Vejo nos espíritas um conflito grave acontecendo. Conheço gente que não
sabe olhar para um bebê e ver uma alma inocente. Ela gosta de crianças, mas ao
mesmo tempo tem esta idéia de que ali há almas velhas, cheias de erros e que,
portanto, não há inocência mesmo em um bebê.
É um conflito grande pois ao mesmo tempo que aprendeu que não deve ter
pena das pessoas que sofrem - mas ainda assim não deve deixar de ajudá-las,
pois os espíritas fazem várias obras de solidariedade – sente que há algo
errado, já que o sentimento de compaixão não consegue despertar realmente, fica
lutando ali com a idéia de que ele não pode se compadecer do sofrimento do
outro, mas que deve ser forte e ajudar na medida do possível (de acordo com os
espíritas e neoespiritualistas em geral, tais ajudas contam para a evolução
espiritual). Se a pessoa levar até o fim a idéia de reencarnação, se for até a
raiz, realmente não há porquê se compadecer do próximo.
Percebo que o conflito existe porque não há a liberdade de ver no outro
um ser que sofre mas que não está “pagando carma” algum, e sim a obrigatoriedade
de ver no outro um criminoso do passado. Daí sua ajuda é algo forçado. Não é
feita pela compaixão e sim pela obrigação de ajudar – principalmente para o
espírita já que Kardec instituiu o dogma ‘fora da caridade não há salvação’. E
já que os espíritas crêem que caridade é o mesmo que solidariedade (o que não é,
já que caridade é uma virtude teologal (ou sobrenatural), que só existe quando
é acompanhada por duas outras virtudes: esperança e fé. Esperar a salvação em
Cristo Jesus e ter fé Nele. Quem ajuda os outros, mas não tem fé e esperança na
salvação de Nosso Senhor, não é caridoso, é solidário).
Segundo o Catecismo de São Pio X:
“§ 6º - Da
Esperança
888) Que é a Esperança?
A Esperança é
uma virtude sobrenatural, infundida por Deus na nossa alma, pela qual
desejamos e esperamos a vida eterna que Deus prometeu aos seus servos, e os
auxílios necessários para alcançá-la.
§ 7o - Da Caridade
893) Que é a Caridade?
A Caridade é
uma virtude sobrenatural, infundida por Deus em nossa alma, pela qual amamos a
Deus por Si mesmo sobre todas as coisas, e amamos o próximo como a nós mesmos,
por amor de Deus.”
Mais sobre o
assunto, aqui.
Devo lembrar ainda sobre o termo ‘caridade’ que este surge dentro da
história cristã, portanto quem o usou mais tarde o tirou de dentro da tradição
da Igreja.
Reconheço que há espíritas buscando ajudar o outro todos os dias. E vejo
também que se estes espíritas pararem para pensar seriamente sobre a
reencarnação e a ‘lei’ de ação e reação vão ter sérios problemas a resolver. Reitero
que se a ideia de reencarnação for levada até a raiz, a compaixão some ou não
se desenvolve, pois é dificílimo amar um estuprador, um assassino, um déspota,
um criminoso enfim (como creem que foram tais pessoas em outras vidas). Amor
assim só surge pela graça divina. Aí sim é caridade, mas a esta depende de
outras virtudes, portanto não nasce em quem não crê na Salvação do Cristo.
Para a pessoa que tiver mais tendência a compassividade vai surgir o tal
conflito ao qual me referi. E para mascarar este conflito ela vai se apegar à
ideia de que tem que ajudar o outro porque este é um mandamento ‘dos
espíritos’. Pensará então que está fazendo o certo. E este conflito vai
submergir no subconsciente até que dependendo das circunstâncias ele volte à
tona, mas não mais como um conflito claro e sim como algum distúrbio psíquico
e/ou emocional. Ela reprimiu algo sério e vai ter que arcar com as
consequências não só espirituais, mas também psicológicas e emocionais.
Vejam, se não há inocência em um bebê, se há culpa por crimes passados,
então todos são culpados de uma forma ou de outra, sendo que o que agrava isso
tudo é a noção de carma, pois culpas todos nós temos, mas para o
reencarnacionista há também a expiação e não há perdão. Não há a possibilidade
de misericórdia, de esquecimento das faltas e de renovação espiritual. Só há a
expiação cármica, o retorno à carne, algo penoso, duro demais e sempre sem
lembranças dos crimes cometidos. A pessoa está pagando por algo que não sabe,
que não lembra e não entende. Não há nada de pedagógico nisso, muito pelo
contrário.

