quinta-feira, agosto 06, 2020

Uma dependência prejudicial para a mente dos jovens


Por Pe. Philippe Bourrat
Traduzido por Andrea Patrícia



Telas e dispositivos digitais, que se apossaram da vida das pessoas, não são apenas máquinas úteis. Eles transformam o universo humano, simulando comportamentos. Qual é o efeito deles na mente humana e no comportamento social?

A conexão constante do homem com a máquina, com a ocorrência do smartphone, é uma das manifestações mais visíveis da revolução digital e social que ocorreu nos países desenvolvidos desde o início do novo milênio. Em 2013, 21 milhões de franceses possuíam um smartphone. Os números saltariam então para 40 milhões dentro de um ano. Enquanto espera aumentar o poder da mente humana pela implantação generalizada de dispositivos digitais, tudo é feito para que a dependência deste computador de bolso se torne irreversível. Aplicativos de todos os tipos invadiram todos os aspectos da vida cotidiana, delineando assim as prioridades e os contornos impostos a uma vida humana contemporânea: jogos, vídeos, serviços, comércio, saúde, lazer, cultura, informação e segurança; tudo passa pela tela do celular. Além da função inicial de comunicação: telefonia é agora rede social.

O resultado é outra vida, traçada pela própria tecnologia: a que consiste em confiar essencialmente nos dados do smartphone, a consulta constante da máquina distancia-se cada vez mais da vida real, das pessoas e realidades que nos cercam. Uma nova felicidade é elaborada através da expressão de seus gostos, a publicação de um mínimo de sentimentos, humores e favoritos. A máquina analisa o que é bom para você e procura antecipar a atividade ou compras que você deve concluir. Como os trans-humanistas preveem, que juram pela inteligência artificial cujas capacidades exponenciais sugerem uma guerra entre a humanidade biológica e a humanidade aumentada, isto é transformado pelas potencialidades das tecnologias de NBIC (Nanotecnologia, Biotecnologia, internet e ciências cognitivas), uma simples vida natural não será mais imaginada no próximo ano do que seria o retorno às velas como o modo comum de iluminação.

A transformação do homem

Essa transformação do homem em humano informado repousa sobre uma fé prometeica sem limite na capacidade tecnológica de superar os limites físicos e temporais de sua natureza: sua inteligência e a aquisição de seu conhecimento, a brevidade e a fragilidade de sua vida poderiam ver suas limitações diminuída ou suprimida. Aquilo que os cinemas anteriormente imaginavam nos cenários da ficção científica, os gigantes digitais (Google, Apple, Facebook, Amazon, Microsoft, sem esquecer certos gigantes chineses), já percebem. Mais do que uma corrida de questões financeiras óbvias, essa revolução gostaria de reformar o homem integralmente, criando uma criatura da ciência e da tecnologia. Em última análise, o homem se torna deus, um deus imortal e onisciente.

O progresso deslumbrante feito no conhecimento do funcionamento do cérebro humano e na nanotecnologia abre os horizontes para os homens de poder que são gigantes digitais e da internet. Suas pressuposições materialistas e a ambição científica que as animam opõem-se a qualquer ideia de um limite moral (a fortiori) e muito menos a qualquer respeito pela lei natural ou divina. Para eles, não há felicidade terrena, nem vida humana digna, exceto aquela que se beneficiará do potencial cada vez maior do progresso digital. Todo fracasso genético, toda fraqueza física, toda incompetência intelectual deve ser reparada para que a vida humana seja julgada compatível com os padrões da época. Eugenia (ou um bom nascimento) e eutanásia (uma boa morte), tornam-se os dois pilares da vida moderna. Eles são agora o grande negócio dos criadores digitais, que gastam bilhões de dólares em pesquisa nesses campos.

Um retorno à ordem

Embora com essas transformações tecnológicas surjam fortes indícios de totalitarismo, devemos lembrar que a vida humana não se reduz à boa saúde, à satisfação do próprio corpo ou à remoção de todas as limitações. A felicidade do homem não consiste em um conhecimento digno de uma enciclopédia on-line ou nas habilidades de um software analítico ou de cálculo que, de fato, por um bom tempo, foi além da inteligência humana. Não é aumentando o quociente intelectual da população mundial que se tornará continuamente feliz. A felicidade do homem repousa em Deus e na participação de sua vida que nos foi oferecida desde a Encarnação redentora, não pela conquista pelo próprio homem de uma vida terrena digital.

O homem é feito para conhecer e amar e, finalmente, para conhecer e amar a Deus que o criou. Ele pode ser dispensado do aprendizado e do desejo, ou pode diminuir o sofrimento e muitas limitações físicas pela tecnologia. Pode até impedi-lo de arriscar ou dar a vida em um gesto heroico, no entanto, não pode substituir nele o desejo de amar e ser amado, de inventar, de expressar em arte suas reflexões sobre a vida, a morte, o amor ou no mundo natural que o rodeia. Não existe um robô filosófico nem um software que substitua o gênio artístico, nem o amor por compartilhar vindo de uma máquina, nem a coragem, a virtude, nem a liberdade em uma máquina, por mais sofisticada que seja. Qualquer falsificação nesses domínios seria, por si só, fruto de invenções humanas, que simulariam em algoritmos potencialidades adequada e exclusivamente humana. Uma máquina pode falar e dialogar, mas nisto está meramente desenvolvendo as potencialidades de sua programação, inclusive quando adquire para si novas competências (inteligência artificial).

A vida humana natural ainda deveria existir, a menos que desejemos renunciar à humanidade desejada e criada por Deus. Esta vida humana é colocada em perigo pela onipresença da tecnologia. Antes, a máquina auxiliava o homem na realização ou na facilitação de tarefas necessárias à sua vida, embora muitas vezes árduas, o que mitigava seu tempo de contemplação e atividade cultural e humana propriamente dita. Desde então, o smartphone - e tudo o que ele representa - constitui o centro de sua vida. Dita suas ações, seus pensamentos, seus conhecimentos, seus gostos, suas compras, seu comportamento, sua moral e sua vida social virtual. Assim, o escravo consente depender apenas de sua tela de controle, à qual ele se rende de corpo e alma. Desistir disso já seria para ele um gosto da morte. Essa dependência é realmente desumanizadora. Pois, por depender de programação de software, adotamos o modo binário de operação e sua desumanidade.

Daí vem a importância de compreender as questões morais e existenciais desta revolução tecnológica e social. No entanto, isso não deve nos fazer esquecer os incômodos mais fáceis de detectar, que muitos médicos e especialistas em educação denunciaram por muitos anos e que muitos encontraram em seu séquito.

Por que nos tornamos dependentes de dispositivos?

A dopamina é uma molécula bioquímica que permite a comunicação de informações entre os neurônios e certas partes do cérebro. Provoca uma sensação de prazer que é comunicada do cérebro para outras partes do corpo, após a realização de vários atos. Quer seja a droga química ou a estimulação da curiosidade ou do bem-estar ligado à realização e à satisfação do ato de jogar um jogo, de consultar um dispositivo digital, da surpresa ligada a um alarme, etc., tudo está em favor de um sistema de recompensa que gera uma dependência.

Os designers do software para mídias sociais, jogos e compras online multiplicam as modalidades ligadas à repetição de atos que dão uma recompensa e notável favorecem a produção de dopamina. A dependência assim criada faz com que os usuários retornem repetidamente ao uso de um aplicativo ou software que adquire para ele essa forma de prazer que requer uma renovação contínua.

No entanto, a dependência de videogames, jogos no smartphone, acompanhamento e uso de mídias sociais e sites de notícias neutralizam as capacidades mentais ligadas ao julgamento e à reflexão. Como qualquer droga, exige uma renovação contínua da estimulação, a fim de provocar um prazer do mesmo calibre que o anterior. Isso torna a pessoa ainda mais dependente como a razão e se verá enfraquecida diante da força do vício fisiológico assim criado.

Telas e Resultados Acadêmicos

É popular afirmar que o recurso à tecnologia na escola e em casa é favorável ao progresso acadêmico. Em 2016, no entanto, um relatório da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) observou que, em países onde os estudantes usavam computadores moderadamente em sala de aula, eles apresentavam um desempenho acadêmico melhor. Em média, 72% dos estudantes de países da OCDE usam um computador ou um tablet na escola. Há apenas 42% na Coréia e 28% em Xangai, dois lugares com reputação de alto rendimento acadêmico. Nos países do Oriente, onde é mais comum usar a Internet na escola, o desempenho acadêmico diminuiu entre os anos de 2000 e 2012.

O uso de telas por crianças pequenas é a fonte de deficiências em vários domínios. A Dra. Anne-Lise Ducanda, Doutora em Proteção Maternal e Infantil (PMI) de Essonne, fez saber na primavera de 2017 o notável aumento de comportamentos autistas em crianças que ela recebeu para consulta. O uso freqüente de telas foi a causa mais diagnosticada - pais tendo entregue a tablets e outras telas a sua missão educativa. O problema de manter a atenção e a concentração, problemas com a linguagem, problemas comportamentais, dificuldades para dormir e, assim, as lutas acadêmicas foram as consequências mais visíveis dessa nova escravidão.

Com os olhos fixos durante 5-6 horas por dia em uma tela (2016), essas crianças são incapazes de responder a uma pergunta que lhes é feita, de juntar as peças de um jogo ou, ainda menos, de segurar um lápis. Sua linguagem não é estruturada e tem uma grave deficiência de sintaxe e vocabulário. A criança que é deixada na frente das telas não pode participar de uma verdadeira troca de conversa. Isto é porque é em falar que se progride mais no domínio de uma língua. Será o início de uma grande deficiência na capacidade de abstração para essas crianças e uma dificuldade ainda maior em lidar com a linguagem. Isto segue, como uma deficiência de linguagem, uma deficiência de pensamento e reflexão. É um obstáculo para uma boa socialização, para trocar com o ambiente e simplesmente se expressar. As palavras, agora muito raras, colocam aqueles que lhes faltam em situações de inferioridade, o que favorece uma série de obstáculos em seus anos escolásticos, em que a expressão e a compreensão da linguagem são indispensáveis.

Um comportamento social perturbado

Em uma idade mais avançada, percebe-se também o caráter ansioso e perturbado das mídias sociais: o olhar que se tem em relação a elas causa comportamento narcísico, um desejo de estar em conformidade com os padrões sociais, uma preocupação repugnante de agradar e tornar-se importante, uma cultura do eu que seca a qualidade e a autenticidade dos laços humanos. Além disso, a mania de julgar tudo sem competência, dar conselhos e expressar os próprios sentimentos e gostos para uma multidão de conexões anônimas e “amigos” convence as mentes do reinado e da superioridade da opinião sobre a verdade, ou o percebido e pressentido. sobre a inteligência. Em sua derivada natural, a mídia solicita a solidariedade anônima de demolição e linchamento, que alimenta mecanismos psicológicos grupais não razoáveis. Ovelhas balindo no mesmo tom, ainda alegando originalidade. Eles reagem por ordem e vivem suas vidas indignadas nos mercados digitais que sabem explorá-los financeiramente.

Do ponto de vista do caráter, o uso regular de telas, de videogames e da internet é favorável à desordem das paixões e ao enfraquecimento da vontade submetida a incessante incitação à curiosidade, à impulsividade e à expansão e valorização do ego do homem. Sem limites morais, o mundo virtual está aberto a todas as formas de violência, a todas as possibilidades de voyeurismo e imoralidade e a uma vida regida pelos instintos mais básicos do homem ferido pelo pecado original.

As crianças de Bill Gates

A inteligência e a memória são as grandes vítimas da máquina, que dispensa conhecimento e reflexão. Isso ocorre porque um homem sem uma memória ativa, sem capacidade de refletir extensamente, não está mais apto a julgar e compreender. Ele se contenta em sentir, como um simples animal. Pode-se manipulá-lo sem esforço; pode-se domesticá-lo.

Esta é, sem dúvida, a mesma consideração que leva os pais que trabalham no setor digital a proteger seus filhos dos perigos das máquinas que eles desenvolvem.

Bill Gates, o fundador da Microsoft, proíbe que seus filhos tenham um smartphone antes dos 14 anos de idade. Steve Jobs, co-fundador da Apple, não deu dispositivos digitais para seus filhos, mas falou com eles sobre livros e história. Chamath Palihapitiya, ex-vice-presidente encarregado do crescimento dos usuários do Facebook, proíbe que seus filhos usem as mídias sociais. Chris Anderson, o antigo editor-chefe da revista norte-americana Wired e o verdadeiro PDG da 3D Robotics, limita o uso de dispositivos tecnológicos e gadgets por seus filhos. Para sua família, uma regra de vida: não há telas permitidas nos quartos. Ainda mais sintomático, no sul de São Francisco, a Escola Waldorf da Península, uma escola charter privada, atrai seus alunos por meio de métodos de ensino que não usam dispositivos tecnológicos. Numerosos filhos de funcionários do eBay, Google, Apple e Yahoo! são educados lá. Isso pode mostrar uma indicação de que uma boa formação acadêmica e uma educação saudável podem ignorar dispositivos digitais e a dependência do smartphone?

Nós não terminamos de descobrir as consequências da revolução digital, que está se tornando uma realidade diante de nossos olhos, e o comportamento e a vida social dos indivíduos conectados. Aqueles que foram identificados estão projetando um novo homem que prepara o homem robótico, que os trans-humanistas anunciam. De maneira insidiosa, o espírito de gozo, de imediatismo, de incapacidade de engajar e julgar segundo os princípios, são também os frutos amargos dessas tecnologias contemporâneas, não importando as vantagens práticas, que as tornam tão atraentes. A escolha de viver como homem pressupõe saber o que é o homem e o que é a máquina, mesmo quando isso excede as capacidades humanas. Nisto consiste a sobrevivência da verdadeira humanidade e a relação do homem com Deus.

Original aqui.



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