quinta-feira, março 31, 2016

Respostas a acusações levantadas recentemente contra Bispos da Resistência – I

Por R. de Souza


Sobre árvores e seus frutos:

Pretendemos aqui demonstrar que um estimado sacerdote não se tem guiado pela razão em seus recentes posicionamentos, mas por alguma paixão; e quando se é movido por alguma paixão, há o sério risco de se distanciar da Fé (e como bem se sabe, corruptio optimi pessima). Que Nosso Senhor não o permita.
Ressaltemos que nossa intenção é não outra que a de contribuir de alguma forma com os fieis que ainda se encontram indecisos, e quiçá com um ou mais fieis e sacerdotes mais firmes em suas atuais posturas, em especial o padre que aqui citamos, a fim de que reflitam melhor sobre a susceptibilidade de nossa condição humana, sobre os tropeços que qualquer um de nós pode dar, e então voltem a combater o bom combate.
Assim, se for da vontade de Nosso Senhor, que produza bons frutos.

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1- É verdade que Dom Williamson teria tentado corrigir Nosso Senhor Jesus Cristo?

R. Não. Essa infeliz acusação foi feita pelo Pe. Cardozo, neste vídeo:  https://www.youtube.com/watch?v=ID21OwqT19Y, a partir de 14min e 44seg, quando diz:
Nos Eleison de 29 de novembro, Williamson, Monsenhor Williamson disse: Bom, mas a árvore má pode dar mais ou menos bons frutos; a árvore boa pode dar mais ou menos bons frutos”. Senhores, se nos pomos a pensar, é um bispo que se diz católico que está a corrigir à mesmíssima sabedoria infinita. Parece que Jesus Cristo não sabia de metafísica e de botânica. Coitado!

E neste outro, em que recusa o debate proposto pelo professor tomista Carlos Nougué: https://youtu.be/L1ArWCyWyYU, a partir de 2min e 39seg, quando diz:
            Eu parto do seguinte: quando uma pessoa corrige Nosso Senhor Jesus Cristo, quando uma pessoa, por exemplo, quando Jesus Cristo disse: a árvore boa não pode dar fruto mau, etc. e vem outro e disse “não, sim, há frutos mais ou menos bons”, e “esses” (os que apoiam o bispo) não se escandalizam...

2- Mas não foi isso o que disse Dom Williamson nos Comentários Eleison de 29 de novembro de 2014?

R. Não. Ele não disse que uma árvore boa e uma árvore má podem dar frutos mais ou menos, como afirmou o padre, mas precisamente que: uma árvore metade boa e metade má pode produzir frutos metade bons e metade maus. No entanto, se vista como um todo, uma mistura de bem e mal é má, mas isto não significa que, ao ser vista parte por parte, as boas partes da mistura sejam más como as partes más. Um câncer no fígado me matará, mas isso não significa que eu tenha câncer nos pulmões. Ora, nenhum homem da Igreja vivente, como qualquer homem vivo, é completamente bom ou completamente mau.

3- De fato, o padre distorceu as palavras de Dom Williamson. Mas ainda assim, não está o Bispo a realmente tentar “corrigir” Nosso Senhor?

R. Não. Ele está apenas a aplicar a parábola a outro objeto, (a saber, os Papas conciliares como entes humanos) diferente daquele abordado por Nosso Senhor Jesus Cristo, que é, segundo Santo Tomás, a vontade e os consequentes atos externos, no âmbito da Fé: a vontade perversa dos “falsos profetas”, as “árvores más” que levam à perdição, os maus frutos, (em oposição à boa vontade dos verdadeiros profetas, as “árvores boas” que produz bons frutos que conduzem à salvação).
São Jerônimo fez o mesmo: Perguntamos aos hereges que admitem em si mesmos duas naturezas contrárias: se, segundo seu modo de pensar, uma árvore boa não pode produzir maus frutos, como então Moisés, árvore boa, pecou junto às águas da contradição (Nm 26,72), São Pedro negou ao Senhor na paixão dizendo: ‘Não conheço esse homem’, e o sogro de Moisés, árvore má que não cria no Deus de Israel, lhe deu um bom conselho? (Referências aqui: http://www.estudostomistas.com.br/2016/03/diz-sao-jeronimo-ao-comentar-mateus-15.html).

4- Neste texto, sem reconhecer o equívoco cometido anteriormente, e que não fora justo, o Pe. Cardozo, agora usando a verdadeira citação, acusa Dom Williamson de modificar o sentido das Escrituras:

R. No contexto em que Dom Williamson aplica a parábola, ou seja, aos Papas conciliares como entes humanos, evidencia-se a possibilidade para menção ao meio termo, ou seja, à árvore doente, que é parcialmente boa e parcialmente má. Note que o objeto da analogia aqui é o sujeito da vontade e dos atos externos, e, portanto, em nada altera o que diz Nosso Senhor em relação à vontade e aos atos externos no âmbito da Fé.
Ademais, Nosso Senhor não diz em momento nenhum que literalmente existem somente árvores boas e árvores más, e que então não existiriam árvores doentes, mais ou menos boas e mais ou menos más. Também não diz que está proibido estabelecer analogias entre árvores boas e más e qualquer outra coisa que não a vontade e os atos externos. Também não o faz o Magistério.

5- Está definido em Concílio, sob pena de excomunhão, que “a ninguém é permitido interpretar a mesma Sagrada Escritura contrariamente a este sentido (o que é dado pela Santa Madre Igreja) ou também contra o consenso unânime dos Santos Padres”. Poderia aclarar mais a questão?

R. O que diz Dom Williamson não contraria, não “corrige”, apenas acrescenta à parábola quando esta é aplicada a outro objeto. Acrescentar em um âmbito não é contrariar nem corrigir em outro, e, portanto, não existe motivo para condenação. A parábola utilizada por Nosso Senhor é o que é: um discurso alegórico, ilustrativo, um artifício lingüístico; e uma parábola pode ser aplicada a vários contextos distintos, contextos que podem até mesmo modificar sua configuração original sem que o mesmo sentido de seu emprego original seja minimamente afetado. E se o sentido original não é afetado, isto quer dizer que o entendimento sobre o objeto original da parábola permanece intacto.
Em outras palavras, quando Dom Williamson diz que um Papa conciliar é uma árvore parte boa e parte má, não está com isso negando que a vontade má de um falso profeta só poderá produzir maus frutos e que a vontade boa de um profeta produzirá bons frutos, ou seja, não está modificando em nada as palavras de Nosso Senhor, o sentido pretendido por Ele.

6- O Pe. Trincado afirmou que as parábolas de Cristo não são definições dogmáticas. Que dizer disto?

R. Todo dogma é uma verdade revelada por Deus, mas nem toda verdade revelada por Deus é considerada formalmente um dogma. Segundo o Manual de Teologia Dogmática (Ludwig Ott. Herder, Barcelona, 1966, pg.30), dogma é uma “verdade diretamente (formalmente) revelada por Deus e proposta como tal pela Igreja para ser crida pelos fieis”.
Vejamos também o que diz o Dicionário de Teologia Dogmática (Parente, Piolanti & Garofalo. Editorial Litúrgica Española, Barcelona, 1955, pg. 112): “O dogma em sentido material é uma verdade contida nas fontes da divina Revelação; em sentido formal, é uma verdade revelada por Deus e proposta como tal pelo Magistério da Igreja aos fieis obrigando-os a crer nela”.
Relacionemos agora este sentido formal ao que diz o mesmo dicionário (pg. 99) sobre Definição Dogmática: "É a solene declaração da Igreja sobre uma verdade contida nas fontes da divina Revelação (Sagrada Escritura e Tradição) e proposta aos fieis, que se veem, portanto, obrigados a crer nela...”.
Ora, como bem observa o mesmo Pe. Trincado, a Igreja nunca propôs nada sobre árvores e frutos bons e maus, e se é assim, não estamos diante de uma definição dogmática, tal como afirmado pelo sacerdote. 

7- Mesmo depois ter criticado as palavras precisas de Dom Williamson, o Pe. Cardozo voltou a acusá-lo equivocadamente de ter dito que “as árvores boas dão frutos mais ou menos maus, e vice-versa”, e pôs-se ainda a acusar Dom Tomás de ratificar isto, e a Dom Faure de omissão por não corrigi-los (aqui: http://farfalline.blogspot.com.br/2016/03/las-oscuras-clarificaciones-de-dom-tomas.html).

R. Ele, consciente disto ou não, tem insistido no uso do argumento sofístico conhecido por “falácia do espantalho”, em que representa enganosamente o que foi dito por seu adversário para então poder criticá-lo.
Eis o que de fato disse Dom Tomás: “Uma árvore má dá maus frutos e uma árvore boa dá bons frutos. Um fruto é bom ou é ruim. Ponto final. Infelizmente a realidade é mais complexa. Santo Tomás diz que a árvore má é a vontade perversa. Uma vontade perversa não pode dar frutos bons, mas o mesmo homem pode, ora dar frutos bons, ora dar frutos maus, pois o mesmo homem pode pecar como São Pedro pecou e se arrepender como São Pedro se arrependeu. O mesmo homem pode ter uma vontade perversa e, tocado pela graça, pode ser justificado e vir a ter uma vontade boa” (mais aqui: http://www.nossasenhoradasalegrias.com.br/2016/03/esclarecimentos-por-dom-tomas-de-aquino.html).
            Explica também o Pe. Trincado que uma ação pode ser uma mistura de intenções boas e más, tal como o exemplo de alguém que dá uma esmola por caridade e ao mesmo tempo para passar a imagem de sujeito caridoso, e o de alguém que explica a verdade e se vangloria. Está este alguém a dar um fruto meio bom e meio mau.
            Repetimos, por fim, que aplicar a analogia ao sujeito da vontade e do ato exterior consequente não compromete em absolutamente nada a sua aplicação em relação à própria vontade e ao ato exterior consequente, ou seja, o que diz Dom Williamson e Dom Tomás, bem como o que diz São Jerônimo, autor da Vulgata, em nada modifica o que diz Nosso Senhor.

8- Posso concluir então que estamos nitidamente diante de um mau fruto produzido pelo Pe. Cardozo?

R. Sim, infelizmente. Se o que dizem Dom Tomás e Dom Williamson é certo, então o Pe. Cardozo, como todo ente humano, é uma árvore mais ou menos boa e mais ou menos má. Por outro lado, se só existissem árvores boas e árvores más como o padre mesmo tem defendido, então se poderia afirmar, por suas acusações que aqui provamos serem tecidas sobre distorções, e, portanto, injustamente, ou seja, um fruto mau, que ele mesmo seria uma árvore má. Sabemos, porém, que isto não é verdade, e esperamos que ele possa se dar conta de seu desvio (algo a que todo católico está susceptível até o derradeiro suspiro) o quanto antes, e retome o bom caminho, dando continuidade ao que vinha-se mostrando até o ano passado um admirável trabalho missionário.