quinta-feira, abril 19, 2018

Pavlov e os quatro temperamentos




Sinto pena dos cães testados por Pavlov, mas reconheço que em sua pesquisa há descobertas interessantíssimas.

Veja que interessante: ele comprovou com suas observações que existem os temperamentos descritos por Hipócrates. Pavlov usava outros nomes para eles, mas são a mesma coisa. E não somente os homens possuem estes temperamentos, os cães também.

O problema é o homem cair no mecanicismo, achando que é igual a um animal irracional. Somos parecidos sim, mas nós humanos possuímos capacidade de escolha, possuímos uma alma espiritual, imortal.

Trecho de A Luta pela Mente* (os grifos são meus):

“Trinta anos de pesquisa convenceram Pavlov de que os quatro temperamentos básicos de seus cães se assemelhavam muito àqueles diferenciados no homem pelo médico grego da Antiguidade, Hipócrates. Embora muitas combinações de padrões básicos de temperamento aparecessem nos cães de Pavlov, podiam elas ser consideradas como tais e não como novas categorias de temperamento.
O primeiro dos quatro temperamentos correspondia ao tipo “colérico” de Hipócrates, que Pavlov chamou de “excitado”. O segundo correspondia ao “temperamento sangüíneo” de Hipócrates; Pavlov chamou-o de “vivo”, sendo que os cães desse tipo possuíam temperamento mais equilibrado. A resposta normal de ambos os tipos a tensões impostas ou a situações de conflito era uma excitação crescente e um comportamento mais agressivo. Mas onde o cão “colérico”, ou “excitado”, muitas vezes se tornava incontrolavelmente selvagem, as reações do cão “sangüíneo” ou “vivo” às mesmas pressões eram dirigidas e controladas.
Nos outros dois tipos principais de temperamento canino as tensões impostas e as situações de conflito eram enfrentadas com maior passividade, ou “inibição”, ao invés de agressivamente. O mais estável desses dois temperamentos inibitórios foi descrito por Pavlov como o “tipo calmo imperturbável, ou tipo fleumático de Hipócrates”. O temperamento restante identificado por Pavlov corresponde à classificação “melancólico” de Hipócrates. Pavlov chamou-o de tipo “inibido”. Descobriu ele que um cão desse tipo demonstra tendência constitucional a enfrentar ansiedades e conflitos com passividade e controle de tensão. Qualquer pressão experimental forte sobre o seu sistema nervoso o reduz a um estado de inibição cerebral e “paralisia pelo medo”.
Todavia, Pavlov descobriu que também os outros três tipos respondiam no fim com estados de inibição cerebral, quando submetidos a mais pressão do que podiam suportar pelos meios normais. Considerou isso como um mecanismo protetor normalmente usado pelo cérebro como último recurso quando pressionado além do ponto de tolerância. Porém, o tipo “inibido” de cão era uma exceção: a inibição protetora ocorria mais rapidamente e em resposta a pressões menos intensas — uma diferença da maior significação para o seu estudo.
(...)
Ao discutir o tipo “inibido” Pavlov afirmou que, não obstante seja herdado o padrão básico de temperamento, todo cão é condicionado desde o nascimento pelas várias influências do meio que podem produzir padrões inibitórios de comportamento duradouros sob certas pressões.
O padrão final de comportamento em qualquer cão reflete, portanto, o seu próprio temperamento constitucional e padrões de comportamento específicos induzidos pelas pressões do meio.
Os experimentos de Pavlov levaram-no a tomar crescente cuidado com a necessidade de classificar os cães de acordo com seus temperamentos constitucionais herdados, antes de submetê-los a qualquer de seus experimentos mais detalhados em condicionamento. Assim foi porque respostas diferentes à mesma pressão experimental ou situação de conflito vieram de cães de temperamentos diferentes. Se um cão entrasse em colapso e apresentasse padrão de comportamento anormal, o seu tratamento também dependeria primariamente de seu tipo constitucional. Pavlov confirmou, por exemplo, que os brometos auxiliam grandemente a restauração da estabilidade nervosa em cães que entraram em colapso; mas a dose de sedativo requerida por um cão do tipo “excitado” é cinco a oito vezes maior do que a requerida por um cão “inibido” de peso exatamente igual. Na Segunda Guerra Mundial a mesma regra geral serviu para seres humanos que entraram temporariamente em colapso sob a pressão de batalha e bombardeio, e precisavam da “sedação de linha de frente”. As doses requeridas variavam grandemente de acordo com seus tipos de temperamento.
No fim de sua vida, quando estava aplicando experimentalmente suas descobertas sobre cães a pesquisas da psicologia humana, Pavlov concentrou-se no que acontecia quando a atuação sobre o sistema nervoso superior de seus cães ia além dos limites da reação normal, e comparou os resultados com relatórios clínicos sobre vários tipos de colapso mental agudo e crônico em seres humanos. Descobriu que aos cães normais do tipo “vivo” ou “calmo imperturbável” podiam ser aplicadas, sem causar colapso, pressões mais intensas e prolongadas do que àqueles dos tipos “excitado” e “inibido”.
Pavlov veio a acreditar que essa inibição “transmarginal” (também tem sido  denominada “ultradivisória” ou “ultramaximal”) que eventualmente dominou até mesmo os dois primeiros tipos — mudando-lhes dramaticamente todo o comportamento — podia ser essencialmente protetora. Quando ocorria, o cérebro não tinha senão esse meio de evitar dano em conseqüência da fadiga e da tensão nervosa. Achou um meio de averiguar o grau de inibição transmarginal protetora em qualquer
cão e a qualquer momento: através do uso da sua técnica do reflexo condicionado da glândula salivar. Embora o comportamento geral do cão pudesse parecer normal à primeira vista, a quantidade de saliva secretada dir-lhe-ia o que estava começando a passar-se em seu cérebro.”

*(A Luta pela Mente, de William Sargant. Edição eletrônica 
http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/mente.html)


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