sexta-feira, maio 11, 2018

A educação é possível tanto na escola como fora dela




Antes do texto de Zamboni, faço um comentário:

Se nós tivéssemos um estado católico de fato, a história seria outra. Cristo deve reinar em toda a Sociedade, e as liberdades individuais só podem existir de fato sob a luz da Igreja, das Leis de Deus: liberdade para escolher o Bom, o Belo e o Verdadeiro.

Tenham em mente estas palavras ao lerem o texto abaixo.

Para saber mais sobre a escola moderna (e como ela é diferente da escola fundada pela Igreja), leia este post de meu blog sobre educação domiciliar:
Homeschooling, Escolas, Católicos, Protestantes


Trecho do Ensaio de Zamboni:


(...) nem sempre os “direitos” nominalmente adquiridos – como é o caso da obrigatoriedade escolar – são uma garantia de mais liberdade individual nem de maior participação democrática. O pressuposto da maioria das reformas educacionais é que um pequeno grupo de pessoas sabe o que é o melhor para o restante da população, e pode usar a força para distribuir seus benefícios.

A escola geralmente foi implantada desde cima, e em alguns casos até contra a vontade da população “beneficiada”. Frequentemente, foi usada como veículo de doutrinação religiosa e política, em regimes democráticos e autoritários, e como preparação de mão-de obra qualificada para a indústria. Seja nas democracias, seja em regimes tirânicos, a escolarização universal mostra um afã de uniformizar, suprimir diferenças e vozes discordantes; enfim, tende a um controle total, chegando até ao desejo de moldar a mente e o comportamento dos cidadãos.

O que vemos, na Europa, Estados Unidos e Brasil, é um percurso crescente rumo à centralização e diminuição das liberdades no campo educacional. Se a educação é concebida em termos econômicos, como alavanca para o desenvolvimento e redução da pobreza, então se trata de um caminho coerente84. O Estado, nesse caso, tem o dever de buscar a solução mais eficaz: educação compulsória, progressão continuada etc. A liberdade humana e as exigências intelectuais, então, são consideradas menos importantes que a prosperidade; o homem é uma peça na engrenagem social concebida pelo homo economicus85. Se o Estado, porém, sob o pretexto de cuidar do bem-estar social, usa a instrução para tornar-se demasiado forte e eficiente, acaba por transformar os cidadãos em fracos, dependentes e manipulados.

A economia, contudo, não é a medida de todas as coisas, e as tentativas dos governos de erradicar o analfabetismo e a pobreza não devem suprimir as liberdades individuais, especialmente na esfera educativa. Devemos reafirmar, como Isaiah Berlin (2005, p. 300), “uma rejeição violenta da noção de que os homens devem ser fabricados como tijolos para as estruturas sociais projetadas ou para o benefício de algum grupo ou líder privilegiado”.

Apesar de tudo, a confiança no potencial da escola e na capacidade do Estado de conduzir a instrução não foram abaladas, mas, pelo contrário, são consideradas inquestionáveis, lançando ao descrédito a simples possibilidade de contestá-las. Soa estranha a reivindicação das escolas, ou mesmo dos pais, de adotar modelos educativos próprios, sem interferência da regulamentação estatal. No entanto, o fato é que a Educação, até há pouco tempo, gozava de autonomia em relação ao poder político.

Não precisamos endossar a descrença absoluta na instituição escolar; ela é produto de uma época que viu a desfiguração das escolas e a sua instrumentalização para fins políticos. Muitos dos críticos da escola não conseguiram resultados positivos dignos de nota, com suas propostas alternativas. Sobretudo, não devemos decair na crença de que a criança, deixada livre para aprender, poderá adquirir uma educação formal por conta própria, com facilidade. A educação formal pressupõe o uso de professores ou livros que a oriente, mesmo no caso da educação em casa.

A educação é possível tanto na escola como fora dela. A história mostra que é possível a existência de escolas de alto nível: os jesuítas, durante alguns séculos, deram, dentro de edifícios escolares, uma educação de qualidade à elite intelectual europeia. Sócrates, porém, ensinava em qualquer lugar e ocasião que se lhe apresentasse; o filósofo Santo Alberto Magno lecionava em praça pública. Isso mostra como a total falta de infraestrutura e de recursos financeiros não é impedimento para uma boa educação, e que esta não se confunde com o aparato material criado para apoiá-la.

Notas:

84 A educação é vista sob a lógica da relação custo-benefício, um investimento financeiro em vista do retorno, como podemos ver nesta declaração do Banco Mundial, o maior financiador da educação primária em todo o mundo: “a educação é a pedra angular do crescimento econômico e do desenvolvimento social e um dos principais meios para melhorar o bem-estar dos indivíduos. Ela aumenta a capacidade produtiva das sociedades e suas instituições políticas, econômicas e científicas e contribui para reduzir a pobreza, acrescentando o valor a eficiência ao trabalho dos pobres...” (apud TORRES, 1996, p. 131). Estão ali ausentes os aspectos não quantificáveis, que constituem, talvez, a parte mais importante da educação.

(Extraído da Tese de Fausto Zamboni: Literatura, Ensino e Educação Liberal, p. 79, 80. Disponível aqui:



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