terça-feira, janeiro 05, 2016

Ainda sobre os milagres fora da Igreja

Por C.N. em Estudos Tomistas



1) Ao contrário de que haja salvação por batismo de desejo, o que é de fé porque o magistério infalível já o decidiu, não é de fé, todavia, que possa haver milagres fora da Igreja, justamente porque o mesmo magistério nunca o decidiu. Mas tampouco o negou nunca.
2) Além disso, como se lê no conceituado DTC (Dictionnaire de Théologie Catholique), a generalidade dos Padres e dos Doutores da Igreja admitiu a possibilidade de milagre excepcional fora da Igreja.
3) Em outras palavras, conquanto não seja propriamente contra a fé negar tal possibilidade, é altamente inconveniente, antes de tudo porque a generalidade de nossos Padres e de nossos Doutores é de algum modo parte da Tradição.
4) Além disso, como lembra Leão XIII em Providentissimus Deus, “a ninguém é lícito interpretar a Sagrada Escritura contra [...] o consentimento unânime dos Padres” (cf. Conc. Vat. I, ses. 3 c. 2: de revel., ex Conc. Trid., ses. 4 decr. de edit. et usu Libr. Sacr.). Mas isso não seria assim se tal consentimento unânime não tivesse autoridade entre nós. Logo, insista-se, pode considerar-se que pelo menos é altamente inconveniente, e fruto de certa presunção, negar o que disseram unanimemente não só os Padres mas ainda os Doutores.
5) Quanto à explicação da questão mesma, é ainda a Santo Tomás que devemos recorrer. (E, com efeito, sempre o magistério, e em especial São Pio X, recomendou que, naquilo que não esteja decidido pelo mesmo magistério, devemos recorrer antes a Santo Tomás de Aquino.) Como o mostrarei numa questão disputada que fará parte do livro Opúsculos (que se publicará pelas Edições Santo Tomás em fevereiro próximo), sua explicação é, como sempre, a mais equilibrada.
6) Insista-se aqui, quanto a Santo Tomás, no que ele disse na Suma Teológica(II-II, q. 178, a. 2, ad 3): “Por isso, os maus que ensinam falsas doutrinas não poderiam jamais fazer verdadeiros milagres para confirmar seu ensinamento, embora, às vezes, possam fazê-los em nome de Cristo, que eles invocam, e pela virtude dos sacramentos que administram. Mas aqueles que anunciam doutrinas verdadeiras fazem às vezes verdadeiros milagres, para confirmá-las, mas não para atestar sua santidade”. Ora, os maus que ensinam falsas doutrinas não podem ser senão infiéis; mas, se, além disso, invocam o nome de Cristo e administram sacramentos, não podem ser senão hereges.