sábado, março 05, 2016

Uma regra de Santo Inácio nos exercícios espirituais


 
Para que, tanto o que dá os Exercícios como o que os recebe, se ajudem mutuamente e tirem maior proveito, deve-se pressupor que todo bom cristão está mais pronto a salvar uma proposição do próximo do que a condená-la. Se não pode justifica-la, pergunte como é que ele a entende; se a entende mal, corrija-o com amor; se isso não basta, procure todos os meios convenientes para que a entenda bem e assim se salve”. Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, n.º 22

Eis uma regra preciosíssima! Também pregada pelos Padres da Tradição, nos retiros, onde são realizados os Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola. Eu particularmente participei de um só retiro e nunca mais a esqueci. Pena que alguns apenas a ensinam, enquanto outros apenas ouvem, e não fazem dela uso em suas próprias vidas (sacerdotes ou leigos). Se a fizessem essa polêmica dos milagres nunca teria acontecido. Neste artigo, vamos fazer uma aplicação dessa regra (como exemplo) em uma fala de D. Williamson que tem sido amplamente má utilizada pelos seus adversários. A partir dessa aplicação, veremos o seu valor e também que a malícia não é nossa, mas de nossos adversários.

Na conferência de D. Williamson, junho de 2014, em Post Falls, Idaho, EUA, ele disse:

“Si…, si…, si… por algún milagro, el Papa Francisco me llamase la semana próxima y me dijese:
— Excelencia, usted y yo hemos tenido nuestras divergencias, pero en este momento lo autorizo a fundar una sociedad. Siga usted adelante por el bien de la Iglesia.
— Santo Padre, ¿puede, usted, poner esto por escrito? ¿Le molestaría que vaya a Roma a buscar el documento con su firma?
— Pero, por supuesto.
— Muy bien, entonces yo estaría en el próximo avión hacia Roma. ¡Yo estaría en el próximo avión hacia Roma!”

Primeiro, não há razão para eles se preocuparem, eles mesmos acreditam, como dogma de fé, que não existem milagres fora da Igreja. Ora, as palavras “por algún milagro” condicionam todo o restante da fala de nosso bispo, mas seus adversários a têm lido como se não existisse. O uso dessas palavras aponta para a impossibilidade disso acontecer, pois para Francisco chamar D. Williamson a Roma, ele teria que aceitar o que ele é, o que representa e o que defende. Assim, o chamado indicaria uma mudança radical e substancial, milagre, em Francisco, não em D. Williamson. Também parecem ter esquecido que Roma não aceitou a participação de D. Williamson nas conversações doutrinárias, e que ao menos aparentemente, a sua expulsão da FSSPX foi uma condição para a continuação das conversações. No fundo foi uma brincadeira do Bispo (leia-se o artigo “Pérolas agostinianas”), uma sátira a palavras de D. Fellay, levada muito a sério por aqueles que sempre estão à procura de algo para atacá-lo, porque se Roma levasse a sério uma crônica semanal, como levam os adversários de D. Williamson, ela já teria vindo correndo para conversar com o nosso Bispo, não perderia essa chance de aniquilação. Então, vemos pela utilização da regra de Santo Inácio, que é uma proposição que entenderam mal, e não seria injustificável, não foi preciso a nós nem dar os outros passos, que eles deveriam ter dado, uma vez que não a entenderam.

Algumas considerações ainda se fazem necessárias, tais como:

1 –  Julgamos as coisas boas ou más pelo fim ao qual tendem. O Padre Garrigou Lagrange escreve no livro “Essência e atualidade do tomismo, A atualidade do tomismo e as necessidades do nosso tempo“:

A ação verdadeira se define em relação ao verdadeiro fim ultimo a que essa diz ordenada e não vice-versa; de outra forma nós não sairemos do subjetivismo, do relativismo e do pragmatismo”.

O diálogo, conversações e mesmo acordos, são meios, não são fins. Não podem ser considerados coisas más em si, isso depende da consideração de seus termos, por isso D. Williamson se posiciona contra o isolacionismo (parte do erro de considerar meios, como fins). Nosso Senhor não mandou os apóstolos fazerem distinção entre as criaturas, quando deu o mandato: “E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho a toda criatura*” (Mc 16,15). Ademais depois de tudo o que aconteceu e o próprio D. Williamson viveu com a FSSPX, só se fosse bobo, ele aceitaria um acordo prático. Na posição dos adversários de nosso Bispo há muito idealismo, muita imaginação, e muito pouco realismo. É preciso uma imaginação muito fértil para se pensar que ele faria um acordo prático com Roma. Esse, considerando a via inversa, é o milagre que espera Francisco, e que não aconteceu, uma vez que D. Williamson não fez nenhuma comunicação oficial e ninguém veio correndo de Roma atrás dele. Os Comentários Eleison são apenas crônicas semanais, não são magistério do bispo;

2 – As conversações entre a FSSPX e Roma, a princípio eram boas pelo fim que foi apresentado: a conversão de Roma. Se tornaram más, quando percebemos que o fim, na verdade, era o acordo prático;

3 – Muitas vezes vi Padres da Resistência responderem à questão: – E quando o Papa faz ou diz algo conforme a tradição, o que os srs fazem? Ao que se ouvia a resposta: – Não fazemos nada, porque ele está apenas cumprindo o seu ofício. Assim, como a questão não era uma disputa pessoal entre o Papa, D. Lefebvre e os Padres da FSSPX, também não se trata de uma disputinha pessoal (picuinha) entre D. Fellay e D. Williamson;

4 – Mons. Lefebvre disse:

“Supondo que daqui a um determinado tempo Roma nos chame, que queira voltar a ver-nos, retomar o diálogo, nesse momento seria eu quem imporia condições. Já não aceitarei estar na situação em que nos encontramos durante os colóquios. Isso terminou. (…) Se não aceitais a Doutrina de seus antecessores, é inútil falarmos”. (Entrevista concedida a Fideliter Nº 66, novembro-dezembro de 1988);

Isso foi dito a praticamente 30 anos atrás, quando havia quem conhecesse a doutrina dos Papas pré-conciliares. Francisco já é fruto maduro do Concílio, não teve formação tradicional, a doutrina tradicional tem que ser pregada oportunamente e importunamente (II Tm 4,2). Temos uma situação análoga àquela que S. Paulo confrontou na Carta aos Romanos, onde disse:

14.Porém, como invocarão aquele em quem não têm fé? E como crerão naquele de quem não ouviram falar? E como ouvirão falar, se não houver quem pregue? 15.E como pregarão, se não forem enviados, como está escrito: Quão formosos são os pés daqueles que anunciam as boas novas (Is 52,7)?” (Rm 10, 14-15)

Só para reforçar: eu disse análoga, não idêntica;

5 – A fundação de uma sociedade, não significa o mesmo que uma regularização;
6 – A FSSPX foi fundada por Mons. Lefebvre na época de Paulo VI, que foi muito pior do que Francisco;
7 – Como mais uma vez podemos constatar, a questão não eram os milagres, mas sim o próprio D. Williamson;
8 – Padre Curzio Nitoglia repete em vários de seus textos a seguinte expressão atribuída a Santo Inácio de Loyola:

“Fatos e não palavras”

Neste sentido, perguntemos:

O que tem os adversários de D. Williamson além de palavras?
Alguém viu a excomunhão de D. Williamson ser retirada?
Ninguém até agora viu uma atitude concreta de uma parte em direção a outra, portanto, estamos diante da continuidade da obra shakespeariana dos milagres: “Muito barulho por nada”.

Por tudo o que foi escrito, terminamos dizendo aos Padres que ensinam e aos leigos que receberam o ensinamento dos “Exercícios espirituais”, que não sejam apenas ouvintes, mas que se tornem também praticantes daquilo que Santo Inácio ensina nos Exercícios. Principalmente a regra de que falamos neste artigo, que se praticada, teria evitado toda a polêmica e confusão que agora vemos na Resistência.

* O Padre Antônio Vieira, explicando o mandato, no magnífico Sermão da Sexagésima, diz:

“Quando Cristo mandou pregar os Apóstolos pelo Mundo, disse-lhes desta maneira: Euntes in mundum universum,  praedicate omni creaturae: «Ide, e pregai a toda a criatura». Como assim, Senhor?! Os animais não são criaturas?! As  árvores não são criaturas?! As pedras não são criaturas?! Pois hão os Apóstolos de pregar às pedras?! Hão-de pregar aos  troncos?! Hão-de pregar aos animais?! Sim, diz S. Gregório, depois de Santo Agostinho. Porque como os Apóstolos iam  pregar a todas as nações do Mundo, muitas delas bárbaras e incultas, haviam de achar os homens degenerados em todas as  espécies de criaturas: haviam de achar homens homens, haviam de achar homens brutos, haviam de achar homens troncos,  haviam de achar homens pedras. E quando os pregadores evangélicos vão pregar ar a toda a criatura, que se armem contra  eles todas as criaturas?! Grande desgraça!”