3], embora o contágio seja regra nesses grupos, a mídia chega a cogitar haver preconceito, apresentando a transmissão de AIDS via sexo anal como exceção. Trata-se, pois, de uma verdadeira operação de maquiavélica inversão lógica.

ARGUMENTUM AD IGNORANTIAM

Richard Weaver, em seu ensaio “Life without Prejudice” de 1965, expôs brilhantemente que a acusação de “preconceito” é formulada usualmente para impedir um julgamento, valendo-se doargumentum ad ignorantiam.
Significa isso um argumento endereçado à ignorância. Aqueles que são culpados do argumentum ad ignorantiam professam a crença em algo porque seu oposto não pode ser provado, ou afirmam a existência de algo porque a coisa pode possivelmente existir. Exemplo: se é possível que exista vida em Marte; portanto, vida realmente existe em Marte. Outro: você não pode provar pelo método estatístico e quantitativo que homens não são iguais. Portanto, eles são iguais. Você não pode provar que os homens são naturalmente maus. Portanto, eles são naturalmente bons. E assim em diante.

Falando genericamente, esse tipo de raciocínio falacioso procura tirar vantagem de um oponente confundindo o que é abstratamente possível com o que seja realmente possível ou o que realmente exista. Expressado de outra forma, ele substituiria o que é possível crer em teoria pelo que nós temos algumas bases, muito embora não decisivas, sobre o clamor de que o segundo não pode ser provado, removendo, assim, o “preconceito”.[4]

PRECONCEITO SÃO SEMPRE NÃO-RAZOÁVEIS POR SEREM IRRACIONAIS?

O Professor de Lógica, em Princeton, John Grier Hibben, explicou pelos idos de 1911 que nem sempre o preconceito é um julgamento não-razoável. Segundo ele, o preconceito é simplesmente um julgamento não pensado. Um julgamento não-razoável, prossegue, é, obviamente, contrário à razão e, portanto, a própria razão deve repudiá-lo. Mas o julgamento que é simplesmente não pensado pode provar no curso dos eventos ser eminentemente razoável, e como tal até em sua forma não pensada pode servir a um propósito mais útil em nosso pensamento.[5]

Como ele destaca com brilho:

Esses julgamentos são absolutamente indispensáveis na economia de nossa vida mental. Se nós excluíssemos todos os julgamentos que não são acompanhados por uma prova satisfatória de sua validade, um desperdício tremendo de tempo e energia inevitavelmente resultaria. Por isso é uma lei fundamental de nossa atividade intelectual que o processo da razão pelo qual nós chegamos em certas conclusões freqüentemente perdem-se da memória: mas as conclusões mesmas permanecem como um permanente depósito de conhecimento.”[6]

Com efeito, o ser humano não é uma máquina nem um computador. O ser humano não tem a capacidade de armazenar por toda vida todo tipo de conhecimento. O ser humano não é só razão.Ele é impulso e toma decisões pautadas não somente na razão. Caso as decisões do ser humano fossem apenas de fundo racional, estaríamos numa utopia racionalista e os seres humanos não seriam mais humanos, mas computadores.

O QUE É ESTEREÓTIPO?

O preconceito é muito aproximado da idéia de estereótipo. Um estereótipo não é o preconceito em si, mas uma conseqüência do preconceito. O preconceito é a causa, enquanto o estereótipo é o efeito. Estereotipar significa dar forma mais ou menos fixa ou inalterável sobre objetos em observação. Ora, o estereótipo comumente se baseia num juízo formado acerca de determinado fato pela sua observação sistemática e repetitiva.

Trago aqui a opinião do sociólogo Steven Goldberg:

O estereótipo é originado de alguma realidade; não é arbitrário. [ ] Estereótipos são figuras abstraídas da realidade; elas são versões da quintessência da realidade e devem representá-la.Isso não quer dizer que estereótipos não podem mudar; eles podem mudar, tanto quanto as realidades que eles representam.”[7]
[...]
Nenhum estereótipo é 'arbitrário' ou incorreto como observação; todo estereótipo é 'real' naquilo que observa como comportamento ou propensão que é, em realidade, mais associado com o grupo estereotipado do que com outros grupos (quais sejam suas causas).”[8]
[...]
Ignorar o estereótipo para pretender que não seja verdade no sentido que nós discutimos, ou assumimos sem evidência que o comportamento observado deva ter uma explicação puramente social, é proceder na direção oposta daquela que a ciência reclama. A ciência reclama que nós façamos observações e então tentemos explicá-las pela evidência, não pelo desejo e ideologia.”[9]

PRECONCEITO ENQUANTO TÉCNICA DE ENGENHARIA SOCIAL

Richard Weaver afirma que são as doutrinas de Moscou as fontes e origens da grande pressão para erradicar o “preconceito”.[10] Segundo este estudioso, os militantes comunistas fazem isso para produzir um ceticismo social generalizado para que, logo a seguir, possam impor uma reconstrução dogmática no mundo.[11] Ele afirma, igualmente, que o objetivo destes comunistas é transformar o povo em massa e apagar aquelas distinções que são a expressão desta idéia[12], sejam elas de ordem econômica, moral, social ou estética[13]. John Grier Hibben destaca que amamos ou detestamos alguém pelos seus preconceitos. Extrair os preconceitos de alguém é fazê-lo um depósito de lugares-comuns. A individualidade, segundo o Professor Hibben, é a projeção de nossos preconceitos. Remova os preconceitos e o indivíduo é diluído na multidão. Caráter sem um traço de preconceito é insípido e um indivíduo assim tomado perde intensidade de convicção[14].

A guerra aos preconceitos é, como vemos, uma operação mental de anulação da individualidade e socialização do indivíduo.

Mais uma vez o Professor Hibben:

São também os preconceitos que sublinham o caráter, o preconceito do bom senso e do bom gosto, que freqüentemente opera como um salva-guarda contra as tentações da razão; pois a razão tem suas tentações, assim como as paixões – não verdadeira razão, mas o sutil casuísmo da razão.”[15]

A idéia engendrada de privar a sociedade de preconceitos é, na verdade, a de transformá-la numa massa passiva de cidadãos covardes, débeis, sem espírito criativo, reprodutores de lugares-comuns. A ideologia igualitária subjacente a uma sociedade sem preconceitos exige isso anulando o indivíduo ao massificá-lo. A moral desaparece, pois a ética da igualdade passa a encadear as relações sociais. Eis então uma sociedade sem virtude, sem brilho e sem heroísmo. Como acentua o Professor Hibben, “se a natureza humana fosse privada do preconceito, os épicos da moralidade nunca seriam escritos.”[16] Thedore Dalrymple afirma que “o homem sem preconceitos, ou especialmente, o homem que se declara como tal, é um homem que fica apavorado de ser pensado primeiro dogmático, e segundo, tão fraco de mente, tão desprovido de individualidade e poder mental, que não pode pensar por si mesmo. Por suas opiniões, ele tem que retroceder em fragmentos de sabedoria, ou mais propriamente insensatez, que constitui o preconceito.”[17]

Uma sociedade sem preconceitos é uma sociedade infantil, pois a criança não possui experiência quando instada a tomar decisões rápidas e impensadas, e, desta forma, seus preconceitos são precários. Pela falta de experiência, a criança escolherá sempre a mesma coisa, a coisa que lhes seja mais imediatamente atrativa ou gratificante. Assim, uma sociedade sem preconceitos é uma sociedade previsível e mais facilmente governável, em outras palavras, mais fácil de ser enganada.

A ÉTICA POR TRÁS DO COMBATE AO PRECONCEITO

A ética por trás da guerra ao preconceito é o igualitarismo. Os socialistas querem inculcar nas mentes das pessoas que estas são iguais entre si e que entre elas não deve haver diferenças, e, portanto, preconceitos.

Os pré-julgamentos são fundados geralmente na experiência e observação, o que vem a nortear futuras decisões. O igualitarismo é, portanto, inimigo da moral e das mais finas tradições. Ele iguala o bem ao mal e vice-versa, destruindo a moral. Ele rompe com os fundamentos da sociedade, revolucionando os costumes. Pode-se interpretar que a ética da igualdade venha a suplantar os antigos preconceitos.

Logo, podemos concluir que tal ética, por afrontar a natureza humana, só pode vir à tona através de uma ditadura totalitária, cujas conseqüências já conhecemos de bom tempo da União Soviética, China, Camboja, Cuba etc.

DECISÕES ARBITRÁRIAS BASEADAS EM PRECONCEITOS CORRETOS

Da mesma forma que existem decisões justas baseadas em preconceitos, existem decisões arbitrárias baseadas em preconceitos. O aborto é um exemplo. Muitos nazistas costumam pré-julgar o futuro de um feto de um favelado predestinando-o ser um futuro bandido, ou pedinte ou ter um futuro desastroso que comprometa a sociedade, a fim de justificar tal crime. Para tanto, chegam a apresentar pesquisas respaldando a premissa de que o aborto diminui o crime, o que pode ser até correto. O Governador do Rio mesmo defendeu o aborto como instrumento de política criminal.[18]Assim, um preconceito pode ser correto na maioria das vezes, mas a decisão política nele fundamentada pode ser errônea. Uma coisa é o pré-julgamento ser correto. Outra coisa é a decisão baseada neste pré-julgamento. São duas coisas diferentes. Um preconceito pode, deste modo, fundamentar decisões corretas e também decisões arbitrárias. Isto, por si, não desmerece a necessidade dos preconceitos.

PRECONCEITO: POTÊNCIA. DISCRIMINAÇÃO: ATO

Um artigo escrito pelo Padre Luís Carlos Lodi em 2001, chamado “(Des)orientação Sexual[19], é muito preciso sobre a necessidade de se discriminar. Ele destaca neste artigo que discriminar é preciso:
A discriminação é uma das práticas mais normais da vida social. Todos nós a praticamos dia a dia. Ao aplicar uma prova, o professor discrimina os alunos que tiraram notas altas daqueles que tiraram notas baixas. Aqueles são aprovados. Estes são reprovados. Ao escolher o futuro cônjuge, as pessoas geralmente fazem uma discriminação rigorosa, baseadas em diversos critérios: qualidades morais, inteligência, aparência física, timbre de voz, formação religiosa etc. Entre centenas ou milhares de candidatos, somente um é escolhido. Os outros são discriminados. Ao selecionar seus empregados, as empresas fazem uma série de exigências, que podem incluir: sexo, escolaridade, experiência profissional, conhecimentos específicos, capacidade de relacionar-se com o público etc. Certos concursos para policiais ou bombeiros exigem, entre outras coisas, que os candidatos tenham uma determinada altura mínima, que não ultrapassem uma certa idade e que gozem de boa saúde. Todos esses são exemplos de discriminações justas e necessárias.

Outros poderiam ser dados. O ladrão que é apanhado em flagrante é preso. A ele, como punição pelo furto ou roubo, é negada a liberdade de locomoção, que é concedida aos demais cidadãos. A prisão é um lugar onde, por algum tempo, são discriminados (com justiça) aqueles que praticaram atos dignos de discriminação.”

Em verdade, a ausência de discriminações tornaria a sociedade tão promíscua quanto insustentável.

Sabemos, no entanto, que na prática é impossível o ser humano viver sem julgamentos, especialmente aqueles estéticos e morais do tipo que não possam ser deduzidos somente dos fatos.

O preconceito, assim como também o conceito, são potências das quais a discriminação é mero ato.

ORIGEM HISTÓRICO-FILOSÓFICA DA GUERRA AO PRECONCEITO

Embora o marxismo cultural tenha oferecido maior consistência na luta contra os preconceitos, as origens desta guerra ao preconceito são mais remotas. O Iluminismo inaugurou uma era em que a razão foi colocada num pedestal para adoração. Impôs-se no contexto filosófico ocidental, o paradigma de que o conhecimento deveria exigir certeza, libertos dos modos habituais de compreensão. Dá-se o triunfo do empirismo e a rejeição, a partir de então, qualquer tipo de juízo não fundamentado na razão, tais como lições religiosas e também os preconceitos, os primeiros qualificados como superstições e estes últimos depreciados como errôneos, infelizes ou expressões de menoridade humana, podendo ser evitados através de uso disciplinado e metódico da razão. Em suma, se o conhecimento não for certo e comprovado é descartado. O parâmetro que mede o conhecimento não é mais sua verdade, mas sua experimentação.

Foi, então, a partir do Iluminismo que o conceito de preconceito se tornou pejorativo, especialmente com o cartesianismo.

O filósofo Gadamer rejeita esta concepção iluminista de levar em consideração apenas a razão em-si e por-si-mesma. Segundo ele, os preconceitos não podem ser rechaçados em virtude da finitude, historicidade e limitação da compreensão humana. Para ele, trata-se de um otimismo ingênuo a idéia segundo a qual pensar por si mesmo significa nada receber ou tudo reconstruir a partir de um grau zero do pensar, ou seja, anular a sua subjetividade histórica.

É um fato que a compreensão humana parte sempre de conceitos prévios, que devem explicitar-se e, se não se confirmarem, devem ser substituídos por outros mais adequados[20].

ANIMAIS TAMBÉM NUTREM PRECONCEITOS

Um exemplo clássico de preconceitos entre animais é o experimento de Pavlov[21], que acabou por desnudar os preconceitos entre animais. De acordo com tal experimento, Pavlov utilizou a resposta de salivar de cachorros para estudar um tipo de aprendizagem. Pavlov sabia que os cachorros salivavam naturalmente na presença da comida. Ele então chamou a comida de “Estímulo Incondicionado” e a salivação de “Resposta Incondicionada”. Esta correlação entre o estímulo incondicionado e a resposta incondicionada Pavlov chamou de “Reflexo Incondicionado”.

Um estímulo neutro, que inicialmente não era capaz de produzir a resposta de salivar, era então apresentado ao animal imediatamente antes da comida. Depois de uma série de pareamentos dos estímulos, os animais eram então capazes de aprender uma associação entre este estímulo neutro e o estímulo incondicionado. Desta forma o estímulo neutro foi chamado de estímulo condicionado, pois condicionou o animal a fazer uma associação. Este tipo de aprendizagem Pavlov chamou de “Reflexo Condicionado”.

Posteriormente Pavlov mudou tanto os estímulos condicionados (utilizando sinos, por exemplo) quanto os estímulos incondicionados (outros tipos de comida), chegando nos mesmos resultados.

É interessante observar que este cientista deduziu esta forma de aprendizagem quando os animais salivavam em sua presença, mesmo sem a comida, o que sem dúvida nenhuma é uma reação preconceituosa.

Fato é que bastava um estímulo para se ter uma reação pré-concebida. Tanto o reflexo condicionado quanto o incondicionado tornaram-se preconceitos entre aqueles cães de que haveriam que degustar comida. Nada implicava que os cães realmente iriam comer, mas ao escutarem os estímulos reagiam preconceituosamente. Reflexos condicionados ou incondicionados sem dúvida nenhuma são espécies de preconceitos.

ALGUNS EXEMPLOS DE PRECONCEITOS

Quando você vê um negro, logo imagina que ele torça para o Flamengo, ainda que ele não torça realmente para esse time, este preconceito é fundado na experiência, uma vez que a composição racial da torcida flamenguista é visivelmente majoritariamente negra.

Preconceitos não necessariamente são com pessoas, mas também com situações. Por exemplo, quando saímos de casa com guarda-chuva, ao nos depararmos com nuvens escuras bem carregadas tapando o sol, associamos aquilo a uma probabilidade de chuva, e logicamente nos acautelamos em acordo.

Uma investigação policial é farta em preconceitos, pois a maioria das presunções e deduções são feitas a partir de pistas deixadas pelo criminoso, que acabam por servir à polícia para interpretações com reflexão imperfeita. Deste modo, da mesma forma que o preconceito ajuda a salvar, ajuda a condenar.

Um exemplo clássico de preconceito é o de uma pessoa apressar seu passo por ver uma pessoa de má aparência seguindo-a. Ela não vai andar devagar para possivelmente ser assaltada, mas vai apressar o passo para evitar o assalto. Portanto, o preconceito é absolutamente natural e instintivo.

PRECONCEITO COMO DIREITO NATURAL

Preconceituar é inevitável. Muitas das vezes uma inclinação instintiva, operando como um mecanismo de auto-defesa. Exemplos são inúmeros. Quando escolhemos previamente determinados locais a serem freqüentados ou pessoas a serem evitadas. Baseando-se na idéia de estereótipo, o ser humano tira conclusões antecipadas sobre determinado objeto e, com tais conclusões psiquicamente enraizadas, tende a tomar rápidas e objetivas decisões. Assim, o preconceito serve como norma de prudência para onde quer que rumamos.

CONCLUSÃO

Um grande malefício no combate aos preconceitos é o de minar a capacidade reflexiva do ser humano, por censurar seu espírito crítico. A capacidade crítica do ser humano é condicionada por certas barreiras que ele não pode romper, sob pena de chegar a conclusões ideologicamente indesejadas.

Para encerrar, consignemos algumas palavras tecidas por Edmund Burke em “Reflexões sobre a Revolução na França” a respeito do preconceito:

Preconceito é de pronta aplicação na emergência; ele previamente engaja a mente em um curso fiel de sabedoria e virtude, e não permite que o homem hesite no momento da decisão, cético, embaralhado e não-resolvido. Preconceito torna a virtude de um homem seu hábito; e não uma série de atos desconexos. Através de preconceito justo, sua responsabilidade se torna uma parte de sua natureza.”[22]


[1] Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa, Antônio Geraldo da Cunha, p. 629
[2] DALRYMPLE, Theodore. In Praise of Prejudice. Brief Encounters. p. 20.
[3] No Brasil, são em torno de 28% de contaminados para uma população de apenas 1%.
[4] WEAVER, Richard. Life Without Prejudice and other essays. Henry Regnery Company. pp. 06-07.
[5] HIBBEN, John Grier. A Defense of Prejudice and other essays. Charles Scribner’s Sons. p. 02.
[6] Idem. pp. 02-03
[7] GOLDBERG, Steven. Why Men Rule. p. 105
[8] Ibidem, p. 207-208.
[9] Ibidem, p. 198-199.
[10] WEAVER, Richard. Life Without Prejudice and other essays. Henry Regnery Company. p. 02.
[11] Idem.
[12] Ibidem, p. 03.
[13] Idem.
[14] HIBBEN, John Grier. A Defense of Prejudice and other essays. Charles Scribner’s Sons. p. 13.
[15] Idem, 14.
[16] Idem, 15.
[17] DALRYMPLE, Theodore. In Praise of Prejudice. Brief Encounters. p. 04.
[19] Disponível em <http://www.providaanapolis.org.br/desorsex.htm> Acesso em 10/06/2011
[21] Disponível em <http://fotolog.terra.com.br/neuroscience:53> Acesso em 10/06/2011
[22] BURKE, Edmund. Reflections on the Revolution in France. Penguin Books. p. 183.