terça-feira, junho 06, 2017

“Os Filhos da Viúva” – Demolindo as Pilastras do Perenialismo - parte I




O público católico brasileiro em geral não acompanha as grandes polêmicas e não se informa sobre o que se discute nos meios intelectuais europeus. Por isso, a meu ver, é importante publicar algumas informações que são não apenas úteis, mas mesmo indispensáveis, para que esse público não seja manipulado pelos gurus do perenialismo.

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Começo por traduzir uma resenha, do escritor católico francês Jean Vaquié, sobre o livro de Jean-Claude Lozac'hmeur, intitulado "Fils De La Veuve: Essai Sur Le Symbolisme Maçonnique" ("Os Filhos da Viúva - Ensaio Sobre o Simbolismo Maçônico"). Sua primeira edição foi publicada por Éditions Sainte Jeanne d'Arc, 1990. A segunda edição revista e completa foi publicada em 2002 por Éditions de Chiré, com o título "Fils de la Veuve - Recherches Sur L'Ésotérisme Maçonnique" (Os Filhos da Viúva - Pesquisas sobre o Esoterismo Maçônico). Lozac'hmeur é um escritor e historiador medievalista francês nascido em 1940 e autor de vários livros. O autor da resenha, Jean Vaquié (1911-1992), foi um escritor e conferencista francês, católico tradicionalista, que tratou da gnose, René Guénon, seitas secretas etc.
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A Tradição Primordial tem sido louvada e a Tradição da Igreja Católica tem sido apresentada como inserida nesse saber que remonta às origens da humanidade. É um embuste! A Tradição Católica ensinada pela Igreja Católica e a Tradição Primordial ensinada pela Escola Perenialista, também chamada de Escola Tradicionalista ou Filosofia Perene, são INCOMPATÍVEIS. Conforme a expressão francesa, elas são coisas que “hurlent de se trouver ensemble”. Confira o leitor a seguir.
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“Os Filhos da Viúva” – Resenha por Jean Vaquié

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Tradução: André F. Falleiro Garcia.
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A obra que acaba de publicar [1990] o professor Jean-Claude Lozac'hmeur, nas Edições Sainte-Jeanne-d'Arc, sob o título “Os Filhos da Viúva”, começa a ser comentada. Vamos explicar o motivo.
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O autor, por meio dos próprios documentos maçônicos, expõe primeiro, para os leitores pouco habituados com esses temas, a lenda de Hiram, que simboliza e sintetiza a filosofia e o programa da maçonaria. Em seguida, ele se dirige, no resto do livro, para um público já familiarizado com os problemas das lojas.
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Uma das primeiras noções apresentadas aos neófitos maçons consiste em lhes ensinar que eles são os sucessores espirituais de um herói que teve o seu pai assassinado. E que eles são os “filhos da viúva”. Seu pai espiritual é Hiram, o arquiteto do Templo de Salomão, abatido por três companheiros que teriam querido, mas em vão, arrancar dele os segredos da construção. Os iniciados de hoje devem, em consequência, praticar uma justa vingança e exterminar espiritualmente os descendentes espirituais dos assassinos de seu pai espiritual. Desse modo, eles se tornam os construtores do Templo inacabado e, em última análise, os restauradores da Idade de Ouro sobre a terra.
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Este tema – do filho órfão que traz de volta a Idade de Ouro ao matar espiritualmente o assassino de seu pai – o professor Lozac'hmeur vai encontrá-lo, embora muitas vezes muito distorcido, mas reconhecível, no entanto, na grande maioria das lendas mitológicas da antiguidade. Ele fornece um inventário detalhado dessas diferentes versões que, tanto quanto sabemos, nunca tinha sido feito.
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Não estamos mais na presença de meras afirmações dos historiadores maçônicos que transmitem a tradição das lojas com um lirismo grandiloquente. Agora, Lozac'hmeur coloca diante dos nossos olhos os relatos lendários, diversificados, mas rigorosamente autênticos quanto as suas fontes.
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O relacionamento da maçonaria com os mistérios antigos – que vai muito além do que tiveram as antigas corporações de ofício que se tornaram “operativas” –, já não pode ser posto em dúvida.
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O que é novidade, no trabalho de Lozac'hmeur, é o seu esforço de erudição que nos proporciona a prova. Mas então, pode-se dizer, se Lozac'hmeur não faz senão confirmar, pela exatidão de seu trabalho, uma tese maçônica que data da própria fundação dessa sociedade iniciática, ele corre o risco de ser apontado como um historiador maçom. Absolutamente não! Ao observar o panorama das lendas pagãs, ele nota a existência, não apenas de uma única tradição antiga, mas de duas tradições, distintas e mesmo antagônicas: a tradição bíblica e a tradição gnóstica.
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Vamos inicialmente, tanto quanto podemos, resumir a tradição bíblica. Ela está contida no texto do Gênesis. Um Deus bom criou o homem no estado de felicidade paradisíaco. Um demônio mau (a serpente) o faz decair e o homem se vê expulso do paraíso e obrigado a arrastar doravante uma existência efêmera e penosa. Mas o Deus criador, por sua vez justo e bom, promete a redenção (Proto-evangelho).
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Na outra tradição, fundamentada na primeira, mas com um sentido inverso, um deus benfeitor da humanidade (a serpente do Gênesis) quer conceder ao homem o benefício do “conhecimento”. Este deus benfeitor é portanto o verdadeiro pai do homem. E o “conhecimento” [a gnose, no grego], indispensável para a vida feliz, é sua verdadeira mãe. Mas eis que um deus tirânico, querendo conservar para ele unicamente o “conhecimento”, condena o herói benfeitor (a serpente) que se torna assim uma vítima inocente. Quanto ao “conhecimento”, privada de seu marido que é a serpente, ela se torna viúva. Não resta mais ao homem senão matar [espiritualmente] o deus tirânico e injusto que realmente se tornou o assassino de seu pai e desse modo trazer à terra o “conhecimento” e a Idade de Ouro.
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Essas duas tradições, tão antigas uma quanto a outra, representadas em nossos dias, uma pela Igreja e a outra pela maçonaria, são radicalmente incompatíveis, porquanto Lozac'hmeur várias vezes ressalta que elas não reconhecem a mesma divindade.

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De nossa parte, é-nos particularmente gratificante encontrar, em um jovem professor e escritor, esta saudável e antiga doutrina, defendida com rigor inteiramente acadêmico. É ela que sempre sustentamos em Lectures e Tradition. Compreende-se que, por defender o oposto das ideias que são comumente transmitidas, o livro “Os Filhos da Viúva” comece a ser comentado.
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Desejamos longa e bem sucedida carreira para esse excelente livro e aguardamos com interesse, do mesmo autor, as suas futuras obras, à espera que prossigam na mesma linha.

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Jean Vaquié