quinta-feira, maio 03, 2018

O ambiente mais adequado para as crianças é a família

Por Fausto Zamboni




Nota minha, Andrea Patrícia: A escola em si não é má, mas hoje é dificílimo encontrar uma escola boa de fato, católica como deve ser. Como diz Zamboni: "A história mostra que é possível a existência de escolas de alto nível: os jesuítas, durante alguns séculos, deram, dentro de edifícios escolares, uma educação de qualidade à elite intelectual europeia". Infelizmente, hoje é coisa rara. Não é questão de ser contra ou a favor da escola, é reconhecer a realidade como ela é e tomar as atitudes necessárias para tal situação. Quem puder criar e conservar escolas boas de fato, faça. Quem quiser instruir seus filhos em casa, faça! Creio que hoje a decisão mais acertada para muitas famílias, devido a muitos fatores, é o homeschooling.


Texto de Zamboni (grifos meus):

A pedagogia contemporânea, diz Jeanne Hearsch (1982), é prisioneira de vários clichês. Afirma que o aluno é, em princípio, livre, justo, criativo, dotado de espírito crítico. Os alunos, segundo esta perspectiva, deveriam viver num plano de igualdade com o professor, com o máximo de liberdade para se desenvolver plenamente. O exercício da autoridade, por parte do professor, seria ilegítimo e contraproducente. Na realidade, porém, o que se observa é que:

"Os alunos são, de início, crianças inseguras que acabam de largar as mãos dos pais. Estão ansiosos por perguntar, são confiantes, procuram receber respostas verdadeiras, admirar exemplos válidos, orientar-se num mundo onde, sozinhos, se sentem perdidos. Eles repetem as palavras dos outros, aprendem a língua da tribo, porque já têm necessidade de dizer para poder fazer – porque obscuramente, sendo filhotes, procuram, através dos outros, tornar-se eles mesmos, quer dizer, livres. Eles sentem, desde o começo, que para serem livres é preciso aprender, aprender o universo, aprender os outros, e a língua dos outros. Querem saber o que é permitido e o que é proibido, e que o limite entre os dois seja nítido e constante. Isto os tranquiliza, numa idade em que têm grande necessidade de ser tranquilizados, e que vai muito além da primeira infância. Nenhuma espécie gera filhotes tão inacabados ao nascerem como a espécie humana."(HEARSCH, 1982).

As crianças, colocadas no mesmo ambiente, são consideradas autônomas, num mundo que deve governar-se por si mesmo, sem a interferência dos adultos. É a autoridade coletiva dos colegas, nesse caso, que detém o poder. A influência do grupo determina a conduta aceitável entre os jovens, que são frequentemente cruéis e impiedosos, rindo das debilidades, e desprezando quem demonstra necessidade de ajuda 81.

Dentro de um grupo, diz Arendt (2000), a situação da criança é pior do que diante de um adulto, pois a autoridade coletiva – ainda que seja de crianças – é muito mais forte e tirânica do que a de um indivíduo, por mais severo que seja. Mesmo os adultos dificilmente são capazes de suportar o simples fato de ser a minoria de um diante da maioria absoluta dos outros, mas têm, ao menos, a capacidade de discutir racionalmente.

Exposta à pressão do grupo, sem experiência da vida e desprovida de mecanismos de defesa, a criança tende a desenvolver uma reação quase patológica, entre o conformismo passivo e a delinquência. De que forma um ambiente conturbado, como a escola, pode induzir os alunos a assumir comportamentos nocivos pelo simples desejo de aceitação? Muitos começam a beber e a usar drogas, praticam vandalismo ou iniciam uma vida sexual precoce movidos pelo desejo de aprovação. A escola, portanto, além de custar caro e ser pouco eficiente, pode, em virtude de uma convivência grupal degradante, ser extremamente danosa à formação da personalidade 82.

A influência prejudicial da escola é tanto pior numa época de fragmentação da sociedade, especialmente da vida familiar, que não é mais capaz de manter a sua coesão, deixando o indivíduo desancorado, ao sabor das flutuações dos diversos grupos sociais que frequenta. Esta situação esteve entre os objetivos de muitos educadores, que, especialmente no século XIX, queriam limitar a influência familiar na educação dos filhos, para tornar mais eficaz a ação educativa desejada pelo Estado 83.

O ambiente mais adequado para as crianças, diz Arendt (2000), especialmente nos primeiros anos, é a família, que constitui, com a segurança e a intimidade entre quatro paredes, um refúgio imprescindível para a formação da personalidade. No mundo público, diz ela, a pessoa não conta por si mesma, mas por seu papel social. A família é o lugar para que a vida humana tenha importância em si mesma.

É a destruição desse espaço vital que acontece quando as crianças, transportadas para a escola, são colocadas num mundo autônomo e homogêneo, que as força a uma existência pública antes do tempo. No contexto social, serão consideradas antes como papéis que como pessoas, dos quais se espera certo rendimento e capacidade de adequação social. A diminuição do espaço da convivência real e da existência “enquanto pessoas” destrói na base as condições necessárias a uma educação de qualidade e verdadeiramente humana. A grande ironia, diz Arendt, é que esse problema surgiu pelas mãos daqueles que alegavam proteger as crianças de uma educação que não levava em conta a sua natureza e suas necessidades específicas. O “século da criança”, que pretendia emancipá-las, tolheu as condições mais elementares para o seu desenvolvimento. Tentando corrigir o erro de se considerar a criança como um pequeno adulto, a educação deixou-a exposta a uma característica marcante desse mundo, que é a exposição pública.

Ainda que, no passado, as crianças não fossem objeto de uma legislação específica de defesa aos seus direitos – como é hoje o caso do Estatuto da Criança e do Adolescente – ela tinha uma posição central e privilegiada nas famílias: a mãe tinha como prioridade cuidar dos filhos e educá-los. Hoje, pelo contrário, muitas mães colocam em primeiro lugar a realização profissional (ou, em alguns casos, medo de representar o papel ultrapassado de dona-de-casa), e “terceirizam” a educação dos filhos a outras instituições; os matrimônios são mais facilmente desfeitos e, portanto, a vida psicológica das crianças está mais sujeita a instabilidades. É de se notar, portanto, que o surgimento de garantias nominais coincidiu com a queda efetiva da qualidade de vida que a sociedade oferece às crianças.

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Notas:

81 O romance O Senhor das moscas, de William Golding (2002), é uma boa ilustração da tendência despótica das crianças e adolescentes que, sozinhas numa ilha deserta, após um acidente aéreo, desenvolvem os comportamentos mais deploráveis e bárbaros.

82 Convém recordar, aqui, os experimentos de psicologia social mostrados no capítulo anterior, que demonstram claramente a debilidade de qualquer indivíduo diante de um grupo social. O fato de que as crianças sejam deixadas por si mesmas e que gozem de tanta autonomia é, por si, um grave problema social.

83 Não se coloca mais a questão “a criança pertence aos pais ou ao Estado?”, obviamente ofensiva. Também parecem superados os sonhos totalitários de educadores como Robert Owen e Frances Wright, que imaginavam uma escola em tempo integral, 24 horas por dia, que é operacionalmente impraticável. Estamos na época do controle não aversivo, como vimos na já citada declaração da UNESCO (apud BERNARDIN, 1995, p. 66): “As famílias se sentem cada vez menos capazes de assumir suas tarefas educativas tradicionais [...] elas desejam que uma importância adicional seja dada aos aspectos éticos, morais e cívicos da instituição educacional”. Mas já ninguém aceita que os pais tenham autonomia na escolha do tipo de educação que querem dar aos filhos. Sobre a discussão de quem é mais confiável, se a família ou o Estado, as estatísticas de Rudolph Rummel sobre o democídio – isto é, o assassinato de cidadãos pelo próprio governo – demonstram claramente o tipo de padre padrone que o Estado representa. O democídio superou, em quantidade de cadáveres, todas as outras causas de morte somadas. Para mais informações, veja-se a página pessoal do autor, <http://www.hawaii.edu/powerkills/NOTE5.HTM>.


(Extraído da Tese de Fausto Zamboni: Literatura, Ensino e Educação Liberal, p. 79, 80. Disponível aqui:

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