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domingo, abril 24, 2016

Comentários Eleison: Declaração de Bispos – I

Comentários Eleison - por Dom Williamson
CDLVIII (458) - (23 de abril de 2016)

Declaração de Bispos – I

Temos um terceiro bispo da Resistência agora,
Como e por que, uma Declaração menciona.

No dia 19 de março, pouco mais de um mês atrás, Dom Tomás de Aquino foi discretamente sagrado bispo, para o benefício das almas de todo o mundo que desejam manter a verdadeira Fé católica. Assim como quando Monsenhor Faure foi consagrado, exatamente um ano antes, a cerimônia foi belamente organizada pelos monges do Mosteiro da Santa Cruz, nas montanhas por detrás do Rio de Janeiro, em sua catedral de aço, belamente decorada para a ocasião, como no ano passado. O tempo estava seco e quente, mas não muito quente. São José fez com que tudo corresse sem dificuldades. Devemos a ele um grande agradecimento.
Havia um pouco mais de gente que no ano passado, mas a maioria delas era de lugares próximos dentro do Brasil. Não houve jornalistas presentes, e o evento foi praticamente mencionado só nas fontes católicas tradicionais. Houve uma conspiração de silêncio? Houve alguma recomendação para que não se desse atenção? Não importa. O que realmente importa é o que Deus parece estar sugerindo, a saber, que a sobrevivência da Fé não requer, no momento, publicidade ou fazer-se conhecer, mas, talvez, deslizar nas sombras, das quais a Igreja pode suavemente descer às catacumbas para esperar por sua ressurreição depois que a tormenta do mundo, que promete ser humanamente terrível, seja levada a cabo.
Em todo caso, temos agora outro bispo, firmemente na linha de Monsenhor Lefebvre, e no lado oeste do Atlântico. Assim como Monsenhor Faure, ele conhecia bem o Arcebispo e era um confidente seu. Dom Tomás de Aquino nunca trabalhou com o Arcebispo diretamente dentro da FSSPX; mas, porque não era um membro da Fraternidade, o Arcebispo deve ter se sentido mais livre para compartilhar seus pensamentos e ideias com ele. Certamente ele deu ao jovem monge inestimáveis conselhos em mais de uma ocasião, os quais Dom Tomás nunca esqueceu. Os católicos que crêem não estão equivocados – houve poucas exceções à reação majoritariamente positiva pelo presente de Deus de outro verdadeiro pastor de almas.
Na época da consagração, os dois bispos consagrantes fizeram uma Declaração que não obteve ainda muita publicidade. Ela expõe em profundidade o fundamento da consagração, mostrando como este evento, aparentemente estranho, não o é em absoluto; ao contrário, é muito natural, dadas as circunstâncias. Aqui está a primeira parte da Declaração. A segunda parte terá de vir no “Comentário Eleison” da próxima semana.
Nosso Senhor Jesus Cristo advertiu-nos que em sua segunda vinda a fé teria quase desaparecido da face da terra (Luc. XVIII,8); deduz-se que, a partir do triunfo da Igreja na Idade Média, ela somente poderia experimentar um grande declínio até o fim do mundo. Três agitações em particular marcaram os estágios deste declínio: o protestantismo, que rechaçou a Igreja no século XVI; o liberalismo, que rechaçou Jesus Cristo no século XVIII; e o comunismo, que rechaçou Deus completamente no século XX.
Entretanto, o pior de todos foi quando esta Revolução por etapas conseguiu penetrar na Igreja, graças ao Concílio Vaticano II (1962–1965). Querendo manter a Igreja em contato com o mundo moderno que tanto havia se afastado dela, o Papa Paulo VI conseguiu que os padres do Concílio adotassem “os valores de 200 anos de cultura liberal” (Cardeal Ratzinger).
O que os padres adotaram foi o tríplice ideal da Revolução francesa, em particular, a liberdade, a igualdade e a fraternidade, sob a tríplice forma de liberdade religiosa, cuja ênfase na dignidade humana implica a elevação do homem acima de Deus; de colegialidade, cuja promoção da democracia mina e nivela toda a autoridade dentro da Igreja; e de ecumenismo, cujo louvor às falsas religiões implica a negação da divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo. No transcurso de meio século desde o fim do Vaticano II, as consequências mortais para a Igreja em relação a esta adoção dos “valores” revolucionários se tornaram mais e mais óbvias, culminando em gravíssimos escândalos quase cotidianos que mancham o pontificado do Papa reinante.


Kyrie eleison.

sexta-feira, abril 22, 2016

Normalização canônica?

Por Dom Tomás de Aquino



  O Rev. Padre Franz Schmidberger no dia 19 de fevereiro expôs as razões pelas quais lhe parece chegada a hora de normalizar a situação canônica da Fraternidade e, pode-se supor, as das comunidades amigas.
  Entre as razões apresentadas pelo antigo superior geral da Fraternidade São Pio X encontramos o fato de Dom Lefebvre ter procurado uma regularização canônica para sua congregação. Isso é em parte exato em parte inexato.
  Falando de Dom Antônio de Castro Mayer, Dom Lefebvre dizia (creio que em 1985) que era necessário que o Bispo emérito de Campos compreendesse que era necessário entrar na ilegalidade. Dom Antônio, apesar de uma análise profundamente teológica da crise atual, permanecia preso à uma legalidade que o paralisava. Por receio da ilegalidade Dom Antônio não ordenou nenhum padre entre 1984, data em que foi forçado a deixar a função de Bispo titular de Campos, e 1988, data das sagrações dos quatro Bispos da Fraternidade São Pio X. Dom Lefebvre entendia melhor o que diz São Paulo, “a letra mata e o espírito vivifica.” Ele havia discernido o golpe de mestre de Satanás que foi o de ter lançado toda a Igreja na desobediência à Tradição, por obediência. A virtude da obediência utilizada contra a sua finalidade. O bem a serviço do mal.
  Que Dom Lefebvre tenha procurado uma solução canônica é evidente, mas que ele não a encontrou é mais evidente ainda. E ele não a encontrou porque ela não existia e não existirá enquanto Roma estiver ocupada pelos inimigos da realeza universal de Nosso Senhor Jesus Cristo. Foi por isso que Dom Lefebvre sagrou quatro bispos em 1988. Ele teria sagrado provavelmente mais se Dom Antônio de Castro Mayer tivesse designado alguns padres para receber o episcopado, como lhe fora proposto atráves de Dom Gerard que veio ao Brasil em 1987 com a missão de fazer este pedido a Dom Antônio.
  Dom Lefebvre pensava que Dom Antônio poderia ter recusado de abandonar cargo e poderia ter escolhido o seu sucessor fazendo frente a Roma modernista para preservar sua diocese dos erros atuais.
  Dom Lefebvre queria sim uma solução canônica, mas uma solução canônica que não fosse falsa mas sim verdadeira.
  Para o Pe. Schmidberger o momento parece ter chegado para esta normalização verdadeira, já que Roma não fala mais de aceitação do Vaticano II nem de legitimidade do Novus Ordo, Ele diz também que a Fraternidade não se calará a respeito dos erros modernos.
  Para mim tenho que estas garantias são bastantes frágeis pois Dom Gerard e Campos diziam também que nenhuma limitação lhes seria imposta no combate anti-modernista. Eles nos prometeram continuar o combate e alguns chagaram mesmo a dizer que era agora que o combate ia começar de verdade porque eles lutariam dentro da Igreja. Pura ilusão como os fatos mostraram. Ilusão e falsa doutrina como se a Tradição estivesse fora da Igreja.
  Dom Lefebvre via bem estas ilusões em Dom Gerard. Enquanto reinar o modernismo em Roma toda esperança de uma verdadeira normalização será vã.
  O Pe. Schmidberger diz também que a Resistência perdeu o sentido e o amor da Igreja. Certamente nós devíamos ter mais virtude, mais fé e mais caridade. No entanto, podemos dizer em nossa defesa que na Resistência se estuda a Pascendi, o Syllabus, Quanta Cura, Quas Primas, Quadragesimo Ano, etc. Na Resistência se lê “A História do Catolicismo Liberal” do Padre Emmanuel Barbier. Na Resistência se traduz em português e se edita o livro “Pierre m'aime tu? De Daniel le Roux. Na Resistência se publica o “Le Sel de la Terre” e se tem veneração por Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer. Suas obras são estudadas e explicadas aos fiéis.
  Se não fazemos mais é por nossa culpa, mas fazemos alguma coisa e esta alguma coisa creio que o fazemos por ter o sentido e o amor da Igreja.
  Que Deus aumente em nós esse amor à Igreja por intercessão do Imaculado e Doloroso Coração de Maria.

 + Tomás de Aquino, OSB.

quarta-feira, abril 20, 2016

Conselhos para as famílias

Por Dom Tomás de Aquino

"...Estudar a vida dos santos, procurar ler a vida por exemplo, desse belo livro que se chama"história de uma
 família", que conta a história da família de Santa Teresinha, para que todos saibam o que que é uma família. 
Não é uma coisa tão simples assim uma família. E se o Evangelho de hoje nos fala dessa abominação da
desolação posta no lugar santo, esse lugar santo é também a família. E a família de hoje esta violada pelas leis
iníquas que querem destruir a família e de fato a destroem, e se nós queremos ter famílias realmente sólidas
isso começa já com o catecismo, isso começa já bem antes de um noivado, começa agora, começa por bem
assistir a Missa, bem se confessar, bem comungar, bem seguir as aulas do catecismo, bem meditar, bem rezar
o seu Terço, ser um bom Católico. Se nós negligenciarmos o momento em que a gente devia ser preparar para
o futuro quando chegará esse momento não estaremos preparados e ai nós não começaremos bem essa coisa
tão importante que é fundar uma família. "


Trecho de um áudio particular do dia 22/11/2015 - Capela Nossa Senhora das Alegrias

MODELO DAS FAMÍLIAS


Antique Holy Family Belgian Holy Card. Beautiful Old Catholic item.

Sagrada Família
Jesus, Maria e José.



EXEMPLO PARA AS FAMÍLIAS

Família de Santa Teresinha


Família de Monsenhor Lefebvre



segunda-feira, abril 18, 2016

Declaração dos bispos da Resistência Católica

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Nosso Senhor Jesus Cristo nos advertiu que em sua segunda vinda a fé haveria quase desaparecido do mundo (Luc. XVIII, 8); do que se deduz que a partir do triunfo de sua Igreja na Idade Média, ela só podia conhecer um grande declínio até o fim do mundo. Três explosões em particular marcaram este declínio: a do protestantismo que rechaçou a Igreja no século XVI; a do liberalismo que rechaçou Jesus Cristo no século XVIII; e a do comunismo que rechaçou Deus completamente no Século XX. Mas o pior de tudo é quando esta Revolução por etapas conseguiu finalmente penetrar no interior da Igreja com o Vaticano II (1962-1965).

Querendo aproximar a Igreja do mundo moderno que tanto havia se separado dela, o Papa Paulo VI soube fazer os padres do Concílio adotarem “os valores de dois séculos de cultura liberal”. Eles assimilaram notavelmente a liberdade, a igualdade e a fraternidade Revolucionárias sob a forma respectivamente liberdade religiosa, que realçando a dignidade humana, eleva o homem acima de Deus; da colegialidade, que promovendo a democracia, nivela e subverte toda autoridade da Igreja; e do ecumenismo, que ao louvar as falsas religiões, vem a negar a Divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Todavia, o mais grave de todo o século XXI, é talvez esta massa de Católicos, clérigos e leigos, que ainda seguem mansamente aos destruidores. Com efeito, como é que muitos dos destruidores não veem o que fazem? Por uma “desorientação diabólica” evocada já antes do Concílio pela Irmã Lúcia de Fátima.

E como muitos dos leigos ainda não veem que a  autoridade católica não existe senão que para estabelecer a Verdade católica, e desde que ela a traiu, perdeu seu direito a ser obedecida? Pela mesma desorientação.

E em que ela consiste exatamente? Na perda da Verdade, na perda progressiva de todo sentido da existência mesma da Verdade objetiva, porque quiseram libertar-se da realidade de Deus e de suas criaturas, para substituí-la pela fantasia dos homens, com o fim de poder fazer o que lhes dê vontade. Sempre a falsa liberdade. 

Mas Deus não abandona sua Igreja, e por isso nos anos 1970 suscitou a Dom Lefebvre para vir em sua ajuda. Este soube reconhecer que os Papas e seus confrades no concílio abandonaram a Tradição da Igreja em nome da modernidade, e, fazendo isso, terminariam por destruir a Igreja. E então, soube constituir no interior da Igreja, como que por um milagre, uma sólida resistência diante da obra de destruição sob a forma de uma Fraternidade Sacerdotal dedicada a São Pio X, Papa perfeitamente perspicaz com respeito à corrupção dos tempos modernos. Não obstante, as autoridades romanas não suportaram que se lhes negasse sua suposta “renovação” conciliar, e eles fizeram tudo para que esta resistência desaparecesse, mas Monsenhor Lefebvre os enfrentou.   

Para assegurar a sobrevivência de sua obra, de uma importância única para a defesa da Tradição católica, em 1988, Monsenhor Lefebvre procedeu a consagrar quatro bispos contra a vontade explícita das autoridades romanas extraviadas, mas implicitamente de acordo com a vontade dos Papas de toda a história da Igreja, salvo dos últimos quatro, todos ganhados pelo concílio. Esta decisão heroica de Monsenhor Lefebvre foi logo justificada amplamente pela decadência ininterrupta das autoridades da Igreja, que não fizeram mais que conformá-la ao século apodrecido. Destes quatro bispos, o que falava espanhol devia instalar-se na América do Sul para ocupar-se dos fiéis que queriam conservar a Fé de sempre em todo este continente antes tão católico, mas onde não haviam bispos seguros para levá-los ao Céu. 

Desgraçadamente, a decadência não cessou desde então, senão que agora é a FSSPX que cai, por sua vez, vítima da putrefação universal. Durante seu Capítulo Geral de 2012, seus chefes, sob o seu superior Geral, a fizeram voltar-se ao Concílio. Em lugar de insistir sobre a primazia da doutrina católica de sempre, da Tradição, eles abriram a porta a um acordo com a Roma oficial, consagrada ao concílio.

E portanto, desde 2012, a mesma desorientação abriu passo no interior da Fraternidade, e, ao menos pelo momento, já não podemos contar com seus bispos.
  
É muito triste, mas é normal no estado atual da Igreja e do mundo. Portanto, de novo é necessário consagrar um bispo para assegurar a sobrevivência da Fé de sempre, sobretudo em todo um continente de almas que necessitam um verdadeiro pastor para salvar-se para a eternidade.

Que Deus esteja com ele! Rogamos a Santíssima Virgem para que Ela o guarde debaixo de seu manto, fiel até a morte.

Dom Tomás de Aquino
Dom Jean-Michael Faure
Dom Richard Williamson


terça-feira, abril 12, 2016

Sobre uma mentira reiterada

Traduzido por Andrea Patricia



"A mentira só é um vício quando faz mal; quando faz bem é uma grande virtude. Sejam então mais virtuosos do que nunca. É necessário mentir como um demônio, sem timidez, não pelo momento, senão intrepidamente, para sempre" (Voltaire).

Os inimigos da Resistência têm dito frequentemente esta mentira, que como vem sendo repetida uma e outra vez, pode ser eficaz e vir a enganar a alguns incautos:

"Todos sabem que Dom Fellay quer fazer um acordo com Roma. 
E os Bispos da falsa 'Resistência'? 
Dom Williamson disse que 'pegaria o primeiro avião para Roma'. 
Dom Faure disse que iria a Roma com Dom. Williamson. 
Dom Tomás também disse que iria a Roma. 
E então? 
Então os quatro querem o mesmo! Os quatro estão dispostos a ir a Roma". 
Os Bispos da falsa 'Resistência' querem nos levar, ainda que por caminhos diferentes,  ao mesmo ponto que Dom Fellay: ao acordo com Roma. 
Todos são liberais! Todos são traidores!".

I. DOM WILLIAMSON.

A citação foi extraída de uma conferência dada por ele em Post Falls, Idaho, EUA, em junho de 2014. O Bispo pergunta: “Eu posso exercer autoridade?” E responde:

“...Nos tempos de Dom Lefebvre, os sacerdotes pertenciam à Fraternidade do Arcebispo, sua própria Fraternidade. Não era minha a Fraternidade, eu não a fundei, nunca fui superior; salvo no Seminário, nunca fui o Superior.
“No que diz respeito a mim, minha relação com os sacerdotes [da Resistência] é mais ou menos como a relação do Arcebispo com os sacerdotes que não pertenciam à Fraternidade: amizade, contatos, conselho, apoio, confirmar suas crianças (isso é o que eu estou fazendo aqui), mas nada mais que isso. Eu não tenho autoridade. Eu não tenho autoridade. Tenho as Ordens que o Arcebispo me deu, mas as Ordens não são o mesmo que Jurisdição.
“Quando o Arcebispo consagrou os quatro bispos em 1988, disse num sermão ‘não estou dando jurisdição a estes quatro, somente estou lhes dando as Ordens’, que é a Consagração. Se quisesse ter-nos dado jurisdição, estaria criando outra Igreja, teria-se autonomeado Papa. O Arcebispo estava muito consciente do limite de sua autoridade. O que fez foi heroico, mas era muito limitado, pelo fato de não ter sido autorizado pelo Papa.
“Agora, o Arcebispo tinha certa medida de autoridade sobre os sacerdotes de sua própria Fraternidade. Mas eu não fundei nenhuma Fraternidade; se fundasse uma sem a permissão de Roma, estaria fazendo algo por minha conta. Eu não tenho autoridade. Eu não posso ter autoridade. Amizade, contatos, conselho, apoio: não há problema. Autoridade: há problema. É um problema que vem do Papa, eu não posso fazer nada. Na realidade da situação atual, vamos da teoria para a realidade. Na realidade, podem imaginar que mandar nos padres Resistentes é como reunir gatos [brincando]. Podem imaginar isso? É imaginável? Em tal caso, vale a pena tentar, ou se está destinado ao fracasso? Seria melhor não tentar do que tentar e fracassar. Alguns de vocês podem pensar que seria melhor tentar, porque poderia haver êxito. Eu não tenho a autoridade.
“Se...se...se...por algum milagre, o Papa Francisco me chamasse na próxima semana e dissesse: – ‘Excelência, o senhor e eu tivemos nossas divergências, mas neste momento eu o autorizo a fundar uma Fraternidade. Siga em frente, pelo bem da Igreja’. – ‘Santo padre, posso ter isso por escrito? Importa-se de ir a Roma e obter sua assinatura?’
– ‘Sim, claro’. ‘Muito bem, então pegarei o próximo avião para Roma. Estarei no próximo avião para Roma!’
Mas sem isso, somos um bote sem remos. E essa não é a solução. Então, no  que chamamos de movimento da Resistência, terão um problema de autoridade. Acostumem-se à ideia. Mas pensem  também que a autoridade é secundária comparada a Fé. E pensem que no movimento da resistência em seu conjunto, o movimento da Resistência foi criado para a Fé. Pela Fé. Foi criada pela Fé”.

O Bispo não disse que iria a Roma para fazer um acordo. Ninguém que tenha um mínimo de honestidade intelectual pode afirmar que as palavras citadas podem deduzir que Dom Williamson deseja um acordo com Roma. O que ele diz é que carece de jurisdição ordinária, o que é absolutamente verdadeiro, e que por isso não vai fundar nenhuma nova Fraternidade para organizar a Resistência. Acrescenta que fundaria uma nova Fraternidade se "por um milagre" contasse com a permissão de Roma. Não esqueçamos que Dom Lefebvre fundou a FSSPX com todas as autorizações da hierarquia liberal.

Pode-se objetar ao Bispo que para fundar uma congregação não necessita de jurisdição ordinária porque lhe basta a jurisdição de suplência, mas pretender que essas suas palavras o transformam num liberal e traidor que trama um acordo com Roma, é claramente uma mentira.

II. DOM FAURE.

         a) Lê-se na entrevista concedida pelo então Pe. Faure em 18 de março de 2015:

“(...) – Quais, em sua opinião, devem ser as condições requeridas para fazer um acordo com Roma?”

– “Dom Lefebvre nos disse que enquanto não haja uma mudança radical em Roma, um acordo é impossível, porque essas pessoas não são leais, e não se pode querer transformar os superiores. É o gato que come o rato, e não o rato que come o gato. Um acordo equivaleria a entregar-se nas mãos dos modernistas, e por conseguinte, se deve ser rejeitado absolutamente. É impossível. Há de se esperar que Deus intervenha.”

– “Pode dizer-nos o que pensa das visitas de avaliação de diversos prelados modernistas aos Seminários da Fraternidade? É verdade que alguma vez Dom Lefebvre recebeu alguns prelados. Qual a diferença agora?”

– “Se tratava de visitas excepcionais, nas quais o Cardeal Gagnon nunca teve a possibilidade de defender o concílio; enquanto que agora se trata dos primeiros passos para a reintegração (da FSSPX) na igreja conciliar.”
– “Qual a sua opinião sobre um eventual reconhecimento unilateral da FSSPX por parte de Roma?”

– “É uma armadilha.”

– “Entre o  capítulo de 2006 e a crise iniciada em 2012 observa-se uma mudança de atitude das autoridades da FSSPX com respeito a Roma. A que se deve essa mudança?”

– “À decisão dos superiores de reintegrarem-se à igreja conciliar. Desde 1994 ou 1995 realizaram-se os contatos do GREC, que foram passos significativos até a reconciliação, como havia previsto o embaixador Pérol (representante da França na Itália), que é o inventor do “levantamento das excomunhões” (2009) e do Motu Próprio (2007). Isto deveria ter como contrapartida o reconhecimento do Concílio.”

– “Que faria Dom Lefebvre na situação    atual?”

– “Seguiria na linha que nos indicou depois das consagrações, descartando totalmente a eventualidade de um acordo.”

– “Se no futuro o senhor fosse convidado para ir a Roma conversar com o Papa, iria? O que lhe diria?”

– “Em primeiro lugar, consultaria a todos os nossos amigos da Resistência. Iria com Dom Williamson e outros excelentes sacerdotes que levam o combate da Resistência com muito valor. E manteria informados todos os nossos amigos com toda a transparência.”(...).

É evidente que o então Padre Faure descarta absolutamente ir a Roma para negociar um acordo com os modernistas. Está claríssimo que descarta totalmente a possibilidade de um acordo com a Roma liberal.
Na última pergunta citada, diz que iria a Roma se fosse convidado pelo Papa, porque é óbvio que um Bispo católico deseje ouvir o que um Vigário de Cristo, por indigno que seja de tal investidura, queira dizer a ele; e é igualmente óbvio que um Bispo antiliberal não queira perder uma oportunidade que se apresente para fazer uma correção fraterna a um Papa liberal.

        
b) Na entrevista a Dom Faure feita uma semana depois (em 25 de março de 2015), lemos o seguinte:

– “Excelência, pode-nos dizer algumas palavras sobre a assinatura do protocolo de 1988? O senhor estava com Dom Lefebvre naqueles dias?”

– “...Penso que quando Dom Lefebvre assinou esse documento estava em um momento – muito passageiro – de debilidade, como foi o caso de Santa Joana D´Arc, e, igual a ela, ele escreveu, depois da ‘pior noite de sua vida’ uma carta de retratação ao representante do Vaticano, mediante a qual estava anulado o protocolo. Dom Fellay não se pode valer desse momento de debilidade retratada para dizer que está imitando a conduta de Dom Lefebvre. ‘Eu fui longe demais’, diria depois Dom Lefebvre, referindo-se à assinatura do protocolo. Sobre a diplomacia e sobre seus interlocutores romanos, Dom Lefebvre não tinha nenhuma ilusão, como fica demonstrado em muitas de suas declarações e na determinação diplomática que aparece claramente em sua declaração fundamental de 1974 sobre as duas Romas: a eterna e a modernista, ou as duas igrejas: a católica e a conciliar. E Dom Fellay, na medida em que confunde a Roma atual oficial, modernista, com a Roma eterna; torna-se infiel à Roma eterna, mestra da verdade. Confunde igreja conciliar – da qual Dom Lefebvre tanto falou – e Igreja Católica. Para Dom Fellay não há mais que uma só igreja e uma só Roma: isto é a antítese da postura de Dom Lefebvre...”

...– “Sigamos com o tema do Papa. Na entrevista anterior, perguntamos ao Padre Faure o que faria se fosse convidado ao Vaticano pelo Papa Francisco. Agora perguntamos a Dom Faure: o que diria a Francisco?”

– “Antes de tudo, digo que tal entrevista é praticamente impossível, já que uma condição sine qua non seria a presença de Dom Williamson e de outros sacerdotes nossos, sendo excluído absolutamente qualquer tipo de ‘negociação’ com vistas a um acordo de qualquer  tipo que seja enquanto, como dizia Dom Lefebvre, não exista uma conversão radical de Roma, aceitando, de fato e de direito, todas as encíclicas anteriores ao Vaticano II, assim como as condenações ao liberalismo e ao modernismo que elas contém...
“Eu diria ao Papa: a qual igreja o senhor pertence, a Igreja Católica ou uma falsificação da Igreja? Sua função é confirmar na fé seus irmãos. Lembraria a ele estas palavras de São Paulo: ‘vossa autoridade é para edificar, não para destruir’ (2 Cor 13, 10); para edificar e não para destruir nem diminuir a fé e a moral dos católicos. Diria a ele isto também, citando Dom Lefebvre: ‘O senhor está de acordo com todas as encíclicas anteriores a João XXIII e com todos estes Papas e com seus ensinamentos? Aceita o juramento antimodernista? Está a favor do Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo? Se não aceita a doutrina de seus predecessores, é inútil falar com o senhor’. É porque somos fieis à Roma eterna que nos vemos obrigados  a nos separar da Roma modernista e liberal, atual e oficial. Não é porque Menzigen esteja se deixando seduzir, que um Dom Williamson ou eu cairíamos na mesma armadilha...”.

Claríssimo! Assim, onde está dizendo que Dom Faure iria a Roma para fazer um acordo? Em lugar nenhum.


III. DOM TOMÁS DE AQUINO OSB.

Lemos na entrevista de 6 de março de 2016:

– “No ano passado perguntamos a Dom Faure que faria se fosse convidado ao Vaticano pelo Papa Francisco. Agora fazemos ao senhor a mesma pergunta. Iria? E o que diria a Francisco?”

– “Ir a Roma? Só se fosse para perguntar às autoridades romanas se aceitam Quanta Cura, Syllabus, Pascendi, etc., mas creio que por agora a resposta já foi dada e é negativa”.

Dom Tomás, então, iria a Roma somente para fazer uma correção fraterna a Francisco, não para tentar negociar algum acordo.


CONCLUSÃO:

Mentem. Mentem descaradamente os inimigos da Resistência que colocam em pé de igualdade um traidor acordista e liberal como Dom Fellay e os três Bispos antiliberais da Resistência, a quem os hereges romanos consideram excomungados por causa das sagrações episcopais "ilícitas" nas quais tomaram parte, e que rejeitam totalmente toda possibilidade de acordo com a Roma liberal.

Esta mentira começou entre os sedevacantistas, para quem somente o fato de que alguém diga que aceitaria um hipotético convite para conversar com Francisco, é julgado como suspeito de liberalismo e de alta traição, dado que para eles Francisco não é Papa, mas um Antipapa, o Falso profeta apocalíptico, ou até mesmo o Anticristo.

A partir destes setores sedevacantistas a mentira de que aqui se trata passou a ser lugar comum entre os da "Resistência pura e dura", esta que se caracteriza por ser "antiwilliamson" e, sobretudo, por ser essencialmente farisaica.
         A esses mentirosos perguntamos: onde há alguma evidência de contatos destes três Bispos com Roma em ordem a um acordo?

***


"Vós sois de vosso pai, o diabo, e quereis executar os desejos de vosso pai. Ele foi homicida desde o princípio e não se manteve na verdade porque não há verdade nele. Quando fala mentira, fala de sua própria natureza, porque é mentiroso e pai da mentira" (João 8, 44).


Liberalismo e Catolicismo




“O Liberalismo não conhece o temor, mas não conhece também a caridade. O Liberalismo elimina o temor, mas elimina também a caridade. O Liberalismo atrai, pois ele parece ter chegado ao alto da escada, mas na verdade não pôs os pés nem no primeiro degrau. O catolicismo, ao contrário, sabe ter o rosto antipático da verdadeira bondade, segundo a expressão de um ilustre escritor. Antipático ao pecado, mas sorridente à virtude. Somente o catolicismo sabe unir severidade e bondade, humildade e magnanimidade, para chegar a esta caridade que elimina o temor servil, para deixar permanecer somente este temor reverencial, todo cheio de santa intimidade entre a alma e seu Criador e Salvador.” 
(Dom Tomás de Aquino, O.S.B, Os Doze Graus da Humildade) 

Fonte: Spem in Alum

domingo, abril 10, 2016

Sermão do anúncio da Sagração Episcopal, por Dom Tomás de Aquino, OSB.

PAX


No Evangelho de hoje, Nosso Senhor diz que quando uma alma se entrega ao pecado mortal, o demônio aí habita como em sua casa. Assim era com quase todas as almas no tempo do dilúvio, assim era quase que regra geral das almas e das sociedades antes da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas, diz Nosso Senhor, quando um mais forte que o demônio o vence e lhe retira suas armas nas quais ele confiava, o demônio é obrigado a partir desta alma. Ora, quem é mais forte que o demônio senão que Nosso Senhor Jesus Cristo e Sua Santíssima Mãe? Nosso Senhor veio, e morrendo na cruz, despojou o demônio de suas armas e o expulsa das almas pelo santo Batismo e fortifica as almas com a Confirmação, as alimenta com a Santa Eucaristia, lhes deu a Confissão como um segundo meio de salvação e lhes deu a Extrema Unção para apagar os restos de pecado antes da última viagem que as conduz à eternidade.
Ele nos deu também dois outros sacramentos, a Ordem e o Matrimônio. A Ordem ou Sacerdócio para administrar os sacramentos e o Matrimônio para santificar a propagação do gênero humano. Ora, o mundo foi santificado por estes sacramentos, por esta instituição que é a Santa Igreja Católica, distribuidora autorizada destes sacramentos. Mas, diz Nosso Senhor no Evangelho de hoje, o demônio uma vez expulso, anda por lugares áridos à procura de repouso. E não encontrando, diz: “Voltarei para a casa donde saí” e a vendo varrida e adornada vai e toma sete espíritos piores do que ele, e entra nesta alma, e o último estado deste homem se torna pior do que o primeiro, ou seja, do que ele era antes de receber a graça divina; do que ele era antes de Nosso Senhor visitá-lo e curá-lo. Apliquemos este ensinamento ao que estamos vendo hoje.
O mundo, sobretudo o Ocidente, já foi profundamente católico. Apesar de sempre haver o joio misturado com o trigo, os países como Itália, França, Espanha, Inglaterra, Portugal, Alemanha, Polônia, Áustria e tantos outros, deram inúmeros santos à Igreja. A cidade de Roma é a cidade dos mártires; mártires que eram expostos às feras no Coliseu, queimados vivos, degolados, crucificados ou mortos de outras maneiras. Roma, desde que São Pedro aí residiu, tornou-se a sede, a capital da Igreja militante. É de Roma, é da cátedra de São Pedro que os ensinamentos de Nosso Senhor são distribuídos infalivelmente ao mundo católico. Mas, em punição pelos pecados dos homens, Deus permitiu que o demônio voltasse a forçar a porta e acabasse entrando nestes países, outrora católicos.
Ele entrou matando espiritualmente ou fisicamente seus governantes, ou seja, os fazendo cair na heresia, como na Inglaterra, ou os fazendo perecer na guilhotina, como na França. Ferida a cabeça, os membros se dispersam. A vida católica destes países ficou abalada sem o apoio natural da autoridade. Muitas almas continuaram a amar a Deus sobre todas as coisas, mas as leis e a vida pública destes países começaram a se voltar contra Nosso Senhor Jesus Cristo.
Foi o que vimos aqui no Brasil no tempo de Dom Vital, preso e provavelmente envenenado. Foi o que vimos na França, com duas expulsões de religiosos e a espoliação dos bens da Igreja (ou seja, o Estado francês roubou tudo o que pertencia à Igreja). Mas o demônio não ficou só nisso. Por uma misteriosa permissão, Deus, na Sua Justiça, permitiu que o demônio entrasse no santuário da Igreja. Que se passou?
Os homens da Igreja, dominados por doutrinas perversas, introduziram o liberalismo e o modernismo dentro da Igreja, sobretudo no Concílio Vaticano II. A cabeça da Igreja, ou seja, o Papa, foi ferida e as ovelhas se dispersaram. Os próprios bispos ficaram sem saber como agir, pois como agir sem o chefe natural da Igreja, que é o Papa?
Mas entre os bispos houve dois homens, dois heróis da fé católica, um francês e o outro, um brasileiro, Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer, que, meditando na lei de Deus, que sendo fiéis ao que haviam aprendido em Roma mesmo; homens que pela sua humildade e sua devoção à Santíssima Virgem, mereceram encontrar forças, ou melhor, receberem da misericórdia divina a graça de se oporem ao demônio e à autodestruição da Igreja.
Mas todos nós devemos morrer, e Dom Lefebvre pensou que não deveria partir desta vida sem deixar a seus filhos espirituais, sem deixar a seus seminaristas, sem deixar à Igreja, os meios de continuar a resistir a esta invasão diabólica que quer tornar o mundo (e, se possível fosse, a Santa Igreja também) pior do que ele, o mundo, era antes da vinda de Nosso Senhor, e assim facilitar o reino do Anticristo, que não terá outro objetivo senão concluir a obra iniciada pelos modernistas. Que fez, então, Dom Lefebvre?
Ele primeiro procurou por todos os meios um acordo com Roma, procurando um meio de salvaguardar a Tradição. Na verdade, ele procurou saber até onde ia a crise em Roma. Ele procurava saber se Roma queria a Tradição ou se era inútil esperar encontrar nas autoridades romanas a vontade de proteger a fé católica e de fazer reflorescer a Santa Igreja pela graça dos sacramentos. Ele procurou algum apoio real, alguma determinação verdadeira de defender e proteger a fé católica contra o modernismo e o liberalismo. Dom Lefebvre foi até o ponto de assinar um pré-acordo, mas, no dia seguinte, ele retirou a sua assinatura. “Eu fui longe demais”, dizia ele. Vendo clara e dolorosamente que não havia solução, ele sagrou, em 30 de junho de 1988, quatro bispos para a Santa Igreja. Quase um ano antes desta cerimônia, em agosto de 1987, ele escrevera aos futuros bispos uma carta da qual citaremos algumas passagens. Estas passagens nos demonstram a gravidade da situação que encontrara Dom Lefebvre ao pesar tudo o que estava acontecendo e, sobretudo, pesando o apego de Roma aos princípios revolucionários do liberalismo e do modernismo. Ele escrevia:
“A cátedra de Pedro e os postos de autoridade de Roma, estando ocupados por anticristos, a destruição do Reino de Nosso Senhor avança rapidamente no interior mesmo de Seu Corpo místico aqui na terra, especialmente pela corrupção da Santa Missa, esplêndida expressão do triunfo de Nosso Senhor na Cruz: ‘Regnavit a ligno Dei’ e fonte de crescimento de seu reinado sobre as almas e as sociedades”.
Vemos nessas palavras a ilustração do que Nosso Senhor nos diz no Evangelho de hoje. O demônio procura destruir o reino de Nosso Senhor na terra e para isso ele ataca a missa, que, como diz Dom Lefebvre, é a “fonte de crescimento”, ou seja, da propagação deste reino de Nosso Senhor sobre as almas e sobre as sociedades. Mas continuemos:
“[...] Eu me vejo forçado pela Providência Divina, escreve Dom Lefebvre, a transmitir a graça do episcopado católico que eu recebi a fim de que a Igreja e o sacerdócio católico continuem a subsistir para a glória de Deus e a salvação das almas”. E ele nos adverte: “Eis porque, convencido de não cumprir senão a vontade de Nosso Senhor, eu venho através desta carta vos pedir de aceitar a graça do episcopado católico como eu já conferi a outros padres em outras circunstâncias”. E termina dizendo: “Bem, caros amigos, sede minha consolação em Cristo Jesus, permanecei fortes na fé, fiéis ao verdadeiro sacrifício da missa, ao verdadeiro e santo sacerdócio de Nosso Senhor, para o triunfo e a glória de Jesus no céu e na terra, para a salvação de minha alma.

Nos corações de Jesus e de Maria eu vos abraço e vos abençoo.
Vosso pai no Cristo Jesus
+ Marcel Lefebvre


Eis aí a razão das sagrações de 1988. Ora, a crise hoje é a mesma que em 1988. Roma mudou, talvez, mas mudou para pior. Após as sagrações de 1988, houve outra pouco depois, a de Dom Lícinio, realizada em São Fidélis, em 1991. Se não me engano, foi Dom Tissier de Malerais o bispo consagrante, assistido por Dom Williamson e Dom Galarreta. E depois, que se passou?
Por que agora se fala novamente em sagração? Por que no ano passado foi sagrado Dom Faure aqui no mosteiro? Qual é a razão destas sagrações sem a participação dos outros bispos sagrados por Dom Lefebvre? A razão da sagração de Dom Faure e da próxima sagração (se Deus quiser, será realizada no próximo dia 19 de março, à qual todos os nossos fiéis estão convidados)... a razão destas sagrações não é, como disse Dom Galarreta: “Para eles (ou seja, para a resistência), é um princípio. É uma questão doutrinal. Vós não podeis admitir a possibilidade de um acordo com Roma sem ser liberal”.
O raciocínio de Dom Galarreta é interessante. Que seja uma questão doutrinal, nós estamos de acordo. Sim, é uma questão doutrinal, mas não se trata só de uma questão doutrinal. É uma questão também prudencial. Santo Tomás, falando da docilidade, nos diz que se deve escutar os anciãos em suas sentenças não menos que nas suas demonstrações por causa da experiência deles (II Reis). E a Sagrada Escritura nos diz: “Compareça à assembleia dos anciãos e aceite de coração a sabedoria deles (Eclo. VII,35)”. E que disseram os anciãos, que disseram Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer? Tomemos Dom Lefebvre, que pode analisar de mais perto esta crise em Roma mesmo. Ele disse que se ele fosse chamado novamente à mesa das negociações seria ele que poria as condições: “ou os senhores aceitam as encíclicas de seus predecessores que condenam os erros modernos, ou nada feito”. Dom Lefebvre, em outras palavras, dizia que era necessário a volta de Roma à Tradição. Ele escrevia a João Paulo II em 2 de junho de 1988:
“Nós continuamos a rezar para que a Roma moderna, infestada de modernismo, volte a ser a Roma católica e reencontre sua tradição bimilenar. Então, o problema da reconciliação não terá mais razão de ser, e a Igreja reencontrará uma nova juventude”. E ainda: “O objetivo desta reconciliação (entre a Fraternidade e Roma) não é de modo algum o mesmo para a Santa Sé e para nós. Assim sendo, nós preferimos esperar tempos mais propícios ao retorno de Roma à Tradição”. Pode-se discutir e deve-se discutir estes assuntos.
Isto não é um tabu para nós. Nós devemos nos aplicar a fundo nestas questões, pois elas são vitais para nós. Se nós não seguimos Dom Fellay e seus assistentes e nem aprovamos o abandono do princípio prudencial do Capítulo Geral da Fraternidade de 2016, que dizia, ‘nada de acordo prático sem acordo doutrinal”, não é por mero capricho nem por sermos sedevacantistas, nem por qualquer outra razão diferente das razões dadas por Dom Lefebvre. Se nós nos recusamos a seguir Dom Fellay é porque nós cremos que os três bispos da Fraternidade, Dom Williamson, Dom Tissier e Dom Galarreta, tinham razão na famosa carta de 7 de abril de 2012:
“Monsenhor, senhores padres, prestem atenção, os senhores estão conduzindo a Fraternidade a um ponto do qual não poderá fazer marcha-ré, a uma profunda divisão sem retorno e se os senhores chegarem a um tal acordo, os senhores estragariam a Fraternidade, as poderosas influências destruidoras que ela não suportará. Se até o presente, os bispos da Fraternidade a protegeram é precisamente porque Dom Lefebvre recusou um acordo prático”.  “Uma vez que a situação não mudou substancialmente, uma vez que a condição pedida pelo Capítulo de 2016 não se realizou de modo algum (ou seja, a mudança doutrinal de Roma que permitiria um acordo prático) escutai ainda vosso fundador. Ele teve razão há 25 anos. Ele tem razão ainda hoje. Em seu nome, nós nos conjuramos: não engajai a Fraternidade num acordo puramente prático.”
E qual foi a resposta de Dom Fellay? Foi que os três bispos faziam prova de falta de espírito sobrenatural e realismo. Dom Fellay não ficou só nisso. A expulsão de Dom Williamson, principal inspirador e redator da carta dos três bispos, a expulsão de vários outros padres, o adiamento das ordenações dos dominicanos e dos capuchinhos e a ameaça de adiamento das ordenações dos beneditinos de Bellaigue, assim como várias declarações de Dom Fellay e do Padre Pfluger, mostram claramente o desejo de um acordo prático sem acordo doutrinal, ou melhor, sem o retorno da Tradição à Roma.
Nem por isso nós queremos mal à Fraternidade, muito pelo contrário. Nós desejamos que ela faça marcha-ré. Ela parece tê-lo feito, de certo modo, mas a situação continua extremamente delicada. Um reconhecimento unilateral da Fraternidade seria algo bom? Os reconhecimentos unilaterais que nós vimos se realizar durante outras crises se mostraram não serem, na prática, unilaterais. Mesmo querendo não ceder nada aos modernistas, a experiência mostrou que tanto Dom Gérard como Dom Rifan, para só falar dos casos que conheço melhor, cederam e muito, apesar de Dom Gérard dizer: “Roma dá tudo e não pede nada. Como posso recusar?”
É para evitar estes perigos, é para seguir mais de perto os conselhos de Dom Lefebvre, aos quais recordaremos ainda umas outras ocasiões para explicar as razões desta nova sagração, que nós dizemos não à política dos acordos. Não somos nem queremos ser sedevacantistas. Queremos simplesmente continuar a Tradição como Dom Lefebvre e Dom Antônio de Castro Mayer fizeram. Nada mais do que isso.
Sabemos que o demônio ronda em torno de cada um de nós procurando a quem devorar. Sabemos que ele quer forçar a entrada de tudo o que ainda está de pé, tanto individualmente como coletivamente, tanto as almas como os mosteiros e as congregações ainda tradicionais. Mas desejamos que isto não aconteça com ninguém. Rezamos para que a obra de Dom Lefebvre resista, volte ao seu primeiro fervor e venha em nosso auxílio, pois precisamos dos tesouros de ciência e de piedade que se encontram ainda na Fraternidade.
Não nos agrada vê-la longe de nós, não nos agrada estarmos tão sós, mas não podemos não resistir a essa tendência, a um acordo cujos efeitos já se fazem sentir a tantos anos e que pesam sobre a Fraternidade, desorientando os fiéis, proibindo a venda de bons livros, como os livros sobre o escandaloso Sínodo da Família, livro redigido com a colaboração dos capuchinhos de Morgon sem, que eu saiba, nenhuma alusão a Dom Fellay. Mesmo assim, o livro foi proibido de ser vendido nos priorados da Fraternidade. Por quê? Seria, por acaso, por que o livro fala mal do Papa Francisco? Eis o que nos importa na Fraternidade.
Ora, não podendo apoiar Dom Fellay, que se mostrou bem adverso a Dom Williamson e também a Dom Faure, é normal que a Resistência procure os mesmos meios que Dom Lefebvre procurou, dizendo aos seus escolhidos: “Eu vos confiarei esta graça do episcopado católico, confiante de que, tão tardar, a Sé de Pedro será ocupada por um sucessor de Pedro perfeitamente católico, nas mãos dos quais os senhores poderão dar a graça de vosso episcopado para que ele a confirme”.
Eis aí o nosso programa. Eis aí resumidamente as nossas razões. Rezem por nós. A falha dos que estão elevados em dignidade são mais visíveis. Razão a mais para rezar pelos bispos. Razão também, ou melhor, ocasião de maiores críticas e maiores ataques, como se vê contra Dom Williamson e Dom Faure. Que vossas orações nos obtenham de ser forte sem dureza, admoestando a tempo e a contratempo, e guardando a sã doutrina, e tratando a todos com caridade e na castidade. Que as palavras de São Paulo a São Timóteo nos estejam sempre presentes: “Vela por ti e pelo teu ensinamento: persevere nisto porque, assim fazendo, te salvarás a ti mesmo e àqueles que te ouvem”.


Assim seja, com o auxílio de Maria Santíssima.

Sermão do 3º Domingo da Quaresma, ano de 2016.