sexta-feira, março 04, 2016

Não há nada de açúcar no bolo


Por S  

em 28/02/2016



Uma pessoa me enviou o link, para o texto de um amigo que critica a afirmação de que a posição do Padre Cardozo “não existe nada de católico na Igreja Conciliar” é uma forma de sedevacantismo absoluto (eclesiavacantismo). O texto foi escrito por um amigo, que também julgo não ser necessário citar o nome pelas mesmas razões que ele não o faz. Sobre o texto, tenho a dizer o que poderá se ler abaixo.

Uma empresa só faz um recall, porque há algo dela no automóvel que é seu objeto. Assim,  por exemplo, um defeito em um Gol objeto de recall, não significa que nele “não há nada da Volkswagen”. Significa que nele há algo da Volkswagen com defeito. Somente no caso, de um veículo de outra montadora, é que se pode dizer que ele não tem nada da montadora concorrente, ou seja, a Ford não pode convocar um recall do Gol, porque no Gol “não há nada da Ford”.  A questão versa sobre o significado do termo “não há nada de católico na Igreja Conciliar”, para a qual essa analogia não acrescenta nada, uma vez que o defeito em um Gol, não é o suficiente para que se possa afirmar “não há nada da Volkswagen no Gol”.

No que diz respeito a Missa Tridentina, por ordem do Concílio de Trento se publicou o “De deffectibus in celebratione missarum ocorrentibus”, onde constam todos os defeitos que podem tornar uma Missa inválida ou com outros que implicam em algum pecado de maior ou menor gravidade. Para que se possa dizer que uma Missa não tenha nada de católico é preciso que não tenha forma, matéria e o sacerdote validamente ordenados. Assim, pode-se dizer que o rito anglicano não tem nada de católico, mas de forma alguma pode se dizer que uma Missa defeituosa, ainda que inválida, não tenha nada de católico.

Lê-se ainda no texto que o Padre Cardozo permite que um fiel viva com um Padre Ordenado no Novo Rito, então, pode se dizer que na prática ele afirma o que nega na teoria, ou seja, que existe algo de católico na Igreja Conciliar. O mesmo admite na primeira resposta sobre a questão dos milagres, quando diz:

““1º. Foi levantado se há consagração nas missas novas, a respeito disso sabemos que não se pode sustentar que todas as missas novas sejam inválidas, enquanto se mantenham as condições necessárias: ministro válido, fórmula precisa etc., condições estas cada vez menos frequentes” Pode haver milagres fora da Igreja? Padre Ernesto Cardozo – http://catolicosresistentes.com.br/resistencia-catolica/pode-haver-milagres-fora-da-igreja-catolica/

Como se pode dizer “Sim, sim, Não, não” afirmando uma coisa na teoria e fazendo outra na prática? O que é a verdade: o que se afirma na teoria ou o que se faz na pratica? É bem simples: ou há algo de católico na Igreja Conciliar ou não há. Se o Padre Cardozo aceita que um fiel, viva com um Padre ordenado no novo Rito e que nem todas as Missas Novas são inválidas, ele não pode vir a público e dizer “não há nada de católico na Igreja Conciliar”. Como também não se poderia ler em seu blog extra-oficial que “Fora da Santa Tradição não existe salvação”: o fiel, só vive com o Padre Fernando, porque é possível alcançar ali a salvação, ali tem algo de católico. Isso é que gera o caos de que fala D. Williamson na resposta dada a Padre Cardozo. Se trata da mesma confusão que se observou na polêmica dos milagres, onde mostrou-se que de forma extraordinária pode haver milagres fora da Igreja, e mesmo assim, o Padre Cardozo e seus fiéis continuaram com a polêmica. O que pensar disso? Pode haver defesa da fé católica, sem humildade?

O Professor Nougué, e qualquer um, pode muito bem afirmar que os sacramentos da Igreja Conciliar são duvidosos, sem incorrer em sedevacantismo absoluto/eclesiavacantismo. Contudo, nem o Professor Nougué e nem quem faz essa afirmação, saem por ai defendendo com unhas e dentes que “não há nada de católico na Igreja Conciliar”. Quem faz essa afirmação já não tem dúvidas de que tais sacramentos são inválidos e que dos ritos reformados por Paulo VI, não sobrou nada de católico.

Por fim, se eu afirmasse que “não há nada de açúcar no bolo” e ao come-lo sentisse que ele é doce, minha afirmação seria falsa. Contudo, se não sinto doce, mas como a cereja, pode ser que ai se encontre algum açúcar, o que ainda assim invalidaria a afirmação, porque a cereja, ainda que seja uma parte estética, é parte do bolo…