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segunda-feira, outubro 12, 2009

A Mulher e Seu Papel Indispensável na Bíblia

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Comemorando o dia de Nossa Senhora Aparecida, trago para vocês a tradução que fiz de um texto de Bob Stanley sobre a mulher na Bíblia.

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A Mulher e Seu Papel Indispensável na Bíblia

Por Bob Stanley
Tradução: Andrea Patrícia
Fonte: http://home.inreach.com/bstanley/women.htm



A mais perfeita pessoa humana já criada foi uma mulher...

Genesis 2,21-24, Eva, a primeira mulher. Sem Eva, não haveria nenhuma raça humana, e você não estaria lendo isto agora. Desde que Eva foi a primeira a pecar contra Deus (1Tim 2,14) em Gen 3,6, ela é a primeira causa do pecado e da morte no mundo. Bastou uma serpente para enganar a mulher, mas, no entanto, bastou apenas uma mulher para enganar o homem.

Gênesis 3,15, Maria é mencionada pela primeira vez. Ela é a "mulher" do primeiro livro da Bíblia, a "mulher" do último livro da Bíblia em Apocalipse 12,1. Sem Maria, não haveria Jesus Cristo e, portanto, nenhuma salvação para nós.

Gênesis 17,16, a Sara é dado o título, "Mãe de Todas as Nações", por Deus. Sem ela, não haveria Isaac, nem Jacó, nem Davi, nem Salomão, e nem Jesus Cristo.

Gênesis 25,19-26, Rebeca deu à luz Esaú e Jacó. Sem ela, não haveria a fundação de duas nações as quais o Senhor lhe contou no versículo 23. Uma dessas nações foi Israel.

Gênesis 29,11, Raquel é beijada por Jacó. É o único versículo na Bíblia onde aparece um homem beijando uma mulher. Se não fosse por Raquel, José não teria nascido, Gen. 30,24. Se José não tivesse nascido, os filhos de Israel poderiam ter passado fome durante os sete anos de seca, Gen. 43,1-1.

Rute 1-4, sem Rute, que foi a ancestral de Davi e de Cristo, a história bíblica teria mudado drasticamente. Novamente, não haveria salvação para nós. E não podemos esquecer as belas palavras proferidas por ela em Rute 1,16, que se repetem em muitos casamentos: "Aonde fores, eu irei; aonde habitares, eu habitarei. O teu povo é meu povo, e o teu Deus, meu Deus."

2Sm 12,24, Betsabá deu nascimento à Salomão. Graças a ela, temos a Rainha Mãe, uma prefiguração de Maria, a sabedoria de Salomão, o belo livro dos Salmos, os Cânticos de Salomão, e obviamente, esta importante era da ancestralidade de Jesus Cristo.

Judith 13,10, o Estado de Israel foi salvo por esta mulher que matou o general do exército assírio, Holofernes, fazendo, assim, todo o exército inimigo fugir do terror de uma batalha que provavelmente teria ganho. Ela foi homenageada como uma "defensora de Israel", outra prefiguração de Maria.

Ester 1-16, Ester, a heroína judia Rainha do Rei Xerxes da Pérsia, salvou os seus da iminente aniquilação que viria a partir de uma trama perpetrada por Haman o Agagite.

Lucas 1,26-38, Maria deu o seu consentimento incondicional para se tornar a Mãe de Deus. Se ela tivesse recusado, não haveria Salvador.

Lucas 1,24-80, Isabel, a mãe de João Batista. Sem Isabel, a vinda de Cristo não teria sido preparada por João. Também o belo hino, o Magnificat, cantado por Maria em Lucas 1,46-55 não teria sido existido.

Lucas 2,6-7, Uma criatura, uma criação de Deus, uma mulher chamada Maria, tornou-se a "Mãe de Deus". Que tremenda honra dada às mulheres. Se você observar, não há complementar criatura conhecida como o "Pai de Deus".

João 20,14-18, Maria Madalena, passou de uma reles prostituta a uma magnífica Santa. Ela foi a primeira pessoa a ver o Cristo ressuscitado. Ela foi a primeira a chegar ao túmulo na Páscoa manhã em João 20,1. Ela foi uma das três mulheres que permaneceram ao pé da cruz em João 19,25.

Algumas notas interessantes, 

1. Satanás considerou Eva um alvo mais importante do que Adão.
2. Deus declarou que seria através da semente de uma mulher que Satanás seria derrotado.
3. O plano de redenção, como previsto por Deus, necessitou da cooperação de uma mulher, não de um homem, mas de uma mulher. É preciso lembrar, Jesus não era "apenas um homem", Sua substância era Divina. Maria, por outro lado, embora "concebida imaculadamente", era humana, sua substância não era Divina.
4. Jesus apareceu primeiro após sua ressurreição para uma mulher, não a um homem, mas a uma mulher, uma pecadora arrependida!
5. Maria é a mais perfeita criatura que jamais existiu ou vai existir.
6. Lembre-se, havia apenas quatro pessoas que permaneceram ao pé da cruz, João e três mulheres. Os outros homens, os discípulos de Cristo, tinham fugido com medo de perseguição. Foi uma mulher, Maria, que acompanhou seu Filho desde o útero até o túmulo.

"Nosso Senhor Jesus Cristo, no entanto, que veio para libertar a humanidade, em que ambos os machos e fêmeas são destinados para a salvação, não era avesso aos homens, porque assumiu a forma de um homem, nem às fêmeas, pois de uma mulher nasceu. Além disso, há um grande mistério aqui, que, tal como a morte chega até nós através de uma mulher, a vida nasce em nós através de uma mulher; que o diabo, derrotado, seria atormentado por cada natureza, feminina e masculina, uma vez que ele tinha se deleitado na deserção de ambos. " (Santo Agostinho, Combate Cristão (22,24) 396 A.D. (Jurgens-1578)

STANLEY, Bob. Apostolado Veritatis Splendor: A MULHER E SEU PAPEL INDISPENSÁVEL NA BÍBLIA. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/5962. Desde 08/10/2009.

quinta-feira, julho 09, 2009

Mulher: recriar o mundo

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Por Sheila Morataya
Traduzido e adaptado por Andrea Patrícia



Por suas qualidades próprias, a mulher pode transformar o mundo e fazer com que voltem o olhar para Cristo.

“A mulher tem uma atitude particular para transmitir a fé e, por isso, Jesus recorreu a ela para a evangelização. Assim aconteceu com a Samaritana que, depois de ter aceito a fé em Cristo, apressa-se a comunicá-la a outros”
João Paulo II


O apostolado é importante. Levar a mensagem do amor de Cristo a outros nunca é fácil, mas a mulher tem a dádiva de qualidades muito típicas dela para levar o apostolado. Vejamos algumas delas, do pensamento do Vigário de Cristo.

A iniciativa humilde

Mulheres como Teresa de Calcutá deixaram a muitas, o testemunho contundente do que pode chegar a obter uma mulher verdadeiramente humilde. Esta grande mulher, sempre dizia que seu coração pertencia inteiramente a Cristo e em suas conversações, ao lhe perguntar sobre a mulher, animava a todos a olhar à Virgem, pois Ela é o modelo por excelência para o desenvolvimento do feminino.

Aprofundando em Maria, cada vez que tenha seu tempo de oração, peça seu conselho para revelar a você o sentido pleno de sua feminilidade. A iniciativa humilde inata em ti como mulher, virá à luz ao sair ao encontro de maneira espontânea para fazer apostolado com seus amigos ou pessoas que vão chegando a sua vida.

Respeito às pessoas

Fixaste-te na forma como os menininhos jogam quando têm, por exemplo, um ano de idade, no máximo dois? E, o que dizer das meninas? Enquanto os meninos utilizam a força nos jogos, entre meninas o respeito sempre está presente. Trata-se de outra qualidade inata feminina. O respeito, a consciência dele, está ancorada no profundo do coração da mulher.

A mulher sabe, muito dentro de si mesma, que seu papel fundamental é unir, fazer paz, acolher ao outro e isto o manifesta desde muito menina, através de seus jogos. Como mulheres é muito importante que tomemos isto em conta na hora de educar, quer dizer, aproveitar esse potencial na menina enquanto ao mesmo tempo se vai educando aos filhos varões também neste sentido.

Forma de compartilhar a fé

Quando uma mulher conhece o amor de Cristo, não pode ficar calada. Deve sair correndo a compartilhá-lo tal como o fez a Samaritana ou Maria Madalena quando esteve frente a Cristo ressuscitado.

E é que a mulher que conhece O Senhor se apaixona, e esse amor é uma chama enorme que tem a capacidade de alcançar aos outros e iluminá-los. A forma de compartilhar a fé na mulher é distinta ao homem. É também um presente de Deus, pois não impõe nada, mas sim prova através de mudanças na conduta e paz no olhar, a transformação que somente o amor pode fazer no interior de uma pessoa.

Por isso a mulher é uma privilegiada na hora de orar por seu marido, por seus filhos, pelo mundo, porque é predileta aos olhos de Deus; porque escolheu a uma de nós, Nossa Santíssima Mãe, para trazer seu filho ao mundo.

Conclusão

É bom, então, que nos fixemos em como a Virgem orava, para que dela aprendamos tudo isso que nos falta para sermos mulheres completas, apóstolos para a paz e defensoras da família.

O apostolado é uma obrigação prazeirosa, e a mulher conta com um potencial enorme para realizá-lo com eficácia. Como pede a Igreja no Catecismo “os laicos cumprem também sua missão profética evangelizando, com o anúncio de Cristo comunicado com o testemunho da vida e da palavra. Nos laicos, esta evangelização ‘adquire uma nota específica e uma eficácia particular pelo fato de que se realiza nas condições gerais de nosso mundo’ (Lumen Gentium 35).

Este apostolado não consiste só no testemunho de vida; o verdadeiro apostolado procura ocasiões para anunciar a Cristo com sua palavra, tanto aos não crentes... como aos fiéis” (905 e 906).

Original em Sheila Moarataya

terça-feira, maio 12, 2009

Maria Mariana: “Confissões de Mãe”

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vida
vidaidaAmei ler a entrevista da Maria Mariana sobre seu novo livro. Fiquei muito feliz em ver as mudanças benéficas que aconteceram na vida dela. Dá para ver o trabalho de Deus nisso tudo! Rogo para que Ele derrame Suas bênçãos sobre ela e sua família.

É uma lição e tanto o testemunho de Mariana! Se mais mulheres estivessem dispostas a viver a maternidade desta maneira, a explorar sua
a feminilidade, com certeza muita coisa mudaria para melhor!

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A escritora carioca que foi ícone da juventude nos anos 90 volta a polemizar com “Confissões de mãe”Martha Mendonça
Época


Aos 19 anos, a carioca Maria Mariana tornou-se um ícone da década de 90. Seu livro Confissões de adolescente, lançado em 1992, vendeu 200 mil cópias, virou peça de teatro e tornou-se um memorável seriado de televisão. Aos 36 anos, distante da fama e mãe de quatro filhos, a escritora, atriz e filha do cineasta Domingos de Oliveira lança Confissões de mãe (Editora Agir), um livro nada rebelde, recheado de ideias que vão irritar as feministas. Nesta entrevista, realizada em Macaé, no Estado do Rio de Janeiro, onde mora hoje, ela defende as mães que deixam de trabalhar para cuidar de seus filhos. “Amamento há nove anos seguidos”, afirma. Com a mesma expressão serena que as pessoas se acostumaram a ver na série de televisão, a escritora diz ser contra o aborto e afirma que as mulheres deprimidas depois do parto são as que passaram a gravidez comprando roupinhas para o bebê

ÉPOCA – O que a adolescente dos anos 90 e a mãe de quatro filhos têm em comum?
Maria Mariana – Mudei muito, mas algumas coisas ficaram. Acredito que uma delas seja a criatividade no dia a dia. Eu sei fazer de um limão uma limonada. Tenho sempre um coelho na cartola, um assunto engraçado numa hora chata, uma forma de tornar aconchegante um ambiente ou uma situação difícil. Isso vem também do fato de eu adorar ser mãe. Mas a maternidade está em baixa.

ÉPOCA – Por que você diz isso?
Maria Mariana – O valor de ser mãe não está sendo levado em conta. Sinto isso há quase dez anos, desde que eu decidi parar todas as minhas atividades para ter filhos e cuidar deles. A pressão foi inimaginável e veio de todos os lados. Da família, dos amigos, de quem mal me conhecia. Muita gente me perguntou se eu estava deprimida ou tinha síndrome de pânico. Meu pai também custou a entender. Eu era bem-sucedida, e largar a fama é um absurdo para as pessoas. Se alguém saiu da mídia por vontade própria, é porque tem algum problema grave. A verdade é que eu só descobri o que é trabalhar depois de ser mãe! Ser mãe é um trabalho social, o maior deles. É um esforço para garantir a criação de indivíduos de valor, mentalmente sadios, que contribuam para o bem geral. Pessoas equilibradas, educadas, que consigam se manter. Quando pequeno, o filho precisa de atenção especial e exclusiva. É nesse período que se formam a base do que ele será, o caráter, os valores. Depois, é difícil consertar.

ÉPOCA – Como foi sair de uma vida badalada no Rio para uma cidade pequena?
Maria Mariana – Eu trabalhava como roteirista, sempre amparada pela sombra do sucesso de Confissões de adolescente, mas alguma coisa não estava fechando. Tive um primeiro casamento, dos 20 aos 23 anos, que não deu certo. Depois fui morar sozinha e tinha a impressão de que a vida se movia em círculos. Ao mesmo tempo, sempre tive a obsessão de ter filhos. Quando meus pais se separaram, eu estava com 7 anos e passei a viver com meu pai. Era filha única, muito madura, lia Dostoiévski e estava sempre cercada por amigos intelectuais dele. Mas eu sonhava com uma enorme mesa de família com aquela macarronada no domingo. Eu queria mudar de degrau, mudar de história. No meio disso tudo, conheci o André, meu marido. Um mês depois, estava grávida. Todos os meus filhos foram planejados. A primeira, Clara, foi de cesariana, o que foi uma decepção para mim. Os outros foram de parto normal.

ÉPOCA – No livro, você diz que mulheres que não conseguem o parto normal estão “envolvidas com pequenas questões de ego”. Explique.
Maria Mariana – Respeito a história da maternidade de cada mulher. Mas, depois que tive o parto normal, vi que é uma vivência fundamental. Se a mulher parir naturalmente, será uma mãe melhor. Todos falam do nascimento do bebê, mas esquecem que a mãe também nasce naquela hora. A mulher também tem de estar focada na amamentação.

“Apanhar cueca suja que o marido deixa no chão
é um aprendizado de paciência e dedicação”

ÉPOCA – A maioria das mulheres não está preocupada em amamentar?
Maria Mariana – Muitas não estão. Amamentar não é um detalhe, é para a mãe que merece. É importante e simplifica a vida. Vejo muitas mulheres com preocupações estéticas, se o peito vai cair, se vai ficar alguma cicatriz se o peito rachar. Aí o leite não vem. Amamento há nove anos seguidos. Só desmamo um quando engravido do outro. Minha caçula, de 2 anos, ainda mama. Existe a realidade de cada um, mas é preciso elevar a consciência sobre o que fazemos. Há mulheres que passam nove meses no shopping, comprando roupinhas, aí depois marcam a cesárea e pronto. Acabou o processo. Aí sabe o que acontece? Elas têm depressão pós-parto.

ÉPOCA – Você não teme ser repreendida pelas feministas?
Maria Mariana – Não acredito na igualdade entre homens e mulheres. Todos merecem respeito, espaço. Mas o homem tem uma função no mundo e a mulher tem outra. São habilidades diferentes. Penso nesta imagem: homem e mulher estão no mesmo barco, no mesmo mar. Há ondas, tempestades, maremotos. Alguém precisa estar com o leme na mão. Os dois, não dá. Deus preparou o homem para estar com o leme na mão. Porque ele é mais forte, tem raciocínio mais frio. A mulher tem mais capacidade de olhar em volta, ver o todo e desenvolver a sensibilidade para aconselhar. A mulher pode dirigir tudo, mas o lugar dela não é com o leme.

ÉPOCA – Mas você não valoriza a emancipação da mulher?
Maria Mariana – Valorizo. Teve seu momento, foi fundamental para abrir espaços, possibilidades. Mas as necessidades hoje são outras. Precisamos unir a geração de nossas avós com a de nossas mães para chegar a um equilíbrio feminino. Eu não sou dona da verdade. Não à toa, fiz meu livro como um diálogo entre mim e minha filha. Quero dizer às jovens do mundo de hoje que existe uma pressão para que elas sejam autossuficientes profissionalmente, sejam mulher e homem ao mesmo tempo, como se fosse a única forma de realização. Para isso, elas têm de desenvolver agressividade, frieza – sentimentos que não têm a ver com o que é ser mãe. O valor básico da maternidade é cuidar do outro, doar, servir. Nada a ver com o mundo competitivo. Maternidade é tirar seu ego do centro.

ÉPOCA – O que pensa sobre o casamento?
Maria Mariana – Casamento é um degrau que a pessoa tem para caminhar para a frente. Quem opta por ficar sozinho não desenvolve aprendizados que o casamento dá. Apanhar cueca suja que o marido deixa no chão é um aprendizado de paciência e dedicação. As pessoas pensam em união apenas como o espaço da alegria, do conforto. Casamento é embate, negociação e paciência. É preciso insistir e vencer. Saber que não se muda o outro. É preciso mudar a nós mesmos.


Fonte: Moda e Modéstia

sábado, junho 07, 2008

A Igreja e as mulheres na Idade Média

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Régine Pernoud*


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Recordaremos aqui que certas mulheres (…) de todas as camadas sociais, como o prova a pastora de Nanterre, desfrutaram na Igreja, e devido à sua função na Igreja, dum extraordinário poder na Idade Média. Algumas abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes vastos territórios com aldeias, paróquias…

Um exemplo entre milhares: pelos meados do século XII, os cartulários permitem-nos seguir a formação do mosteiro de Paráclito, cuja superiora é Heloísa; basta percorrê-los para constatar que a vida duma abadessa na época comporta todo um aspecto administrativo: as doações acumulam-se, permitindo aqui receber o dízimo sobre uma vinha, ali ter direito a foros sobre fenos ou trigos, aqui usufruir duma granja e ali dum direito de pastagem na floresta… A sua atividade é também a dum explorador, ou mesmo dum senhor. É de dizer, pois, que, pelas suas funções religiosas, certas mulheres exercem, mesmo na vida laica, um poder que muitos homens poderiam invejar-lhes hoje.

Por outro lado, constata-se que as religiosas desse tempo - sobre as quais, digamo-lo de passagem; nos faltam absolutamente estudos sérios - são, na sua maior parte, mulheres extremamente instruídas, que poderiam ter rivalizado em saber com os monges mais letrados do tempo. A própria Heloísa conhece e ensina às suas monjas o grego e o hebreu. É duma abadia de mulheres, a de Gandersheim, que provém um manuscrito do século X que contém seis comédias em prosa rimada, imitadas de Terêncio; são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, cuja influência sobre o desenvolvimento literário dos países germânicos se conhece. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como a prova duma tradição escolar que terá contribuído para o desenvolvimento do teatro na Idade Média. Acrescentemos de passagem que muitos mosteiros, de homens ou de mulheres, ministravam localmente a instrução às crianças da região.

É surpreendente também constatar que a enciclopédia mais conhecida do século XII emana duma religiosa, a abadessa Herrade de Landsberg. É o famoso Hortus deliciarum («Jardim de Delícias»), no qual os eruditos vão procurar as informações mais seguras em relação às técnicas no seu tempo. Podia dizer-se o mesmo das obras da célebre Hildegarda de Bingen. Finalmente, uma outra religiosa, Gertrude de Heifta, no século XIII, conta-nos como se sentiu feliz por passar do estado de «gramática» ao de «teóloga», isto é, que, depois de ter percorrido o ciclo dos estudos preparatórios, ela aborda o ciclo superior, como se fazia na universidade. O que prova que ainda no século XIII os conventos de mulheres são o que sempre tinham sido desde São Jerônimo, que instituiu o primeiro deles, a comunidade de Bethléem: centros de oração, mas também de ciência religiosa, de exegese, de erudição; estuda-se aí a Sagrada Escritura, considerada como a base de todo o conhecimento, e também todos os elementos do saber religioso e profano. As religiosas são mulheres instruídas; aliás, entrar no convento é uma via normal para aquelas que querem desenvolver os seus conhecimentos para além do nível corrente. O que pareceu extraordinário em Heloísa, na sua juventude, foi o fato de, não sendo religiosa e não desejando manifestamente entrar no convento, ela continuar, no entanto, estudos demasiado áridos, em vez de se contentar com a vida mais frívola, mais despreocupada, duma moça que deseja «permanecer no século». A carta que Pierre, o Venerável, lhe enviou di-lo expressamente.

Mas há mais surpreendente. Se se quiser fazer uma idéia exata do lugar ocupado pela mulher na Igreja, nos tempos feudais, é preciso perguntar a si próprio o que se diria no nosso século XX de conventos de homens colocados sob o magistério duma mulher. Um projeto desse gênero teria no nosso tempo a menor possibilidade de resultar? Foi, no entanto, o que se realizou com pleno sucesso, e sem ter provocado o menor escândalo na Igreja, com Robert d’Arbrissel em Fontevrault, nos primeiros anos do século XII. Tendo resolvido fixar a multidão inverossímil de homens e mulheres que chamava atrás de si -porque foi um dos maiores conversores de todos os tempos-, Robert d’Arbrissel decidiu fundar dois conventos, um de homens outro de mulheres entre eles erguia-se a igreja que era o único lugar onde monges e monjas podiam encontrar-se. Ora esse mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não dum abade, mas duma abadessa. Esta, pela vontade do fundador, devia ser viúva, tendo, pois, a experiência do casamento. Acrescentemos, para sermos completos, que a primeira abadessa, Pétronille de Chemillé, que presidiu aos destinos desta ordem de Fontevrault tinha vinte e dois anos. Não vemos que hoje semelhante audácia, mais uma vez, tivesse possibilidades de ser encarada.

Se examinarmos os fatos, impõe-se esta conclusão: durante todo o período feudal, o lugar da mulher na Igreja foi certamente diferente do homem (e em que medida não seria uma prova de sabedoria o ter em conta que homem e mulher são duas criaturas iguais, mas diferentes?), mas foi um lugar eminente, que, aliás, simboliza perfeitamente o culto, eminente também, prestado à Virgem entre todos os santos. E pouco nos surpreende que a época termine com um rosto de mulher: o de Joana d’Arc, a qual, diga-se de passagem, nunca teria podido nos séculos seguintes obter a audiência e suscitar a confiança que no fim de contas obteve.


(PERNOUD, Régine. O mito da Idade Média. Publicações Europa-América, S/D, pp.95-99)

*Régine Pernoud: historiadora e medievalista francesa (1909-1998). Doutora em Letras e diplomada pela École des Chartes e pela École du Louvre, foi diretora do Museu de Reims, do Museu de História da França, dos Arquivos Nacionais e do Centro Jeanne d´Arc d´Orléans (que fundou em 1974). Escreveu numerosas obras sobre a Idade Média, entre as quais destacamos “Idade Média: o que não nos ensinaram”, “Luz sobre a Idade Média” e “A mulher no tempo das catedrais”.

Texto adaptado por mim para o portugês do Brasil. Os grifos são meus.

sábado, maio 17, 2008

O papel da mulher na Idade Média

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Consegui este texto na internet. É um trecho da obra de Régine Pernoud "Idade Média - o que não nos ensinaram". Não sei quem é o autor dos bons comentários que aparecem no meio do texto e no final.
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O papel da mulher na Idade Média

Há quem pense que na Idade Média o papel da mulher era o de submissão total e completo ostracismo. Há quem cogite que se pensava que a alma da mulher não era imortal - afirmação gratuitamente preconceituosa e contraditória (se a alma é espiritual e imortal, como a alma feminina não seria? Seria uma alma mortal?). Como a Igreja seria hostil a esses seres sem alma, mas durante séculos batizou, confessou e ministrou a Eucaristia a essas criaturas? Não é estranho que os primeiros mártires cristãos tenham sido mulheres (Santas Agnes, Cecília, Ágata etc)? Como venerar a Virgem Maria como cheia de graça e considerá-la desalmada? A historiografia contemporânea simplesmente apagou a mulher medieval.

Por exemplo, no plano social. Dentro dessa perspectiva desapareceram da história personagens como Hilda de Whitby, que no século VII fundou sete mosteiros e conventos, ou quem sabe a religiosa alemã Hroswitha de Gandersheim, autora de dezenas de peças de teatro. Em Bizâncio, numerosas eram as mulheres na universidade. Anna Comnena fundou em 1083 uma nova escola de medicina onde lecionou por vários anos. Eleonora da Aquitânia, enquanto rainha, desempenhou um importante papel político na Inglaterra e fundou instituições religiosas e educadoras.
Nos tempos feudais a rainha era coroada como o rei, geralmente em Rheims ou, por vezes, em outras catedrais. A coroação da rainha era tão prestigiada quanto a do Rei. A última rainha a ser coroada foi Maria de Medicis em 1610, na cidade de Paris. Algumas rainhas medievais desempenharam amplas funções, dominando a sua época; tais foram Eleonora de Aquitânia (+1204) e Branca de Castela (+1252); no caso de ausência, da doença ou da morte do rei, exerciam poder incontestado, tendo a sua chancelaria, as suas armas e o seu campo de atividade pessoal. Verdade é que a jovem era dada em casamento pelos pais sem que tivesse livre escolha do seu futuro consorte. Todavia observe-se que também o rapaz era assim tratado; por conseguinte, homens e mulheres eram sujeitos ao mesmo regime.

A mulher na Igreja

Precisamente por causa da valorização prestada pela Igreja à mulher, várias figuras femininas desempenharam notável papel na Igreja medieval. Certas abadessas, por exemplo, eram autênticos senhores feudais, cujas funções eram respeitadas como as dos outros senhores; administravam vastos territórios como aldeias, paróquias; algumas usavam báculo, como o bispo... Seja mencionada, entre outras, a abadessa Heloisa, do mosteiro do Paráclito, em meados do século XII: recebia o dízimo de uma vinha, tinha direito a foros sobre feno ou trigo, explorava uma granja...Ela mesma ensinava grego e hebraico às monjas, o que vem mostrar o nível de instrução das religiosas deste tempo, que às vezes rivalizavam com os monges mais letrados. Pena faltar estudos mais sérios sobre o tema...É surpreendente ainda notar que a enciclopédia mais conhecida no século XII se deve a uma mulher, ou seja, à abadessa Herrade de Landsberg. Tem o título "Hortus Deliciarum" (Jardim das Delícias) e fornece as informações mais seguras sobre as técnicas do seu tempo. Algo de semelhante se encontra nas obras de S. Hildegard de Bingen.Gertrude de Helfta, no século XIII conta-nos como se sentiu feliz ao passar do estado de "romancista" ao de "teóloga". Conforme Pedro, o Venerável, ela, em sua juventude, não sendo freira e não querendo entrar num convento, procurava, todavia, estudos muito áridos, ao invés de se contentar com a vida mais frívola de uma jovem. Ao percorrer o ciclo de estudos preparatórios ela galgara o ciclo superior, como se fazia na Universidade. Veio da abadia feminina de Gandersheim um manuscrito do século X contendo seis comédias, em prosa rimada, imitação de Terêncio, e que são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, da qual, há muito tempo, conhecemos a influência sobre o desenvolvimento literário nos países germânicos. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como prova de uma tradição escolar que terá contribuído para o teatro da Idade Média.

Mulheres líderes

Algo inédito e que nos dias de hoje - tão democráticos - jamais aconteceria:
No século XII, Robert d'Arbrissel, um dos maiores pregadores de todos os tempos resolveu fixar a multidão de seguidores seus na região de Fontevrault. Para isso ele criou um convento feminino, um masculino e entre os dois uma Igreja que seria o único local aonde os monges e as monjas poderiam se encontrar. Ora, este mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não de um abade, mas de uma abadessa. Esta, por vontade do fundador, devia ser viúva, tendo tido a experiência do casamento. Para completar, a primeira abadessa que presidiu os destinos da Ordem de Fontevrault, Petronila de Chemillé, tinha 22 anos. (um parêntesis: nos dias de hoje alguém imaginaria um acontecimento destes sequer ser considerado? Pois ele aconteceu na época em que os ignorantes costumam taxar como "Idade das trevas").

No período feudal o lugar da mulher na Igreja apresentou algumas diferenças daquele ocupado pelo homem, mas este foi um lugar iminente, que simboliza, por outro lado, perfeitamente o culto, insigne também, prestado à Virgem Maria entre os santos. E não é curioso como a época termine por uma figura de mulher - Joana D'Arc, que seja dito de passagem, não poderia, jamais, nos séculos seguintes obter a audiência do rei, sendo ela mulher, plebéia e ignorante, conseguindo mesmo assim suscitar a confiança que conseguiu, afinal. Pobre Joana D'Arc! Recentemente Luc Besson fez um filme de S. Joana D'Arc digna dos melhores hospícios, completamente esquizofrênica e que confundia sua vingança pessoal com o que seria a voz de Deus. Sem comentários.

A mulher comum

Faltaria falar das mulheres comuns, camponesas ou citadinas, mães de família ou trabalhadoras. A questão é muito extensa, e os exemplos podem chegar através de diversas fontes como documentos ou mil outros detalhes colhidos ao acaso e que mostram homens e mulheres através dos menores atos de suas existências. Através de documentos, pôde-se constatar a existência de cabeleireiras, salineiras (comércio do sal), moleiras, castelãs, mulheres de cruzados, viúvas de agricultores, etc. É por documentos deste gênero que se pode, peça por peça, reconstituir, como em um mosaico, a história real - muito diferente dos romances de cavalaria ou de fontes literárias que apresentam a mulher como um ser frágil, ideal e quase angélico - ou diabólico - mas que não tinha voz nem vez. Existem documentos demonstrando como em muitos locais, mulheres e homens votavam em assembléias urbanas ou comunas rurais. Ouve um caso curioso: Gaillardine de Fréchou foi uma mulher e a única pessoa que, diante da proposta de um arrendamento aos habitantes de Cauterets, nos Pirineus, pela Abadia de Saint Savin, votou pelo Não, quando a cidade inteira votou pelo Sim. Nas atas dos notários é muito freqüente ver uma mulher casada agir por si mesma, abrir, por exemplo, uma loja ou uma venda, e isto sem ser obrigada a apresentar uma autorização do marido. Enfim, os registros de impostos, desde que foram conservados, como é o caso de Paris, no fim do século XIII, mostram multidão de mulheres exercendo funções: professora, médica, boticária, estucadora, tintureira, copista, miniaturista, encadernadora, etc.

***

Estas informações foram retiradas da mundialmente conhecida medievalista Régine Pernoud, em seu livro Idade Média - o que não nos ensinaram. A autora consultou e teve acesso a documentos originais da época, quando não de informações contidas em fontes confiáveis.



Nos nossos dias, pouco ouvimos falar do papel da mulher na Idade Média. E quando ouvimos, muitas vezes de forma deturpada.
O papel da mulher na sociedade, aliás, a própria sociedade medieval, segundo a autora, passaram por mudanças lentas a partir do século XIII, com o ressurgimento do chamado direito romano, que aos poucos suplantou o direito medieval (eclesiástico).
Pelas constatações, vê-se que hoje em dia a maioria das mulheres têm muito o que fazer para reencontrar o lugar que foi seu nos tempos da rainha Eleonora ou da rainha Branca..

quarta-feira, novembro 14, 2007

MANIFESTO EM DEFESA DA VIDA

1 comentários
Nós, Mulheres brasileiras, manifestamos nosso profundo pesar pelos atentados contra a vida humana que têm sido praticados recentemente por parte dos Poderes Públicos.

Lamentamos o desejo obsessivo do governo federal de liberar o aborto por meio da formação de uma comissão Tripartite para cuja composição a Associação Nacional Mulheres pela Vida, não foi convidada.

Deploramos que os membros de tal Comissão, cuidadosamente escolhidos entre os abortistas, falem em nome de nós, mulheres, como se fosse digno de nossa vocação à maternidade pleitear o direito de matar os próprios filhos. Lastimamos o emprego de financiamento externo como meio de instrumentalizaçã o da população feminina para fins de controle demográfico.

Repudiamos o aborto em todos os casos, inclusive naqueles em que nossa legislação penal deixa de aplicar pena ao crime. Não admitimos a morte deliberada e direta de um inocente, nem sequer para salvar outro inocente. Rejeitamos a aplicação da pena de morte às crianças concebidas em um estupro. Abominamos a rejeição de crianças deficientes, em especial as anencéfalas, como se fossem simples mercadorias defeituosas e descartáveis.

Horrorizamo- nos ao constatar que a prática do aborto esteja sendo subvencionada justamente pelo Ministério da Saúde, que não tem o direito nem o dever de matar crianças, mas de zelar pela sua vida e saúde.Envergonhamo- nos com a atuação da secretária Nilcéia Freire, cujo empenho incessante pela liberação do aborto é diametralmente oposto ao que nós mulheres, desejamos, em nossa missão sublime de transmitir e conservar a vida.

Repugnamos a permissão de se destruir embriões humanos pela Lei de Biossegurança, lamentavelmente sancionada pelo Presidente da República.Não aceitamos o argumento de que é preciso liberar o aborto a fim de que ele seja feito “com segurança”, pelo mesmo motivo pelo qual não aceitamos a legalização do furto, do seqüestro e do estupro, a pretexto de que tais crimes precisam ser realizados “com segurança”. Não nos impressionam as estatísticas, quase sempre superfaturadas, de mortes maternas devidas ao aborto “inseguro”. Entendemos que para evitar tais mortes é suficiente evitar o aborto. Nem sequer acolhemos o argumento de que é dever do Estado propiciar a prática do aborto nos casos em que ele já é “legal”. E isso, não apenas porque não há caso algum de aborto “legal” no Brasil, mas porque, ainda que houvesse, nenhuma lei autorizando o genocídio, a escravidão e a violência contra a mulher, poderia o Estado estimular a prática de tais atrocidades a pretexto de estar “cumprindo a lei”?

Reivindicamos que seja revogada a Portaria 1508, de 1º de setembro de 2005, pela qual o Ministro da Saúde Saraiva Felipe, reeditando ato de seu antecessor, oficializou a prática do aborto pelo SUS, com o dinheiro do nosso imposto, ao mesmo tempo em que facilitou ao máximo o procedimento de falsificação de estupros como pretexto para se abortar.Conclamamos as mulheres brasileiras para que neguem seu voto àqueles e àquelas que, em nosso nome, vêm atuando contra a vida humana.


Semana de Defesa e Promoção da Vida.

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Rio de Janeiro
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segunda-feira, outubro 29, 2007

As mulheres na Idade Média

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"Recordaremos aqui que certas mulheres (…) de todas as camadas sociais, como o prova a pastora de Nanterre, desfrutaram na Igreja, e devido à sua função na Igreja, dum extraordinário poder na Idade Média. Algumas abadessas eram autênticos senhores feudais, cujo poder era respeitado de modo igual ao dos outros senhores; algumas usavam báculo, como o bispo; administravam muitas vezes vastos territórios com aldeias, paróquias… Um exemplo entre milhares: pelos meados do século XII, os cartulários permitem-nos seguir a formação do mosteiro de Paráclito, cuja superiora é Heloísa; basta percorrê-los para constatar que a vida duma abadessa na época comporta todo um aspecto administrativo: as doações acumulam-se, permitindo aqui receber o dízimo sobre uma vinha, ali ter direito a foros sobre fenos ou trigos, aqui usufruir duma granja e ali dum direito de pastagem na floresta… A sua actividade é também a dum explorador, ou mesmo dum senhor. É de dizer, pois, que, pelas suas funções religiosas, certas mulheres exercem, mesmo na vida laica, um poder que muitos homens poderiam invejar-lhes hoje.

Por outro lado, constata-se que as religiosas desse tempo - sobre as quais, digamo-lo de passagem; nos faltam absolutamente estudos sérios - são, na sua maior parte, mulheres extremamente instruídas, que poderiam ter rivalizado em saber com os monges mais letrados do tempo. A própria Heloísa conhece e ensina às suas monjas o grego e o hebreu. É duma abadia de mulheres, a de Gandersheim, que provém um manuscrito do século X que contém seis comédias em prosa rimada, imitadas de Terêncio; são atribuídas à famosa abadessa Hrotsvitha, cuja influência sobre o desenvolvimento literário dos países germânicos se conhece. Estas comédias, provavelmente representadas pelas religiosas, são, do ponto de vista da história dramática, consideradas como a prova duma tradição escolar que terá contribuído para o desenvolvimento do teatro na Idade Média. Acrescentemos de passagem que muitos mosteiros, de homens ou de mulheres, ministravam localmente a instrução às crianças da região.

É surpreendente também constatar que a enciclopédia mais conhecida do século XII emana duma religiosa, a abadessa Herrade de Landsberg. É o famoso Hortus deliciarum («Jardim de Delícias»), no qual os eruditos vão procurar as informações mais seguras em relação às técnicas no seu tempo. Podia dizer-se o mesmo das obras da célebre Hildegarda de Bingen. Finalmente, uma outra religiosa, Gertrude de Heifta, no século XIII, conta-nos como se sentiu feliz por passar do estado de «gramática» ao de «teóloga», isto é, que, depois de ter percorrido o ciclo dos estudos preparatórios, ela aborda o ciclo superior, como se fazia na universidade. O que prova que ainda no século XIII os conventos de mulheres são o que sempre tinham sido desde São Jerónimo, que instituiu o primeiro deles, a comunidade de Bethléem: centros de oração, rias também de ciência religiosa, de exegese, de erudição; estuda-se aí a Sagrada Escritura, considerada como a base de todo o conhecimento, e também todos os elementos do saber religioso e profano. As religiosas são mulheres instruídas; aliás, entrar no convento é uma via normal para aquelas que querem desenvolver os seus conhecimentos para além do nível corrente. O que pareceu extraordinário em Heloísa, na sua juventude, foi o facto de, não sendo religiosa e não desejando manifestamente entrar no convento, ela continuar, no entanto, estudos demasiado áridos, em vez de se contentar com a vida mais frívola, mais despreocupada, duma rapariga que deseja «permanecer no século». A carta que Pierre, o Venerável, lhe enviou di-lo expressamente.

Mas há mais surpreendente. Se se quiser fazer uma ideia exacta do lugar ocupado pela mulher na Igreja, nos tempos feudais, é preciso perguntar a si próprio o que se diria no nosso século XX de conventos de homens colocados sob o magistério duma mulher. Um projecto desse género teria no nosso tempo a menor possibilidade de resultar? Foi, no entanto, o que se realizou com pleno sucesso, e sem ter provocado o menor escândalo na Igreja, com Robert d’Arbrissel em Fontevrault, nos primeiros anos do século XII. Tendo resolvido fixar a multidão inverosímil de homens e mulheres que chamava atrás de si -porque foi um dos maiores conversores de todos os tempos-, Robert d’Arbrissel decidiu fundar dois conventos, um de homens outro de mulheres entre eles erguia-se a igreja que era o único lugar onde monges e monjas podiam encontrar-se. Ora esse mosteiro duplo foi colocado sob a autoridade, não dum abade, mas duma abadessa. Esta, pela vontade do fundador, devia ser viúva, tendo, pois, a experiência do casamento. Acrescentemos, para sermos completos, que a primeira abadessa, Pétronille de Chemillé, que presidiu aos destinos desta ordem de Fontevrault tinha vinte e dois anos. Não vemos que hoje semelhante audácia, mais uma vez, tivesse possibilidades de ser encarada.

Se examinarmos os factos, impõe-se esta conclusão: durante todo o período feudal, o lugar da mulher na Igreja foi certamente diferente do homem (e em que medida não seria uma prova de sabedoria o ter em conta que homem e mulher são duas criaturas iguais, mas diferentes?), mas foi um lugar eminente, que, aliás, simboliza perfeitamente o culto, eminente também, prestado à Virgem entre todos os santos. E pouco nos surpreende que a época termine com um rosto de mulher: o de Joana d’Arc, a qual, diga-se de passagem, nunca teria podido nos séculos seguintes obter a audiência e suscitar a confiança que no fim de contas obteve".

(PERNOUD, Régine: O mito da Idade Média, Publicações Europa-América, S/D, pp.95-99)

Transcrito do site: www.salterrae.org