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quinta-feira, fevereiro 16, 2012

Harry Potter: o problema

2 comentários
Por Andrea Stoltz
Traduzido por Andrea Patrícia




Há mais problemas com Harry Potter do que apenas feitiçaria.(1)

Digo "apenas feitiçaria" não porque eu ache que seja uma questão menor, mas porque parece que a maioria das pessoas que não aprovam a série criticam Harry Potter só por esse motivo. Embora seja ele um bom motivo (provavelmente o melhor) para evitar o mundo de Harry Potter, há uma abundância de outras razões para se criticar.

Em nosso mundo ordinário, não temos que procurar material ofensivo que ataca nossos sentidos. É flagrante. É impressionante. É quase inevitável. Isso não quer dizer que essa seja a única maneira pela qual somos afetados pelas impurezas do mundo. Muitas vezes elas vêm até nós de maneiras muito mais sutis. É claro, o mal sutil é muito mais prejudicial do que o mal flagrante, porque é mais difícil de reconhecer e, portanto, mais difícil de evitar. O mal mais nocivo de todos é o que se disfarça de bem. Se achamos que algo é bom, fazemos mais do que apenas não evitá-lo - nós o abraçamos.

A série Harry Potter de JK Rowling é exatamente isso - mal que parece bem. O fato de que tantas pessoas estão abraçando, o faz parecer ainda melhor. Encontramo-nos a pensar que, desde que este ou aquele grupo cristão acha que está tudo bem, então deve estar tudo bem. Se alguém que considero como um "bom" pai  permite que seu filho leia Harry Potter, não deve haver nada de errado com isso, você conclui.

Mas não é esta maneira de pensar precisamente o que queremos evitar? A visão de mundo "todo mundo está fazendo então não pode ser ruim" é uma das mais fracas formas de racionalizar a imoralidade. Anda lado-a-lado com a mentalidade "se você se sente bem, faça". Se um "bom" pai ou um grupo cristão "conservador" aprova e até incentiva esse tipo de leitura, isso não significa que os livros sejam bons, isso significa que alguém está mal informado. Para o benefício de ambos, permita-me resumir brevemente os quatro livros existentes de Harry Potter.

Sinopse de Harry Potter

Em Harry Potter e a Pedra Filosofal (2), nós conhecemos Harry Potter, um garoto de onze anos vivendo com parentes velhos e cruéis em um subúrbio de Londres. Dez anos atrás, ele havia derrotado Lord Voldemort, o mais poderoso mago negro da história. Seus pais, por outro lado, não sobreviveram ao ataque. Eles morreram tentando salvar Harry. Na noite de seu aniversário de onze anos, ele recebeu a notificação de que ele era realmente um bruxo, e que tinha sido aceito na Escola Hogwarts de Magia e Bruxaria. Enquanto em Hogwarts, ele aprende a usar magia, jogar quadribol (3) e até mesmo enganar os bruxos mais experientes. No final, Harry e seus amigos, Hermione e Rony, lutam com um troll gigantesco e também resgatam a Pedra Filosofal de um professor que virou vilão.

No segundo ano de Harry em Hogwarts, registrado em Harry Potter e a Câmara Secreta, Harry encontra novas aventuras mais perigosas do que as de antes. Entre outras coisas, Harry descobre que ele é um ofidioglota, o que significa que ele pode falar com cobras. O ano é passado principalmente na tentativa de descobrir a Câmara Secreta (5) e o mal que está lá dentro. Uma vez na câmara, ele deve lutar com um basilisco (6) do tamanho de um carvalho sob o comando de Lord Voldemort, e depois com o próprio Lord Voldemort. Harry é vitorioso em sua tentativa de erradicar o mal na Câmara Secreta.

Enquanto Harry está em seu terceiro ano em Hogwarts, o mundo mágico está em polvorosa com a notícia de que um criminoso escapou. Em Harry Potter e o Prisioneiro de Azkaban, a vida em Hogwarts não é tão feliz como era antes. Uma vez que existe motivo para suspeitar de que o criminoso que fugiu é muito perigoso e está atrás de Harry, os guardas da prisão conhecida como Dementadores estão montando guarda ao redor da escola, e Harry não tem permissão para fazer qualquer coisa que possa comprometer sua segurança (ou seja, nada de "diversão"). O criminoso, Sirius Black, na verdade quer conversar com Harry. O leitor logo descobre que Sirius é na verdade o padrinho e guardião de Harry, e tem tentado cuidar de Harry. Harry escapa de um lobisomem, supera os bruxos das trevas, e libera um hipogrifo incompreendido (7) durante todo o tempo no processo de resgatar o Prisioneiro de Azkaban (8) das autoridades escolares e dos Dementadores(9), que estão fora por mais do que sangue.

Finalmente, todas as coisas escuras e horríveis chegam ao auge em Harry Potter e o Cálice de Fogo, que dá conta do quarto ano de Harry em Hogwarts. O ano começa com a Copa Mundial de Quadribol, onde Harry encontra as Veela, mulheres maravilhosamente sedutoras que podem fazer com que os homens se curvem à sua vontade através de sua dança. Ele tem uma briga com os Comensais da Morte (seguidores de Lord Voldemort), e depois compete no Torneio Tribruxo, uma competição de um ano de duração entre as três principais escolas de feitiçaria européias. Infelizmente, um colega de escola de Harry e concorrente no torneio é brutalmente morto por Voldemort, que usa uma das maldições "imperdoáveis"(10). Harry, é claro, consegue vencê-lo mais uma vez, com a ajuda de seus pais mortos. Ele escapa apenas para descobrir que um de seus professores preferidos e confiáveis era na realidade um Comensal da Morte, e tentava acabar com Harry o tempo todo.

Quando a fantasia se torna realidade, para onde vai a realidade?

Muitas coisas no "mundo de fantasia" de Harry Potter coincide com o nosso próprio mundo. A configuração das histórias é em algum lugar fora da Londres de hoje. A rua mágica de compras, o Beco Diagonal, é alcançado através de uma taberna em Londres, que foi encantada para que somente bruxas e bruxos possam vê-lo. Por trás da taverna há uma parede de tijolos. Para acessar o Beco Diagonal, a bruxa ou bruxo deve empurrar o tijolo correto. A Escola Hogwarts de Magia e Bruxaria também foi encantada, para que os trouxas, pessoas não-mágicas, fiquem longe dela. Fica no campo, embora também situada em algum lugar na Grã-Bretanha.

Este não é um mundo de fantasia inventado que Rowling "criou", embora ela goste de dizer que é. Esses personagens vivem em nosso mundo e em nosso período de tempo. Eles jogam com os mesmo jogos de vídeo, usam os mesmos computadores, e dirigem os mesmos carros. Eles têm uma "Copa do Mundo" de Quadribol, assim como a nossa Copa do Mundo de futebol. As equipes concorrentes na "Copa do Mundo" são a Bulgária e a Irlanda, países reais. Há até mesmo personagens de seus livros que realmente existiram. Onde está a linha entre realidade e ficção?

O problema aqui é que, ao tecer a realidade através de um trabalho "de ficção", a confusão se segue inevitavelmente. Rowling admitiu receber cartas de crianças que querem saber como entrar em contato com Alvo Dumbledore, o diretor de Hogwarts. Elas querem se inscrever! Algumas crianças ainda aguardam suas cartas de convite de Hogwarts. É um lugar real que apenas não podemos encontrar, porque somos trouxas.

Rowling e a Scholastic (11), em vez de desencorajar este pensamento, perpetuam-no. No site oficial de Harry Potter (12) as crianças podem se inscrever em Hogwarts, comprar no Beco Diagonal, e enviar mensagens de coruja (via e-mail). Rowling, em uma entrevista on-line promovida pela Scholastic (13), responde a perguntas das crianças sobre Harry e seus amigos como se fossem pessoas reais. Alguém (nenhum nome é dado na entrevista) perguntou a Rowling, "Onde está Azkaban?" (como se fosse um lugar real!). Ela respondeu: "Está no norte do Mar do Norte. Um mar muito frio." Não é de se admirar que as crianças queiram ser exatamente como Harry ou Hermione ou Ron! Pessoas nas quais elas acreditam e confiam estão dizendo-lhes, em tantas palavras, que elas existem! Deve ser ainda mais confuso para as crianças na Grã-Bretanha, a quem lugares como Londres e o Mar do Norte são lugares reais, e não ficam apenas em algum lugar em um mapa.

Vários anos atrás, JFK estava nos cinemas. Oliver Stone produziu, e ele mesmo disse que não era uma biografia, ou qualquer tipo de relato histórico do assassinato do falecido John F. Kennedy. Ele disse que era ficção, e deveria ser visto como tal. No entanto, foi desenvolvida uma grande controvérsia sobre o filme, porque não era historicamente preciso. As pessoas ficaram chateadas porque não retratava o evento como elas sabiam que tinha acontecido. Por que isso aconteceu? As pessoas são facilmente confundidas. Usar uma configuração quase que inteiramente histórica de uma obra fictícia nos faz pensar que é histórico, e, portanto, crível.

O fato de que não existe uma linha entre o real e o imaginário é apenas uma das razões pela qual Harry Potter é perigoso para as crianças. Se os adultos têm dificuldade em distinguir entre o real e o não real, o quanto mais difícil será para as crianças, e quanto mais prejudicial? Desde que nem sempre é possível que as crianças façam a distinção por si sós, os livros que lêem deve fazer isso por eles. Se um livro falha a este respeito, pode ter efeitos prejudiciais, como o que está acontecendo agora, com as crianças pensando que Harry Potter, seus amigos e sua escola são reais. As crianças não "aumentam" seu interesse em magia, elas simplesmente o desenvolvem. Além disso, se os autores incentivam esta indefinição entre o real e o fantástico, é porque eles entendem o desejo e os resultados negativos que sabem que se seguirão.

Misturando o bem e o mal

Falando das linhas borradas, a distinção entre o bem e o mal em todo o livro é confusa, se é que existe. Mas como posso fazer essa afirmação quando todo mundo diz que Rowling mostra uma luta definitiva entre o bem e o mal? Rowling diz: "O tema que percorre todos esses livros é a luta entre o bem e o mal." Mesmo que os livros de Harry Potter estejam sendo constantemente elogiados por "terem uma mensagem moral forte e claramente retratar o bem e o mal"(14), o leitor vê, sempre, contradição constante. Personagens que foram retratados como maus vêm a ser bons, enquanto os bons acabam sendo os vilões.

Um exemplo claro dessa imprecisão é Sirius Black, o assassino fugido, que acaba por ser o "padrinho" de Harry, falsamente acusado e condenado injustamente. Durante a maior parte do livro três, ele é mostrado como sendo um bruxo perigoso e mau, embora, no final, se descubra o quanto ele se importava e o quanto ajudou os pais de Harry antes de morrerem.

No final do quarto livro, vemos Olho-Tonto Moody, que tinha ajudado Harry a evitar a punição todos os anos, vir a ser um Comensal da Morte. Então descobrimos que era realmente um dos mais elevados membros do Ministério da Magia, que tinha bebido uma Poção Polissuco (15) todo o ano, a fim de fazer-se parecer com Moody.

Mesmo Harry, que é o "herói" da série, tem notável semelhança com Lord Voldemort, seu inimigo mortal e o bruxo mais malvado ao seu redor. Ambos podem falar com cobras, pois eles eram ambos órfãos, a cicatriz que Harry recebeu do ataque de Voldemort queima sempre que Voldemort está perto, ambos utilizam varinhas com as penas da mesma fênix.(16)

Então, quem é bom, e quem é mau? Cada livro desta série tem pelo menos um personagem que acaba por ser diferente de como ele foi retratado. Isso não quer dizer que uma reviravolta na história ou surpresa no final seja errado. Alguns dos melhores escritores empregam esta técnica. O problema se materializa quando não se pode confiar se muitos dos personagens são bons ou o maus, quando você nunca sabe quem é quem ou de que lado ele está. Aqueles personagens que são de um jeito ou de outro não são geralmente retratados em uma luz favorável, ou mudam para se tornar o que todo mundo quer. De qualquer forma, as mensagens incontestáveis são claras.

Tome Severus Snape, o professor de Poções, por exemplo. Desde o início, ele é retratado como um disciplinador horrivelmente miserável e injusto, simplesmente porque ele não quer tolerar nenhuma tendência de Harry em violar regras. Ele sabe que Harry e seus amigos estão fazendo alguma coisa, e ele geralmente tenta impedir o comportamento, ou corrigi-lo depois de terem feito algo errado. É claro que os alunos pensam que isso é errado da parte dele, mas o que acontece com os outros professores? Uma e outra vez, eles castigam Snape na frente dos alunos por tentar interferir nas aventuras de Harry. Harry constantemente demonstra o quanto ele não pode suportar Snape, e como Snape absolutamente o odeia. A mensagem óbvia aqui é que aqueles que fazem qualquer tentativa de respeitarem as regras são injustos e odiosos.

Hermione, uma das melhores amigas de Harry, foi originalmente condenada ao ostracismo por Harry e seu amigo Ron porque ela era uma "boazinha". Ela sempre fez seu dever de casa a tempo e sempre estudou para as provas. Para piorar as coisas, ela nunca deixou seus amigos copiarem seu trabalho ou respostas das provas. Como resultado, ela não era digna de ser amiga deles, até o dia que ela contou uma mentira a um professor, a fim de encobrir os meninos. De repente, ela ganhou o seu respeito, e foi autorizada a se juntar a eles em suas travessuras. A partir desse dia, ela se tornou o cérebro por trás de todas as suas proezas, desde ensiná-los a roubar furtivamente ingredientes para uma poção, até usar meios fraudulentos na aquisição de um livro restrito da biblioteca. Basicamente, então, a mensagem é que se você não for automaticamente legal, então mentir vai fazer você com que você seja.

Embora Harry supostamente seja o "bom" da série, ele não é o protótipo de heroísmo que seus leitores gostam de pensar que ele é. De acordo com o mundo, Harry Potter incorpora tudo o que é virtuoso e nobre, pelo menos tanto quanto é possível para os meninos pré-adolescentes e adolescentes. Ele é um modelo brilhante de coragem e lealdade, aquele que é digno de ser imitado e de admiração. No entanto, um tema recorrente em todos os livros de Harry Potter é "o fim justifica os meios". Toda vez que Harry sai vitorioso em um empreendimento, ele tem usado geralmente algum tipo de meio imoral ou pelo menos questionável para superar seus obstáculos.

Como exemplo, no quarto livro, Harry é forçado a entrar no Torneio Tribruxo, uma "competição amigável" que havia sido interrompida por vários anos porque muitas pessoas estavam morrendo. Harry é elogiado em várias ocasiões por seu desempenho na competição. Mas se ele não tivesse tido outros alunos, fantasmas, funcionários do Ministério e professores dando-lhe as respostas às pistas e enigmas, ele nunca teria sido capaz de completar as tarefas definidas diante dele. Cedric Diggory, o outro campeão de Hogwarts, é elogiado por seu amor pelo jogo limpo e pela integridade. Durante o torneio, ele não só disse a Harry de antemão o que a tarefa seria, mas também recebeu as respostas que Harry lhe deu (depois de consegui-las de outra pessoa). No final da competição, Moody dá uma justificativa para isso quando ele diz: "Trapacear é uma parte tradicional do Torneio Tribruxo, sempre foi."

A "moral" é ...?

Valores tradicionais cristãos não estão em abundância aqui. O mundo de Harry Potter é totalmente carente do que chamaríamos de virtudes, ou são retratadas ficticiamente como algumas outras qualidades viciosas.

Obediência, para Harry Potter, não é "obedecer aos legítimos superiores de cada um". Pelo contrário, é mais como "fazer com que pareça que você não está fazendo nada de errado." Normalmente Harry e/ou seus amigos são recompensados por desobedecerem um professor ou uma regra da escola, não repreendidos. Se eles são repreendidos, é geralmente pelo professor que é cumpridor da lei e, portanto, "longe de atingi-los." Claro, este é também o professor que é mais frequentemente desobedecido, enganado, e roubado. A razão para isso é simples. Se você não gosta de um superior, ou se ele é injusto com você, sua obrigação de obedecê-lo desaparece. Vemos isso uma e outra vez. Harry não tem de obedecer à sua tia e ao seu tio, porque eles não significam nada para ele. Ele não tem de obedecer o Professor Snape, porque Snape o odeia. Ele não tem que obedecer o comissário, Percy Weasley, porque ele é apenas o irmão nerd mais velho de Ron.

Coragem, de acordo com Harry Potter e amigos, significa olhar para o perigo, geralmente depois de terem sido aconselhados a não fazê-lo. Lealdade é quebrar as regras por outro. Justiça significa que você pode escapar de qualquer coisa se você for famoso, e temperança é a virtude pela qual uma pessoa se embebeda somente quando está realmente feliz ou realmente deprimida.

Os personagens de Harry Potter sempre agem por seus próprios interesses. Por exemplo, Hermione coloca uma maldição para paralisar o corpo inteiro de seu colega de classe quando ele tenta impedi-los de entrar em áreas proibidas após o toque de recolher. Professores colocam encantos de memória nos alunos a quem tenham revelado seus segredos mais íntimos. Harry e seus amigos fazem uma poção que irá transformá-los em outras pessoas quando quiserem obter informações de alguém. O Professor Lupin (17), quando fala com Harry sobre o pai de Harry, reflete:

Algumas vezes me senti culpado por trair a confiança de Dumbledore ... ele não tinha idéia de que eu estava quebrando as regras que tinha estabelecido para a minha própria segurança e dos outros ... Mas eu sempre conseguia esquecer meus sentimentos de culpa cada vez que nos sentávamos para planejar a aventura do nosso próximo mês.

Obviamente, ser digno de confiança não é tão importante quanto ter uma aventura com os amigos.

Agora, para a parte da magia


Talvez a qualidade mais alarmante experimentada seja a curiosidade perigosa sobre magia e ocultismo. Rowling diz que ela não tinha a intenção de atrair crianças para o mundo da feitiçaria, quando ela escreveu esses livros (18). Este poderia muito bem ser o caso. No entanto, o que está acontecendo é exatamente isso: as crianças querem saber mais sobre feitiços, prever o futuro, e as bruxas e bruxos em geral. Eles simplesmente não enxergam isso como fantasia, como algo que eles nunca podem nem mesmo ter a esperança de alcançar. O mais assustador é, eles podem fazê-lo, e eles sabem que podem fazê-lo, porque Rowling e seu mundo de Harry Potter estão a dizer-lhes que podem.

A resposta mais comum a esse desprezo pela magia é: "Mas se a magia é tão terrível, por que nós permitimos e até mesmo incentivamos nossos filhos a ler As Crônicas de Nárnia ou O Senhor dos Anéis?" Minha resposta é que esses clássicos estão em um plano completamente diferente do de Harry Potter. A maioria das pessoas que estão familiarizadas com CS Lewis e JRR Tolkien concorda que eles estão escrevendo a partir de pelo menos um ponto de vista cristão, se não completamente católico na sua escrita e pensamento. Rowling definitivamente não está. A "magia" contida em suas obras não é a mesma de forma alguma.

A principal diferença entre os dois tipos de magia é que os personagens de Harry Potter estão envolvidos na magia oculta. Com Tolkien, Lewis, e a maioria dos autores de fantasia, a palavra magia não é nem mesmo um termo adequado para o que acontece em seus livros. Os autores nunca usam a palavra "magia" – esta é quase sempre atribuída por alguém de fora, ou seja, o leitor.

A Magia é realmente definida como a arte de usar meios sobrenaturais para conformar eventos à vontade do homem. A Bruxaria tem, em sua própria definição, uma conotação ruim, e faz referência ao discurso com o diabo. A Feitiçaria é definida como "o uso da energia adquirida com a ajuda de espíritos do mal ... adivinhação por magia negra ... necromancia, bruxaria, ... sinônimo de magia." (19)

A palavra "oculto" vem diretamente do latim, e significa "escondido" ou "secreto". A definição estrita da palavra "oculto" no idioma Inglês se refere a coisas que são deliberadamente escondidas ou secretas. Dizemos que Nosso Senhor no Santíssimo Sacramento está, em latim, occultus, ou seja, escondido da vista ordinária, porque não parece que está Ele está lá.

Em Inglês comum, no entanto, a palavra "oculto" se refere especificamente a essas práticas "sobrenaturais" pelo qual um indivíduo tenta aprender coisas pelas quais ele não foi feito para conhecer, ou controlar coisas fora da esfera de sua existência. Em outras palavras, há certas coisas que não conhecemos dentro de nosso tempo aqui na terra. Estas são as coisas que estão escondidas de nós, por Deus, porque Ele está no comando. Imiscuir-se no ocultismo é simplesmente tentar invadir o reino de Deus, algo como o que Adão e Eva fizeram.

O traço comum que atravessa todos os aspectos do ocultismo é usar de meios pervertidos para executar seus próprios planos. É precisamente por isso que a magia e todas as suas subdivisões são tão ofensivas a Nosso Senhor. Obviamente, a tentativa de contornar a vontade de Deus não vai ser realizada pelo próprio Deus. Portanto, a conclusão é clara: as práticas ocultas são trazidas por uma força maligna, ou seja, Satanás.

Rowling versus Tolkien, Lewis, e outros

Por uma questão de fato, os livros Harry Potter de Rowling são freqüentemente comparados com O Senhor dos Anéis, de JRR Tolkien, e As Crônicas de Nárnia de CS Lewis. A comparação é superficial, na melhor das hipóteses. Geralmente é baseada no uso da "magia", e o fato de que há uma bruxa e/ou um mago na história. O que eles nunca mencionam é a distinção entre a forma como esses personagens desempenham suas "mágicas".

O termo “magia”* só pode ser usado aqui se entendermos que ele está sendo usado equivocadamente. O fenômeno de ter uma palavra para descrever duas coisas completamente diferentes ocorre com freqüência no idioma Inglês. Assim, temos "livro" que significa uma coleta em forma de caixa de páginas ligadas entre si de maneira uniforme, bem como o processo de aquisição de reservas em um avião. A única maneira que podemos usar a palavra "magia" aqui é se entendermos que ela está se referindo a duas entidades diferentes, devido à falta de melhores termos.

Em O Senhor dos Anéis, o que chamaríamos de "magia" é uma habilidade natural dos Elfos, que é reconhecida como tal. Eles (Elfos), todos a têm, e eles não podem ensiná-la a ninguém. Em Harry Potter, a "magia" é uma dependência de algum tipo de fonte sobrenatural, e pode ser aprendida e ensinada, em graus melhores e piores. Os magos, Gandalf (bom) e Saruman (mau), não são seres humanos com poderes mágicos. Eles são de uma espécie completamente diferente e superior, cujos indivíduos são naturalmente dotados com a capacidade de fazer coisas que outros seres não podem. Eles tomaram a forma humana, mas na verdade não são humanos. Em Harry Potter, os magos bons e maus são todos os seres humanos, vão para a mesma escola, e usam a mesma magia.

As Crônicas de Nárnia de fato têm uma bruxa. Ela é considerada e claramente demonstrada como sendo do mal, e não há nenhuma dúvida sobre isso. Tanto quanto sua capacidade mágica exista, ela tomou para si poderes que não são nem mesmo legitimamente dela. Em outras palavras, Aslan, a representação da bondade, usa os poderes que vêm de uma fonte de bondade. Essa fonte é aquele que, como criador de Nárnia, tem "autoridade legítima sobre todas as coisas" e tem o controle final desse poder. De onde é que vêm os poderes que são usados em Harry Potter?

Em O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Nárnia, o poder que os seres bons possuem é usado para o bem de todos os envolvidos. Não é usado para satisfazer os caprichos de qualquer caráter particular. Nem usam seus poderes para paralisar alguém que está tentando interferir com o seu plano pessoal. Há sempre um quadro maior envolvido, e esse quadro foi determinado por outra pessoa, que tem a autoridade para fazê-lo. Os personagens bruxos/magos malvados usam seus poderes para servir a si mesmos, ao contrário do que já foi determinado. Isto é claramente mostrado ser errado tanto em Nárnia quanto na Terra Média. Nunca há uma dúvida sobre se um personagem do mal é mau. Em Hogwarts, no entanto, nunca se pode dizer.

Só porque Lewis usa a palavra "bruxa" e Tolkien usa a palavra "magia" não significa que Rowling pode ser comparada com eles. Rowling, que depende muito do ocultismo para suas criaturas, cria algumas por si própria. Será que isso significa automaticamente que ela está no mesmo plano que Tolkien?  Todas as personagens de Rowling falam em vários dialetos britânicos. Isso significa que ela está no mesmo plano de Lewis? Suas histórias podem ter uma similaridade material aqui e ali, mas seu espírito é diferente. É a diferença entre o modo como os autores pensam. Certamente, o modo como um escritor pensa afeta o seu trabalho. O que é que Rowling pensa? Em uma entrevista com Rowling, ela diz: "Faça o que quiser, não o que seus pais querem." (20). Isso é da mesma linha que Tolkien e Lewis?

Simplesmente pura grosseria

Ao longo dos quatro livros de Rowling existem casos de nomes, pessoas e itens que são tirados diretamente de história oculta. Ela mesma admite que tem cerca de um terço de seu material baseado no ocultismo real (21). Lembre-se, porém, que ela já disse que não tem interesse em atrair as crianças para o mundo do ocultismo. Lembre-se também que ela reconhece o fato de que as crianças estão se tornando realmente curiosas sobre as práticas ocultas depois de ler seus livros.

Os livros de Harry Potter não são apenas cheios de fatos, dramas ocultos, mas muitas vezes envolvem detalhes extremamente sangrentos que deixam pouco à imaginação. A imaginação das crianças é muito ativa naturalmente. Daí que a necessidade de descrever cenas sangrentas é relativamente diminuta na literatura infantil. Isso sem contar com o fato de que elas realmente não precisam dessas imagens gravadas em suas mentes jovens, de qualquer modo.

Em uma subtrama do livro dois, um dos professores está aguardando mandrágoras para amadurecer, porque elas são necessárias para produzir uma cura para os alunos que foram petrificados pelo basilisco. Historicamente, a mandrágora é uma planta que as pessoas acreditavam que crescia sob o lugar onde um homem havia sido enforcado. Dizia-se que sua raiz parecia uma criança morta, nodosa, enrugada, que deveria fazer um barulho estridente quando puxada para fora do solo. Em Harry Potter e a Câmara Secreta, a mandrágora é uma planta, a raiz do que é um bebê real.

Em vez de raízes, um bebê pequeno, lamacento, e extremamente feio saiu da terra. As folhas cresciam direto da sua cabeça. Ele tinha uma pele verde pálida, matizada e era visível que berrava a plenos pulmões. O Professor Sprout tomou um vaso de plantas grande de sob a mesa e mergulhou a mandrágora nele, enterrando-o no adubo escuro e úmido ... As mandrágoras não gostam de sair da terra, mas elas não parecem querer voltar para lá também. Elas se contorciam, chutavam, debatiam seus pequenos punhos afiados, e rangiam os dentes; Harry passou dez minutos inteiros tentando esmagar uma particularmente gorda em um pote (22).

Seus gritos são fatais para quem o ouve, por isso os alunos que estão presentes têm de usar protetores de ouvido. Rowling, em seguida, descreve os estágios da vida das mandrágoras como se fossem seres humanos. Mais tarde, quando as mandrágoras estão "maduras" o suficiente para uso, elas são cortadas em pedaços e cozidas. No mesmo livro, a fantasma que assombra o banheiro das meninas está lamentando o fato de que ela já está morta, e que não pode se matar novamente.

Depois, há os Dementadores, os guardas de Azkaban, que estão "entre as mais vis criaturas que andam nesta terra." Em seguida, segue uma descrição de como eles são sujos. O dementador "... vai se alimentar de você o tempo suficiente para reduzi-lo a algo como ele próprio ... sem alma e do mal. Você vai ficar sem nada, a não ser com as piores experiências de sua vida". Como se isso não bastasse, descobrimos exatamente como eles fazem isso. É chamado de "Beijo Dementador":

É o que Dementadores fazem quando desejam destruir completamente ... eles fixam suas mandíbulas sobre a boca da vítima e - sugam sua alma - ... você não tem mais nenhum senso de si mesmo, sem memória, ... nada. Não há nenhuma chance de recuperação. Você só vai - existir. Como uma concha vazia. E sua alma se vai para sempre ... perdida.

No fim de Harry Potter e o Cálice de Fogo, Harry é magicamente (e inconscientemente) transportado para um cemitério onde Voldemort e Rabicho, o último servo fiel de Voldemort, estão esperando por ele. Rabicho está prestes a ressuscitar Voldemort em um mago totalmente funcional novamente. Voldemort tem habitado o corpo de outra pessoa, já que ele não tem realmente muito de seu próprio corpo depois de ser derrotado por Harry, agora 14 anos atrás.

Era como se Rabicho tivesse virado uma pedra e revelado algo feio, pegajoso e cego, mas pior, cem vezes pior. A coisa que Rabicho andara carregando tinha a forma de uma criança humana encolhida, só que Harry nunca tinha visto nada menos parecido com uma criança. Era pelada, de aparência escamosa, pele escura, crua, preta avermelhada, e sua face - nenhuma criança viva jamais teria um rosto como aquele - achatada e parecendo uma cobra, com brilhantes olhos vermelhos .... Harry viu o olhar de repulsa no fraco rosto pálido de Rabicho à luz do fogo, enquanto ele carregava a criatura para a borda do caldeirão. Por um momento, Harry viu o rosto achatado, mal iluminado na dança das faíscas na superfície da poção. E então Rabicho baixou a criatura no caldeirão, não havia um silvo, e ela desapareceu abaixo da superfície; Harry ouviu seu corpo frágil bater no fundo com um baque suave. Deixe-o se afogar, pensou Harry ... por favor ... deixe-o se afogar.

Então há a cerimônia especial e o feitiço para dar um corpo ao senhor das trevas:

E agora Rabicho estava choramingando. Ele puxou uma longa adaga fina brilhante de dentro de sua capa ... Carne do servo – d- dada de bom grado – você irá reviver seu mestre. Ele estendeu a mão ... com o dedo faltando. Ele segurou o punhal muito firmemente em sua mão esquerda e girou-a para cima ... Ele não poderia bloquear o grito que ... passou por Harry como se ele tivesse sido esfaqueado com a adaga também. Ouviu alguma coisa cair no chão ... então um respingo doentio, como algo que foi deixado cair no caldeirão da poção ... virou um vermelho ardente ... Rabicho estava arfando e gemendo de agonia ... Sangue do inimigo ... tirado à força ... você vai ... ressuscitar o seu inimigo. Ele viu a adaga de prata brilhante agitando na mão restante de Rabicho. Ele sentiu sua ponta penetrar a curva de seu braço direito e o sangue escorrer para baixo da manga de suas vestes rasgadas. Rabicho ... procurou no bolso um frasco de vidro e segurou-o no corte de Harry, de modo que as gotas de sangue cairam nele. Ele cambaleou de volta ao caldeirão com o sangue de Harry ... e despejou-o dentro.

Em seguida, o retorno de Lorde Voldemort:

Mas então, através da névoa na frente dele, viu, com um assomo gelado de terror, a silhueta escura de um homem, alto e esquelético, emergindo lentamente de dentro do caldeirão ... mais branco do que um crânio, com olhos abertos de um vermelho lívido e um nariz que era plano como o de uma cobra com fendas para as narinas ... Lord Voldemort tinha voltado.

Simplesmente não se pode deixar de perguntar: "Será que é isso realmente apropriado para crianças?"

Conclusão

Os vários aspectos problemáticos de Harry Potter não afastam muitos leitores, os católicos inclusive. Por que isso? Harry e seus amigos (os "heróis") não são os tipos de modelos que as crianças devem ter. O que os leitores jovens vêem personagens fictícios fazendo, eles vão querer fazer também. Eles começam a pensar que uma vez que esta personagem age desta maneira, é normal, ou pelo menos aceitável. É um fato bem conhecido que eles pegam as ideias dos livros que lêem. Se essas idéias são construtivas ou prejudiciais depende do livro e da mensagem que transmite. Harry Potter mente regularmente e escapa assim mesmo. Não parece provável que um jovem vai pensar que não é justo quando ele não pode escapar como Harry escapa?

Os que elogiam a obra de Rowling constantemente trazem o mesmo tributo: a história mostra uma luta entre o bem e o mal. Quem é bom e quem é mau, porém? Quando um personagem tem muitos vícios como Harry tem, a palavra "bom" não vem à mente. Para mim, isso não parece ser uma luta entre o bem e o mal, parece uma luta entre o mal e o não tão mal assim.

Quanto à feitiçaria nos livros, as pessoas dizem que é inofensiva, que não tem nada a ver com o ocultismo, etc. Se você pesquisar na internet por tópicos sobre "bruxaria", Harry Potter é o número sete na lista de resultados. Número sete [isso foi em setembro de 2001, logo após os livros serem lançados: webmaster]! E isso anda lado-a-lado com outros apetrechos em sites de publicidade, tais como livros de magia, “rosários" de bruxas, e até mesmo caldeirões para a venda. Livros sobre bruxaria e feitiços mencionam que os livros de Harry Potter são ótimos, porque "as bruxas nos livros são contidas apenas pelos limites da imaginação de seus autores e seus leitores"(23). Não há como negar a relação entre Harry Potter e o oculto, quando é mostrado tão claramente assim. A razão para os elogios vindos de autores de livros de bruxaria não é coincidência. Isso não pode ser desculpado como apenas uma semelhança no gosto. Nosso Senhor diz:

Cuidado com os falsos profetas que vêm até vós vestidos de cordeiros, mas, interiormente, são lobos devoradores. Pelos seus frutos os conhecereis ... toda árvore boa produz bons frutos, e a árvore má produz maus frutos ... toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis ... (24)

Quais são os frutos dos livros de Harry Potter? Rowling, uma ex-professora, está empolgada por ver todas as idéias despertadas pelos seus livros (25). Confira os websites de recursos de professores, e você vai encontrar muitas idéias para integrar as histórias de Harry Potter em seu currículo. Vá a uma loja de suprimentos para professores para saber quando as próximas aulas de magia e feitiçaria para as crianças estarão sendo realizadas. Sem ideias para aula de ciências? Pergunte a bibliotecária da seção infantil de sua vizinhança quais os últimos experimentos científicos inspirados em  Harry Potter, e ela poderá produzir várias idéias para escolher. As possibilidades são infinitas. De fato, certas igrejas começaram a seguir a moda também. Na Inglaterra, numa igreja havia bandeiras e outros símbolos de Harry Potter nas paredes. Seu pastor estava vestido como Alvo Dumbledore, junto com um sósia de Harry Potter, canções trouxa e Quadribol. A razão para tal absurdo? Foi relevante para a lição Tiago 1,17-27 (26), que fala das bênçãos de Deus (27).

Se Harry Potter tem este tipo de efeito em adultos, o que vai fazer aos nossos filhos? Eu sei que não quero descobrir. Esta árvore precisa ser cortada e lançada no fogo antes de mais filhos começarem a recolher os seus frutos. Não podemos ensinar-lhes a moral e a ética em casa e na escola só para ter tudo desfeito em seu tempo de lazer. Crianças reconhecem contradições como essa muito facilmente. Adivinhe qual exemplo será seguido e qual será lançado para fora da janela.
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A autora: Andrea Stoltz obteve seu bacharelado em Artes Liberais na Thomas Aquinas College, Califórnia. Desde a graduação, ela lecionou por três anos no ensino fundamental das escolas da FSSPX, em primeiro lugar no Sacred Heart, em Mancelona, ​​MI, e depois na St. Vincent de Paul Academy, Kansas City, MO (mais tarde, mais 2 anos na escola das Irmãs Dominicanas em Post Falls, ID). Ela escreveu o artigo porque alguns de seus alunos estavam lendo a série Harry Potter. 

Notas de Rodapé:

1. Dicionário Unabridged Webster: "Atos ou instância de empregar feitiçaria, especialmente com intenção malévola; ... alegada relação sexual com o diabo ou familiar".
2. A Pedra do Bruxo (The
Sorcerer’s  Stone) é A Pedra Filosofal na Europa. Rowling pensou que a palavra "bruxo" seria mais familiar para os americanos do que "filósofo".
3. Um cruzamento entre futebol, basquete e hóquei, jogado no ar em vassouras.
4. A história oculta diz que a pedra filosofal era, na verdade um pó, quando misturado de forma adequada e com o encanto próprio, poderia transformar metais em ouro, e produzir o Elixir da Vida, que dará imortalidade ao bebedor. Isto é o que está no livro de Rowling também. O alquimista que a teria descoberto foi Nicholas Flamel, que também mantém o seu nome correto e idade em A Pedra Filosofal.
5. A Câmara Secreta foi instalada por um dos fundadores de Hogwarts, Salazar Slytherin. Ele escondeu um mal indescritível na Câmara, que só poderia ser desencadeado por seu herdeiro legítimo, a fim de livrar a escola de todos aqueles "indignos" da prática da magia (i.e., nascidos trouxas).
6. Um basilisco é uma cobra grande que, quando se olha diretamente, mata. Quando olha indiretamente, ele apenas "petrifica", isto é, deixa a sua vítima em estado de coma.
7. Metade águia, metade cavalo.
8. Prisão dos Bruxos.
9. Sugadores de alma guardas de Azkaban.
10. As três maldições imperdoáveis
​​são: Crucio, que lança a vítima em uma espécie de convulsão incontrolável; Imperius, que dá o poder total do usuário sobre a vontade da vítima, e Avada Kedavra, que mata a vítima! O uso de qualquer um desses feitiços é motivo para prisão perpétua em Azkaban.
11. Editora americana de Rowling.
12. harrypotter.warnerbros.com.
13. Scholastic.com - entrevista on-line de 3 de fevereiro de 2000.
14. Representante da Bloomsbury Publishing. Bloomsbury é a editora de Rowling no Reino Unido.
15. Com ingredientes como moscas, chifre em pó de um bicorne, e um pedaço da pessoa na qual se deseja transformar, esta poção fará com que uma pessoa fique igual a outra.
16. Encontramos no livro quatro que as penas foram tomadas a partir da Fenix de Alvo Dumbledore, Fawkes. Sim, ele é nomeado como Guy Fawkes, da Conspiração da Pólvora de 1605. Efígies de Fawkes ainda estão queimadas anualmente em alguns lugares na Grã-Bretanha. Fênix terminam em chamas regularmente, e voltam à vida novamente.
17. Do latim, lupus, que significa "lobo". O Professor Lupin é um lobisomem.

18. Richard Abanes, Harry Potter e a Bíblia (Camp Hill: Horizon, 2001), pg.22-24.
19. Dicionário Webster.
20. Scholastic.com
21. Ibid.
22. Rowling, A Câmara Secreta.
23. Pauline Bartel,
Spellcasters: Witches and Witchcraft in History, Folklore, and Popular Culture (Dallas: Taylor Trade Publishing, 2000), pp.244-247.
24. Mt. 7:15-20.
25. Scholastic.com
26. Versão King James.
27. Ruth Gledhill,
"Church to Lure Young with Harry Potter" [
"Igreja para atrair jovens com Harry Potter"], The London Times, 01 de setembro de 2000.


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Artigo originalmente publicado na edição de setembro de 2001 da revista Angelus.

Original aqui.

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Notas da tradutora:

*Na língua inglesa só há uma palavra para designar tanto magia quanto mágica: Magic. Por isso a confusão.


Outros artigos que traduzi sobre Harry Potter:

quinta-feira, fevereiro 09, 2012

A Desinformação de Hollywood Sobre a Maçonaria

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Crítica do filme A Lenda do Tesouro Perdido (National Treasure)

Por Margaret C. Galitzin
Traduzido por Andrea Patrícia

  A propaganda do filme se orgulha de abrir os segredos da Maçonaria


Talvez alguns leitores tenham ficado surpresos - como eu fiquei - pelas referências abertas a "segredos" maçônicos no filme A Lenda do Tesouro Perdido (National Treasure), que eu vi recentemente. Isso simplesmente nunca costumava acontecer nos filmes de Hollywood. Durante décadas nós temos ouvido sobre cada um dos segredinhos sujos - reais e imaginários - sobre a máfia, egípcios, astecas, índios, etc., mas quase nada sobre os ritos de iniciação e fraternidade da Maçonaria. Para todos os efeitos práticos, os ritos secretos e propósitos da Maçonaria simplesmente não existem para Hollywood, embora todos saibam que eles existem.

Estaria a Maçonaria experimentando uma "aproximação" com o mundo moderno, um “sair do armário” para revelar todos os seus costumes há muito escondidos e práticas de ocultismo? Eu não conseguia entender a nova tendência em filmes de grande sucesso como A Lenda do Tesouro Perdido e Anjos e Demônios.

Recentemente me deparei com um blog chamado “Vigilant Citizen” ["Cidadão Vigilante"] que forneceu uma resposta satisfatória em uma crítica dos dois filmes acima mencionados. Infelizmente, o nosso "cidadão vigilante" não tem nome para que eu possa creditar trechos de seu artigo que vou citar a seguir, por isso vou simplesmente me referir a ele como VC a partir de agora. Como VC não cedeu ao novo rosto amigável da Maçonaria, talvez ele queira permanecer no anonimato para evitar qualquer retaliação.

Eu não concordo com sua análise inteira, por exemplo, ele sustenta a noção errônea dos Cavaleiros Templários, uma ordem grande de Cruzados, como seguidores de uma doutrina gnóstica de ocultismo. Mas eu pensei que eu compartilharia vários de seus pontos mais interessantes para lançar luz sobre a nova estrada que Hollywood está trilhando, de modo que o nosso público Católico vigilante não siga adiante ingenuamente.


Uma abertura calculada

Por que as sociedades secretas de repente se encontram no centro de intrigas nos filmes, VC pergunta, especialmente porque muitas pessoas na indústria do cinema são notoriamente parte dessas sociedades secretas? Por que essas sociedades estão se expondo ao freqüentador de cinema comum, que na maioria das vezes mal possui conhecimento da sua existência? O segredo não é um requisito importante para a sobrevivência dessas organizações clandestinas?

Esta é a sua resposta:

Acredito que uma mudança importante está ocorrendo nas estratégias de comunicação dessas sociedades da elite. O advento da era digital, onde qualquer pessoa pode criar e publicar conteúdo tornou o sigilo de tais organizações impossível. Sites, livros, documentários, DVDs e outros meios de comunicação expuseram muitos segredos da Maçonaria e de outras organizações secretas.


Nicholas Cage carrega tocha de Lúcifer na busca da iluminação


Informações que só poderiam ser encontradas em livros raros e exclusivos estão agora dispostas para pesquisa no Google. Ouvi de alguns maçons que ficaram atônitos com o nível de conhecimento possuído pelo "profano". Esses tipos de estudiosos maçônicos, que não são realmente iniciados na Irmandade, eram muito raros, até há pouco tempo atrás. Como o interruptor digital é irreversível (e completo), as ordens ocultas adaptaram suas estratégias a este novo contexto (que provavelmente viu anos atrás o que estava prestes a acontecer). A estratégia é: "Se eles têm de saber sobre nós, nós vamos lhes dizer o que saber".

Através de Hollywood e livros best-sellers, as sociedades secretas estão sendo introduzidas para o homem comum, mas com uma condição importante: ao público é dado um retrato distorcido, caricaturado e romântico das sociedades secretas. Estamos introduzindo na cultura pop uma doutrina mítica em torno das sociedades secretas, associando-as com símbolos fascinantes, caça tesouros e aventuras exóticas. Os telespectadores acreditam que estão realmente aprendendo fatos sobre a Maçonaria ou os Illuminati, e eles saem do cinema com uma sensação de fascínio, maravilhamento e admiração.

Esses sentimento, no entanto, tem base em fatos totalmente errôneos, explicações dúbias e “Contos da Carochinha”. Depois de ver esses filmes, o espectador tem uma predisposição positiva em relação a essas ordens e estarão menos inclinados a acreditar e pesquisar sobre conspirações relacionadas a elas.

A Lenda do Tesouro Perdido - uma sessão de desinformação

A Lenda do Tesouro Perdido - produzido por Walt Disney Pictures - é talvez um dos melhores esforços conhecidos para oferecer a toda a família uma “agradável e benéfica sessão de desinformação maçônica". O filme gira em torno de uma caça ao tesouro com base em pistas deixadas por maçons de destaque na Declaração da Independência. VC explica:


Ao passo que o avô conta sua história seu olho é transposto sobre a Pirâmide de Gizeh


O filme começa com o personagem principal (interpretado por Nicholas Cage) como um pequeno menino, buscando informações sobre sua história familiar. O avô do rapaz chega e dá ao garoto (e ao público) uma história totalmente falsa e distorcida dos Cavaleiros Templários e dos Maçons.

Estas são algumas das reivindicações: Os cavaleiros templários encontraram sob o Templo de Salomão um grande tesouro de [manuscritos antigos, moedas de ouro, obras de arte e artefatos] que foi perdido por mil anos. Eles trouxeram o tesouro de volta à Europa.

Deixe-me inserir aqui uma observação de que este tesouro supostamente é uma lenda provavelmente espalhada pelos maçons, nunca apoiada por todos qualquer fato histórico.

Os Templários decidiram contrabandear o tesouro para os Estados Unidos e mudaram seu nome para Maçons.

Novamente, isto não é objetivo. Os templários nunca mudaram seu nome para Maçons, e a ordem foi fechada pelo Papa Clemente V em 1311, mais de 400 anos antes de os EUA ter sido fundado.

A Maçonaria não é uma instituição totalmente americana, como o filme insinua. É uma sociedade secreta européia que data da Idade Média, que abriu lojas na América do Norte para expandir seu alcance. O objetivo da Maçonaria não é "proteger um grande tesouro templário", é uma antiga ordem de construtores que incorporou aos seus ritos, ao longo dos anos, os ensinamentos dos Templários, Rosacruzes e dos Illuminati.

Como católicos sabemos, o objetivo real dessas sociedades ocultas é estabelecer uma república universal, uma nova sociedade que viva numa paz indiferente a Deus. Por esta razão, eles odeiam e lutam contra a Una, Santa, Católica e Apostólica Igreja Romana, o grande obstáculo que estava no caminho do seu plano.

O herói do filme está em busca de iluminação e os enigmas que ele deve resolver representam as iniciações pelas quais ele deve passar antes de acessar o conhecimento superior. Este tesouro mais importante é simbolicamente sepultado sob a Trinity Church [Igreja da Trindade], na Filadélfia, em uma caverna escondida que é escura e profunda.

Ben Gates tem de acender a tocha de iluminação para encontrar seu caminho para o conhecimento oculto. A tocha representa a doutrina luciferiana da Maçonaria Americana instituída por Albert Pike. No mais alto grau, Lúcifer é ensinado a ser o "portador de luz", o deus do Bem, que mostra a caminho para iluminação.

"Tal [alto grau do Rito Escocês] religião é o maniqueísta Neo-Gnosticismo, ensinando que a divindade é dupla e que Lúcifer é o igual de Adonay, com Lúcifer, o Deus da Luz e Bondade lutando pela humanidade contra Adonay o Deus das Trevas e mal" (Domenico Margiotta 33°, Adriano Lemmi).

"Quando o maçom aprende que a chave para o guerreiro no bloco é a aplicação correta do dínamo do poder da vida, ele aprendeu o mistério de seu ofício. As energias ardentes de Lúcifer estão em suas mãos e antes que possa ir avante e para cima, ele precisa provar sua capacidade de aplicar corretamente a (esta) energia". (Manly P. Hall, Lost Keys of Freemasonry).

Voltemos à história. Ben Gates, com sua tocha Luciferiana encontra o caminho para a iluminação e obtém acesso a uma fonte infinita de conhecimento. Durante a cena onde os heróis olham em torno da sala do tesouro, eles encontram itens muito importantes: Manuscritos da Biblioteca de Alexandria, estátuas egípcias e outros artefatos da Antiguidade. Todos esses objetos referem-se ao conhecimento oculto que foi comunicado através dos tempos por meio de sociedades secretas.


Anel maçônico do inspetor do FBI


No final do filme, Ben Gates fala com o inspetor do FBI e implora para ele não mandá-lo para a cadeia. Fazendo brilhar seu anel maçônico, o representante da lei diz que "alguém tem que ir para a cadeia" pelo roubo da Declaração da Independência. A próxima cena mostra os "caras maus" (os não-maçons) sendo presos, mesmo que eles realmente não tenham roubado a Declaração. Vemos aqui um exemplo gritante do juramento maçônico substituindo a lei. O agente do FBI deliberadamente ignorou a lei para ajudar o seu irmão maçônico.

O filme teve um final Hollywoodiano - os heróis se apaixonam (eu não tenho certeza que se casam já que isso não é necessariamente parte do final feliz moderno) e ficam ricos com sua parte do Tesouro Nacional encontrado. Como VC aponta: "Não há nenhum significado esotérico para isto, é apenas um fim bobinho ao estilo Disney". De qualquer maneira o enredo não importa realmente. Foi apenas uma janela para adornar a desinformação que está sendo espalhada sobre as Sociedades Secretas.


Original aqui.

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Harry Potter e o problema do Bem e do Mal

15 comentários
Por Marian T. Horvat
Traduzido por Andrea Patrícia



Um dos maiores problemas da mania de Harry Potter, a meu ver, é a confusão tremenda entre o bem e o mal evidente que é gerada entre os jovens, especialmente no ambiente já relativizado dos nossos dias. As crianças não só precisam dos absolutos, mas procuram-nos.

Quando eu era jovem, eu tinha uma imagem vívida do diabo em minha mente, tomada a partir das ilustrações da história de Wupsey na revista Catholic Treasure Box.  Wupsey era o anjo da guarda da pequena Sunny na missão de Mantuga.

O diabo era claramente mau com as suas manchas vermelhas, cauda bifurcada, cabelo de línguas de fogo e nuvem de fumaça sulfúrica que se arrastava com ele como uma sombra. O demônio astuto estava sempre tramando alguma maldade contra Sunny ou tentando-o para provar algum fruto proibido, mas o poder do anjo bom sempre triunfava.

Esse tipo de imagem tornava o demônio muito real para mim - e até mesmo assustador às vezes. Além disso, ele incutiu um medo saudável de qualquer coisa associada a Satanás ou a sua obra - incluindo bruxas, feiticeiros, magias, encantos e sessões espíritas. Ao mesmo tempo, tinha a firme confiança de que meu anjo da guarda era muito mais poderoso e que, se eu tivesse que recorrer a ele em meus medos na noite escura, ele sempre derrotaria as artimanhas de Satanás. Uma visão simplista, talvez, mas muito saudável.

É esta visão inocente e sadia do mundo que foi ameaçada com a entrada das fictícias bruxas "boas"  e da magia "boa" - primeiro Samantha, depois as populares Sabrina a Bruxa Adolescente e Buffy a Caça Vampiros. Parecia possível - pelo menos na mente de muitos dos jovens impressionáveis, mesmo os católicos - ser alguém bom e ao mesmo tempo ser uma bruxa.

E agora, antes que a magia branca seja acusada de favorecer o sexo mais fraco, temos Harry Potter, o herói da série best-seller da autora inglesa Joanne Rowling. Harry Potter, um órfão de 11 anos de idade, criado por parentes abusivos, de repente se descobre um bruxo. Um bruxo bom, lembre-se disso. Ele é gentil, generoso, compartilha e defende o que é certo, proclama seu site oficial. Há alguns problemas como a linguagem chula e desrespeito juvenil, mas nada muito forte para as nossas crianças modernas e espertinhas, com certeza. 

Surpreendentemente, até mesmo uma revista católica "conservadora", como a Crisis, editada pelo Sr. Deal Hudson, deu um selo de aprovação para a "revolução da leitura" que a série Harry Potter gerou entre os jovens. Um vigário na Igreja da Inglaterra realizou um especial "serviço da família Harry Potter", completo, com bruxos, chapéus pontudos e vassouras. Aparentemente, as crianças de hoje são demasiado sofisticadas para ficarem confusas com o uso de símbolos associados ao mal. Podem distinguir bruxos bons dos maus.


Wupsey, o anjo da guarda, protegida o pequeno Sunny dos maus desígnios do diabo


No entanto, de acordo com a doutrina católica, bruxos bons não existem. Não há bons espíritos além dos anjos, não há maus espíritos, exceto demônios. A reivindicação popular hoje é a prática de "magia branca". Na terminologia atual, "magia branca" significa desfazer feitiços e usar os "poderes das trevas" para o bem (um oxímoro, se alguma vez houve um), enquanto "magia negra" é fazer feitiços para o mal. Esta noção é bastante difundida. No entanto, na realidade "magia branca" é todo tipo de encantamento feito sem um apelo direto ao diabo, e "magia negra" é quando a dependência de Satanás é explícita. Não é difícil de ver. Como o padre Gabriele Amorth diz claramente em seu livro best-seller "Um exorcista conta-nos", não há diferença essencial entre magia "branca" e "negra". Toda forma de feitiçaria é praticada com recurso direto ou indireto a Satanás.

É uma máxima bem conhecida que onde a religião regride, a superstição progride. Hoje estamos vendo uma proliferação do ocultismo, espiritismo e bruxaria, uma onda de interesse entre os jovens em ligações ocultas perigosas e o lado escuro do "poder-bruxo". A associação da música rock com o ocultismo e satanismo é bem documentada (ver o novo livro de Michael Matt, Gods of Wasteland). Nós somos testemunhas de crimes hediondos com tonalidades satânicas cometidos por adolescentes e até mesmo por crianças de 11 anos de idade. Ao mesmo tempo, há muitas pessoas - incluindo padres e teólogos católicos - que descartam não só a extensão da influência de Satanás sobre os assuntos humanos, mas o próprio Satanás. Se não houver Satanás, então, certamente, não há mal nenhum em um pouco de magia ou feitiçaria.

"Os teólogos modernos que identificam Satanás com a idéia abstrata do mal estão completamente equivocados", diz o Padre. Amorth, um dos  exorcistas mais conhecidos do mundo, que sabe por experiência que o diabo realmente existe. "Isso é uma heresia verdadeira, ou seja, está abertamente em contraste com a Bíblia, os Padres e o Magistério da Igreja". E, acrescenta, é óbvio que esta crença facilita o trabalho dos anjos rebeldes.

Esta atitude - que faz luz sobre bruxaria, encantos e feitiços - permeia os romances de Harry Potter. O padre Amorth, contudo, deixa bem claro que neste reino até mesmo as coisas aparentemente mais indiferentes são ruins. Há um fascínio universal pelo poder oculto sobre as coisas e as pessoas - seja a capacidade de travar a língua de um professor de Inglês ou inventar uma poção do amor. No entanto, o que começa como diversão e piadas pode acabar em uma realidade terrível. Padre Amorth seriamente observa que a forma mais comum que uma pessoa pode sofrer sem culpa os poderes do mal é através da feitiçaria. Feitiçaria também é a causa mais freqüente naqueles que são atingidos por possessão ou outras más influências. No entanto, a feitiçaria é apresentada nos livros de Harry Potter de uma maneira alegre e ingênua. Os pais que acreditam que seus filhos nunca serão tentados a mexer com as artes negras que fazem com que Harry tenha tanto sucesso e seja tão popular parecem tão ingênuos quanto os clérigos que se recusam a acreditar em feitiçaria.

Maldições são outra realidade apresentada sem as necessárias distinções que os Católicos sempre aprenderam. Na verdade, existem maldições que são santas. Estas vêm de Deus, por exemplo, a maldição de Deus sobre a serpente no Jardim do Éden. Mas é bastante claro que as maldições nos livros de Harry Potter não são deste tipo. No site de Harry Potter é possível encontrar uma lista de feitiços usados na série, alguns que parecem bem indiferentes: o Alohomora - o feitiço de abertura de portas, ou o Tarantallegra - o feitiço da dança. Mas depois há o Avada Kedavra - A maldição da morte (uma Maldição Imperdoável), e o Crucio! - Uma maldição dolorosa. Ou a do Imperio - uma maldição de controle total. Esses tipos de maldições tem uma definição muito simples para os Católicos: prejudicar os outros através da intervenção demoníaca. A Escritura proíbe essas práticas, porque são uma rejeição de Deus e um voltar-se para Satanás: "Não se achará entre ti quem queima seu filho ou sua filha como uma oferenda, qualquer pessoa que pratique adivinhação, um leitor de sorte ou um adivinho, ou um feiticeiro, nem encantador, ou um médium, ou feiticeiro ou um necromante. Quem faz estas coisas é abominável ao Senhor" (Dt. 18, 10-12). Eu poderia citar muitos outros versículos.


Harry Potter - não tão inocente ou inofensivo


O que eu temo que o jovem leitor de romances de Harry Potter não consiga perceber é que tais maldições invocam o mal - e a origem de todo mal é demoníaca. Além disso, Pe. Amorth nos lembra: "Quando maldições são faladas com verdadeira perfídia, especialmente se houver uma relação de sangue entre aquele que as lança e os amaldiçoados, o resultado pode ser terrível". Ele dá muitos exemplos assustadores.

Malefício (também conhecido como malefice ou hex) vem do latim male factus - fazer o mal. Feitiços podem ser lançados, por exemplo, através da mistura de algo na comida ou bebida da vítima. Eles são reais, Pe. Amorth insiste, ele fez muitos exorcismos para libertar as pessoas que foram afetadas com esses tipos de magias. Sua eficácia maligna não está tanto no material utilizado como na vontade de prejudicar através da intervenção demoníaca. No entanto, é esta intervenção demoníaca que os romances de Harry Potter ignoram nefastamente.

A Magia é apresentada como uma coisa engraçada, um jogo. Feitiços são "legais". Livros estão sendo publicados sobre o assunto, como Spells of Teenage Witches, descrito pelo seu autor como "um livro de auto-ajuda para os jovens". Uma bruxa e diretora da Federação Pagã escreveu The Young Witches Handbook, que inclui feitiços para passar em exames escolares ou atrair um parceiro. Aparentemente não há nenhuma razão para preocupação. Ninguém fala sobre o fato de que o que começa como feitiços bobos pode levar a danos espirituais e psicológicos, e até mesmo a obsessão demoníaca ou possessão.

O que é mais perigoso sobre os romances de Harry Potter? É precisamente isso: eles não parecem perigosos. Harry Potter e seus amigos lançam feitiços, lêem bolas de cristal, e está tudo bem. A autora introduz questões muito sérias que a Igreja Católica sempre condenou e alertou seus filhos para ficar longe - magia, encantos, feitiços, feitiçaria, leitura de mão, tábuas Ouija, etc. - e trata-os de um modo trivial, e mesmo como uma moda sem importância. No clima de hoje, carregado de convites para experimentar o ocultismo, é demais abrir uma polegada que seja da porta para o Príncipe das Trevas "que ronda sobre o mundo procurando a ruína das almas". Livros que fazem magia e feitiços e encantos parecer tão divertidos e inofensivos são enganosos. Na melhor das hipóteses, eles certamente incentivam as crianças a ter uma visão New Age tolerante e sorridente da bruxaria. Em minha opinião, já é demais.

Non liceat Christianis [Não é lícito aos Cristãos] nem mesmo ter o mínimo interesse em magia ou feitiçaria, diz São Tomás de Aquino:

"Ao homem não foi confiado poder sobre os demônios para empregá-los para qualquer propósito que ele queira. Pelo contrário, é determinado que ele deve travar uma guerra contra os demônios. Por isso, de modo algum é lícito ao homem fazer uso da ajuda dos demônios por pactos - sejam expressos ou tácitos"(II-II, q. 96, a. 3).

Acho lamentável que o exorcismo tenha sido tirado do ritual batismal, e quase criminoso que a oração a São Miguel Arcanjo, que costumava ser recitada depois de cada missa, tenha sido eliminada após missas Novus Ordo. E eu acho que haverá muitas mea culpas a serem feitas por aqueles pais sofisticados que acham críticas como esta da série Harry Potter "realmente sérias demais", mesmo quando a própria autora está advertindo-lhes que suas obras se tornarão cada vez mais obscuras e potencialmente perturbadoras*.

É necessário considerar que mesmo as almas inocentes das crianças, sob a influência deste tipo de escuridão, sem recurso habitual da Fé e a ajuda da graça, podem ser levadas no futuro próximo ou distante a distúrbios graves e crimes horrendos. Enquanto eu levo em conta a série de aventuras de Harry Potter, que apresenta feitiçaria e todos os tipos de magias e adivinhações como algo normal, lembro-me da condenação feita pelo profeta Isaías: "Ai dos que ao mal chamam bem e ao bem de mal, que colocam trevas como luz e a luz como trevas."(5,20)

Original aqui. 

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Nota da tradutora:

*Na época que foi escrito esse artigo a série ainda não havia terminado. E realmente os livros foram se tornando ainda mais obscuros e perturbadores.

Outros artigos que traduzi sobre Harry Potter:

sábado, julho 02, 2011

sábado, março 31, 2007

Homem escravo das paixões

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Há pouco tempo vi um filme muito bom: “Tempo de Paixão” (Lover’s Prayer/All Forgotten). Baseado em um livro de Anton Tchecov, a história se passa na Rússia e tem como atriz principal Kirsten Dunst. Mas não é sobre a personagem dela que quero escrever.

Uma das personagens secundárias da estória é uma mulher que cria seu filho e trabalha duro enquanto seu marido está na guerra. Ela sentindo-se só, diz, ao homem que se torna seu amante, que não ama o marido e que casou com ele por obrigação. Eles se envolvem, vivem uma paixão e eis que um belo dia seu marido volta, aleijado, mas feliz por ver novamente a esposa amada e o filho.

O marido fica sabendo do que aconteceu e magoado tem um ataque de raiva, esperneia e chora. Isso tudo na frente do filho e do amante, que arrependido diz que ela deveria se penitenciar e buscar se reconciliar com o marido.

Não quero aqui entrar no mérito da questão do casamento sem amor ou com amor. Fiquei mesmo impressionada com o pobre guerreiro machucado em duas guerras: àquela para a qual ele se retirou e a que se travou em seu lar, a guerra das paixões. Ele confiava na esposa, a amava e imagino a sua surpresa terrível, sua dor e indignação ao descobrir o que se passou em sua casa enquanto esteve fora.

Pode-se comentar que ela tinha o direito de ser feliz. Mas penso: quando é que o direito de ser feliz tem que passar por cima dos sentimentos alheios? E mais, passar por cima do sentimento de alguém com quem ela se comprometeu e que nela confiava.

Parece que no mundo de hoje as pessoas só buscam o prazer. Querem ser felizes a qualquer custo e isso não as impede de passar por cima de quem quer que seja para satisfazer seus impulsos e realizar suas paixões.

Onde a caridade de um ser pelo sofrimento de outro? Onde o amor ao próximo? O que parece na estória é que ele era um homem bom, não a tratava mal. Então ele deveria estar se perguntando: por que ela me tratou tão mal assim? O que fiz?

Ele ali no chão, com o corpo despedaçado e o coração em frangalhos, triste, deveria estar pensando em como seria miserável sua existência dali em diante, pois até mesmo seu sentimento de virilidade deveria estar mexido, sua auto-estima deve ter ido a zero. Ela pode se desculpar dizendo que não casou por amor, mas será que estava realmente feliz tendo um amante? Será que ela não pensou no quanto o magoaria? No quanto o faria sentir-se mal?

O que quero destacar é: será que a busca pela satisfação pessoal, pelos prazeres, enfim, esta vida hedonista que vivemos hoje não é mesmo uma vida doente? Ou melhor, não seria na realidade uma morte? Estamos mortos?

Vale a pena satisfazer os nossos apetites em detrimento do outro? Qual o papel do outro em nossa vida? É mero objeto de prazer ou de sevícia? Ou dos dois alternadamente? Onde fica o respeito ao ser?

E depois do erro cometido? Qual o sentimento que fica? Será realmente que o traidor se satisfez? Ou foram apenas os seus instintos que se satisfizeram? É o homem puro instinto? Claro que não. É muito mais que isso, mas também não é tudo, ou seja, deve obedecer a certas leis, leis estas que estão escritas na consciência de cada um – nem vou mencionar o que diz a religião (que magnificamente dispõe as leis para uma vida correta, diga-se de passagem), vou me ater aqui somente a lei natural mesmo.

Abordei a questão porque vejo que o ser humano hoje encontra boas desculpas para fazer o que é errado, para fazer aos outros aquilo que não gostaria que fosse feito a ele. E então, vale a pena se entregar às paixões? E a consciência tranqüila, não tem mais razão de ser? Como se faz para apaziguar a alma intranqüila com a mancha do erro? Vale a pena viver desse jeito? Isso é vida?