domingo, abril 03, 2016

Dos sentidos e da inerrância das Escrituras



I

Como o mostra Santo Tomás de Aquino (cf. Suma Teológica I, q. 1, a. 10, c.), o autor das Escrituras é Deus mesmo, e, para significar algo, ele pode empregar não somente palavras – o que também o homem faz –, mas as coisas mesmas. Só as Escrituras têm como próprio que as próprias coisas significadas pelas palavras também possam significar algo. A primeira significação, ou seja, aquela segunda a qual as palavras significam algo, constitui o sentido literal ou histórico das Escrituras, enquanto a significação pela qual as próprias coisas significadas pelas palavras designam, por sua vez, outras coisas é o sentido chamado espiritual. Este segundo sentido, todavia, se funda no sentido literal ou o pressupõe.

II

Mas o sentido espiritual subdivide-se por sua vez. Com efeito, diz o Apóstolo (cf. Epístola aos Hebreus) que a lei antiga é figura da lei nova, enquanto a lei nova, como diz Dionísio Areopagita, é figura da glória futura. Na lei nova, ademais, o que se cumpriu na cabeça é figura do que devemos fazer.
1. Assim, quando nas Escrituras as coisas da lei antiga significam as da lei nova, tem-se o sentido alegórico;
2. Quando, por outro lado, as coisas sucedidas em Cristo, ou no que Cristo representa, são sinal do que havemos de fazer, tem-se então o sentido moral.
3. Quando, enfim, estas mesmas coisas significam as coisas da glória eterna, então se tem o sentido anagógico.

III

Como, todavia, o sentido literal é justamente o que o autor quer significar, e como, repita-se, o autor mesmo das Escrituras é Deus, que intelige simultaneamente todas as coisas, não há inconveniente algum em que, como o diz Santo Agostinho, em um mesmo texto das Escrituras se encontrem vários sentidos, sempre, insista-se, segundo o sentido literal ou histórico ou em ordem a este.

IV

Há que entender adequadamente, no entanto, o que aqui se chama literal. Literal tem aqui exatamente o sentido de à letra (ad litteram), ou seja, segundo a letra. Mas a letra pode ser também de alguma analogia de proporcionalidade imprópria, ou seja, de alguma metáfora, ou de alguma figura aparentada à metáfora: símile, metonímia, sinédoque, hipérbole, etc. É o que se chama sentido parabólico, que, di-lo Santo Tomás de Aquino (Suma Teológica I, q. 1, a. 10, ad 3), “está contido sob o sentido literal: porque pelas palavras podemos significar algo em sentido próprio ou em sentido figurado [ou seja, por analogia de proporcionalidade imprópria, como dito]; neste último caso, o sentido literal não designa a própria figura, mas o que ela figura [ou representa]. Com efeito, quando as Escrituras falam do braço de Deus, o sentido literal não indica que haja um membro corporal em Deus, senão que indica o que é significado por esse membro, no caso a virtude operativa [divina]. Isso patenteia que o sentido literal das Sagradas Escrituras não pode nunca padecer nada falso” (destaque nosso).

V

E, com efeito, afora casos eventuais de defeito de cópia, as Sagradas Escrituras não podem conter erro algum: justamente porque Deus, seu autor, é inerrante, enquanto o hagiógrafo ou escritor sagrado não é senão o instrumento de que se vale Deus de modo, insista-se, inerrante.* Mas o dito mais acima há de prevenir-nos contra um exagero interpretativo, no qual nunca incorrem os Padres, nem Santo Tomás, nem, muito menos, o magistério da Igreja: o de considerar que o sentido literal nunca pode ser metafórico, e assim julgar que as palavras das Escrituras têm caráter de um como tratado científico. Não o têm. Vejamos alguns exemplos.
• Conquanto o Gênesis encerre todos os principais caracteres metafísicos da criação do mundo (criação no tempo e de nada [ex nihilo], ordem da criação, culminação no homem, etc.), nele Deus, por intermédio do instrumento Moisés, se vale de imagens sensíveis, e isso é assim porque, como dizem, entre outros, São João Crisóstomo, Santo Tomás de Aquino e Leão XIII (este na encíclica Providentissimus Deus), o Gênesis foi escrito para “um povo rude” que, no entanto, precisava educar-se na fé em ordem a ser aquele de onde nasceria o Messias. É por essa razão, aliás, que Santo Tomás de Aquino, ao tratar na Suma Teológica dos Dias da Criação, suspende o juízo quanto ao número destes e apenas expõe as diversas interpretações dos Padres (ou sete dias exatos, ou, para Santo Agostinho, incontáveis “anos” angélicos, etc.).**   
• Não há erro algum no dito em Jó 20, 26, ou seja, que a víbora mata pela língua: trata-se de perfeita metáfora; assim como não há erro algum em dizer que o grão ou semente de mostarda é a menor de todas: trata-se de hipérbole (ou, talvez, de afirmação segundo a agricultura de então).
Mas, insista-se, que não haja nem possa haver erro algum nas Escrituras não implica que estas se componham de tratados científicos. – Consigne-se, aliás, o ridículo de certos tradicionalistas atuais segundo os quais a terra está imóvel no centro do universo (pode até, com efeito – o que é opinável –, ocupar o centro geométrico do universo; mas já temos certeza de que se move com movimento de rotação e de translação) ou, pior, é chata, suspensa por umas sortes de pilastras e coberta por uma redoma transparente... Isso, como diriam Santo Tomás de Aquino e Leão XIII, é lançar a fé ao escárnio dos ímpios.

VI

Que todo o dito contribua para que os católicos bem-intencionados não se deixem pegar nas armadilhas de interpretações arbitrárias ou caprichosas, como a que com assombro vemos fazer-se agora mesmo com respeito à passagem evangélica das árvores e dos frutos sem levar em conta o estabelecido verdadeiramente pelos Padres e pelo magistério da Igreja (cf. Simples perguntas a um sofista: e Decretos dogmáticos sobre a interpretação das Escrituras).



* Se o hagiógrafo, enquanto instrumento de Deus, é absolutamente inerrante, o papa, enquanto assistido pelo Espírito, é infalível. Por um ângulo, ser inerrante é mais que ser infalível; mas, por outro ângulo, como o magistério do papa enquanto assistido pelo Espírito é a regra próxima da fé (ao passo que as Escrituras são a regra remota da fé), este magistério está de certa forma acima da mesma fé e é o intérprete infalível e último das mesmas Escrituras.
** E, com efeito, nunca o magistério definiu a questão. Como, ademais, os Padres não chegaram, quanto a este ponto, a consentimento unânime, então nos é lícito adotar esta ou aquela posição a este respeito, ou suspender o juízo como Santo Tomás de Aquino – desde que não se neguem os referidos caracteres metafísicos, e muito especialmente o relato de Adão e Eva, o qual, como sempre disse o magistério, há de tomar-se de todo historicamente.