domingo, maio 01, 2016

Respostas a acusações levantadas recentemente contra Bispos da Resistência – V

Por R. de Souza




Sobre Dom Williamson e a Missa Nova:


1- Que se deve pensar de fieis que assistem à Missa Nova?

R. Segundo Dom Lefebvre e Dom Williamson, a Missa Nova, celebrada de acordo com o rito publicado em Roma, não é herética nem necessariamente inválida (Dom Lefebvre - Carta ao Cardeal Ratzinger de 17 de abril de 1985), mas conduz à heresia, e é, portanto objetivamente má. Assim, quem a assiste peca objetivamente e subjetivamente se o faz consciente disto, mas não subjetivamente se não tem consciência da maldade desse novo rito.

2- Teria Dom Williamson dito que a Missa Nova é boa e que qualquer um pode assisti-la para nutrir sua fé?

R. Não, ele jamais o fez. Pelo contrário, tem reiterado nos últimos meses em Seus Comentários Eleison que ela é , que é repugnante para Deus, que é um rito protestantizado, que é o ato central de culto da nova religião humanista, que leva à perda da Fé, etc.
Eis uma assertiva que publicou em janeiro deste ano e que se deve ter como base para a boa compreensão de seu pensamento sobre o assunto: A obrigação de manter-se longe do NOM é proporcional ao conhecimento que uma pessoa tenha sobre o quão mau ele é (CE 445).

3- Então não é verdade que Dom Williamson promoveu a Missa Nova em uma conferência nos EUA?

R. Não. Nessa conferência, realizada em junho do ano passado nos EUA, depois de uma fiel perguntar a ele em tom emotivo se poderia continuar frequentando a Missa Nova durante a semana, e a Santa Missa Tridentina aos domingos, o Bispo respondeu-lhe (com algum embaraço por ter sido pego de surpresa, notadamente tentando conciliar o conteúdo de certos conselhos de caráter particular a pessoas que ainda estão em processo de conversão, com o caráter público da conferência) tecendo críticas gerais à Missa Nova, e disse que a regra é que ela deve ser evitada por ser má, mas que excepcionalmente a nova religião, que tem por rito central a mesma Missa Nova, pode ser usada para construir a Fé (por exemplo, de alguns cristãos que tenham reto desejo de conversão e não estejam devidamente a par da crise atual da Igreja), pelo fato de que nem sempre o rito novo é inválido e por haver sacerdotes no Novus Ordo que ainda preservam e difundem algum sentimento de piedade por práticas legítimas como o Santo Rosário e a Adoração ao Santíssimo. Acrescentou o Bispo que da mesma forma as Missas da Neofraternidade devem ser evitadas, salvo também em casos excepcionais.
                         
4- Mas nas Missas Novas e nas Missas da Neofraternidade não há omissão de crítica ou até mesmo defesa do Concílio?

R. Sim. E por isso mesmo Dom Williamson complementou, decerto também na intenção de tentar afastar gradualmente aquela fiel do NOM: ...no momento em que você vigia e escuta uma nota desafinada chegando, ou o padre seguindo a correnteza, não pregando contra o Concílio, talvez até sugerindo que o Concílio não seja tão mau, já não critica mais o Papa Francisco (apesar dos horrores que saem da boca dele)... Você tem de ficar longe disso... quando isso começa a infiltrar na Missa da FSSPX ou se estiver claro na Missa do Novus Ordo, fique longe.

5- Que outras críticas o Bispo fez à Missa Nova na conferência?

R. Disse ele que se trata de um rito projetado para minar a fé dos católicos e desviar a crença em Deus para a crença no homem, que não é um rito bom, não é uma missa aceitável, e geralmente é um perigo tremendo assisti-la, etc.

6- É certo dizer que a nova religião pode ser usada para construir a Fé?

R. É fato que um sem número de fieis tem chegado à Tradição depois de ter sido atraído inicialmente para a nova religião conciliar, e nela ter entrado em contato gradualmente com bons ensinamentos e práticas da verdadeira religião católica (tais como venerar e seguir o exemplo dos santos, rezar o Santo Rosário, adorar ao Santíssimo, reconhecer e se submeter ao Primado Petrino, frequentar os sacramentos, etc.), não poucos que se chocam frontalmente com os valores do mundo moderno (como os relacionados à castidade, à hierarquia, à Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Seu Reinado Social, à corredenção de Nossa Senhora, etc.).
Portanto, somente pelo que nela resta de católico, mas jamais pelo que é próprio dela, sim, a nova religião pode ser excepcionalmente usada para construir a Fé; e ainda mais se se leva em conta que ela hoje se encontra infiltrada na Igreja e está muito mais visível (através da hierarquia que a professa, de sua sede, de sua influência midiática, etc.) do que a Verdadeira Religião (de cuja própria existência atualmente pouca gente no mundo tem suficiente conhecimento), e, como se não bastasse, ainda se apresenta como esta.
Há uma miríade de exemplos, e um conhecido é o de Gustavo Corção, que assistia à Missa Nova antes de se voltar para a Tradição.

7- Mas isto se tem dado em razão da nova religião ou apesar dela?

R. Sobre isto, explica o Padre Trincado que a nova religião conciliar é uma heresia surgida na Igreja Católica, e que, portanto, conserva elementos da verdadeira religião. Dá-se o mesmo com as falsas religiões protestantes, por exemplo, em relação ao batismo válido (católico). Se este é recebido por uma criança no protestantismo, também transmite a fé infusa, juntamente com a graça santificante, e produz os demais efeitos do sacramento do batismo. Negar isto é herético, assim como é herético negar que a comunhão sacramental possa transmitir a graça a um fiel bem disposto que a receba em uma Missa Nova válida.
Portanto, assim como na heresia protestante, o bem é causado pelo que na nova religião conciliar permanece da religião verdadeira, não pelo que nessa nova religião há de próprio, não pelo que nela há de novo.

8- Pode-se dizer que os que praticam a nova religião conciliar permanecem católicos?

R. O que se pode seguramente dizer é que há um incontável número de fiéis que pratica a nova religião conciliar mas que crê piamente estar praticando a mesma Religião Católica praticada por seus avós, bisavós, tataravós, etc., não poucos deles que não se dão conta da real dimensão da crise atual, e que até mesmo jamais ouviram falar da existência de grupos tradicionalistas (que inclusive estão não raro ausentes nas cidades em que residem); e que buscam os sacramentos, fazem novenas, romarias, rezam o Rosário, adoram ao Santíssimo, veneram os santos, sobretudo Nossa Senhora, e buscam seguir seus exemplos, reconhecem a hierarquia, a autoridade do Sumo Pontífice, e que, portanto, não podem ser de modo algum acusados de agir com contumácia. Mais: também não poucos criticam muito do que veem atualmente, e se sentem notoriamente confusos por falta de acesso mesmo às boas informações, e inclusive por estarem sendo enganados por sacerdotes, padres e bispos, a quem se entregam ingenuamente à orientação.  
Não podem, portanto, ser acusados de heresia formal por sua relação com a nova religião conciliar, e também de não ser verdadeiramente católicos, pois, sobretudo, como explica o Padre Trincado, a teología ensina que o católico batizado que é herege material não deixa de pertencer à Igreja apenas por este motivo. A heresia deve ser formal para que alguém deixe de pertencer à Igreja Católica; e para que haja heresia formal, deve haver pertinácia ou contumácia ou obstinação.

9- Dom Williamson também disse na conferência que se deve fazer o que for necessário para nutrir, para manter a Fé. Não é uma recomendação liberal?

R. Não, porque o necessário para nutrir ou manter a Fé provém unicamente da Igreja Católica.

10- Está claro que os dizeres de Dom Williamson na conferência devem ser compreendidos baseando-se na óptica pastoral, e muitas vezes com sentido subjetivo. O que recomendava Dom Lefebvre nesse sentido?

R. Sim. Eis as palavras do próprio Dom Lefebvre: ...com respeito ao juízo que devemos ter sobre aqueles que dizem essa Missa Nova e sobre aqueles que assistem à Missa Nova... Se, por exemplo, temos a consciência de que se fizermos essas pessoas perceberem a falta que cometem, elas continuarão cometendo... É necessário por vezes ir prudentemente para lhes abrir os olhos, para lhes dizer o que devem fazer, e nem sempre ser brutal na maneira de atuar em relação às almas. As almas são objetos delicados que não podemos maltratar. Arriscamo-nos a fazer mais danos a uma alma maltratando-a – ao invés de fazê-la compreender as coisas docemente –, dizendo-lhe imediatamente: “você comete um pecado mortal”, “você irá para o inferno”, etc., em lugar de a fazer compreender, de lhe explicar, de lhe abrir os olhos sobre a falta que cometem. É uma questão, eu diria, de pastor, mas é necessário agir para com essas pessoas como pastor também, e não as condenar imediatamente.

11- Essa postura destoa significativamente da que tomou Dom Williamson?

R. Não. Dom Williamson alertou a fiel reiteradas vezes sobre os males da Missa Nova ao longo da conferência, sem acusá-la por estar pecando objetivamente (ainda que, provavelmente, não subjetivamente).

12. E quanto a Dom Williamson ter dito na conferência haver milagres no Novus Ordo?

R. Dom Williamson mencionou os supostos milagres não no sentido de que confirmam que a nova religião é boa ou aceitável, o que seria absurdo, mas (e sem abordar aqui a questão da causa particular de cada suposto milagre) no de que há nela ainda elementos verdadeiros (e há, inegavelmente) que podem excepcionalmente ajudar certos fieis a construir a Fé.  
Ver mais sobre esta e outras questões aqui: http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br/2015/07/sobre-una-palabras-recientes-de-mons.html

13- Mas não há momentos na conferência em que se pode sugerir que ele estaria não só dando permissão implícitamente (pois não deu tal permissão expresamente) à fiel para continuar indo à Missa Nova, como querendo dizer que há algo de bom naquele rito além dos elementos tradicionais que ele conserva, tal como: Por isso eu não diria que todo mundo deva ficar longe de toda missa do Novus Ordo?

R. O que diz o Bispo, reiteramos, deve ser analisado dentro do contexto, com base na citação que destacamos no início, levando-se em consideração que ali ele estava um tanto embaraçado, tentando conciliar um conselho particular com o fato de estar falando em público, tratando de uma exceção, dirigindo-se a alguém em proceso de conversão, dando ao mesmo tempo enfoques objetivos (ou de lei) e subjetivos (ou de consciencia). Seus dizeres, assim, lamentavelmente soaram ambíguos. Neste ponto se pode dizer que o Bispo foi infeliz por não se expressar com a devida clareza o que seria de caráter objetivo e o que seria de caráter subjetivo.
O trecho acima, portanto, refere-se a casos excepcionais, ou seja, enfoca o tema sob o aspecto subjetivo (outro exemplo, ilustrativo, mas real: não é prudente recomendar a um fiel sem fácil acesso às Missas da Tradição e que alega que pecará mortalmente se não frequentar a Missa Nova, que fique longe desta), e não objetivo, como entenderam seus críticos, tal como apontou Non Possumus (http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br/2015/07/sobre-una-palabras-recientes-de-mons.html).
Ademais, vale notar também que o trecho citado na questão, assim como os demais que parecem sugerir a permissão implícita à fiel, vêm em geral seguidos de uma condenação à Missa Nova na fala do Bispo; no presente caso, por exemplo: Mas ela por si causa danos, sem sombra de dúvidas. É um rito projetado para minar a fé dos católicos e desviar a crença em Deus para a crença no homem.

14- Há alguma outra crítica que possa ser feita ao Bispo no episódio?

R. A outra crítica pertinente que pode ser feita em relação a ele, e que, inclusive, ele mesmo se faz no final da conferência, é que suas colocações deveriam ter sido feitas em privado, e não em público. Mas, uma vez que ele assim procedeu, é por bem reiterar que se deve dar desconto ao que é dito em conferências, já que durante a fala se está mais sujeito ao erro, sobretudo em situações como aquela, que deixa o conferencista surpreso e embaraçado, em contraste com o desejo positivo de tentar clarear as questões para os fieis, sobretudo diante da imensa carência atual de bons sacerdotes.

15- Digamos que implicitamente, ou mesmo privadamente, ele tenha dado permissão à fiel para que continue frequentando a Missa Nova. Que se deveria pensar disto? 

R. Escreveu o Pe. Olmedo da FSSPX (advogado e profesor de Teologia Moral e de Direito Canônco no Seminário de La Reja) na década de 90: O católico deve abster-se de assistir à missa válida, mas ilícita do sacerdote herege ou cismático..., porém, o que tem consciência invencivelmente errônea é incorrigível, e devemos deixá-lo nas mãos da providência divina.
Isto, segundo o professor tomista Carlos Nougué, significa precisamente que o sacerdote tradicionalista debe-se abster de proibir a assistência à Missa Nova a quem tenha “consciência invencivelmente errônea”. Mais que isso, porém: a conclusão de que esta ou aquela pessoa tem “consciência invencivelmente errônea” quanto à Missa Nova compete, única e exclusivamente, aos bispos e aos padres, os quais são os que têm luzes de estado para tal; e até pode dizer-se que um bispo as há de ter mais que um padre.

16. Por fim, que dizer das acusações de que Dom Williamson teria mudado de visão em direção ao modernismo?

R. Que não houve mudança nenhuma. Dom Williamson continua defendendo os mesmos pontos que sempre defendeu (neste vídeo utilizado por seus críticos, ele trata da regra, não da exceção: https://youtu.be/wNiHZRzodg0), ou seja, que se por um lado a Missa Nova pode ser válida e não é herética, por outro, ela é envenenada, normalmente conduz à perda da fé, e que peca objetivamente e subjetivamente quem a assiste ciente disto; mas não peca quem sem culpa ignore isto. É com base nesse pensamento que, como vimos aqui, tem transmitido suas recomendações pastorais.