quarta-feira, abril 25, 2018

O Ódio ao Intelecto

Por Fausto Zamboni





O conflito entre as exigências da consciência e as limitações do meio pode gerar desde a reafirmação da independência do espírito até a criação de uma série de camuflagens. Alguns intelectuais, como Sócrates, enfrentaram corajosamente as consequências, pagando com a morte; mas, na maioria dos casos, quando a situação coíbe a liberdade de expressão, cria-se um disfarce.

O filósofo Leo Strauss, em Persecution and the Art of Writing (1952) e em On Tyranny. An interpretation of Xenophon’s “Hieron” (1963), demonstrou que, em tempos de tirania, os intelectuais desenvolveram um “segundo sentido” embutido nos escritos, para evitar conflitos com o despotismo, seja de alguns poderosos ou da massa agitada. Na Modernidade, os intelectuais, ou porque oprimidos pelo Absolutismo e a Inquisição, ou porque não queriam revelar claramente seus objetivos, muitas vezes ocultavam a verdade94. Maquiavel (2011) confessou numa carta: “Não digo nunca aquilo em que creio, nem creio naquilo que digo, e quando digo alguma verdade, eu a escondo entre tantas mentiras que é difícil encontrá-la”.

O exemplo de Sócrates e Maquiavel são casos extremos, mas há entre eles toda uma gradação dos casos de camuflagem da verdade e acomodação à situação. Jacques Barzun (1961) dizia que o medo é o principal inimigo do escritor. O medo de exprimir a verdade e agir sinceramente acompanha o homem em qualquer meio. No ambiente em que não há tirania, ainda assim pode haver o medo de não interessar, de não agradar ou de ofender. Isso pode ocorrer em qualquer ambiente e, em última análise, depende da personalidade do escritor, mas os ambientes de produção coletiva, como a universidade, têm maior poder coercitivo sobre os seus membros.

Para Barzun, os costumes democráticos, por sua própria natureza, tendem a reprimir a conversação intelectual. Seu ponto de partida é a contradição, o que implica que um ou outro tem que estar, pelo menos, parcialmente equivocado. O maior medo, diz ele, não é o erro, mas o rompimento com a unidade do grupo. “O raciocínio é este: você é um contra muitos = você está equivocado = você é um néscio”96 (BARZUN, 1961, p. 86), e ainda que a História, desde Sócrates, tenha mostrado o contrário, o efeito inibidor permanece. Esse esquivar-se dos conflitos é uma forma elementar de autoproteção, uma defesa do indivíduo que se sente frágil diante de um sistema em que a maioria detém o poder:

“a consciência democrática deseja, antes de tudo [...] acrescentar amigo a amigo e achar amigos entre si [...] anela principalmente, que tudo e todos sejam agradáveis” (BARZUN, 1961, p. 88).

Por isso, em relação a alguém que desaprovamos preferimos dizer: “estou completamente de acordo com você, mas...”; sobre alguém que nos desagradou, dizemos: “gostei muito do fulano, contudo...”. Quando queremos contradizer, diz Barzun, usamos frases como: “posso estar equivocado, porém...”; “só estou pensando em voz alta”; “só por provocação, gostaria de expor o problema sob este ponto de vista...”. O homem que deseje furar essa barreira protecionista em nome de uma discussão mais franca é facilmente visto como rude e insensível.

Nesta condições, é preferível frear o Intelecto que “é forte e atua, e se mostra superior à falta de intelecto na proporção em que toda destreza está para a incapacidade. Conscientes de seu peso, alguns possuidores de Intelecto tratam de escondê-lo, ou o desculpam” (BARZUN, 1961, p. 90). Desta forma, o que seria um debate ou uma conversação intelectual transforma-se numa sondagem dos oponentes:

Rara vez prestam atenção ao que se lhes diz, na avidez de descobrir o que lhes é contrário. Suas antenas e instintos se põem em atividade e não — como seria justo — seus ouvidos e sua razão. Isso explica a incoerência das falas em público e a dificuldade de manter uma conversação geral entre seis ou oito pessoas. Cai-se num tête-à-tête para mútua auscultação. (BARZUN, 1961, p. 90-91).

Consciente desse problema, Bertrand Russel alerta que é impossível

... ser um bom professor sem que se tenha tomado a resolução firme de nunca, no decurso do seu magistério, ocultar a verdade em nome do que quer que se considere ser ‘não-edificante’. A ignorância cautelosa produz uma virtude frágil que se perde ao primeiro contato com a realidade. (RUSSEL, 2000, p. 82).

Na nossa época, em que as limitações internas da profissão, as exigências socioeconômicas e o politicamente correto dificultam a busca desinteressada da verdade, a advertência de Bertrand Russel é mais atual do que nunca.

(...)

O homem só se torna um intelectual se, renunciando a uma vida confortável, submeter-se a um esforço contínuo para superar-se a si mesmo. Assim, o intelectual separa-se do homem comum, e isso acarreta uma rejeição contra ele. Jacques Barzun (1961) diz que, ao longo da história, o Intelecto foi sempre odiado por ser sentido como um sinal de superioridade social, associado à aristocracia e ao poder.

A hostilidade do homem comum contra o intelecto é de todo tempo e lugar. É um ódio compreensível, relacionado com o espírito gregário [...] o grande símbolo do Intelecto martirizado — Sócrates — foi uma vítima do mesmo ressentimento espontâneo que reúne uma maioria, na escola, contra o menino estudioso [...] Esse sentimento é tão universal que quem deseje enfrentá-lo perceberá imediatamente que está se opondo a uma força da natureza. Porém, apesar desta natural oposição os ter prejudicado, nunca ela reprimiu o Intelecto105. (BARZUN, 1961, p. 19).

Numa época que cultiva o ideal igualitário, contudo, aumenta o rancor diante de tudo o que aparente privilégio e eminência. O regime democrático estimula, por sua própria natureza, um nivelamento demagógico por baixo, diz Laurent Schwartz (1884, p. 8), “dirigido contra todo talento, toda qualidade, contra tudo que ‘supera’”. Isso afeta particularmente a universidade, que forma homens com conhecimentos e gostos que os diferenciam do resto da população.

Devido ao novo credo igualitário, os eruditos, mesmo na universidade, são vistos com desconfiança. O conceito de autoridade decai no âmbito educacional, juntamente com a tradição que o professor representa. Com a politização, a universidade perdeu parte da sua autonomia; agora, influem nas questões acadêmicas desde os grandes organismos internacionais até os estudantes, que têm voz ativa em quase todos os setores, opinando a respeito do currículo e participando das decisões administrativas.

Notas:
94 O medo de desagradar aos semelhantes não é um mero exagero infundado. Como demonstra René Girard, na teoria do bode expiatório, o homem é o único, dentre os animais, a executar um inimigo, a ter poder de vida e morte sobre outro homem, a vingar-se dos danos sofridos, mesmo depois de várias gerações. Por isso, ainda que nem sempre esta tendência seja levada a cabo, todos sentem, intuitivamente, que não devem desagradar ao grupo.

(Extraído da Tese de Fausto Zamboni: Literatura, Ensino e Educação Liberal, disponível aqui:


Nenhum comentário:

Postar um comentário

Antes de fazer seu comentário: ele deve ser relacionado ao post, e feito respeitosamente. Reservo-me o direito de não publicar comentários que julgue desnecessários ou desrespeitosos. Os comentários não expressam a minha opinião e são de total responsabilidade de seus autores.

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.