Sinto pena dos cães testados por Pavlov, mas reconheço que
em sua pesquisa há descobertas interessantíssimas.
Veja que interessante: ele comprovou com suas
observações que existem os temperamentos descritos por Hipócrates. Pavlov usava
outros nomes para eles, mas são a mesma coisa. E não somente os homens possuem
estes temperamentos, os cães também.
O problema é o homem cair no mecanicismo, achando que é igual a um animal irracional. Somos parecidos sim, mas nós humanos possuímos capacidade de escolha, possuímos uma alma espiritual, imortal.
Trecho de A Luta pela Mente* (os grifos são meus):
“Trinta anos de pesquisa convenceram Pavlov de que os
quatro temperamentos básicos de seus cães se assemelhavam muito àqueles diferenciados
no homem pelo médico grego da Antiguidade, Hipócrates. Embora muitas combinações
de padrões básicos de temperamento aparecessem nos cães de Pavlov, podiam elas
ser consideradas como tais e não como novas categorias de temperamento.
O primeiro dos quatro temperamentos correspondia ao tipo “colérico”
de Hipócrates, que Pavlov chamou de “excitado”. O segundo correspondia ao “temperamento
sangüíneo” de Hipócrates; Pavlov chamou-o de “vivo”, sendo que os cães desse
tipo possuíam temperamento mais equilibrado. A resposta normal de ambos os
tipos a tensões impostas ou a situações de conflito era uma excitação crescente
e um comportamento mais agressivo. Mas onde o cão “colérico”, ou “excitado”,
muitas vezes se tornava incontrolavelmente selvagem, as reações do cão “sangüíneo”
ou “vivo” às mesmas pressões eram dirigidas e controladas.
Nos outros dois tipos principais de temperamento canino as
tensões impostas e as situações de conflito eram enfrentadas com maior passividade, ou “inibição”, ao invés de agressivamente.
O mais estável desses dois temperamentos inibitórios foi descrito por Pavlov como
o “tipo calmo imperturbável, ou tipo fleumático de Hipócrates”. O temperamento restante
identificado por Pavlov corresponde à classificação “melancólico” de Hipócrates.
Pavlov chamou-o de tipo “inibido”. Descobriu ele que um cão desse tipo
demonstra tendência constitucional a enfrentar ansiedades e conflitos com
passividade e controle de tensão. Qualquer pressão experimental forte sobre o
seu sistema nervoso o reduz a um estado de inibição cerebral e “paralisia pelo
medo”.
Todavia, Pavlov descobriu que também os outros três tipos
respondiam no fim com estados de inibição cerebral, quando submetidos a mais pressão
do que podiam suportar pelos meios normais. Considerou isso como um mecanismo protetor
normalmente usado pelo cérebro como último recurso quando pressionado além do ponto
de tolerância. Porém, o tipo “inibido” de cão era uma exceção: a inibição
protetora ocorria mais rapidamente e em resposta a pressões menos intensas —
uma diferença da maior significação para o seu estudo.
(...)
Ao discutir o tipo “inibido” Pavlov afirmou que, não
obstante seja herdado o padrão básico de temperamento, todo cão é condicionado desde
o nascimento pelas várias influências do meio que podem produzir padrões inibitórios
de comportamento duradouros sob certas pressões.
O padrão final de comportamento em qualquer cão reflete,
portanto, o seu próprio temperamento constitucional e padrões de comportamento
específicos induzidos pelas pressões do meio.
Os experimentos de Pavlov levaram-no a tomar crescente
cuidado com a necessidade de classificar os cães de acordo com seus temperamentos
constitucionais herdados, antes de submetê-los a qualquer de seus experimentos mais
detalhados em condicionamento. Assim foi porque respostas diferentes à mesma
pressão experimental ou situação de conflito vieram de cães de temperamentos
diferentes. Se um cão entrasse em colapso e apresentasse padrão de comportamento anormal, o seu tratamento também dependeria
primariamente de seu tipo constitucional. Pavlov confirmou, por exemplo, que os
brometos auxiliam grandemente a restauração da estabilidade nervosa em cães que
entraram em colapso; mas a dose de sedativo requerida por um cão do tipo “excitado”
é cinco a oito vezes maior do que a requerida por um cão “inibido” de peso
exatamente igual. Na Segunda Guerra
Mundial a mesma regra geral serviu para seres humanos que entraram temporariamente
em colapso sob a pressão de batalha e bombardeio, e precisavam da “sedação de linha de
frente”. As doses requeridas variavam grandemente de acordo com seus tipos de
temperamento.
No fim de sua vida, quando estava aplicando
experimentalmente suas descobertas sobre cães a pesquisas da psicologia humana,
Pavlov concentrou-se no que acontecia quando a atuação sobre o sistema nervoso
superior de seus cães ia além dos limites da reação normal, e comparou os
resultados com relatórios clínicos sobre vários tipos de colapso mental agudo e
crônico em seres humanos. Descobriu que aos cães normais do tipo “vivo” ou “calmo
imperturbável” podiam ser aplicadas, sem causar colapso, pressões mais intensas
e prolongadas do que àqueles dos tipos “excitado” e “inibido”.
Pavlov veio a acreditar que essa inibição “transmarginal” (também
tem sido denominada “ultradivisória” ou “ultramaximal”)
que eventualmente dominou até mesmo os dois primeiros tipos — mudando-lhes dramaticamente
todo o comportamento — podia ser essencialmente protetora. Quando ocorria, o cérebro
não tinha senão esse meio de evitar dano em conseqüência da fadiga e da tensão nervosa.
Achou um meio de averiguar o grau de inibição transmarginal protetora em
qualquer
cão e a qualquer momento: através do uso da sua técnica do reflexo condicionado da glândula salivar.
Embora o comportamento geral do cão pudesse parecer normal à primeira vista, a quantidade
de saliva secretada dir-lhe-ia o que estava começando a passar-se em seu cérebro.”
*(A
Luta pela Mente, de William Sargant. Edição eletrônica
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/mente.html)


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