Sobre Dom Williamson e a Missa Nova:
1- Que se deve pensar de fieis que assistem à Missa
Nova?
R. Segundo Dom Lefebvre e Dom Williamson, a Missa Nova,
celebrada de acordo com o rito publicado em Roma, não é herética nem necessariamente
inválida (Dom Lefebvre - Carta ao Cardeal Ratzinger de 17 de abril de 1985),
mas conduz à heresia, e é, portanto objetivamente má. Assim, quem a assiste
peca objetivamente e subjetivamente se o faz consciente disto, mas não
subjetivamente se não tem consciência da maldade desse novo rito.
2- Teria Dom Williamson dito que a Missa Nova é boa e que
qualquer um pode assisti-la para nutrir sua fé?
R. Não, ele jamais o fez. Pelo contrário, tem reiterado nos
últimos meses em Seus Comentários Eleison que ela é má,
que é repugnante
para Deus, que é um rito protestantizado, que é o ato central de culto da nova religião humanista, que leva à perda da Fé, etc.
Eis uma assertiva que publicou em janeiro deste ano e que
se deve ter como base para a boa compreensão de seu pensamento sobre o assunto: A obrigação de manter-se longe do NOM é
proporcional ao conhecimento que uma pessoa tenha sobre o quão mau ele é (CE 445).
3- Então não é verdade que Dom Williamson promoveu a Missa
Nova em uma conferência nos EUA?
R. Não. Nessa conferência, realizada em
junho do ano passado nos EUA, depois de uma fiel perguntar a ele em tom emotivo
se poderia continuar frequentando a Missa Nova durante a semana, e a Santa
Missa Tridentina aos domingos, o Bispo respondeu-lhe (com algum embaraço por
ter sido pego de surpresa, notadamente tentando
conciliar o conteúdo de certos conselhos de caráter particular a pessoas que
ainda estão em processo de conversão, com o caráter público da conferência)
tecendo críticas gerais à Missa Nova, e disse que a regra é que ela deve ser evitada
por ser má, mas que excepcionalmente a nova religião, que tem por rito
central a mesma Missa Nova, pode ser usada para construir a Fé (por
exemplo, de alguns cristãos que tenham reto desejo de conversão e não estejam
devidamente a par da crise atual da Igreja), pelo fato de que nem sempre o rito
novo é inválido e por haver sacerdotes no Novus Ordo que ainda preservam e
difundem algum sentimento de piedade por práticas legítimas como o Santo
Rosário e a Adoração ao Santíssimo. Acrescentou
o Bispo que da mesma forma as Missas da Neofraternidade devem ser evitadas,
salvo também em casos excepcionais.
4- Mas nas Missas Novas e nas Missas da Neofraternidade não
há omissão de crítica ou até mesmo defesa do Concílio?
R. Sim. E por isso mesmo Dom Williamson complementou,
decerto também na intenção de tentar afastar gradualmente aquela fiel do NOM: ...no momento em que você vigia e escuta uma
nota desafinada chegando, ou o padre seguindo a correnteza, não pregando contra o Concílio, talvez até sugerindo que o Concílio não seja tão mau, já não critica mais o Papa Francisco (apesar dos horrores que saem da boca dele)... Você tem de ficar longe disso... quando isso começa a infiltrar na Missa da FSSPX ou se estiver
claro na Missa do Novus Ordo, fique longe.
5- Que outras críticas o Bispo fez à Missa Nova na
conferência?
R. Disse ele que se trata de um rito projetado para minar a fé dos católicos e desviar a crença em Deus para a
crença no homem, que não é um
rito bom, não é uma missa aceitável, e geralmente é um perigo tremendo assisti-la,
etc.
6- É certo dizer que a nova religião pode ser usada para construir a Fé?
R. É fato que um sem número de fieis tem chegado à Tradição depois de
ter sido atraído inicialmente para a nova religião conciliar, e nela ter
entrado em contato gradualmente com bons ensinamentos e práticas da verdadeira religião
católica (tais como venerar e seguir o exemplo dos santos, rezar o Santo
Rosário, adorar ao Santíssimo, reconhecer e se submeter ao Primado Petrino,
frequentar os sacramentos, etc.), não poucos que se chocam frontalmente com os
valores do mundo moderno (como os relacionados à castidade, à hierarquia, à
Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Seu Reinado Social, à corredenção de
Nossa Senhora, etc.).
Portanto, somente pelo que nela resta de católico, mas
jamais pelo que é próprio dela, sim, a nova religião pode ser excepcionalmente
usada para construir a Fé; e ainda mais se se leva em conta que ela hoje se
encontra infiltrada na Igreja e está muito mais visível (através da hierarquia
que a professa, de sua sede, de sua influência midiática, etc.) do que a
Verdadeira Religião (de cuja própria existência atualmente pouca gente no mundo
tem suficiente conhecimento), e, como se não bastasse, ainda se apresenta como
esta.
Há uma miríade de exemplos, e um conhecido é o de Gustavo
Corção, que assistia à Missa Nova antes de se voltar para a Tradição.
7- Mas isto se tem dado em razão da nova religião ou apesar
dela?
R. Sobre isto, explica o Padre Trincado que a nova religião conciliar é uma heresia
surgida na Igreja Católica, e que, portanto, conserva elementos da verdadeira
religião. Dá-se o mesmo com as falsas religiões protestantes, por exemplo, em relação
ao batismo válido (católico). Se este é recebido por uma criança no
protestantismo, também transmite a fé infusa, juntamente com a graça
santificante, e produz os demais efeitos do sacramento do batismo. Negar isto é
herético, assim como é herético negar que a comunhão sacramental possa
transmitir a graça a um fiel bem disposto que a receba em uma Missa Nova válida.
Portanto, assim como na heresia
protestante, o bem é causado pelo que na nova religião conciliar permanece
da religião verdadeira, não pelo que nessa nova religião há de próprio, não
pelo que nela há de novo.
8- Pode-se dizer que os que praticam a nova religião
conciliar permanecem católicos?
R. O que se pode seguramente dizer é que há um incontável
número de fiéis que pratica a nova religião conciliar mas que crê piamente
estar praticando a mesma Religião Católica praticada por seus avós, bisavós,
tataravós, etc., não poucos deles que não se dão conta da real dimensão da
crise atual, e que até mesmo jamais ouviram falar da existência de grupos
tradicionalistas (que inclusive estão não raro ausentes nas cidades em que
residem); e que buscam os sacramentos, fazem novenas, romarias, rezam o
Rosário, adoram ao Santíssimo, veneram os santos, sobretudo Nossa Senhora, e
buscam seguir seus exemplos, reconhecem a hierarquia, a autoridade do Sumo
Pontífice, e que, portanto, não podem ser de modo algum acusados de agir com
contumácia. Mais: também não poucos criticam muito do que veem atualmente, e se
sentem notoriamente confusos por falta de acesso mesmo às boas informações, e
inclusive por estarem sendo enganados por sacerdotes, padres e bispos, a quem
se entregam ingenuamente à orientação.
Não podem, portanto, ser acusados de heresia formal por sua
relação com a nova religião conciliar, e também de não ser verdadeiramente
católicos, pois, sobretudo, como explica o Padre Trincado, a teología ensina que o católico batizado que é herege material não
deixa de pertencer à Igreja apenas por este motivo. A heresia deve ser formal
para que alguém deixe de pertencer à Igreja Católica; e para que haja heresia
formal, deve haver pertinácia ou contumácia ou obstinação.
9- Dom Williamson também disse na conferência que se deve
fazer o que
for necessário para nutrir, para manter a Fé. Não é uma recomendação liberal?
R. Não, porque o necessário para nutrir ou manter a Fé
provém unicamente da Igreja Católica.
10- Está claro que os dizeres de Dom Williamson na
conferência devem ser compreendidos baseando-se na óptica pastoral, e muitas
vezes com sentido subjetivo. O que recomendava Dom Lefebvre nesse sentido?
R. Sim. Eis as palavras do próprio Dom Lefebvre: ...com respeito ao juízo que devemos ter sobre
aqueles que dizem essa Missa Nova e sobre aqueles que assistem à Missa Nova...
Se, por exemplo, temos a consciência de que se fizermos essas pessoas
perceberem a falta que cometem, elas continuarão cometendo... É necessário por
vezes ir prudentemente para lhes abrir os olhos, para lhes dizer o que devem
fazer, e nem sempre ser brutal na maneira de atuar em relação às almas. As
almas são objetos delicados que não podemos maltratar. Arriscamo-nos a fazer
mais danos a uma alma maltratando-a – ao invés de fazê-la compreender as coisas
docemente –, dizendo-lhe imediatamente: “você comete um pecado mortal”, “você
irá para o inferno”, etc., em lugar de a fazer compreender, de lhe explicar, de
lhe abrir os olhos sobre a falta que cometem. É uma questão, eu diria, de
pastor, mas é necessário agir para com essas pessoas como pastor também, e não
as condenar imediatamente.
11- Essa postura destoa significativamente da que tomou Dom
Williamson?
R. Não. Dom Williamson alertou a fiel reiteradas vezes sobre os males
da Missa Nova ao longo da conferência, sem acusá-la por estar pecando objetivamente (ainda que,
provavelmente, não subjetivamente).
12. E quanto a Dom Williamson ter dito na conferência haver
milagres no Novus
Ordo?
R. Dom Williamson mencionou os supostos milagres não
no sentido de que confirmam que a nova religião é boa ou aceitável, o que seria
absurdo, mas (e sem abordar aqui a questão da causa particular de cada suposto
milagre) no de que há nela ainda elementos verdadeiros (e há, inegavelmente)
que podem excepcionalmente ajudar certos fieis a construir a Fé.
Ver mais sobre esta e outras questões aqui:
http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br/2015/07/sobre-una-palabras-recientes-de-mons.html
13- Mas não há momentos na conferência em que se pode
sugerir que ele estaria não só dando permissão implícitamente (pois não deu tal
permissão expresamente) à fiel para continuar indo à Missa Nova, como querendo
dizer que há algo de bom naquele rito além dos elementos tradicionais que ele
conserva, tal como: Por
isso eu não diria que todo mundo deva ficar longe de toda missa do Novus Ordo?
R. O que diz o Bispo, reiteramos, deve ser analisado dentro
do contexto, com base na citação que destacamos no início, levando-se em
consideração que ali ele estava um tanto embaraçado, tentando conciliar um
conselho particular com o fato de estar falando em público, tratando de uma
exceção, dirigindo-se a alguém em proceso de conversão, dando ao mesmo tempo
enfoques objetivos (ou de lei) e subjetivos (ou de consciencia). Seus dizeres,
assim, lamentavelmente soaram ambíguos. Neste ponto se pode dizer que o
Bispo foi infeliz por não se expressar com a devida clareza o que seria de
caráter objetivo e o que seria de caráter subjetivo.
O trecho acima, portanto, refere-se a casos excepcionais,
ou seja, enfoca o tema sob o aspecto subjetivo (outro exemplo, ilustrativo, mas
real: não é prudente recomendar a um fiel sem fácil acesso às Missas da
Tradição e que alega que pecará mortalmente se não frequentar a Missa Nova, que
fique longe desta), e não objetivo, como entenderam seus críticos, tal como
apontou Non Possumus (http://nonpossumus-vcr.blogspot.com.br/2015/07/sobre-una-palabras-recientes-de-mons.html).
Ademais, vale notar também que o trecho citado na questão,
assim como os demais que parecem sugerir a permissão implícita à fiel, vêm em
geral seguidos de uma condenação à Missa Nova na fala do Bispo; no presente
caso, por exemplo: Mas
ela por si causa danos, sem sombra de dúvidas. É um rito projetado para minar a
fé dos católicos e desviar a crença em Deus para a crença no homem.
14- Há alguma outra crítica que possa ser feita ao Bispo no
episódio?
R. A outra crítica pertinente que pode ser feita em relação a
ele, e que, inclusive, ele mesmo se faz no final da conferência, é que suas
colocações deveriam ter sido feitas em privado, e não em público. Mas, uma vez
que ele assim procedeu, é por bem reiterar que se deve dar desconto ao que é
dito em conferências, já que durante a fala se está mais sujeito ao erro,
sobretudo em situações como aquela, que deixa o conferencista surpreso e
embaraçado, em contraste com o desejo positivo de tentar clarear as questões para
os fieis, sobretudo diante da imensa carência atual de bons sacerdotes.
15- Digamos que implicitamente, ou mesmo privadamente, ele
tenha dado permissão à fiel para que continue frequentando a Missa Nova. Que se
deveria pensar disto?
R. Escreveu o Pe. Olmedo da FSSPX (advogado e profesor de
Teologia Moral e de Direito Canônco no Seminário de La Reja) na década de 90: O católico deve abster-se de assistir à missa válida, mas ilícita do sacerdote herege ou cismático..., porém, o que tem consciência invencivelmente errônea é
incorrigível, e devemos deixá-lo nas mãos da providência divina.
Isto, segundo o professor tomista Carlos Nougué, significa precisamente que o sacerdote tradicionalista debe-se abster de
proibir a assistência à Missa Nova a quem tenha “consciência invencivelmente
errônea”. Mais que isso, porém:
a conclusão de que esta ou aquela pessoa tem “consciência invencivelmente
errônea” quanto à Missa Nova compete, única e exclusivamente, aos bispos e aos
padres, os quais são os que têm luzes de estado para tal; e até pode dizer-se
que um bispo as há de ter mais que um padre.
16. Por fim, que dizer das acusações de que Dom Williamson
teria mudado de visão em direção ao modernismo?
R. Que não houve mudança nenhuma. Dom Williamson continua
defendendo os mesmos pontos que sempre defendeu (neste vídeo utilizado por seus
críticos, ele trata da regra, não da exceção: https://youtu.be/wNiHZRzodg0), ou seja, que se por um lado a Missa Nova pode ser válida
e não é herética, por outro, ela é envenenada, normalmente conduz à perda da
fé, e que peca objetivamente e subjetivamente quem a assiste ciente disto; mas
não peca quem sem culpa ignore isto. É com base nesse pensamento que, como vimos
aqui, tem transmitido suas recomendações pastorais.
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