terça-feira, junho 26, 2018

Devoções, penitências e saúde

Por Pe. Quadrupani




Cassiano e Santo Tomás escrevem que Santo Antão, numa conferência célebre que teve com os monges do Egito, concluiu que a virtude mais necessária era a discrição: porque, assim como o sal conserva todas as viandas, a discrição conserva todas as virtudes. Há muitas pessoas que, esquecendo esta discrição necessária nas práticas de penitência e devoção, em vez de tornarem-se santas, tornaram-se doentes, e abandonaram depois o caminho da perfeição, julgando-o impraticável.

Eis aqui uma bela e judiciosa observação de Santo Agostinho: “O nosso corpo é um pobre doente recomendado à caridade da alma, da qual deve receber os remédios oportunos. Todas as suas precisões são enfermidades. A fome, a sede, a fadiga, são enfermidades do corpo, às quais a alma deve prestar caridosamente auxílio nos limites da razão e da sobriedade.” Aquele que assim obra, cumpre um ato de obediência para com O Criador.

É, pois, um erro (e certamente muito grande) acreditar no que se encontra em muitos livros ascéticos, a saber: “Que pouco importa que abreviemos a vida de dez ou quinze anos, contanto que salvemos a alma”. Sem dúvida, devemos quando vai nisso a salvação eterna, afrontar a própria morte sem hesitação; mas não devemos, debaixo deste pretexto geral, escolher um modo arbitrário de penitência, que tenda diretamente a abreviar a vida; porque diz São Jerônimo, não há grande diferença entre suicidar-se de uma vez ou suicidar-se pouco a pouco. Não somos senhores, mas só depositários da nossa vida, da nossa saúde, das nossas forças.

Os exemplos dos santos que fizeram obras extraordinárias de penitência, merecem nossa admiração, e não nossa imitação. É preciso, diz Santa Francisca de Chantal, respeitar, mas não imitar, tudo o que fizeram os santos, d’outra sorte seria preciso viver com eles na horrível gruta de São Clímaco, habitar em altas colunas com os Estilitas, viver muitas semanas unicamente da comunhão sacramental com Santa Catarina de Sena; não tomar mais do que uma onça de alimento por dia como São Luiz de Gonzaga. Querer imitar os santos nas coisas extraordinárias, é o efeito de um secreto orgulho, e não de uma virtude bem entendida.



(Extraído de Direção Para Sossegar as Almas Timoratas, de Pe. Quadrupani. Pg 32 a 35, grifos meus.)

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