terça-feira, maio 24, 2016

A Música e Sua História (em esquema)

Por Carlos Nougué em A Boa Música




I. Há dois gêneros de música:
1. Litúrgico (gênero de si superior ao outro);
2. Profano, que se subdivide em
a. Profano religioso;
b. Profano em sentido estrito.

II. Marcos da música litúrgica:
1. Canto ambrosiano (ou milanês) (a partir do século V);
2. Canto velho-romano (do século VI ao XIII);
3. Canto beneventiano (século VII-IX);
4. Canto moçárabe (século VII-XII, e liberado definitivamente pelo Concílio de Trento);
5. Canto gregoriano (a partir do século VI e tornado o oficial da Igreja por Trento);
6. Canto polifônico palestriniano (aprovado por Trento para missas solenes). Compositores mais importantes:
• Giovanni Pierluigi da Palestrina (italiano; 1525-1594);
• Tomás Luis de Victoria (espanhol; 1548-1611);
• Gregorio Allegri (italiano; 1582-1652).

III. Marcos da música profana:
1. Sua origem perde-se no tempo;
2. A música profana medieval não é de alta qualidade, ainda que não raro seja agradável;
3. A música profana humanista e renascentista (do século XIV ao XVII) tem alguns pontos altos, mas em geral é sensual e até lasciva.
• Compositores profanos mais importantes deste período (muitos dos quais compunham música usada nas igrejas, mas não estritamente litúrgicas segundo as determinações de Trento, de São Pio X, de Pio XI e de Pio XII):
a. Guillaume de Machaut (francês; 1300-1377);
b. John Dunstable (inglês; 1390-1453);
c. Guillaume de Dufay (belga; 1397-1474);
d. Johannes Ockeghem (belga; 1414-1497);
e. Josquin Desprez (franco-flamengo; 1450-1521);
f. Jacob Obrecht (holandês; 1457-1505);
g. John Taverner (inglês; protestante; 1490-1454);
h. Thomas Tallis (inglês; religião indefinida; 1505-1585);
i. Orlandus Lassus (belga; católico; compôs também música estritamente litúrgica; 1532-1594);
j. William Byrd (inglês; herói do catolicismo na Inglaterra anglicana e um dos maiores compositores de todos os tempos; sua música por vezes é genuinamente litúrgica; 1540-1623);
k. Giovanni Gabrieli (italiano; católico; 1554-1612);
l. Carlo Gesualdo (italiano; católico, ainda que de vida não exemplar; 1561-1613);
mJan Pieterszoon Sweelinck (holandês; protestante; 1562-1621).
4. A música barroca (do século XVII ao XVIII) é de origem e de feição jesuíticas. Começa no lado católico, mas atinge o ápice no lado protestante, com Johann Sebastian Bach. De modo geral é boa, mas por vezes resvala para o sensual. A música barroca que se usava nas igrejas só excepcionalmente se enquadra nos marcos do estritamente litúrgico.
• Compositores mais importantes deste período:
a. Claudio Monteverdi (italiano; católico e sacerdote; 1567-1642);
b. Orlando Gibbons (inglês; anglicano; 1583-1625);
c. Girolamo Frescobaldi (italiano; católico; 1583-1643);
d. Jean-Baptiste Lully (francês; católico, mas o mais sensual dos barrocos; 1632-1687);
e. Dietrich Buxtehude (dinamarquês; protestante; 1637-1707);
f. Marc-Antoine Charpentier (francês; católico; 1643-1704);
g. Johann Pachelbel (alemão; protestante; 1653-1706);
h. Arcangelo Corelli (italiano; católico; um dos mais importantes; 1653-1713);
i. Henry Purcell (inglês; anglicano; 1659-1695);
j. François Couperin (francês, católico; 1668-1733);
k. Alessandro Marcello (italiano; católico; 1669-1747);
l. Tomaso Giovanni Albinoni (italiano; católico; 1671-1750);
m. Antonio Vivaldi (italiano; católico e sacerdote de vida complicada; 1678-1741);
n. Georg Philipp Telemann (alemão; protestante; 1681-1767);
o. Jean Philippe Rameau (francês; católico? maçom?; dos mais importantes compositores; 1683-1764);
p. Georg Friedrich Haendel (alemão/inglês; anglicano; dos mais importantes compositores, especialmente por seus oratórios; 1685-1759);
q. Johann Sebastian Bach (alemão; protestante [converteu-se ao catolicismo?]; talvez o maior gênio musical de todos os tempos; sua música nunca é sensual, e ele nunca compôs ópera; 1685-1750). 
5. A música clássica (do século XVIII a inícios do XIX) é quase totalmente destituída de religiosidade [é neopagã, como, mutatis mutandis, a renascentista; mas é fruto típico do Iluminismo]; neste sentido, é um retrocesso com respeito ao barroco. Não deixa, porém, de ter grandes compositores.
• Compositores mais importantes deste período:
a. Christoph Willibald Gluck (alemão; 1714-1787);
b. Carl Phillip Emanuel Bach (alemão, protestante, e filho de J. S. Bach; 1714-1788);
c. Franz Joseph Haydn (austríaco; católico e depois maçom; um dos maiores compositores de todos os tempos e mestre de Mozart e de Beethoven; sua música religiosa é por vezes ligeira ou leviana [algumas peças foram proibidas nas igrejas]; 1732-1809);
d. Wolfgang Amadeus Mozart (austríaco; maçom; um dos maiores compositores de todos os tempos;  sua música religiosa é por vezes bela, mas por vezes quase sacrílega de tão ligeira ou leviana; seu Requiem em verdade só é seu em parte; levou a ópera a tornar-se definitivamente sensual e apaixonada; 1756-1791);
e. Ludwig van Beethoven (alemão; gnóstico; na verdade, começa clássico, mas logo funda o romantismo; quando clássico, tem peças equilibradas; quando romântico, é o mais das vezes radicalmente apaixonado; sua Missa solemnis é bela; 1770-1827).
6. A música romântica (do século XIX a meados do XX) pretendia-se, como todo o romantismo, um retorno à Idade Média, contra o classicismo; mas em verdade é um retorno à gnose medieval. É essencialmente apaixonada; mas tem grandes compositores, que podem dizer-se não de todo românticos.
• Compositores mais importantes deste período (como se verá, nem todos são românticos):
a. Nicolò Paganini (italiano; apaixonado até quase o diabólico; 1782-1840);
b. Franz Schubert (austríaco; católico de vida complicada; é o melhor dos românticos, o mais clássico; suas missas, não litúrgicas, são no entanto belíssimas; 1797-1828);
c. Hector Berlioz (francês; ateu; um protótipo de romântico; sua música “religiosa” é escura; 1803-1869);
d. Felix Mendelssohn (alemão; judeu convertido ao luteranismo; é dos mais clássicos; a certa altura, em verdade, converte-se ao barroco bachiano; 1809-1847);
e. Frédéric Chopin (polonês; ateu; grande melodista, é de um romantismo que tende a certa melosidade; 1810-1849);
f. Robert Schumann (alemão; uma dos mais tipicamente românticos; sua música é escura; morreu louco; 1810-1856);
g. Franz Liszt (húngaro; maçom, revolucionário e adúltero, converteu-se pelas mãos de Pio IX, de quem recebeu as ordens menores; sua música é ultrarromântica; mas seu oratório Christus figura entre os mais belos; 1811-1886);
h. Richard Wagner (alemão; revolucionário e gnóstico; suas óperas são a “perfeição” do romantismo [ou seja, tornam-no puramente gnóstico], e, por um uso extremo do cromatismo, levam a música às fronteiras do atonalismo; 1813-1883);
i. César Auguste Franck (belga, católico de fato; sua música é irregular, mas grande parte dela não se pode dizer romântica; tem verdadeiras obras-primas; 1822-1890);
j. Anton Bruckner (austríaco; católico de fato; toda a sua música transpira religiosidade; suas sinfonias estão entre o que de melhor a música já produziu; não é romântico [ainda que se valha da orquestração wagneriana, etc.]: é único, mas criou cânones e escola; 1824-1896).
k. Johannes Brahms (alemão; pretendeu-se um retorno ao classicismo; mas sua música é o mais das vezes escura e pode chegar ao lúgubre; 1833-1897);
l. Piotr Ilich Tchaikovsky (russo; ultrarromântico; 1840-1893);
m. Antonín Dvórak (tcheco; católico; seu romantismo é antes um aproveitamento do lirismo eslavo; tem peças magníficas; e suas peças religiosas [algumas litúrgicas] estão entre as melhores de todos os tempos; 1841-1904);
n. Charles Marie Widor (francês; católico; suas sinfonias para órgão são obras-primas; 1844-1937);
o. Gabriel Fauré (francês; católico; não é romântico, mas antes um seguidor de César Franck; seu Requiem é estupendo; 1845-1924);
p. Gustav Mahler (austríaco; judeu convertido ao catolicismo; algumas de suas sinfonias são em parte brucknerianas e se contam entre as maiores peças musicais; 1860-1811);
q. Claude Debussy (francês; ateu; como Wagner, levou a música às raias do atonalismo; 1862-1918);
r. Jean Sibelius (finlandês; maçom; 1865-1957);
s. Sergei Rachmaninoff (russo; ultrarromântico; mas compôs belíssimas Vésperassegundo a liturgia de São João Crisóstomo; 1873-1943);
t. Franz Schmidt (austríaco; protestante ou católico?; bruckneriano, e um dos maiores compositores; não é romântico; destaque para suas quatro sinfonias e para seu oratório O Livro dos Sete Selos; 1874-1939);
u. Richard Wetz (polaco-alemão; nazista e tendente ao gnosticismo; mas suas sinfonias, profundamente brucknerianas, são magníficas, assim como alguns oratórios e peças católicas; 1875-1935)
7. A música moderna ou atonal (século XX-XXI), em quase todas as suas variantes e movimentos, nem sequer é música, mas pura cacofonia. A diluição total das formas. Diabólica.
• No entanto, o estoniano e ortodoxo Arvo Pärt (1935- ), depois de um início cacofônico, criou um cânon não só original, mas perfeita e magnificamente tonal; e sua música religiosa, belíssima, inspira-se profundamente na liturgia de São João Crisóstomo e seus cantos.

     * Este é um documento de nosso curso presencial de História da Música, e se funda em nosso Das Artes do Belo (por publicar-se).