Uma
das primeiras lições que aprendi ao estudar a Filosofia é que há
distinção entre: “Doxa” (do grego, opinião) e “Episteme” (do grego,
verdade). De forma que todas as nossas opiniões devem ter por finalidade
a verdade. Mas o nosso tempo é marcado pelos “doutores” da opinião. Não
é estranho vermos, em qualquer meio de comunicação, pessoas discorrerem
energicamente durante dois quartos de hora sobre o que não estudaram
por pelo menos cinco minutos. E o uso dessa loquacidade opinativa
ganhou proporções inimagináveis com a internet.
Nestas últimas semanas tenho dado boas risadas com uma senhora que personifica de maneira muito caricatural da La donna è mobile de G. Verdi. Escreveu ela:
“E as mentiras que esses macaquinhos amestrados espalham não saem dos olhos, mas de corações cheios de fel. A boca fala do que o coração está cheio.”
http://farfalline.blogspot.com.br/search?updated-max=2016-04-01T02:10:00-04:00&max-results=5
Uma
de suas discussões é sobre a impossibilidade de milagres fora da Igreja
e, de maneira “infalível”, a condenação de toda a Igreja pós
conciliar(CVII) ao paganismo. E por mais de uma vez lhe foi mostrada a
jumenta de Balão que, de maneira milagrosa, após apanhar bastante, fala.
Pobre jumenta…
É
um evento interessante, pois o orgulho, a cobiça e a hostilidade de
Balaam é impedida através da humilde figura de uma jumenta. Que,
contrariando sua natureza, fala e questiona. O que alegoricamente vemos
até hoje de maneira inversa.
A
figura do burro (ou asno) é uma constante na história do cristianismo,
que, se outrora utilizado como símbolo pagão, aparecerá no mistério da
encarnação próximo a Nosso Senhor Jesus Cristo. Santo Agostinho, ao
comentar o capítulo 49:11 do Gênese, diz o seguinte: “ assim como o
Samaritano impôs sobre o jumento o pobre homem, assim o Filho do Homem
foi feito semelhante ao jumento para que carregasse nossos pecados e, ao
tomar nosso corpo, abolisse a enfermidade de nossa carne.” São Francisco o chama de “Fratello asino”.
No
Domingo de Ramos vemos Nosso Senhor triunfante sobre o lombo de um
jumento. Na concepção pagã o jumento esteve relacionado às festas de
Saturno, Dionísio e Pã. Era o desregramento de nossos baixos instintos
em evidência, divinizados. Nosso Senhor ao reinarem nossas almas
inverte a situação e põem nossos instintos em seu devido lugar,
mostrando que Ele é o guia.
No
folclore brasileiro vemos a figura da Mula Sem Cabeça, que seria uma
maldição dada à mulher que se tornasse amante de um padre. Nosso grande
folclorista, Luiz da Câmara Cascudo, assim descreve a mula: “lança
chispas de fogo pelas narinas e pela boca. Suas patas são calçadas de
ferro. A violência do seu galope e a estridência do relincho são ouvidas
longamente. Às vezes soluça como uma criança”.
O
que a realidade nos mostra? Podemos ver não só a loucura da mulher
pecadora transformada em um mostro, mas também, por outro lado, a falha
de um padre que, fazendo as vezes de alter Christus, perde a
razão, deixando-se levar por suas baixas paixões. A mula que deveria ter
como guia Nosso Senhor Jesus Cristo, como senhor e rei, perde sua
cabeça por uma única mulher.
Outra
observação que salta aos olhos é a cor do jumento. Ele não é preto, nem
branco: é cinza; com uma bela cruz em tonalidade escura sobre a
cernelha. A oscilação pendular apaixonada dos extremos não o atinge, e,
tal qual devemos ser, sua cor representa o equilíbrio tipicamente
católico. Ou ainda a exata personificação do católico que é atento aos
aspectos contraditório da realidade. Não seria sua cruz a nossa
confirmação neste combate?
Muito
do que se discute provém da absoluta confusão que se faz entre
hermenêutica e exegese. Acredito que boa parte dos rapazolas partícipes
da tradição desconheçam esses termos, à exceção do primeiro que,
católico por excelência, ganhou mau odor devido à aplicabilidade dada
por Bento XVI. A exegese é muito utilizada pelo protestantismo, como
única forma interpretativa, uma vez que busca tão somente a literalidade
do texto, sem aportes com o Magistério e Tradição.
A hermenêutica como ferramenta interpretativa é seguida de um método.
- Interpretação literal, ou gramatical; (se houver problemas)
- Interpretação analógica;
- Teleológica;
- Extensiva;
Todas
essas formas em relação às Sagradas Escrituras, Magistério e Tradição.
Ao sair desse caminho traçado pela Igreja por mais de dois mil anos,
incorremos no tortuoso caminho do devaneio. Qual o motivo de tantas
igrejas protestantes? A oscilação pendular de uma estrita interpretação
da Sagrada Escritura ou a livre interpretação não margeada pelo
Magistério e Tradição.
O Cântico dos Cânticos bem demonstra como deve ser a interpretação das Sagradas Escrituras. “Sou negra, como as tendas de Cedar, filhas de Jerusalém, mas sou bela, como os pavilhões de Salomão” (C. dos Cânticos 1:4).
Apesar
de toda a literalidade, este livro jamais deve ser interpretado como a
conjunção canal dos nubentes, representando, antes, todo pudor,
modéstia, castidade virginal que invoca a Santíssima Mãe de Deus, a
Igreja e toda alma que aspira às núpcias espirituais com Nosso Senhor.
E a Sagrada Escritura não evidencia isso, tendo em vista que seu leitor
não será uma “mula sem cabeça.”
Tal versículo pode ser interpretado de várias formas, entre elas:
- “Sou negra, mas sou bela” – mesmo a alma marcada pelo pecado original, por seus maus instintos e movimentos da natureza, poderá dizer: Encontro, pois, em mim esta lei: quando quero fazer o bem, o que se me depara é o mal. Deleito-me na lei de Deus, no íntimo do meu ser. Sinto, porém, nos meus membros outra lei, que luta contra a lei do meu espírito e me prende à lei do pecado, que está nos meus membros. Homem infeliz que sou! Quem me livrará deste corpo que me acarreta a morte? (Rom 7:21-24)
- “como as tendas de Cedar” – “Cedar” é o segundo filho de Ismael, descendente de Abraão por Agar, a escrava. Para os hebreus, esse povo que descende de Agar, os árabes, é de grosseiros, vulgares…
- “mas sou bela, como os pavilhões de Salomão.” – ou seja, mesmo com suas fraquezas e imperfeições exteriores seu interior permanece calmo e passivo. Como as magnificas tendas de Salomão que rivalizavam com as de Dario.
Por
fim, podemos lembrar a Santíssima Virgem que estava “negra”, com
aparência exterior de uma mulher adúltera, em visita a sua prima Santa
Izabel. Mas estava ela toda pura, “bela” com o seu brilho virginal
imaculado. Ela pareceu ser “negra” ao ter a aparência de uma mulher
grávida, que portasse um filho do pecado original, mas ela estava “bela”
como as tendas de Salomão, rei pacífico por excelência.
Podemos
dizer ainda que Nossa Senhora estava “negra” por seus opróbrios, dores e
sofrimentos na crucificação do seu Filho bem amado, mas ela é “bela”,
pois no céu está associada a glória do Salvador.
Muito
mais poderia ser dito, mas estes que vomitam seus despautérios são uma
sociedade de malícia mútua, exatamente como existiu entre Herodes e
Pilatos.
Em
alguns daqueles que oferecem o Santo Sacrifício, vemos a nítida atitude
de Caim, que oferece sacrifício a Deus alimentando em seu coração a
inveja contra seu irmão.
Como preceitua o manual de patifaria de B. Gracián, “Quando
nos falam com malícia. Com alguns tudo há de ser às avessas; o sim é
não e não é sim. Falam mal do que estimam, pois o que se quer para si se
desacredita para os outros”.
Jumentas e macacos podem falar desde que falem a verdade. O contrário é opinião. Penso, logo me engano.
