Cassiano e Santo Tomás escrevem que Santo Antão, numa conferência
célebre que teve com os monges do Egito, concluiu que a virtude mais necessária
era a discrição: porque, assim como o sal conserva todas as viandas, a
discrição conserva todas as virtudes. Há muitas pessoas que, esquecendo esta
discrição necessária nas práticas de penitência e devoção, em vez de tornarem-se
santas, tornaram-se doentes, e abandonaram depois o caminho da perfeição,
julgando-o impraticável.
Eis aqui uma bela e judiciosa observação de Santo Agostinho:
“O nosso corpo é um pobre doente recomendado à caridade da alma, da qual deve
receber os remédios oportunos. Todas as suas precisões são enfermidades. A fome,
a sede, a fadiga, são enfermidades do corpo, às quais a alma deve prestar caridosamente
auxílio nos limites da razão e da sobriedade.” Aquele que assim obra, cumpre um
ato de obediência para com O Criador.
É, pois, um erro (e certamente muito grande) acreditar no que
se encontra em muitos livros ascéticos, a saber: “Que pouco importa que abreviemos
a vida de dez ou quinze anos, contanto que salvemos a alma”. Sem dúvida,
devemos quando vai nisso a salvação eterna, afrontar a própria morte sem
hesitação; mas não devemos, debaixo deste pretexto geral, escolher um modo
arbitrário de penitência, que tenda diretamente a abreviar a vida; porque diz
São Jerônimo, não há grande diferença entre suicidar-se de uma vez ou
suicidar-se pouco a pouco. Não somos senhores, mas só depositários da nossa
vida, da nossa saúde, das nossas forças.
Os exemplos dos santos que fizeram obras extraordinárias de
penitência, merecem nossa admiração, e não nossa imitação. É preciso, diz Santa
Francisca de Chantal, respeitar, mas não imitar, tudo o que fizeram os santos,
d’outra sorte seria preciso viver com eles na horrível gruta de São Clímaco,
habitar em altas colunas com os Estilitas, viver muitas semanas unicamente da comunhão
sacramental com Santa Catarina de Sena; não tomar mais do que uma onça de
alimento por dia como São Luiz de Gonzaga. Querer imitar os santos nas coisas
extraordinárias, é o efeito de um secreto orgulho, e não de uma virtude bem
entendida.
(Extraído de Direção Para
Sossegar as Almas Timoratas, de Pe. Quadrupani. Pg 32 a 35, grifos meus.)


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