quarta-feira, janeiro 27, 2016

Ainda sobre a possibilidade de milagre fora da Igreja ou entre hereges


Lê-se numa página web uma citação de Santo Tomás extraída de seu Comentário a Tessalonicenses: “ninguém faz verdadeiros milagres contra a fé, já que Deus não é testemunha de falsidades. Donde alguém que ensine uma falsa doutrina não pode fazer milagres [...]”. E conclui a referida página, para negar a possibilidade de milagre fora da Igreja: “As palavras são tão claras, e com o peso da autoridade do Doutor Angélico, que não temos mais nada a acrescentar”.
Não é de desprezar o fato de autor do escrito reconhecer a autoridade de Santo Tomás de Aquino. Sucede porém que, como com respeito a todos os grandes Doutores e com respeito a todos os grandes filósofos, não basta o conhecimento de uma parte da imensa catedral que é a obra de Santo Tomás para concluir algo definitivamente. E aqui erra o autor de tal escrito, pelas seguintes razões.
1) Bem antes de escrever o que se lê no Comentário a Tessalonicenses, havia escrito Santo Tomás em De Veritate:
Objeção 5. Lê-se nas histórias (referidas por Agostinho em A Cidade de Deus, X, 26) que uma vestal virgem, para mostrar que conservara seu pudor, carrega água do Tibre num vaso furado, e todavia a água não escorre; o que não se pôde fazer senão porque a água era impedida de escorrer por um poder que não era natural; o que na divisão das águas do Jordão e em sua detenção é claramente um milagre. Por isso parece que os demônios podem fazer milagres.
Resposta de Santo Tomás. 5. Não está excluído que seja para recomendar a castidade que o verdadeiro Deus tenha feito por seus bons anjos um milagre desse gênero, retendo a água, porque, se havia alguns bens entre os pagãos, tinham vindo de Deus. Mas, se isso fosse feito pelos demônios, tal não se opõe ao que foi dito. Pois deter ou ser movido localmente depende de um mesmo princípio em gênero, porque o que é movido para um lugar se detém por tal natureza. É por isso que, assim como os demônios podem mover os corpos localmente, assim também podem retê-los por movimento. E no entanto isso não é um milagre, como quando feito divinamente, porque, segundo o poder natural do demônio, pode chegar-se a tal efeito.”
Logo, como se vê, admitia então o nosso Doutor a possibilidade de milagres fora da Igreja.
2) Se todavia esta passagem foi escrita bem antes do Comentário a Tessalonicenses, cuja escrita data de entre 1259 e 1265, leia-se o que Santo Tomás escreveu na Suma Teológica, entre 1271 e 1272, ou seja, depois daquele Comentário:
“Por isso, os maus que ensinam falsas doutrinas [ou seja, os heréticos] não poderiam jamais fazer verdadeiros milagres para confirmar seu ensinamento, embora, às vezes, possam fazê-los em nome de Cristo, que eles invocam, e pela virtude dos sacramentos que administram”. E isso, que sempre será extraordinário, Deus não o faz senão por algum bem, ou imediatamente da Igreja, ou porque se destina a cumprir a predestinação de quem atualmente não está no seio da Igreja, ou por qualquer outra razão que esteja entre os ocultos desígnios de Deus.
Ora, os que ensinam falsas doutrinas mas invocam o nome de Cristo e ministram sacramentos não podem ser senão hereges. Logo, e a fortiori, há a possibilidade de que os que ensinam falsas doutrinas na Igreja conciliar façam algum milagre.
3) E Santo Tomás não se contradiz de modo algum. Somente, noComentário a Tessalonicenses ele enuncia parte da verdade, ao passo que nas duas outras passagens citadas a enuncia integralmente: assim como, se digo que a alma sem o corpo não pode funcionar bem, digo uma verdade, que porém não é contradita se digo que após a morte a alma bem-aventurada já tem a visão beatífica graças a um milagre – o que faz que ela funcione não só perfeitamente, mas sobreperfeitamente.
4) Além disso, “a generalidade dos Padres e dos teólogos admitiu a possibilidade de milagres entre os hereges”, como se lê no conceituado DTC. Ora, como lembra Leão XIII em Providentissimus Deus, “a ninguém é lícito interpretar a Sagrada Escritura contra [...] o consentimento unânime dos Padres” (cf. Conc. Vat. I, ses. 3 c. 2: de revel., ex Conc. Trid., ses. 4 decr. de edit. et usu Libr. Sacr.). Mas isso não seria assim se tal consentimento unânime não tivesse autoridade entre nós. Por conseguinte, pode considerar-se que pelo menos é altamente inconveniente negar algo dito unanimemente não só pelos Padres mas ainda pelos Doutores quanto a qualquer questão de fé.
5) Quanto às razões por que excepcionalmente podem dar-se milagres fora da Igreja ou entre hereges, leiam-se:
• A palavra de Dom Tomás de Aquino sobre o Eleison de Dom Williamson (8:58 minutos).


E veja-se a transcrição e tradução de importante parte do sermão de Dom Faure a respeito da possibilidade de milagres no âmbito do Novus Ordo:

“Ultimamente se falou de alguns aparentes milagres eucarísticos na nova missa. É possível, não é impossível, já que sempre consideramos que não todas mas muitas missas do Novus Ordo são válidas. Então, não impede em princípio que haja um milagre. Agora, é interessante, publicaram-se num site da Internet importante, ‘Non Possumus’, os últimos Comentários de Dom Williamson, e por ocasião disso se publicou também que se pode ver uma quantidade enorme, dezenas, mais, centenas de milagres eucarísticos nestes 2.000 anos e que a maioria destes milagres ocorreu depois de um sacrilégio, com hóstias roubadas, hóstias profanadas, etc. E qualquer um pode ver coisas extraordinárias, como, por exemplo, que uma Hóstia escondida irradia uma luz na noite, permite que se volte a encontrar, muitíssimas destas hóstias roubadas foram encontradas, e muitas vezes com sangue, e, assim, isso nos recorda bem que realmente na Missa temos um sacrifício, uma renovação, uma renovação do sacrifício da cruz. Por exemplo, houve sacrílegos que deram punhaladas na Hóstia, e derramou-se sangue por todo o altar. Então, quando alguém vê todos esses milagres, ou, por exemplo, em outro caso, uma mulher que havia roubado uma Hóstia e a havia escondido no estábulo... Cada vez que o asno entrava, fazia uma genuflexão na direção em que estava a Hóstia.  Coisas... e coisas que foram gravadas por notários, por autoridades do povo, sacerdotes, párocos, etc., bispos... não se pode pôr em dúvida.  
Tudo isso para fortalecer nossa fé. E, claro, se alguém ouve falar rapidamente disso, pode argumentar dizendo: ‘Como é possível? Melhor não falar disso, porque isso leva água ao moinho do Novus Ordo. Não, não se trata de estimular as pessoas a ir, aos tradicionalistas, naturalmente, a ir à nova missa. De nenhuma maneira. Ao contrário, todos esses milagres mostram quão grave é a comunhão na mão. Porque hoje há muitos casos disto. Então as pessoas, por respeito humano, para com todo o mundo, vão receber a Hóstia na mão. Mas depois não têm escrúpulos, porque não estão na graça de Deus, ou porque não têm fé, e jogam a Hóstia no chão, como aconteceu neste milagre em Buenos Aires.
Mas a pergunta que podemos nos fazer é: ‘Mas Deus nos abandonou?...’ É possível que Deus tenha abandonado a 98% dos católicos do mundo, que estão do outro lado do planeta e que nunca ouviram falar da Tradição, nem da obediência e dos limites da obediência? E que então toda essa gente não tenha a graça de Deus, não tenha acesso a nenhuma graça que poderia advir de alguns sacramentos, particularmente o sacramento da penitência, a confissão. É evidente que em muitos lugares onde não existe sacerdote tradicional um verdadeiro católico pode buscar e encontrar algum sacerdote que tenha ainda a fé, e que utilize a fórmula válida da penitência, da absolvição. Esta é a realidade de muitos fiéis em países onde quase não há sacerdotes da Tradição. Esses fiéis recuperam a graça de Deus, dão-se conta disso. Então seria grave dizer: ‘Não, não vão nunca mais. Acabou-se. Se não há missa da Resistência, acabou-se. Nunca mais vão confessar-se, etc.’ Isso é um excesso. Pensar que Deus se esqueceu de 98% dos católicos e que eles vão então condenar-se... Isso não é racional. Deus é mais poderoso do que isso e sabemos que quer infinitamente o nosso bem... ‘Eu sou a bondade e a misericórdia.’ Então, em meio a esse mistério de iniquidade tremendo, desta traição por parte das mais altas autoridades da Igreja de Roma, Deus, no entanto, pode sempre ajudar, claro, a muitos fiéis em toda a terra. Mas isso não diminui, de nenhuma maneira, a gravidade da nova religião. Nós sabemos que é um veneno que causou a perda da fé a milhões e milhões de pessoas. Por isso elas vão para as testemunhas de Jeová, para os mórmons... quantos milhões na América do Sul? Porque perderam a fé. E por que perderam a fé? Geralmente por causa da nova religião, da nova missa, de tudo isso. Então, há que ler, detidamente, e entender o que quer dizer Dom Williamson. É certo que pode haver entre nós um perigo de radicalização. Então nos fechamos e pensamos: que bom, agora Deus já não atua senão dentro da Resistência. Mas quantos sacerdotes nós somos? É certo que é uma graça muito grande, imensa, que Deus nos tenha feito entender que a fé está em jogo, e é evidente que nós [...] somos deste pequeno resto de que Nosso Senhor falou: ‘Confiança pequeno rebanho, Eu venci o mundo’.”