terça-feira, abril 12, 2016

Sobre uma mentira reiterada

Traduzido por Andrea Patricia



"A mentira só é um vício quando faz mal; quando faz bem é uma grande virtude. Sejam então mais virtuosos do que nunca. É necessário mentir como um demônio, sem timidez, não pelo momento, senão intrepidamente, para sempre" (Voltaire).

Os inimigos da Resistência têm dito frequentemente esta mentira, que como vem sendo repetida uma e outra vez, pode ser eficaz e vir a enganar a alguns incautos:

"Todos sabem que Dom Fellay quer fazer um acordo com Roma. 
E os Bispos da falsa 'Resistência'? 
Dom Williamson disse que 'pegaria o primeiro avião para Roma'. 
Dom Faure disse que iria a Roma com Dom. Williamson. 
Dom Tomás também disse que iria a Roma. 
E então? 
Então os quatro querem o mesmo! Os quatro estão dispostos a ir a Roma". 
Os Bispos da falsa 'Resistência' querem nos levar, ainda que por caminhos diferentes,  ao mesmo ponto que Dom Fellay: ao acordo com Roma. 
Todos são liberais! Todos são traidores!".

I. DOM WILLIAMSON.

A citação foi extraída de uma conferência dada por ele em Post Falls, Idaho, EUA, em junho de 2014. O Bispo pergunta: “Eu posso exercer autoridade?” E responde:

“...Nos tempos de Dom Lefebvre, os sacerdotes pertenciam à Fraternidade do Arcebispo, sua própria Fraternidade. Não era minha a Fraternidade, eu não a fundei, nunca fui superior; salvo no Seminário, nunca fui o Superior.
“No que diz respeito a mim, minha relação com os sacerdotes [da Resistência] é mais ou menos como a relação do Arcebispo com os sacerdotes que não pertenciam à Fraternidade: amizade, contatos, conselho, apoio, confirmar suas crianças (isso é o que eu estou fazendo aqui), mas nada mais que isso. Eu não tenho autoridade. Eu não tenho autoridade. Tenho as Ordens que o Arcebispo me deu, mas as Ordens não são o mesmo que Jurisdição.
“Quando o Arcebispo consagrou os quatro bispos em 1988, disse num sermão ‘não estou dando jurisdição a estes quatro, somente estou lhes dando as Ordens’, que é a Consagração. Se quisesse ter-nos dado jurisdição, estaria criando outra Igreja, teria-se autonomeado Papa. O Arcebispo estava muito consciente do limite de sua autoridade. O que fez foi heroico, mas era muito limitado, pelo fato de não ter sido autorizado pelo Papa.
“Agora, o Arcebispo tinha certa medida de autoridade sobre os sacerdotes de sua própria Fraternidade. Mas eu não fundei nenhuma Fraternidade; se fundasse uma sem a permissão de Roma, estaria fazendo algo por minha conta. Eu não tenho autoridade. Eu não posso ter autoridade. Amizade, contatos, conselho, apoio: não há problema. Autoridade: há problema. É um problema que vem do Papa, eu não posso fazer nada. Na realidade da situação atual, vamos da teoria para a realidade. Na realidade, podem imaginar que mandar nos padres Resistentes é como reunir gatos [brincando]. Podem imaginar isso? É imaginável? Em tal caso, vale a pena tentar, ou se está destinado ao fracasso? Seria melhor não tentar do que tentar e fracassar. Alguns de vocês podem pensar que seria melhor tentar, porque poderia haver êxito. Eu não tenho a autoridade.
“Se...se...se...por algum milagre, o Papa Francisco me chamasse na próxima semana e dissesse: – ‘Excelência, o senhor e eu tivemos nossas divergências, mas neste momento eu o autorizo a fundar uma Fraternidade. Siga em frente, pelo bem da Igreja’. – ‘Santo padre, posso ter isso por escrito? Importa-se de ir a Roma e obter sua assinatura?’
– ‘Sim, claro’. ‘Muito bem, então pegarei o próximo avião para Roma. Estarei no próximo avião para Roma!’
Mas sem isso, somos um bote sem remos. E essa não é a solução. Então, no  que chamamos de movimento da Resistência, terão um problema de autoridade. Acostumem-se à ideia. Mas pensem  também que a autoridade é secundária comparada a Fé. E pensem que no movimento da resistência em seu conjunto, o movimento da Resistência foi criado para a Fé. Pela Fé. Foi criada pela Fé”.

O Bispo não disse que iria a Roma para fazer um acordo. Ninguém que tenha um mínimo de honestidade intelectual pode afirmar que as palavras citadas podem deduzir que Dom Williamson deseja um acordo com Roma. O que ele diz é que carece de jurisdição ordinária, o que é absolutamente verdadeiro, e que por isso não vai fundar nenhuma nova Fraternidade para organizar a Resistência. Acrescenta que fundaria uma nova Fraternidade se "por um milagre" contasse com a permissão de Roma. Não esqueçamos que Dom Lefebvre fundou a FSSPX com todas as autorizações da hierarquia liberal.

Pode-se objetar ao Bispo que para fundar uma congregação não necessita de jurisdição ordinária porque lhe basta a jurisdição de suplência, mas pretender que essas suas palavras o transformam num liberal e traidor que trama um acordo com Roma, é claramente uma mentira.

II. DOM FAURE.

         a) Lê-se na entrevista concedida pelo então Pe. Faure em 18 de março de 2015:

“(...) – Quais, em sua opinião, devem ser as condições requeridas para fazer um acordo com Roma?”

– “Dom Lefebvre nos disse que enquanto não haja uma mudança radical em Roma, um acordo é impossível, porque essas pessoas não são leais, e não se pode querer transformar os superiores. É o gato que come o rato, e não o rato que come o gato. Um acordo equivaleria a entregar-se nas mãos dos modernistas, e por conseguinte, se deve ser rejeitado absolutamente. É impossível. Há de se esperar que Deus intervenha.”

– “Pode dizer-nos o que pensa das visitas de avaliação de diversos prelados modernistas aos Seminários da Fraternidade? É verdade que alguma vez Dom Lefebvre recebeu alguns prelados. Qual a diferença agora?”

– “Se tratava de visitas excepcionais, nas quais o Cardeal Gagnon nunca teve a possibilidade de defender o concílio; enquanto que agora se trata dos primeiros passos para a reintegração (da FSSPX) na igreja conciliar.”
– “Qual a sua opinião sobre um eventual reconhecimento unilateral da FSSPX por parte de Roma?”

– “É uma armadilha.”

– “Entre o  capítulo de 2006 e a crise iniciada em 2012 observa-se uma mudança de atitude das autoridades da FSSPX com respeito a Roma. A que se deve essa mudança?”

– “À decisão dos superiores de reintegrarem-se à igreja conciliar. Desde 1994 ou 1995 realizaram-se os contatos do GREC, que foram passos significativos até a reconciliação, como havia previsto o embaixador Pérol (representante da França na Itália), que é o inventor do “levantamento das excomunhões” (2009) e do Motu Próprio (2007). Isto deveria ter como contrapartida o reconhecimento do Concílio.”

– “Que faria Dom Lefebvre na situação    atual?”

– “Seguiria na linha que nos indicou depois das consagrações, descartando totalmente a eventualidade de um acordo.”

– “Se no futuro o senhor fosse convidado para ir a Roma conversar com o Papa, iria? O que lhe diria?”

– “Em primeiro lugar, consultaria a todos os nossos amigos da Resistência. Iria com Dom Williamson e outros excelentes sacerdotes que levam o combate da Resistência com muito valor. E manteria informados todos os nossos amigos com toda a transparência.”(...).

É evidente que o então Padre Faure descarta absolutamente ir a Roma para negociar um acordo com os modernistas. Está claríssimo que descarta totalmente a possibilidade de um acordo com a Roma liberal.
Na última pergunta citada, diz que iria a Roma se fosse convidado pelo Papa, porque é óbvio que um Bispo católico deseje ouvir o que um Vigário de Cristo, por indigno que seja de tal investidura, queira dizer a ele; e é igualmente óbvio que um Bispo antiliberal não queira perder uma oportunidade que se apresente para fazer uma correção fraterna a um Papa liberal.

        
b) Na entrevista a Dom Faure feita uma semana depois (em 25 de março de 2015), lemos o seguinte:

– “Excelência, pode-nos dizer algumas palavras sobre a assinatura do protocolo de 1988? O senhor estava com Dom Lefebvre naqueles dias?”

– “...Penso que quando Dom Lefebvre assinou esse documento estava em um momento – muito passageiro – de debilidade, como foi o caso de Santa Joana D´Arc, e, igual a ela, ele escreveu, depois da ‘pior noite de sua vida’ uma carta de retratação ao representante do Vaticano, mediante a qual estava anulado o protocolo. Dom Fellay não se pode valer desse momento de debilidade retratada para dizer que está imitando a conduta de Dom Lefebvre. ‘Eu fui longe demais’, diria depois Dom Lefebvre, referindo-se à assinatura do protocolo. Sobre a diplomacia e sobre seus interlocutores romanos, Dom Lefebvre não tinha nenhuma ilusão, como fica demonstrado em muitas de suas declarações e na determinação diplomática que aparece claramente em sua declaração fundamental de 1974 sobre as duas Romas: a eterna e a modernista, ou as duas igrejas: a católica e a conciliar. E Dom Fellay, na medida em que confunde a Roma atual oficial, modernista, com a Roma eterna; torna-se infiel à Roma eterna, mestra da verdade. Confunde igreja conciliar – da qual Dom Lefebvre tanto falou – e Igreja Católica. Para Dom Fellay não há mais que uma só igreja e uma só Roma: isto é a antítese da postura de Dom Lefebvre...”

...– “Sigamos com o tema do Papa. Na entrevista anterior, perguntamos ao Padre Faure o que faria se fosse convidado ao Vaticano pelo Papa Francisco. Agora perguntamos a Dom Faure: o que diria a Francisco?”

– “Antes de tudo, digo que tal entrevista é praticamente impossível, já que uma condição sine qua non seria a presença de Dom Williamson e de outros sacerdotes nossos, sendo excluído absolutamente qualquer tipo de ‘negociação’ com vistas a um acordo de qualquer  tipo que seja enquanto, como dizia Dom Lefebvre, não exista uma conversão radical de Roma, aceitando, de fato e de direito, todas as encíclicas anteriores ao Vaticano II, assim como as condenações ao liberalismo e ao modernismo que elas contém...
“Eu diria ao Papa: a qual igreja o senhor pertence, a Igreja Católica ou uma falsificação da Igreja? Sua função é confirmar na fé seus irmãos. Lembraria a ele estas palavras de São Paulo: ‘vossa autoridade é para edificar, não para destruir’ (2 Cor 13, 10); para edificar e não para destruir nem diminuir a fé e a moral dos católicos. Diria a ele isto também, citando Dom Lefebvre: ‘O senhor está de acordo com todas as encíclicas anteriores a João XXIII e com todos estes Papas e com seus ensinamentos? Aceita o juramento antimodernista? Está a favor do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo? Se não aceita a doutrina de seus predecessores, é inútil falar com o senhor’. É porque somos fieis à Roma eterna que nos vemos obrigados  a nos separar da Roma modernista e liberal, atual e oficial. Não é porque Menzigen esteja se deixando seduzir, que um Dom Williamson ou eu cairíamos na mesma armadilha...”.

Claríssimo! Assim, onde está dizendo que Dom Faure iria a Roma para fazer um acordo? Em lugar nenhum.


III. DOM TOMÁS DE AQUINO OSB.

Lemos na entrevista de 6 de março de 2016:

– “No ano passado perguntamos a Dom Faure que faria se fosse convidado ao Vaticano pelo Papa Francisco. Agora fazemos ao senhor a mesma pergunta. Iria? E o que diria a Francisco?”

– “Ir a Roma? Só se fosse para perguntar às autoridades romanas se aceitam Quanta Cura, Syllabus, Pascendi, etc., mas creio que por agora a resposta já foi dada e é negativa”.

Dom Tomás, então, iria a Roma somente para fazer uma correção fraterna a Francisco, não para tentar negociar algum acordo.


CONCLUSÃO:

Mentem. Mentem descaradamente os inimigos da Resistência que colocam em pé de igualdade um traidor acordista e liberal como Dom Fellay e os três Bispos antiliberais da Resistência, a quem os hereges romanos consideram excomungados por causa das sagrações episcopais "ilícitas" nas quais tomaram parte, e que rejeitam totalmente toda possibilidade de acordo com a Roma liberal.

Esta mentira começou entre os sedevacantistas, para quem somente o fato de que alguém diga que aceitaria um hipotético convite para conversar com Francisco, é julgado como suspeito de liberalismo e de alta traição, dado que para eles Francisco não é Papa, mas um Antipapa, o Falso profeta apocalíptico, ou até mesmo o Anticristo.

A partir destes setores sedevacantistas a mentira de que aqui se trata passou a ser lugar comum entre os da "Resistência pura e dura", esta que se caracteriza por ser "antiwilliamson" e, sobretudo, por ser essencialmente farisaica.
         A esses mentirosos perguntamos: onde há alguma evidência de contatos destes três Bispos com Roma em ordem a um acordo?

***


"Vós sois de vosso pai, o diabo, e quereis executar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não se manteve na verdade porque não há verdade nele. Quando fala mentira, fala de sua própria natureza, porque é mentiroso e pai da mentira" (João 8, 44).