quinta-feira, abril 21, 2016

Dos Bons e Maus Frutos na Resistência

Por Frei Maseo
Traduzido por Andrea Patrícia

Orgulho farisaico

"Vós não sabeis de que espírito sois" (Lucas 9, 55).


Os últimos meses têm-nos feito testemunhas de uma série ininterrupta e crescente de ataques aos Bispos em particular, e à Resistência Católica em geral, por parte de certos sacerdotes e seus acólitos que, havendo se empoleirado sobre imaginários pedestais, desde dentro mesmo da Resistência estão minando a boa obra que continua a resistência deixada por Mons. Lefebvre na FSSPX. Pelo que temos visto, por tudo que se refere às ações do Pe. Pfeiffer nos Estados Unidos em recentes artigos e informes, e também de outros de seus colegas e cúmplices em outros pontos de nosso continente, a ação diabólica está sendo levada a cabo de maneira furiosa e constante a fim de dividir e corromper a Resistência, assim como o fermento farisaico que corrompe a massa e sobre a qual nos advertiu Nosso Senhor. Esse fermento atuou silenciosamente por certo tempo, mas agora as consequências de sua podridão são estridentes. "As inimizades, as contendas, as rivalidades, as iras, as rixas, as discórdias, a inveja", são alguns dos frutos da carne que menciona São Paulo em Gálatas 4, 20-21, e que vemos agora amadurecer em diversas árvores que apresentam a si mesmas como irrepreensíveis campeões da fé. A estas obras da carne podem acrescentar-se os frutos venenosos do desprezo pela autoridade, a difamação, a mentira, a calúnia, os falsos raciocínios, os juízos temerários, as ameaças, a destruição parcial de uma capela, a publicação constante de correspondência privada, os escândalos... Tudo em nome da fé pura e incontaminada, sob o estandarte de um Cristo que desconhecem e de um Monsenhor Lefebvre que citam, mas que não imitam.

Qual é o espírito que sopra e empurra sobre esses revolucionários que enganam aos incautos e matam com sua língua os fieis que não se submetem a eles, tudo sob a armadura combatente da Tradição Católica? Quiçá em alguns possa ter existido no início longínquo nobreza de intenções, mas cremos ver na atual e penosa degradação de certos sacerdotes o espírito de Judas, de Caifás, de Pilatos. O drama da traição, o circo vociferante da multidão confusa e desordenada, e a lapidação impiedosa voltam a se repetir. Somente a paz de Cristo pode ajudar-nos a permanecer alheios aos uivos ferinos para assim poder discernir claramente a quem nós enfrentamos. Insensatos e orgulhosos abriram a "caixa de Pandora" das paixões mais vergonhosas, pois envolvem o orgulho homicida.

É necessário alertar e identificar o tipo de espírito com que somos tentados e que está operando em sacerdotes e leigos que, uma vez fieis, começaram a desviar-se da boa senda, até chegar a perverter sua própria vocação e converter-se hoje em acusadores permanentes e perseguidores de cristãos. Cremos que a ajuda do Padre Juan Bautista Scaramelli e seu "Discernimentos dos espíritos", clássico da teologia espiritual e livro de consulta obrigatório dos bons diretores espirituais, nos dará uma satisfatória resposta para entender que tipo de espírito se intrometeu em nossos postos de combate, para tentar desconcertar e destruir a obra de Deus na Resistência Católica.
Disse nosso autor, seguindo os ensinamentos de São Bernardo: O espírito do mundo é uma propensão interna à ambição, às honras, à gloria, aos postos, às dignidades, à propriedade e às riquezas. Depois de haver dito o melífluo Doutor que quando nos sentimos incitados ao prazer, à honra e à riqueza, o demônio opera em nós por meio destes seus pérfidos companheiros: carne e mundo, acrescenta que quando depois nos sentimos movidos à ira, à impaciência, à inveja, às inquietudes, às desconfianças, à revolução e à amargura de ânimo para com os próximos, que parecem nos ofender, opera então o maligno por si só.

O espírito humano, por outro lado, é uma inclinação imperfeita à natureza debilitada da culpa original, a qual reina também nas pessoas que aborrecem ao demônio, ao mundo e à carne, e professam virtude e devoção. Agora, deste espírito defeituoso, disse o citado autor [Kempis] que se busca sempre a si mesmo, e a si mesmo tem sempre por fim suas obras, porque pouco se importa com a vontade, o agrado e a glória de Deus, e somente se inclina à própria comodidade, à própria satisfação, à própria utilidade e à própria estima.

Buscam a própria estima, ou seja, a reputação. Assim, há pregadores que anunciam a palavra de Deus para ensinamento das pessoas, mas desejam, juntamente com a saúde dos outros, seu próprio aplauso, como se reconhece em seus sermões, compostos, mais com arte de ganhar crédito para si do que para ganhar almas para Deus. (...) e geralmente falando, podemos dizer que este amor à própria estima é um verme que corrói quase todas as boas obras das pessoas espirituais imperfeitas.

Há um ativismo insensato quiçá nascido do bom zelo apostólico, mas que por sua mesma inércia e em detrimento da vida contemplativa e da oração, conseguiu desordenar e inverter a ordem de prioridades, levando os homens de labor apostólico a pensar que eram mais importantes suas ações que suas orações, ou quiçá tirando de suas ações o apoio de suas orações, e eles terminaram enredados numa vida pouco religiosa ou distante da união com Deus, apesar de sua Missa diária. O exterior tomou corpo e voltou sua vontade defeituosa, por misturar o amor próprio com o amor divino. Daí que as pessoas dominadas por este espírito imperfeito detestam a mortificação, como a morte, porque a natureza dominante não quer ser reprimida, abatida e sujeitada. (Scaramelli, ob. cit.). Deriva-se daí o afã de independência, o orgulho que não mede a crítica nem respeita investiduras, pois se perde toda a ideia de hierarquia e a necessidade evidente de reconhecer-se sob os Superiores.

Como acontece esta queda nas almas? Imperceptivelmente e gradualmente, quiçá para quase todos, particularmente se deve a uma falta de oração e vigilância ("orai e vigiai", disse-nos Nosso Senhor) e também por falta de diretores espirituais capazes de distinguir essas coisas nas almas de seus dirigidos. Muito mais quando sacerdotes solitários tornam-se anárquicos, seus fieis reverenciam-no em excesso, e pensam que não devem prestar contas a superiores que poderiam ser seus pais espirituais na pequena grande família que a Resistência deveria ser. Alguns sacerdotes já vinham incubando esse mau espírito de orgulho farisaico, inclusive dentro mesmo da FSSPX, e o surgimento da Resistência abriu-lhes as portas para uma saída "heroica" ou "decorosa". Mas hoje já não podem continuar dissimulando, e o mau espírito que os move explode uma vez mais, neste caso com argumentos falaciosos, irreais, fantasiosos e passionais.

Também cremos ver na ignorância e nos erros dessa gente a semente evangélica que não vingou: Quem ouve a palavra do reino e não a compreende, vem o mau espírito e lhe arranca o que se havia semeado em seu coração; este é aquele que recebeu a semente à beira do caminho (Mateus 13,19). Semeados à beira do caminho, porque esses pseudoprofetas da “super-Resistência” se desviaram da boa senda que indicara Mons. Lefebvre, sobretudo com seu exemplo. Apartaram-se da senda de terra que é a humildade, e então a semente nunca pode morrer para nutrir seus corações da vida mesma de Deus. E é palavra não compreendida pela explicação que dá Mons. Straubinger: Não há desculpa por não compreendê-la, porque o Pai a revela aos pequeninos mais ainda que aos sábios (Mateus 11,25). O que não entende as palavras de Jesus, disse São João Crisóstomo, é porque não as ama, mas, como, estas pessoas não proclamam a cada instante amar a palavra de Deus e ser suas grandes defensoras? Precisamente neste alarde ostentoso e seu afã de impor-se com prepotência, demonstram que não a amam, porque quem a ama a compreende, e quem a compreende faz-se pequeno, humilde, simples e caridoso, e não orgulhoso, inquieto, tormentoso e falso. O orgulho farisaico eleva-se pelo desdém com relação ao próximo: “Nós não somos como eles...". E uma vez elevado, não percebe que assim expõe melhor ao público o seu ridículo. E aquele que não tem o mesmo espírito que ele, é inimigo ou suspeito.

Nosso Senhor já nos advertiu contra os falsos profetas, os lobos vestidos de ovelhas. Santo Agostinho aborda este tema em relação com os bons ou maus frutos da árvore em seu livro "O Sermão da Montanha", do qual reproduzimos algumas passagens que se deve ter em conta para elucidar melhor, sem paixões, este delicado tema:

“78. Devemo-nos precaver, sobretudo, daqueles que prometem a sabedoria e o reconhecimento da verdade que não têm, como são os hereges, os quais se recomendam a si mesmos por seu escasso número. E por esta razão o Senhor, depois de haver dito que são poucos aqueles que encontram a porta estreita e o caminho estreito, a fim de que não se introduzam com o pretexto de ser um número reduzido, rapidamente acrescenta: cuidado com os falsos profetas que vêm disfarçados com peles de ovelhas, mas por dentro são lobos vorazes. Mas estes não enganam ao olho simples, que sabe distinguir a árvore por seus frutos; assim disse: Por seus frutos os conhecereis. Em seguida acrescenta algumas analogias: Acaso se colhem uvas dos espinhos ou figos das sarças? Assim que toda árvore boa produz bons frutos e toda árvore má dá frutos maus. uma árvore boa não pode dar frutos maus, e uma árvore má dar bons frutos. Toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo. Por seus frutos, pois, os conhecereis.

Quais são os frutos de más e boas obras.

81. O apóstolo ensina quais são os frutos pelos quais reconhecemos a árvore má: São bem conhecidas as obras da carne: fornicações, desonestidades, luxúrias, idolatrias, feitiçarias, inimizades, litígios, ciúme, ira, rixas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, embriaguez, glutonaria e coisas semelhantes; sobre as quais os previno, como já tenho dito, que os que tais coisas fazem não alcançarão o reino de Deus. E em seguida ensina quais são os frutos pelos quais podemos reconhecer a árvore boa: Ao contrário, os frutos do Espírito são: caridade, regozijo, paz, paciência, magnanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, continência".

(Santo Agostinho, "O Sermão da Montanha", L. II, Cap. XXIV)

Temos aqui o critério para discernir muitas árvores que de boas tornaram-se más (pois Santo Agostinho fala de árvores referindo-se a vontades e não a naturezas): "O Apóstolo ensina quais são os frutos, pelos quais uma vez reconhecidos, reconhecemos a árvore má: São bem conhecidas as obras da carne: fornicações, desonestidades, luxúrias, idolatrias, feitiçarias, inimizades, litígios, ciúme, ira, rixas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, embriaguez, glutonaria e coisas semelhantes; sobre as quais os previno, como já tenho dito, que os que tais coisas fazem não alcançarão o reino de Deus."

Não é necessário que se deem todos estes frutos, mas distinguindo alguns podemos discernir diante de que tipo de árvore nos encontramos; as provas estão diante dos olhos de quem possa ver com olhar simples, sem perturbações produzidas pelas paixões desenfreadas, nem ao calor do fogo das disputas pessoais, nem de uma fé corrompida e deformada. Os revoltosos que tentam  destruir a Resistência, digamos uma vez mais, oferecem de sua seita hortifrúti desonestidades, idolatrias, inimizades, litígios, ciúme, ira, rixas, dissensões, invejas, etc. Se a árvore é boa, podemos reconhecer estes frutos: caridade, regozijo, paz, paciência, magnanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, continência."

Finalmente trazemos e destacamos umas palavras de São Pedro de total atualidade, para reconhecer o que ocorre com os agitadores do diabo que tentam destruir a Resistência: Mas houve também falsos profetas no povo, assim como entre vós haverá falsos doutores que introduzirão furtivamente sectarismos perniciosos, e chegando a renegar Nosso Senhor que nos resgatou, atrairão sobre eles uma ruína repentina. Muitos os seguirão em suas dissoluções, e por causa deles o caminho da verdade será caluniado. por avareza farão tráfico de vós, valendo-se de razões inventadas: eles, cuja condenação há muito tempo os ameaça e cuja ruína não dorme (II Pedro, 2, 1-3). Como disse o Eclesiastes: Não há nada de novo debaixo do sol.

Original em Syllabus