quinta-feira, novembro 23, 2017

Espiritismo e Protestantismo



Rousseau, Pestalozzi e Kardec: mesmas ideias


Apesar de o espiritismo buscar uma explicação do "karma" inspirada num "libertarismo" da agência (nossos reveses seriam consequência de "nossas" escolhas, mesmo que o ignoremos) e, de fato, incorrer no erro oposto do pelagianismo, não consegue evitar a queda num fatalismo muito semelhante ao luterano/calvinista (as nossas condições dependeriam das nossas escolhas, que por sua vez dependeriam do nosso grau de "evolução espiritual") - que isso seja, claro, de uma incoerência patente não vem propriamente ao caso.

Além do mais, os indícios de "evolução" são bastante aparentados aos "sinais de eleição" ou de "condenação" do calvinismo e a explicação espírita dos gozos e sofrimentos é bastante próxima à doutrina protestante sobre os galardões (levando em ambos os casos a uma valorização "ética" do sucesso material). Em todo caso, a mesma admissão de uma ordem causal férrea, similar à do moderno determinismo "científico", encontra-se nas seitas calvinistas e espíritas. Isso para não falar do individualismo, da rejeição à hierarquia, do minimalismo cultual, da secularização dos costumes, das táticas de propaganda etc. Não por acaso, Rivail/Kardec teve sua formação no ambiente protestante e liberal do Instituto Pestalozzi, e o espiritismo se espalhou, sobretudo na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, através de seitas muito semelhantes às "evangélicas" e àquelas como o unitarismo, a "ciência cristã", o "exército da salvação" etc., que começaram a pulular pelo século XIX.

Há ainda muitos autores que associam correntes protestantes ao gnosticismo, e o teólogo presbiteriano Philip J. Lee admite mesmo um forte pendor gnóstico intrínseco ao protestantismo (que ele considera "contido" por certas admissões de Lutero e Calvino relativas à continuidade histórica da Igreja e à aceitação - à sua maneira - da Tradição, mas que são totalmente abandonadas pelas variantes mais modernas) - há ainda toda a controvérsia sobre a influência de movimentos esotéricos (que fervilhavam no Renascimento) na própria fundação do protestantismo, as relações entre o luteranismo e a Rosa-Cruz, as influências recíprocas entre protestantismo e maçonaria etc. Em "místicos" protestantes como Böhme e Swedenborg, esses elementos são bastante evidentes. A própria ideia de reencarnação adotada por kardecistas e teosofistas surgiu no entrecruzamento entre a "teologia" liberal protestante e a maçonaria na Alemanha do século XVIII, em especial com Lessing.

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