terça-feira, janeiro 19, 2016

O problema da assistência à missa nova ou a missas válidas mas ilícitas dos cismáticos ou dos hereges



O texto transcrito abaixo é do R. P. Ricardo Olmedo, que foi professor de Direito Canônico e de Teologia Moral no Seminário de La Reja (da FSSPX) até, salvo engano, 2013; e foi ensinado ali até, salvo engano, esta mesma data (ou seja, até já bem avançada a crise acordista da FSSPX). Pois bem, o Padre Olmedo sempre fez parte da ala nada liberal da Fraternidade, razão por que este texto seu cresce em importância. Além disso, nunca nada do dito neste texto foi contestado por nenhum sacerdote que se formou em La Reja.
É preciso lê-lo todo para entendê-lo perfeitamente; e não se use com ele o nefasto hábito de “corte e costura” ou de “pesca” de citações para benefício de teses próprias, o que é sempre condenável. Pois bem, note-se particularmente seu item 5 e o comentário que faço a ele.
Observação. Em outro texto falarei das razões que podem fazer válida (ainda que ilícita) a missa nova. Que porém ela seja em princípio válida (ainda que ilícita) é o que diz, como se verá abaixo, o mesmo Padre Olmedo, e o que dizia Dom Lefebvre, ainda que observando que, pela perda da fé e pelo aprofundamento da apostasia na Igreja, cada vez mais missas novas também deixariam de ser válidas. Isto também se verá no próximo texto, onde buscarei mostrar, ademais e mais especialmente, o que quer dizer que a validade da missa nova depende da intenção do celebrante. 

«O problema da assistência à missa nova ou a missas válidas
mas ilícitas dos cismáticos ou dos hereges


Em razão da virtude da fé, o católico é obrigado a evitar tudo o que possa pô-la em perigo, já de perdê-la, já de debilitá-la, em sua própria alma ou na daqueles que lhe estão confiados (filhos, cônjuge, fiéis, etc.).
Não é aqui que cabe tratar o tema da “missa nova”, de sua malícia e periculosidade para a verdadeira fé católica, razão por que que remetemos aos abundantes estudos já realizados sobre isto.[1]
Os Cardeais Ottaviani e Bacchi, depois de afirmar que o “Novus Ordo Missæ... se afasta de maneira impressionante, em conjunto e em detalhe, da teologia católica da Santa Missa...”, concluíam em seu “Breve Exame Crítico”, que “o afastar-se da tradição litúrgica, que foi por quatro séculos sinal e garantia da unidade do culto, para substituí-la por outra nova – que não pode não ser um sinal de cisma, pelas inumeráveis faculdades implicitamente concedidas, e a qual pulula ela mesma de gravíssimas ambiguidades, para não dizer erros manifestos contra a pureza da Fé Católica –, parece-nos, para expressar nossa opinião mais benigna, o erro mais monstruoso”.
Objetivamente a missa nova é [2] e perigosa para a fé, e a questão é se se pode ou deve assistir a ela para cumprir o preceito que manda assistir a missa aos domingos e dias de festa.
Por isso, sem prejuízo de aplicar o que se diz no lugar correspondente destes apontamentos com respeito à “comunicatio in sacris” e aos princípios correspondentes, devemos equipará-la à missa válida de cismáticos e/ou de hereges, e assinalar os preceitos que o Magistério deu sobre este ponto:
“O católico deve abster-se de assistir à missa válida, mas ilícita, do sacerdote herege ou cismático, ainda que urja a obrigação de assistir à missa por ser dia de preceito e tenha que ficar sem esta ao agir assim”.[3]
Subjetivamente o problema deve resolver-se assim:
1) quem tenha consciência certa e informada de que o novo rito não é católico, senão que é protestantizado e que portanto encerra perigo de que a fé se debilite ou perca, é obrigado a evitá-la[4] e a frequentar só a missa tradicional, mesmo à custa de grandes sacrifícios, e, em caso de não poder fazê-lo, ainda é obrigado a santificar o domingo ou dia de festa,
2) na medida de essa consciência, se apesar de conhecer o perigo, assiste à missa com a só intenção de cumprir o preceito dominical, longe de satisfazê-lo, peca contra a fé,
3) quem tenha dúvidas ou se ache perplexo com respeito à bondade da nova missa é obrigado a informar-se para resolver as dúvidas, porque a ninguém é lícito agir em estado de consciência duvidosa neste tema,
4) quem possua uma consciência vencivelmente errônea sobre este assunto da missa há de corrigi-la, e, portanto, o que possa instruí-lo e esclarecê-lo tem, por sua vez, o dever de fazê-lo,
5) o que tem consciência invencivelmente errônea é incorrigível, e devemos deixá-lo nas mãos da providência divina,
[Nota de C. N.: “Deixá-lo nas mãos da providência divina” significa precisamente que o sacerdote tradicionalista deve abster-se de proibir a assistência à missa nova a quem tenha “consciência invencivelmente errônea”. Mais que isso, porém: a conclusão de que esta ou aquela pessoa tem “consciência invencivelmente errônea” quanto à missa nova compete, única e exclusivamente, aos bispos e aos padres, os quais são os que têm luzes de estado para tal; e até pode dizer-se que um bispo as há de ter mais que um padre.]
6) para os demais supostos em que alguém pode ver-se obrigado a assistir à nova missa por algum compromisso grave e ineludível, remetemos à nossa compilação dos princípios dados por Dom Lefebvre a este respeito, e que se encontram no trabalho indicado em nota da página anterior,
7) quanto a se, não estando obrigado a cumprir o preceito indo à missa nova, e não tendo a Missa tridentina no rito latino, há um dever de assistir à missa de rito oriental católico, responde-se que per se [ou seja, essencialmente] não há tal dever. E a razão é que, na confecção e recepção dos Sacramentos, cada um está obrigado normalmente às prescrições litúrgicas que regulam a vida sacramental: os latinos ao rito latino (cn. 732 §2). Assim, tanto o que celebra como o que participa da Santa Missa devem fazê-lo no rito a que pertencem, ainda que, como exceção, o fiel pode cumprir o preceito num rito católico distinto do próprio como dissemos (cânon 1249) e comungar por devoção do mesmo modo (cânon 866 §1). Per accidens pode talvez haver o dever de assistir à Missa num rito que não é o próprio para cumprir o preceito anual de comungar, mas isto não é evidente.»



[1] Para isso, ver entre outros documentos: “Breve Exame Crítico do ‘Novus Ordo Missæ’”, dos Cardeais Ottaviani e Bacci; “Implicações Teológicas e Morais do Novo ‘Ordo Missæ’”, de Arnaldo Vidigal Xavier da Silveira; “A Nova Missa”, de Louis Salleron; “O Cânon Romano”, de Roger-Thomas Calmel (OP); “Em Defesa da Missa”, ed. Revista Roma; e, especialmente, “Un Grave Problema de Conciencia según as palabras y pensamiento de Monseñor Lefebvre”, em suplemento da revista Iesus Christus nº 60, e tudo o que ali se diz com respeito à participação “material”.
[2] Dizia Dom Lefebvre a este respeito: “Não vejo como se pode dizer que esta reforma seja má de maneira puramente acidental, de maneira exterior, extrínseca... Uma coisa é que não seja em si mesma inválida ou formalmente herética, e outra coisa é dizer que não há nada mau na missa... Ela é verdadeiramente uma missa envenenada: porque já não afirma a verdade católica e pouco a pouco a fé nessas verdades desaparece...”
[3] Decreto do Santo Ofício de 7 de agosto de 1704, citado na revista SISI NONO, versão espanhola, do mês de outubro de 2002. Cf. também: decreto de dezembro de 1668: “Episcopus Tribuniensis mandet catholicis sibi subiectis ne accedant ad Missas et alia oficia divina in ecclesiis schismaticorum eodemque moneat, in casu carentiæ Missæ catholicorum non teneri præceptum Misam audiendi”, en “Codicis Iuris Canonici Fontes”, cura Emi. Petri Card. Gasparri, vol. IV, ed. Vaticanis, año 1926, n. 738, p. 45. 
[4] Sendo uma missa “protestantizante”, põe os fiéis em “perigo de sofrer um grave dano… moral”, e portanto dispensa do preceito (cf. Roberti, “Dicionário de Teologia Moral, entrada: santificação das festas”).