sexta-feira, abril 08, 2016

O pecado original segundo o “Compêndio de Teologia” de Santo Tomás de Aquino


Capítulo 186

Dos preceitos dados ao primeiro homem, e de
sua perfeição no primeiro estado

Como se disse acima [c. 152], o homem foi instituído por Deus em sua condição de modo que o corpo fosse de todo sujeito à alma: e que, ademais, entre as partes da alma, as virtudes inferiores se submetessem sem repugnância à razão, e a mesma razão do homem fosse sujeita a Deus. Porque porém o corpo era sujeito à alma, sucedia que não podia dar-se nenhuma paixão no corpo que repugnasse ao domínio da alma sobre o corpo, razão por que não havia lugar para a morte nem para a enfermidade no homem. Mas pela sujeição das virtudes inferiores à razão havia no homem uma onímoda tranquilidade da mente, porque a razão humana não era turbada por nenhuma paixão desordenada. E, porque a vontade do homem era sujeita a Deus, o homem referia tudo a Deus como ao último fim, e nisto consistia sua justiça e sua inocência. Mas destas três coisas a última era a causa das outras. Com efeito, se se consideram seus componentes, não decorria da natureza do corpo que não houvesse lugar nele para dissolução nem para nenhuma paixão que repugna à vida, porque era composto de elementos contrários. Semelhantemente, tampouco decorria da natureza da alma que também as virtudes sensíveis se submetessem sem repugnância à razão, porque as virtudes sensíveis naturalmente se movem às coisas que são deleitáveis segundo o sentido, as quais muitas vezes repugnam à reta razão. Era pois por uma virtude superior, ou seja, a de Deus, que, assim como uniu ao corpo uma alma racional, que transcende toda a proporção do corpo e das virtudes corporais, como as virtudes sensíveis, assim também deu à alma racional a virtude de sobre a condição do corpo poder contê-lo e às virtudes sensíveis, segundo o que competia à alma racional. A fim pois de que a razão contivesse firmemente sob si as coisas inferiores, era necessário que ela mesma se contivesse firmemente sob Deus, do qual tinha a referida virtude sobre a condição da natureza.
Portanto, o homem foi instituído de modo que, se sua razão se submetesse a Deus, nem seu corpo podia furtar-se ao império da alma, nem as virtudes sensíveis à retidão da alma: daí que sua vida fosse de certo modo imortal e impassível, porque, com efeito, não podia morrer nem padecer, se não pecasse. Mas podia pecar por sua vontade, ainda não confirmada pela aquisição do fim último, e sob este evento podia morrer e padecer. E nisto diferem a impassibilidade e a imortalidade que o primeiro homem teve e a que na ressurreição terão os santos, que nunca poderão padecer nem morrer porquanto sua vontade estará de todo confirmada em Deus, como acima se disse [c. 166]. Diferia também da outra porque após a ressurreição os homens não usarão de alimentos nem das coisas venéreas, enquanto o primeiro homem foi formado de modo que necessariamente tivesse de sustentar a vida por alimentos, e se encarregasse de dar a obra da geração, para que o gênero humano se multiplicasse a partir de um.
 Por isso recebeu dois preceitos em sua condição. Ao primeiro pertence o que lhe foi dito [Gn 2, 16]: “Come de todas as árvores que há no Paraíso”; ao segundo, o que [também] lhe foi dito [Gn 1, 28]: “Crescei e multiplicai-vos, e enchei a terra”.

Capítulo 187

Este estado perfeito se chamava justiça original,
e do lugar em que o homem foi posto

Mas este tão ordenado estado do homem se chama justiça original, pela qual ele estava submetido a seu superior, e a ele mesmo se sujeitavam todas as coisas inferiores, segundo o que dele se disse [Gn 1, 16]: “e presida aos peixes do mar, e às aves do céu”: e, entre suas partes, também a inferior se submetia à superior sem repugnância. Em verdade, este estado foi concedido ao primeiro homem não como a determinada pessoa singular, mas como ao primeiro princípio da natureza humana, de modo que por ele fosse transmitido junto com a natureza humana aos pósteros. E, porque a cada um se deve um lugar segundo a conveniência de suas condições, o homem assim ordenadamente instituído foi posto num lugar temperadíssimo e delicioso, para que se lhe suprimisse toda e qualquer vexação não só das moléstias interiores, mas ainda das exteriores.

Capítulo 188

Da árvore da ciência do bem e do mal, e do
primeiro preceito dado ao homem

Porque porém o referido estado do homem dependia de que a vontade humana se sujeitasse a Deus, para que desde o princípio se acostumasse a seguir a vontade de Deus, Deus propôs ao homem alguns preceitos, a saber, que comesse de todas as árvores do Paraíso, proibindo-lhe todavia com ameaça de morte que comesse da árvore da ciência do bem e do mal; e sem dúvida se proibiu que comesse desta árvore não porque fosse de si má, mas para que o homem ao menos nesta pequena coisa observasse algo pela simples razão de que era preceituado por Deus: daí que comer desta árvore se tenha tornado mau, porque proibido.
Mas tal árvore se dizia da ciência do bem e do mal não porque tivesse virtude causativa da ciência, mas pelo evento sequente, ou seja, porque o homem por ter comido dela aprendeu por experiência a distância que medeia entre o bem da obediência e o mal da desobediência.

Capítulo 189

Da sedução de Eva pelo Diabo

Por conseguinte, o Diabo, que já pecara, vendo o homem de tal modo instituído para a felicidade perpétua de que ele caíra, e que [aquele] igualmente poderia pecar, empreendeu desviá-lo da retidão da justiça atacando o homem pela parte mais fraca, ou seja, tentando à mulher, na qual menos vigia o dom ou a luz da sabedoria: e, a fim de incliná-la de modo mais fácil à transgressão do preceito, excluiu mendazmente o medo da morte, e prometeu-lhe o que o homem naturalmente apetece, isto é, a evitação da ignorância, dizendo [Gn 3, 5]: “se abrirão vossos olhos”; e a excelência da dignidade: [“sereis como deuses”; e a perfeição da ciência:] “conhecendo o bem e o mal”. O homem, com efeito, da parte do intelecto naturalmente foge à ignorância, e apetece a ciência; mas da parte da vontade, que é naturalmente livre, apetece a excelsitude e a perfeição para não estar submetido a ninguém, ou ao menor número possível.

Capítulo 190

O que induziu a mulher [a pecar]

A mulher, portanto, cobiçou a excelsitude prometida e ao mesmo tempo a perfeição da ciência. Para isso concorreram também a beleza e a suavidade do fruto, o que incitava a comê-lo, e assim, desprezando o medo da morte, transgrediu o preceito de Deus de não comer da árvore proibida: e assim seu pecado se encontra multiplicado. Em primeiro lugar, sem dúvida, [é] de soberba, porque apeteceu desordenadamente a excelência. Em segundo, de curiosidade, porque cobiçou uma ciência para além dos limites prefixados. Em terceiro, de gula, porque a suavidade do alimento a excitou a comê-lo. Em quarto, de infidelidade, pela falsa estimação de Deus, enquanto creu nas palavras do Diabo contra o que dissera Deus. Em quinto, de desobediência, por transgredir o preceito de Deus.

Capítulo 191

De que modo chegou ao homem o pecado


Mas por persuasão da mulher o pecado logo chegou ao homem, que, todavia, como diz o Apóstolo [1 Tim 2, 14], não foi seduzido como a mulher, quer dizer, não creu nas palavras do Diabo contra o que dissera Deus. Com efeito, não podia entrar em sua mente que Deus tivesse podido cominar algo mendazmente, nem proibir inutilmente uma coisa útil. Foi induzido, contudo, pela promessa do Diabo, apetecendo indevidamente a excelência e a ciência. Com isso sua vontade se desviava da retidão da justiça, e, querendo atender ao capricho da mulher, secundou-a na transgressão do divino preceito, comendo do fruto da árvore proibida.