sábado, fevereiro 28, 2015

Comentários Eleison: Sinal Encorajador

Comentários Eleison - por Dom Williamson
CCCXVCIII (398) - (28 de fevereiro de 2015)

SINAL ENCORAJADOR


Disse um bispo: dar testemunho é o que a Tradição deve fazer.
Mas bispo, por favor, faça mais do que isso, para que as ovelhas não venham a perecer.

            Depois de três números destes “Comentários’ terem tentado mostrar o novo modo de pensar pelo qual a Fraternidade Sacerdotal São Pio X de Dom Lefebvre está sendo mortalmente envenenada, vamos apresentar um sinal encorajador de que sua Fraternidade não está ainda completamente morta: citações de um sermão dado em 1º de janeiro deste ano em Chicago por Dom Tissier de Mallerais, um dos quatro bispos consagrados para a FSSPX em 1988. As pessoas frequentemente perguntam por que tão pouco é ouvido dele, e isto se dá porque ele é conhecido por ser um homem tímido, mas honesto, e com uma fé forte, uma mente clara e um grande conhecimento e amor pelo Arcebispo. Talvez ele tenha amado a Fraternidade “não sabiamente, mas muito bem”, e por isso não esteja vendo, ou não querendo ver, como seus superiores têm, já por muitos anos, traído lentamente, mas firmemente, a luta de Dom Lefebvre pela Fé. Será que o Bispo está a pôr a unidade da Fraternidade acima da Fé da Igreja? Mas no mês passado ele disse muitas coisas que não poderiam ser ditas de melhor forma. 

            Ele citou os escritos do Arcebispo em seu Itinerário Espiritual (cap. III, p.11 da versão espanhola em PDF): É, portanto, todo sacerdote que quer permanecer católico te, p estrito dever de separar-se da Igreja conciliar enquanto ela não reencontre a Tradição da Igreja e da Fé católica. Então, para enfatizar, Dom Tissier disse: “Permitam-me repetir isto”, e leu a citação mais uma vez.

            Em seguida, ele alertou contra as forças do mal que ocupam a Igreja. Advertiu então contra “falsos amigos” que sustentam equivocadamente que se a FSSPX permanecer “separada da Igreja visível”, ela se tornará uma seita. Ele declarou que, ao contrário, “nós somos a Igreja visível” e que “nós estamos na Igreja”.

            Por fim, ele alertou contra os “falsos amigos” que alegam que a FSSPX está em uma situação anormal, uma vez que nós não estamos “reconhecidos pela Igreja”, e declarou que é a situação de Roma, e não a nossa, que é anormal, e que a Fraternidade não precisa “retornar”, mas que são esses romanos que têm de retornar. “Nós não precisamos buscar pelo que fazer em Roma, mas sim pelo testemunho que podemos dar a toda a Igreja por sermos uma luz sobre um castiçal, e não debaixo de um alqueire”.   

            A linha de pensamento de Dom Tissier, tal como expressada nessas citações, é exatamente aquela de Dom Lefebvre. Os cucos modernistas que hoje ocupam o ninho dos rouxinóis, isto é, as estruturas da verdadeira Igreja, podem apresentar a aparência de rouxinóis, mas seu canto, ou seja, doutrina, doutrina, doutrina, imediatamente os trai. Na realidade, eles não são mais do que cucos sem direito de ocupar aquele ninho. O verdadeiro ninho não faz com que a doutrina deles seja verdadeira. Suas falsas doutrinas tornam falsa a sua ocupação daquele ninho. Eles podem ser vistos naquele ninho, mas, como sua doutrina demonstra, eles não são verdadeiros rouxinóis. Onde quer que os verdadeiros rouxinóis remanescentes estejam visivelmente reunidos, seu belo canto dá testemunho para qualquer um que tenha ouvidos de ouvir e saiba que os cucos são nada mais que cucos que roubaram o ninho católico que eles ocupam atualmente.
           
            Infelizmente, os líderes atuais da FSSPX são surdos, e não querem distinguir o canto dos cucos do dos rouxinóis, e assim julgam o Catolicismo pelas aparências do ninho e não pela realidade do canto. O que Dom Tissier disse aqui deve tê-los desagradado bastante. Sem dúvida alguma eles terão feito pressão, habilmente calculada, para terem certeza de que ele volte a andar na linha, a linha deles. E por “obediência”, o bispo arrisca fazer exatamente isso. Devemos orar por ele.

Kyrie eleison.

sábado, fevereiro 21, 2015

Comentários Eleison: O Pensamento da Neofraternidade - III

Comentários Eleison - por Dom Williamson
CCCXVCII (397) - (21 de fevereiro de 2015)

O PENSAMENTO DA NEOFRATERNIDADE - III


A Fraternidade deseja a Roma conciliar?
Se não, acordem! Pois em breve ela será o seu novo lar.

            Estes “Comentários” declararam (395) que o Primeiro Assistente da Neofraternidade carece de doutrina, e (396) que essa carência de doutrina é um problema tão amplo quanto possa ser, nomeadamente: a modernidade em sua integralidade contra a integralidade da Verdade; e resta agora mostrar como esse problema universal se manifesta em uma série de erros particulares na entrevista que o Pe. Pfluger deu na Alemanha perto do fim do ano passado. Para abreviar, nós teremos de fazer uso do resumo (não essencialmente inexato) de seu pensamento mostrado aqui há duas semanas. Suas proposições estão em itálico:

A Igreja Católica é muito mais ampla do que somente o movimento Tradicional.

Sim, mas a doutrina do movimento Tradicional não é mais nem menos ampla do que a doutrina da Igreja Católica, pois é idêntica a ela, e essa doutrina é o coração e a alma do movimento Tradicional.

Nós nunca tornaremos a Tradição atrativa ou convincente se permanecermos mentalmente estagnados nas décadas de 50 ou 70.

A ideia de tornar a Tradição “atrativa ou convincente” é uma maneira muito humana de concebê-la. A Tradição católica vem de Deus, e ela tem um poder divino para convencer e atrair, desde que seja apresentada fielmente, sem mudanças ou alterações humanas. 

A Tradição não pode ser confinada dentro das condenações da Igreja ao liberalismo nos séculos XIX e XX.

É verdade, mas o Evangelho não poderia ser então defendido sem essas condenações doutrinais; e como o século XXI está mais liberal do que nunca, a Tradição não pode ser mantida atualmente sem elas.

Nosso tempo é diferente, não podemos nos imobilizar; muito do que é moderno não é imoral.

Nosso tempo não é muito diferente. É mais liberal do que nunca (por exemplo: “casamentos” homossexuais). Assim, pode ser que nem tudo seja imoral, mas a doutrina católica e absolutamente necessária para se separar o moral do imoral.

Então, devemos nos reposicionar, o que é um problema prático, e não uma questão de fé.

Qualquer reposicionamento por parte da Igreja deve sempre ser julgado à luz da . O reposicionamento da ExFSSPX desde 2012 está claramente deixando para trás a luta de Dom Lefebvre pela Fé.

O movimento “Resistência” tem fabricado sua própria “fé” pela qual condena a Neofraternidade.

Quaisquer que sejam as deficiências humanas da “Resistência”, ela, assim como o movimento Tradicional da década de 70, surgiu espontaneamente em todo o mundo como reação à traição da Neofraternidade. A reação pode ser desarticulada, mas está unida pela idêntica sustentada pelos resistentes.

O QG da FSSPX nunca traiu a Tradição em 2012, pois suas ações estavam sendo atacadas por ambos os lados.

Então a Verdade está sempre no meio para ser medida pelas reações humanas? Isso é política humana, inadequada para julgar a Verdade divina, absolutamente inadequada para resolver a atual crise da Igreja.

Os textos oficiais de 2012 da Neofraternidade não eram dogmáticos.

Mas o documento mais oficial de todos da ExFSSPX de 2012 foi o das seis condições do Capítulo Geral para um futuro “acordo” com Roma, ou seja, as seis gravemente inadequadas condições para submeter a defesa da aos seus inimigos mortais conciliares. A em sua integralidade não é dogmática?

Roma estava bem menos agressiva em 2012 em relação à ExFSSPX do que o estava em 2006.

Porque em 2006, e mesmo antes, Roma já podia ver a FSSPX continuamente se transformando em um tigre de papel.

A Neofraternidade segue o Espírito e se vale da Tradição.

Os carismáticos neoprotestantes “seguem o Espírito”, e os que participam da Missa de indulto “se valem da Tradição”.

Deve estar claro a esta altura que o Pe. Pfluger quer abandonar a Fraternidade doutrinal antiliberal de Dom Lefebvre e remoldá-la em uma Neofraternidade que se harmonizará com a Neoigreja do Vaticano II. Não é suficiente dizer que nenhum passo decisivo foi ainda dado pela ExFSSPX em direção a Roma, pois, a menos que surja uma resistência firme, e em  breve, no interior da Neofraternidade, seus líderes a seguirão levando, lentamente, mas firmemente, para os braços da Roma conciliar. É isso o que os católicos querem?


Kyrie eleison.  

quinta-feira, fevereiro 19, 2015

Como agir quando um local de trabalho exige compromissos morais?


Por Atila S. Guimarães
Traduzido por Andrea Patricia
 

Caro Sr. Guimarães,

Primeiramente quero agradecê-lo pela clareza com a qual o senhor tem provido os leitores do site Tradition in Action. Eu encontro uma grande consolação em sua perspectiva, enquanto eu leio mais e mais os artigos postados.
Eu gostaria de pedir que o senhor, por favor, me ajude com a seguinte questão: eu obtive um Doutorado num campo profissional de terapia anos atrás, e ensinei meio período numa universidade local (como temos filhos, eu tenho deveres e demandas em casa).
Aproximadamente dois anos atrás, quando eu acordei para os problemas na Igreja Católica, bem como para os meus próprios pecados, eu também percebi que a associação nacional a qual eu pertencia, a partir qual eu recebi algumas das minhas credenciais, possuía uma história relativamente longa de prover uma plataforma para avançar a agenda homossexual. (Ano passado, eles também contrataram uma palestrante para a sua convenção nacional que era uma forte apoiadora da Planned Parenthood, embora isso nunca tenha sido propagandeado em sua biografia impressa no boletim nacional).
Além disso, uns dois anos atrás, uma mulher católica escreveu uma carta ao editor da publicação mensal da associação nacional expressando sua preocupação sobre a afiliação da associação nacional com um grupo imoral. Ela foi subsequentemente caluniada e censurada nas edições seguintes da publicação por outros membros da associação, tudo com apoio do editor. Eu fiquei horrorizada. Devido a estes acontecimentos, eu havia decidido que eu não poderia mais justificar a adesão à associação nacional, pois eu não queria contribuir para a imoralidade do mundo, e temia estar diante de Deus quanto a isso.
O que aconteceu em seguida foi que eu pedi meu emprego porque a universidade não contrata profissionais que não são credenciados pela associação nacional. A adesão à associação nacional é vinculada às credenciais da pessoa, por mais estranho que pareça. Eu poderia recuperar minha adesão, o que me devolveria as minhas credenciais, mas o pensamento de fazer isso gerou um conflito em mim. Parece que se eu fizer isso eu estarei traindo a verdade (conhecida também pelo nome de Jesus Cristo) por causa de um emprego.
Eu não quero trair, mas sem as credenciais, é quase impossível obter um emprego. Eu tenho especialização e embora não trabalhe muito, eu sei que eu posso oferecer uma grande ajuda a pessoas que vierem buscar meu conhecimento.
Por favor, o senhor poderia me dar uma perspectiva sobre essa questão?
Eu o agradeço muito por qualquer ajuda que possa me prestar quanto a esta situação, e mais uma vez, pela luz que o senhor possa dar em um momento tão escuro.
Sinceramente,

E.S.
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O Editor responde:

Cara E.S.,

Obrigado por suas palavras gentis e por sua consideração em pedir meu conselho nesse assunto delicado.

Talvez você não saiba, mas eu não tenho nenhuma formação especial em Moral. Quando eu respondo questões como a sua, eu estou apenas aplicando os princípios do senso católico próprio para cada leigo. Com esse pressuposto, deixe-me ver se eu poderei ou não ajudá-la ao tentar interpretar a mente da Santa Madre Igreja e dar a você alguns parâmetros para orientá-la.

Resumindo, o problema é que você precisa de credenciais para exercer sua profissão, e o único órgão que as emite requer um juramento ou uma assinatura ou outro tipo de adesão (você não especificou qual) concordando que você irá respeitar homossexuais, planejamento familiar e outras coisas contra a Moral Católica.

Regra geral de caridade

O primeiro ponto que você deve esclarecer é em que grau essa associação nacional demanda sua adesão à promoção da homossexualidade e outras questões morais que você mencionou.

A princípio, um católico deve dar assistência a qualquer um de seus semelhantes em caso de emergência, independente de quem seja. Isso é o que Nosso Senhor nos ensinou na parábola do Bom Samaritano. Foi isso o que as inúmeras instituições católicas de caridade sempre fizeram através de toda a História.

Então, se os requisitos desta associação são gerais em termos, referindo-se a tais emergências onde homossexuais são incluídos entre outras vítimas, eu acredito que eles devem ser assistidos como qualquer outra pessoa.  Então, a minha opinião é que você pode concordar com tais requisitos sem preocupação de estar cometendo um pecado.

Enfrentando demandas imorais dos órgãos oficiais

Entretanto, se os requisitos são específicos, demandando tanto que você dedique uma parte considerável de seu tempo assistindo homossexuais ou se engajando na promoção de causas sobre os direitos homossexuais, então a questão demanda atenção maior.

A solução desse problema depende da sua resposta a esta questão: o quanto você realmente precisa trabalhar e ganhar dinheiro para sustentar sua família?
 
Para responder a esta questão, você deve considerar que com relação à necessidade, existe uma hierarquia. Quando você diz que você precisa trabalhar, você deve determinar qual o grau de sua necessidade a partir das seguintes categorias:

·       Indispensável – algo essencial para a vida – você precisa de dinheiro para manter a sua família; sem isso seus filhos irão passar fome ou sua mãe irá perder a assistência médica da qual ela precisa para viver, ou você irá perder sua casa porque você não consegue pagar as contas mensais;

·       Necessário - você precisa de dinheiro o qual seus filhos podem viver sem, mas na faltado dinheiro eles não poderão continuar com seus estudos, ir ao médico, ou se vestir de acordo com o nível social de sua família;

·        Conveniente – com esse dinheiro extra você poderia pagar por cursos de idiomas, e assim seus filhos poderiam ter empregos melhores, frequentar círculos sociais melhores, casar com pessoas de melhor situação econômica. Se não forem idiomas, então algo similar: associar-se a um clube adequado, vestir-se de modo mais digno e adequado aos princípios católicos.

·          Supérfluo – com esse dinheiro extra você poderia enviar seus filhos para passar férias na Flórida ou fazer uma viagem familiar para esquiar no Colorado para se livrar do estresse, ou você poderia remodelar o seu pátio num estilo mais na moda para o seu prazer e para causar uma boa impressão em os seus amigos.

Se a renda que você está procurando é para necessidades supérfluas ou convenientes, não tente pegar de volta a licença para seu trabalho. O acordo que você terá de fazer representa um prejuízo moral muito acima de suas necessidades.

Entretanto, se você precisa trabalhar para ganhar um salário para coisas indispensáveis ou necessárias, então você pode submeter-se às regras da associação sem concordar com elas. Ou seja, você aceita tais regras não pelo que elas representam, mas para adquirir meios para a sobrevivência de sua família. 

Se eu não estou enganado, isso é o que em Moral é chamado de princípio do duplo efeito.

Um exemplo simples é este: um homem precisa do seu carro para ganhar dinheiro para sobreviver; o único posto de gasolina da cidade apoia a homossexualidade. Quando ele vai encher o tanque de seu carro, ele não está apoiando a homossexualidade, mas adquirindo os meios para prover a si e sua família.

Concluindo: se a associação que dá as credenciais para seu emprego é o único órgão apto a fazer isso, e você precisa (indispensavelmente e necessariamente) desse emprego para prover sua família, você pode se submeter aos termos deles sem concordar com eles.  

Se esse é o caso, quando situações concretas se levantarem com as quais você não concordar, você pode fazer arranjos práticos para evitar promover a homossexualidade, planejamento familiar, etc. Se esses arranjos são impossíveis, é melhor deixar o emprego e buscar outros meios para prover sua família. Nunca é lícito promover a homossexualidade ou quaisquer outros assuntos contra a moral católica.

Tendo provido estas orientações, creio que você é a única pessoa que deve julgar como sua situação se encaixa nesses parâmetros.

Eu espero que esses princípios a ajudem a seguir em frente com a consciência em paz.

Cordialmente,

Atila S. Guimarães

Original aqui.

segunda-feira, fevereiro 16, 2015

Cruzada dos bons Livros.




“Apaga-se a verdadeira Fé e uma falsa luz difunde-se sobre o mundo. A Igreja sofrerá uma crise horrenda. Roma perderá a Fé e tornar-se-á a sede do anticristo. A Igreja será eclipsada e o mundo ficará na desolação”.(Nossa Senhora La Salette)
 


Colaborem com as Escravas de Maria em sua Cruzada dos bons livros. Leiam aqui o que elas dizem.

domingo, fevereiro 15, 2015

Comentários Eleison: O Pensamento da Neofraternidade - II

Comentários Eleison – por Dom Williamson

  CCCXCVI (396) - (14 de fevereiro de 2015): 

 O PENSAMENTO DA NEOFRATERNIDADE – II


Cuidado, caros seguidores da Neofraternidade!
Mantenham-se profundamente em alerta, pois o veneno já age com profundidade!

            Apenas umas 650 palavras de um único “Comentários Eleison” não são de forma alguma suficientes para deixar suficientemente claro o imenso problema exposto na entrevista concedida pelo Primeiro Assistente da Neofraternidade para uma revista desta na Alemanha perto do fim do ano passado (cf. CE da semana passada). O pensamento do Pe. Pfluger emerge da venenosa mentalidade moderna, e por isso não é de surpreender que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) de Dom Lefebvre esteja sendo envenenada do topo até a base, e transformada na Neofraternidade (ExSSPX) de Dom Fellay. O veneno consiste em um movimento que decai de Deus para o homem; da religião de Deus para a religião do homem; das verdades de Deus para as liberdades do homem; da doutrina de Cristo (“Ide e ensinai a todas as nações” – Mt 28, 19) para a união da humanidade.

            Tal como milhões e milhões de homens modernos, milhares e milhares de homens da Igreja em altos cargos, e tantos sacerdotes e leigos daquela que foi uma vez a FSSPX, o Pe. Pfluger não entende a importância crucial da doutrina católica para a Igreja. “DOUTRINAI todas as nações”, poderia ter dito Nosso Senhor. Por quê? Porque todos os homens são criados por Deus para ir para o Céu (I Tm 2, 4). Isto é algo que eles só podem fazer por meio de Jesus Cristo (Atos 4, 12), mas primeiramente crendo em Jesus Cristo (Jo 1, 12), o que só podem fazer ouvindo sobre a Fé (Rm 10, 17) – em outras palavras, ouvindo a DOUTRINA católica. Assim, falar de um sujeito que não tem interesse pela doutrina católica é falar de um sujeito que não tem interesse em ir para o Céu. Boa sorte pra ele, onde quer que venha a passar a sua eternidade!

            Pois bem, desde o início até o fim da entrevista alemã, o Pe. Pfluger evidencia seu relativo desinteresse pela doutrina católica; mas como os “Comentários” da semana passada declararam, esse desinteresse é mais claramente evidenciado pelo seu implícito menosprezo (palavra não muito forte) pelos grandes documentos antiliberais, antimaçônicos, antimodernistas, como o foram notavelmente as Encíclicas Papais dos séculos XIX e XX: digamos desde a Mirari Vos de 1831 até a Humani Generis de 1950. Para o modo de pensar do Pe. Pfluger, provavelmente esses documentos “anti” parecem simplesmente negativos, ao passo que a doutrina católica é essencialmente positiva. Pode-se muito bem pensar que o remédio é meramente negativo, ao passo que a cura é essencialmente positiva. No entanto, remédio pode ser essencial para preservar a saúde – pelo amor de Deus! Mas por que são as Encíclicas um remédio tão necessário para a saúde da Igreja de hoje?

            Porque o homem não foi feito para viver sozinho (o bom selvagem de Rousseau), ele é por natureza um animal social (Aristóteles) – observem as mil maneiras pelas quais os homens se associam. Mas bem, a Revolução Francesa de 1789, ao rejeitar Aristóteles e seguir Rousseau, derrubou a base natural da sociedade e a colocou sobre fundações criadas meramente pelo homem, hostis à natureza humana tal como designada por Deus, e, por conseguinte, hostis a Deus. Por conseguinte, como as ideias revolucionárias avançaram, através da França, da Europa e do mundo, a Igreja Católica passou a se encontrar em um ambiente social cada vez mais hostil, pois a profunda influência que qualquer sociedade tem sobre os indivíduos pertencentes a ela tem sido trabalhada mais e mais contra Deus e contra a salvação das almas.  

            Por muito tempo os Papas católicos não se deixaram iludir, e reavivaram o remédio da verdadeira doutrina social da Igreja para aplicá-lo através de suas Encíclicas contra a enfermidade da humanidade revolucionária. Assim, as Encíclicas não ensinam nada mais que a doutrina de sempre da Igreja sobre a natureza da sociedade humana que se sustenta entre o homem e Deus. Não foi necessário falar sobre essa doutrina social enquanto ela fez parte do senso comum. Portanto, as Encíclicas não são um infeliz acidente de infelizes tempos idos. Elas são centrais para a defesa da Fé no presente, como Dom Lefebvre tão bem aprendeu com o Pe. Le Floch. Mas veio então o “bom” Papa João declarar que o homem moderno não está mais doente, e agora vem o Pe. Pfluger. Na próxima semana tem mais.
  

Kyrie eleison.

sábado, fevereiro 07, 2015

Comentários Eleison: O Pensamento da Neofraternidade - I

Comentários Eleison – por Dom Williamson
  CCCXCV (395) - (7 de fevereiro de 2015): 

 O PENSAMENTO DA NEOFRATERNIDADE - I


Quando o Pe. Pfluger fala, o que se faz audível?       
A religião do homem, o Concílio, em tom alto e inconfundível.

            Perto do fim do ano passado, o segundo no comando da Neofraternidade Sacerdotal São Pio X, o Pe. Niklaus Pfluger, deu uma entrevista para uma revista da Neofraternidade na Alemanha, Der Gerade Weg, na qual ele respondeu a sete perguntas envolvendo a Igreja, a Tradição, a “Resistência” e a ExFSSPX. Dada a sua importante posição, seu pensamento certamente interessa. Suas linhas principais são apresentadas logo abaixo, e então sua principal falha.

            A Igreja Católica é ampla, muito mais ampla do que somente o movimento Tradicional. Esse movimento começou na década de 70 como uma reação compreensível dos católicos que perderam espaço após a revolução conciliar; mas nós nunca tornaremos a Tradição atrativa ou convincente se nós permanecermos mentalmente estagnados nas décadas de 50 ou 70. A Tradição Católica é um grande tesouro, e não deve ser confinada dentro das condenações, que foram rotina nos séculos XIX e XX, ao modernismo, ao liberalismo e à Maçonaria. Nas décadas de 70 e 80, a FSSPX agiu como um bote salva-vidas para as almas que se afogavam; mas em 2014, “nosso tempo é diferente, e não podemos nos imobilizar”. A Tradição da Igreja é uma, mas as tradições são muitas, e muito do que é moderno não é imoral.

            Assim, “devemos continuamente nos reposicionar” em algum ponto entre negar absolutamente que há uma crise de modernismo na Igreja, e negar a realidade da Igreja como faz a “Resistência”. Estes transformam um problema puramente prático, de reposicionamento,. em uma questão de fé; mas essa “fé” é uma invenção deles mesmos, subjetiva, pessoal e uma negação extrema da realidade – como pode Roma não ser católica? Como pode Dom Fellay ser o inimigo número um? Isso é ridículo! A “Resistência” é sectária, de mente estreita, de espírito maligno e divisora.  

            Quanto ao QG da FSSPX ter traído a Tradição em 2012, suas ações foram atacadas por ambos os lados, e então ela agiu com razoável moderação. Seus textos não foram dogmáticos, apenas responderam às circunstâncias. Eles se afastaram das decisões do Capítulo Geral de 2006, por certo, mas quem ali poderia então imaginar o quão menos agressiva em relação à FSSPX Roma viria a se tornar em 2012? Em 2014 nossos três bispos puderam celebrar Missas públicas na Basílica de Lourdes!

            Em síntese, a FSSPX segue o Espírito, ela se vale da Tradição. Salvou a liturgia (graças a Dom Lefebvre). Não é nem monopolizadora nem está desunida ou derrotada como pode parecer. As tormentas na Igreja continuam, mas deixemos de lado as teorias conspiratórias e apocalipticismo, e fiquemos com a fé, a esperança e uma nova juventude! (Ver francefidele.org para o original em alemão e uma tradução francesa, http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br para uma tradução em espanhol, e abplefebvreforums ou cathinfo.com para uma tradução em inglês.)  

                Onde está, então, a falha no pensamento do Pe. Pfluger? Ela é mais claramente vista no primeiro parágrafo acima, onde ele sugere que a Tradição pode prosperar fora das “condenações... nos séculos XIX e XX ao modernismo, ao liberalismo e à Maçonaria”. Para o Pe Pfluger, como para todos os liberais, essas condenações não são parte integrante da Fé católica, mas meramente “ancoradouros substanciais” (expressão própria do Cardeal Ratzinger) que, em uma época diferente, a Barca da Igreja pôde deixar para trás por não mais corresponder às circunstâncias diferentes. Portanto, se o Pe. Pfluger não tem uma fé diferente daquela de Dom Lefebvre, Pio IX, São Pio X, Pio XII, etc., ele certamente tem um conceito diferente dessa Fé, e esse conceito diferente subjaz todas as suas observações na entrevista citada. 

            Assim, o problema é muito mais do que apenas um “reposicionamento prático”. A Roma de hoje seguramente não é católica. Dom Fellay é um imenso problema. O Capítulo Geral de 2006 foi implicitamente dogmático. A Tradição não deve ser atrativa para o homem, mas permanecer fiel a Deus (mencionado apenas uma vez, de passagem, na entrevista). A “Resistência” está longe de criar sua própria “fé”. Etc., etc...


Kyrie eleison.

quinta-feira, fevereiro 05, 2015

Indecisão: Uma Doença da Vontade


Pe. Bernard-Marie de Chivré, O.P.
Traduzido por Andrea Patrícia



A indecisão não é própria de uma nação, uma família, uma raça, nem desse homem ou daquela mulher, estamos lidando com uma doença congênita da raça, manchada por essa enfermidade desde a Queda. Nós temos dois pés para andar durante a noite, no escuro, e através do deserto durante o dia, mas somos incapazes de tomar uma decisão.

Temos duas faculdades de soberania: o intelecto e a vontade, sem a qual não somos homens: o intelecto para saber, a vontade para ousar.

E ainda assim a grande maioria dos homens não sai do lugar - quando eles não estão recuando - e a grande maioria dos líderes, em todos os domínios, camufla sua indecisão por meias medidas. Nós chamamos isso de diplomacia, chamamos isso de eloquência: falamos tanto quanto pudermos para não ter que tomar uma decisão.

É uma condição entranhada da raça, em nossa consciência, em nossa mente e em nosso coração. Falamos tanto quanto possível com uma grande virtude, como forma de contornar uma decisão. O resultado é que nos esquecemos de que a decisão é a virtude real, pois imita Deus na clareza de seu intelecto e na precisão de Sua vontade. "Haja luz!" e a luz é. São Paulo teve uma prova disso na estrada de Damasco. Quando São Paulo pediu a Ele, tremendo: "Mas quem é o senhor e o que quer de mim?" o Senhor não fez nenhum discurso: "Volte para o seu cavalo, vá a Damasco, encontre o homem que Eu vou mostrar a você, e comece a ser um apóstolo da verdade”.

Mesmo a paciência de Deus surge de seu poder de decisão: Deus não pune de propósito, não ataca um povo, um mundo, uma nação, um homem, enquanto Seu pensamento mantém a possibilidade de decidir a sua salvação. Sua paciência surge de uma misericórdia tremenda, determinada mediante a salvação do homem. Suas intervenções sempre tem a marca de uma decisão sem arrependimento; para Ele, é sempre o momento preciso da decisão de beneficiar da luz, da graça. Ele é a própria bondade, primoroso, sem ilusões, sem covardia, sem indecisão.

Sua graça é como Ele: não deixa espaço para indecisão. Seu arrependimento é um arrependimento específico. Seu entusiasmo é em direção a um objetivo específico. Sua luz ilumina sem dúvida possível. Seu chamado é para um ideal específico. Seu amor é nutrido em provas específicas.

Pobres criaturas que somos, lançadas nas trevas por nossa enfermidade original, pelo enfraquecimento da vontade. Que retificação das faculdades é necessária para se tornar um filho de Deus! Quanto pisoteio dos modernos métodos educacionais, das maneiras mundanas de ser, das diplomacias em todos os domínios!

A prudência primária de cada um dos santificados é colocar-se longe das formalidades indecisas ao seu redor, a fim de obedecer as decisões da graça, para ouvir dentro de si mesmo, para entender a si mesmo, para pensar por si mesmo. Devemos firmemente ajustar nossas almas, nossas consciências, nossas vidas, de uma vez por todas no interior dessa decisão que gera a ordem - e ordem é vida.

Libertar-nos de ficar estacionados, de olhar para trás, de escrúpulos, de uma mentalidade "esperar para ver", do liberalismo, de fraudar o dever, a confissão, o dom de si e, a sinceridade, para libertar-nos do nosso meio-catolicismo, ansioso para assumir a desobrigação dos bons paroquianos e dos bons comunistas ao mesmo tempo.

Impor a decisão de recusar o catolicismo mesquinho de dispensa sem lutas, sem cruzes, sem ressurreições - o oposto de Cristo.

A indecisão nos impede de ser inteiramente livre dentro de nós mesmos. Vamos olhar um pouco mais de perto o problema.

A razão, por sua natureza, apela à prova por argumento. A razão prova a criação pela ciência (reflexão), a fim de chegar a uma certeza. Esse é o processo normal do intelecto. É por isso que o diletante peca contra a razão, porque um diletante nunca toma uma decisão. Ele acredita que a razão consiste em acreditar em tudo, provar tudo, a fim de possuir tudo. Um homem que é um diletante não é mais um homem. Você é alguém a partir do momento que você descobre dentro de si mesmo as razões para revelar-se como o homem do momento, capaz de decidir por si mesmo.

A Fé, por outro lado, eleva o homem acima da prova por argumento apelando para certezas sobrenaturais que surgem da mente estando tão unida a Deus que não deixa margem para dúvidas. O homem toca a divina auto-evidência pelas certezas que levam lá e que são, por assim dizer, a sombra da auto-evidência, assim como a sombra da casa diz que um sol brilhante está logo atrás.

Por conseguinte, no domínio do pensamento, a dúvida voluntária é um pecado contra a mente de Deus. No domínio da ação, o vício – hoje promovido ao posto de virtude natural - é um verdadeiro tapa na cara da vontade divina, que nos fez para o verdadeiro bem.

Você pode ver a influência desumana da falta de decisão na vida moderna. Hoje as pessoas reúnem-se para discutir, mas não para defender, para discutir acordo com ideias modernas, mas não de acordo com a Fé nem de acordo com a razão.

O primeiro serviço que você pode prestar a sua consciência é a vontade de decidir. Considere a sua situação sem ideias preconcebidas, a fim de ser capaz de fundar o seu julgamento sobre a rocha da decisão, sem esquivar-se da coragem de olhar sobre o campo de batalha com o binóculo da oração, com uma independência que é própria de Deus. Orar é participar na mentalidade de Deus que decide ser capaz de entrar em sua vida com a vida de Deus. Você já decidiu antes de tomar uma decisão, se você aceitou olhar para todas as coisas na verdade. Quando você começa a considerar as suas opções pessoais a cada vez com esse olhar interior, recusando-se a desviar da verdade, um olhar de simplicidade: "O que é, é; o que não é, não é", então você está salvo. Você torna-se, necessariamente, um homem de razão e fé.

Você precisa perceber que a determinação é atingida por um julgamento interior. Ela fica comprometida quando você fica no nível de decisões exteriores: respeito humano, opiniões, interesse próprio.

Há uma abundância de católicos, mas ainda não temos crentes capazes de formar um julgamento interior. Como você espera que os católicos sejam capazes de tal juízo interior? Eles não sabem nada; eles olham para o exterior para tudo. Como você espera que eles tornem-se crentes já que a Fé começa no interior, na substância de um ser, para colocá-la em movimento acima de si mesmo, enquanto não há nada dentro deles pedindo nada mais alto? Os homens tornaram-se incapazes de compreender Jesus Cristo. A prova? Eles buscam qualquer coisa que eles achem que seja melhor do que Jesus Cristo.

Que exemplo mais abominável da história que posso dar a você de um julgamento fundado na exterioridade do que o de Pilatos diante de Jesus? Pilatos passou seu tempo enrolando, esboçando elementos de julgamento do exterior, deslocando-se de seu próprio julgamento para o dos outros, por respeito humano, por interesse próprio. Ele tinha autoridade, ele era o líder, mas ele agiu como um burocrata, e Jesus foi a vítima da indecisão de um líder.

E vocês, pais e mães de família, diante de seus filhos, vocês são capazes de decidir? Pela Fé? Pelo bem? Quer eles gostem ou não? Você joga de acordo com o mundo, assim como Pilatos jogou diante das multidões de Jerusalém.

"Você vai tomar sua decisão?" Psicologicamente falando, o que essa frase quer dizer? Vai dar um passo além do mecanismo sensível influenciado por um exterior que é estranho à razão e à fé? Impulsividade, paixões, escrúpulos, laxismo, pretensões, interesse próprio - de todos estes elementos tampando a meta objetiva, a meta da razão racional, a meta da Fé, acreditando até o ponto de um sim definitivo.

O primeiro pecado da vontade é evitar a meta. Como você pode lutar contra isso? Por uma grande virtude: a obediência, que consiste em ir na direção definida pela qualidade de uma inteligência, andando na frente de nós, dizendo: "Essa é a maneira que você tem que ir".

Acostumar a vontade de seus filhos à compreensão de que eles não sabem nada, ou quase nada, não por sua culpa, mas por conta de sua idade. Que eles tenham a graça de saber que eles são incapazes, totalmente sozinhos, de transformar-se em homens.

Obedecer é aprender a comandar a si mesmo; é formar uma vontade que é livre para escolher uma meta. Quem quer ser um líder tem que começar por obedecer; na obediência ele vai encontrar as razões para comandar de acordo com a razão e de acordo com a Fé.

Vamos dar uma olhada na esterilidade da indecisão. Há indecisão que vem da compreensão: agir sem entender. O caçador vê ramos móveis, ele atira e mata um caçador furtivo. Há também a indecisão que vem da vontade: saber sem se atrever a decidir. Sabemos que deveríamos, mas não nos atrevemos a arriscar.

Na teologia moral, pode haver três casos diferentes: um ato sem uma meta conhecida não é um ato moral, um ato humano; um ato perigoso sem uma meta que o qualifique, apesar do risco obrigatório é pecado; um ato indeciso abandonado aos riscos da sorte ("cara ou coroa") é imoral em sua causa.

Em todos os três casos, nem a fé nem a razão estão satisfeitas: a meta é inexistente. Entrando no domínio das paixões: um ato bom reforçado por uma paixão em serviço da bondade do ato transforma a paixão em um trampolim maravilhoso. A paixão utilizada de forma moral dá-nos a coragem de levar a bondade ao seu limite absoluto; ela deveria ajudar-nos a vencer nossa indecisão. Por exemplo: a criança assiste a um filme sobre a Paixão de Cristo, e salta até colidir com a tela onde Judas trai Cristo com um beijo. Outro exemplo seriam as ações heroicas dos santos: Santa Catarina de Sena bebendo o pus saindo de um ferimento o qual ela fazia um curativo para vencer seu desgosto com a visão de feridas.

A esterilidade da nossa fé vem da nossa falta de coragem. Estamos constantemente repetindo: "Sem dificuldades!". Somos católicos, mas não somos crentes. Observe a nossa inércia em face da poluição das almas dos nossos filhos pela informação sexual.

Cristo quis uma Igreja capaz da aventura mais incrível que se possa imaginar: sair da indecisão em face do pecado, erro, mal, inferno, por força de riscos, preferências, fidelidades e decisões interiores e exteriores.

Onde estão os crentes? Olhe para o tremor das chamadas almas católicas perante os gestos cavalheirescos da Fé; a esterilidade dos católicos indecisos; a vitória do modernismo ao neutralizar os crentes ao aclimatar os católicos a falsas ideias. Como podemos retornar a ser crentes?

Nutrir o seu julgamento interior numa fé vivida em segredo: meditação, adoração, oração, memórias de graça, generosidade no sacrifício - todas as realidades que mobilizam em seu coração as capacidades esplêndidas para sentir, de repente, que você está enfrentando a vida de cabeça erguida, com a coragem de mostrar o caminho para aqueles que estão procurando por ele, arriscando a decisão de um Credo vivido em um tempo concedido a Deus antes do tempo concedido ao exterior; arriscar uma escolha da qual os mártires ficariam orgulhosos; arriscar fidelidade a ideias objetivas, tradicionais e doutrinárias; ligando o futuro ao passado, sem a menor fratura de indecisão.

Torne-se atualizado pelo Credo, todos os dias, para sempre, em nós, ao nosso redor, sem medo das indecisões de nossa natureza. Você vê a maneira em que você tem que provar sua capacidade de amar, o tipo de capacidade que Deus quer dar a volta a uma era que já não é mais capaz de amar.

Indecisão na consciência

A minha ambição e meu desejo é dar-lhe a profunda convicção de que a nossa vida pertence a Deus e só a Ele. Consequentemente, a nossa vida só tem significado em famílias, comunidades e países, na medida da nossa fidelidade a Deus. Se você pisa fora dessa fidelidade, Deus tem o direito de condená-lo.

Só Deus é capaz de plantar sementes no solo, como Ele deseja. Desde a Queda - Ele disse a Adão – a terra só produz espinhos e abrolhos, especialmente a terra dentro de nós. A graça prepara o terreno para que as ervas cresçam na nossa consciência. E é aí que todas as dificuldades começam.

As razões são muito variadas: a ignorância do sobrenatural, medo da semente divina, terror com o pensamento de Deus assumindo o comando, tristeza de não saber como vencer a nossa impotência. Todas estas coisas impedem que nossas vidas pertençam a Deus.

Daí um sentimento de fracasso, de começar tudo de novo por tempo indeterminado; um sentimento de tristeza, apesar de enormes qualidades naturais. Nós sentimos que entre a nossa vida e a sua fecundidade absoluta, tudo é bloqueado por um estado de indecisão. Ouça este poema de Marie Noël (1). Ela o intitulou My Weakness [Minha Fraqueza]:

Minha fraqueza,
Quando eu faço errado, eu nunca tenho certeza de que é errado.
Quando eu faço o bem, eu nunca tenho certeza de que é bem.
Quando eu falo, quando eu afirmo, nunca tenho certeza de que é verdade.
Eu só tenho confiança no sofrimento.
Sofrendo, suportando, aceitando, só tranquiliza-me por uma força que vem de fora e impõe-se sobre mim.
Que a Vossa vontade seja feita, não a minha,
Porque não tenho vontade própria, mas uma oscilação inquieta entre o verdadeiro e o falso, entre o bem e o mal.
Mas o sofrimento deixa-me em paz. Porque Vós escolhestes para mim.

Sim, mas com a condição de acrescentar um detalhe teológico: você tem que perceber que esta enfermidade original, que impede a alma de decidir é usada pela graça para plantar a semente que vai produzir virtudes florescentes para a vida eterna. É a vingança do amor contra a mancha do mal original. Porque para Deus, toda a criação, natural e sobrenatural, está sempre cheia de energia e dinamismo.

Ouça o que Jesus diz: "Todos vocês (vocês: o mundo inteiro), que labutam e estão cansados ​​ (a enfermidade do pecado original), venham a Mim!" não aos outros, não ao professor primeiro, ao médico, ao governo, "Vinde a Mim, e eu vou refazer você". Jesus não diz: Eu vou remover a dificuldade, Ele diz: "Eu vou refazer você", fazendo uso da mesma. É um convite para a pobre raça humana vir e redescobrir a esperança.

A indecisão da consciência é um peso constante causando um estado de tristeza. Jesus diz: "Vinde a mim, meu jugo é suave", mas continua a ser um jugo. "Meu fardo é leve", mas Jesus não diz: Eu estou tirando o fardo. Ele vai ensinar-nos como podemos transformar um jugo em doçura e um fardo em leveza. A partir desta descoberta fluem todas as grandes vitórias dentro de si mesmo. Faça o jugo servir, faça o fardo servir, com doçura, com leveza. O Senhor não anuncia a supressão da nossa indecisão; Ele vai iluminá-la.

Como é que Ele vai fazer isso? Na verdade, como você pode dar o contrário da carga para o peso em si? A lei natural de peso obriga o seu progresso a um impasse. "Estou exausto, eu coloquei o meu pacote no lado da estrada". E ainda, você já reparou que na física usam o peso para aumentar a velocidade? Você só tem que olhar para as rodas de uma locomotiva: lá você tem um peso que se destina a aumentar a velocidade. A indecisão na consciência é o peso mais terrível, obrigando a uma interrupção da melhor utilização que pode ser feita de um peso.

Então, quais são as causas da indecisão, em primeiro lugar?

Elas são legião: hereditária ou desenvolvida por uma educação deficiente, muito grave ou muito frouxa. Às vezes, as causas são indefiníveis: escrúpulo, orgulho, medo, interesse próprio, ambição.

As consequências? Elas são todas em prol da facilidade. Nós não queremos lutar. Evitamos brigar com as lutas interiores. Terminamos em uma espiritualidade formalista, sem coragem, sem vontade de empenhar-nos com confiança e precisão.

Neste ponto, os indecisos percebem que a cada ano eles estão um pouco mais cansados de sua fidelidade inicial, e chega um momento em que a escuridão da noite só aumenta. A indecisão tornou-se um estado, um estado tornando-os não mais dignos de seu batismo.

Como é possível curar esse tipo de consciência? Acima de tudo, você tem que provar para eles que a indecisão é a primeira inimiga da alma. Aceitar isso é correr o risco de aceitar, no final, uma espécie fictícia de paz: "Estou em paz". Você sabe muito bem que não é verdade - você esquivou-se do problema real, você tem trapaceado a vida, que é a pior coisa que pode acontecer para a vida da consciência.

Redescobrir o princípio de uma paz verdadeira. O raciocínio objetivo, com a ajuda de conselhos e confidências, preserva a liberdade de nossa razão. As razões de Fé com o que caracterizam o contrário da indecisão: certezas - certezas, a ponto de uma oração que pede: "Vós que sabeis todas as coisas, Vós que sois a própria luz, Vós que nunca enganaste ninguém, Vós que sempre disseste: 'Eu sou a Vida, Eu sou a Verdade, Eu sou o Caminho', Vós não quereis atrair-me para Vós mesmos?".

Em uma palavra, tornar-se uma consciência iluminada pela razão e pela fé, que é a primeira ressurreição da vontade, a primeira ressurreição de uma fé que está realmente agindo.

Ilumine a noite da indecisão desta forma - não com toda a luz do sol, porque não é possível uma vez que a mancha do pecado original permanece, mas, como diz Corneille, com "aquele brilho obscuro caindo das estrelas", o brilho nebuloso que dá suficiente luz para permitir que a vontade, a decisão, avance. Almas que encontram-se num estado de indecisão não estão nem mesmo neste brilho ainda, elas estão na noite, com toda a escuridão da noite. Ou seja, elas tornaram impossível avançar ou escolher. Elas não são felizes, elas não sentem-se orientadas para uma noite que termina em amanhecer. Quando você consegue dizer a uma alma: "Não há noite sem aurora", você salva-a do desespero. Você também tem que ensinar-lhe que ela deve, pessoalmente, aceitar entrar nesse brilho a partir de seus esforços e de sua fidelidade. E isso é precisamente o que caracteriza o indeciso: não anda, seus passos já não são orientados para uma decisão vinda de Deus, vindo de uma razão iluminada pela Fé, proveniente de atos de Fé, capaz de transformar a noite em uma noite iluminada pelas estrelas. "Então venha a mim, Eu irei construir um caminho para você, apesar da noite, por causa da noite".

Aqui está a primeira conclusão: enquanto uma alma é capaz de andar para frente, ela é vitoriosa sobre si mesma. Eu não poderia dar-lhe um exemplo mais maravilhoso da vontade de andar para frente do que o dos peregrinos de Emaús, no Evangelho de São João. Vamos tentar analisar o que acontece entre esses dois homens:

“A noite cai. Oprimidos pelos acontecimentos dos últimos dias, eles já não sabem em que acreditar. Eles estão indecisos. Onde eles estão indo? Em direção à noite. Um estranho aparece alguém que eles não conhecem. Ele junta-se a eles. Observe, Ele não convida-los a sentar-se ao lado da estrada. Ele começa a caminhar ao lado deles. Ele vai dirigir a sua caminhada. A noite cai, mas Ele já traz um certo amanhecer: "Por que vocês tem medo? Vocês não acreditam mais?" "Mas nos disseram...Mas nos foi prometido...E agora tudo acabou". E ainda assim eles sentem a presença deste Homem ao lado deles e eles dizem-Lhe: "Fique conosco". E então, de repente, há o início da fração do pão. A noite torna-se dia pelo início da consagração. A fração do pão ilumina os homens, tanto que quando eles saem para voltar eles dizem um ao outro: "Havia algo em chamas no nosso coração". Encontramos esperança novamente, encontramos caridade, encontramos a Fé, e como Ele andou ao nosso lado, voltamos à vida!”

A verdade de Deus não é um problema de sensibilidade, mas de uma verdade que anda para frente, que caminha apesar da indecisão, porque Deus precisa colocar você em condições de produzir as virtudes da paciência, humildade, esperança, confiança, coragem e afirmação de si mesmo, o que você teria sido incapaz de produzir se você tivesse sido alguém que é decisivo. É a vingança do amor de Deus sobre a ferida do mal, usada por amor a forçá-lo a produzir o que a razão por si só não pode produzir.

O racionalismo é o grande criminoso em nossa indecisão de consciência. Escusado será dizer: a indecisão vem de uma razão privada de elementos capazes de fazê-la produzir um argumento. A indecisão compara sem concluir, a razão não é semeada com as sementes das virtudes sobrenaturais. "Eu sou aquele que vai curar-te " não a psicanálise, mas a Fé. As pessoas privadas de Fé são pessoas destruídas, no que diz respeito às opções salvíficas da vida.

Vamos passar agora para o domínio prático.

Primeiramente, uma indecisão específica ou uma virtude específica, onde podemos encontrá-la? Isso é para cada um de nós discernir. Com inteligência, com reflexão, praticar a virtude reconhecida como primordial na liderança de sua vida, o esforço primário que vai cavar o jardim inteiro e plantar a semente, apesar de si mesmo. Toda a indecisão é curada pela prática de uma virtude específica. Você conhece a frase do marechal Foch: "O que está em jogo?" O homem é capaz de usar sua indecisão para desenvolver capacidades de decisão, de firmeza, de permanência em esforço, das quais a sociedade será a primeira a beneficiar-se. Vocês, pais que estão ouvindo-me agora, vocês não veem que este é um dos aspectos principais da educação? Acostumar a criança a decidir em vista de sua consciência, tendo em vista o seu dever, em vista de sua família, em vista de sua educação?

Em seguida, temos a Fé. "Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia": os esforços, as alienações, os atos de confiança, as confidências orientadas para a virtude que eu mais preciso. Não suportar a vida; o amor, onde quer que haja uma luta para amar.

As indecisões são noites à espera de suas estrelas quando o vento da decisão, da Fé, finalmente, varre as nuvens do amor-próprio. Tantas almas perdem o gosto pela vida espiritual por força de esforços voluntaristas: inúteis, cansativos, e apenas servindo, em sua mente, para livrá-los de sua indecisão por fiats pessoais erguidos em programas. Pelo contrário, a "noite original" só existe para as estrelas que vai produzir, estrelas admiráveis ​​de paciência heroica consigo mesmo, iluminando os outros com nossos sorrisos e com uma força que recorda as catacumbas.

Dirigir almas nunca significou livrá-las de sua noite original por força de programas, mas ensiná-las, pelo contrário, a mergulhar na sua noite, abraçá-la, a fim de fazê-la produzir um novo tipo de luz. "O beata nox". Ele ressuscitou na minha indecisão pela luz das virtudes da fé animando minha vontade renovada.

O método é divino e certo. Começamos com a fadiga: estamos paralisados, e acabamos por acalentar a nossa noite, que produz um glorioso dia de Páscoa.

Mas você não deve ser o cúmplice de sua indecisão, a recusa de saber, o medo de apresentar o seu problema, a ignorância de consciência. O Espírito Santo fica sempre pouco à vontade em uma noite que prolongamos de propósito. Ele não pode enviar o vento de confiança soprando sobre disso. E quando o vento não afugenta as nuvens, não podemos ver as estrelas e ficamos desanimados.

O grito bonito de Marie Noël em seu diário particular:

“Repouso tal, ah! como um sopro de ar, em um conflito, quando de repente você percebe que estava errada! Tudo fica de repente em paz. Eu era a única que estava errada. Tudo volta ao lugar! Considerando que, se você tivesse que depender de alguém para a sua paz...”.

Duas ideias mais:

A obrigação do indeciso é rezar, refletir, a fim de diluir as nuvens de indecisão. Então esteja pronto para obedecer. A obediência é a pedra cavada no chão por alguém, para dar à terra a solidez que sustenta a caminhada para frente. Não é o que Jesus disse para o bom São Pedro: "Saia do barco, venha!" E lá se vai São Pedro andando sobre a água. Tudo está bem, ele está firme, até o momento em que ele aproxima-se de Deus e ele vira a cabeça: "E se eu afundar" E ele afunda... "Homem de pouca Fé! Isso vai ensiná-lo a duvidar. Você está bem perto de mim, eu estendo a minha mão, e você duvida..." O número de homens que afundam no oceano sem fundo e que uma vez foram chamados... "Venha, ande, mas, de acordo coMigo, não de acordo com você, de acordo com a Fé, não de acordo com seus sentimentos, de acordo com os Meus mandamentos, e não de acordo com os seus caprichos pessoais. Vá em frente, tente, e você vai ver que perto de Mim o terreno torna-se sólido".

Você pode ver que esta atitude de confiança e decisão iria trazer-lhe. Qualquer que seja o ano, qualquer coisa que o amanhã traga, ande para frente. O momento que você começar a andar de acordo com Cristo, tem a garantia de ir até o fim.
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Uma conferência inédita dos arquivos privados da Association du R.P. de Chivré. Pe. Bernard-Marie de Chivré, OP foi ordenado em 1930. Ele era um tomista ardente, estudante das Escrituras, mestre de retiro, e amigo do Arcebispo Lefebvre. Ele morreu em 1984.

Original aqui.
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Nota:
(1)    Pseudônimo de Marie Rouget (1883-1967), poetisa e escritora católica.