Por D. Williamson
Traduzido por Andrea
Patrícia
Caros amigos e benfeitores,
Que o corpo material de Nosso Senhor, tendo sido
pregado na Cruz e separado pela morte de sua alma humana, e sepultado na tumba
de José de Arimatéia – que esse mesmíssimo corpo levantou reunido com sua alma,
e ressurgiu vivo daquela tumba, é um fato histórico – FA-TO – tão fácil de
provar agora quanto então, para qualquer mente sensata não blindada pelo
preconceito.
Então quando São Pedro convocou os judeus de Jerusalém
a fazerem penitência e serem batizados em nome de Jesus Cristo (Atos Il), ele não
argumentou que eles deveriam acreditar em Cristo para acreditar na
Ressurreição, ao contrário, ele argumentou que a evidência da Ressurreição (Atos
II, 32) era o argumento mais forte para Jesus ser o Senhor e Cristo em quem portanto
eles deveriam acreditar (Atos II, 36, 38).
Ora, Pedro apelou em seu discurso primeiramente a um
conhecimento do Antigo Testamento o qual a maioria dos judeus então possuía,
mas o qual a maioria dos católicos não possui mais, e secundariamente às
testemunhas oculares vivas da ressurreição do Senhor, que há muito havia
morrido. Ainda assim podemos dizer que a Ressurreição é um fato tão provável
agora quanto era naquela época, independentemente da Fé. Tudo o que é
necessário é um mínimo reconhecimento das realidades da natureza humana e da
história humana.
Existem dois argumentos principais, um positivo vindo
do comportamento dos amigos de Nosso Senhor, e outro negativo vindo do
comportamento dos inimigos de Nosso Senhor. Vejamos primeiramente o argumento
positivo, do comportamento dos Apóstolos.
Quando Nosso Senhor permitiu ser capturado no Jardim
do Getsêmani, eles não comportaram-se como heróis, todos eles fugiram (Mc. XIV,
50-52). Quando Nosso Senhor foi crucificado, apenas um deles, com um grupo de
mulheres, ficou ao lado Dele (Jo. XIX, 25,26). Quando os Apóstolos
encontraram-se na tarde daquele dia da Ressurreição, eles encontraram-se a
portas fechadas, “como medo dos judeus” (Jo. XX, 19). E o incrédulo Tomé não
estando com os outros dez naquela ocasião recusa-se a acreditar que Jesus
apareceu vivo para eles, apesar de seu testemunho viril (Jo. XX, 25).
Esta não é a imagem da altivez de leões apostólicos,
prontos para sair pelo mundo e conquistá-lo para Cristo. Ao contrário nós vemos
aquilo que esperaríamos: um grupo de homens decentes comuns, consternados pela
captura e morte brutal de seu amado Mestre, e totalmente desencorajados.
Ainda assim 50 dias depois nós os vemos, liderados por
Pedro, estabelecendo aquela conquista do mundo civilizado para Cristo,
iniciando o processo de 300 anos de conversão do Império Romano, o que é um
fato histórico. Este processo extraordinário de levantar todo um império
corrupto às alturas de uma religião sublime mas exigente, só poderia ser
iniciado por um núcleo original de homens profundamente confiantes. O que
transformou um grupo de pescadores abatidos em tais conquistadores do mundo? A
conquista é história. Qual pode ser a explicação humana?
Não é o bastante dizer que pescadores não científicos
de 2000 anos atrás teriam aceitado qualquer bobagem devota, enquanto nós
modernos somos mais racionais, etc. O incrédulo Tomé exigiu, precisamente, evidência
cientifica e fatos que ele mesmo pudesse tocar. E ele recebeu-os (Jo XX, 27).
Mas apenas imagine que ele realmente recebeu-os. Não é este o momento de virada
quando um homem inculto desanimado começa a tornar-se um conquistador do mundo?
São Tomé tornou-se o Apóstolo da índia onde ele foi martirizado, onde seu corpo
jaz até hoje, onde a Igreja que ele fundou vive no sul do subcontinente.
Tendo em conta os fatos da história e a teimosa
natureza humana, poderia qualquer coisa menor do que as repetidas, diretas e
pessoais aparições, espalhadas ao longo de 40 dias, do Senhor ressuscitado da
sua terrível morte, explicar a transformação destes homens, o que sabemos que
aconteceu? E mesmo a descida do Espírito Santo sobre eles no Pentecostes ainda
era necessária. Mas essa descida fez deles, como Pedro, testemunhas
irresistíveis do fato da Ressurreição (Atos II).
Mas existe um segundo argumento, um argumento negativo
vindo do comportamento dos judeus. Estes
eram então como hoje, com nobres exceções, inimigos implacáveis de Nosso
Senhor. Eles O honram odiando-O e aos seus seguidores, porque Ele tira o “lugar
e nação” (Jo XI, 48) deles. O mundo será governado do jeito deles, e Deus não
interfere na supremacia deles. Então eles tiveram os gentios crucificando
Cristo, e pensaram que assim estavam colocando um fim em seus problemas.
Então chega Pedro com seu bando de Galileus de volta
ao seu baluarte de Jerusalém, gloriosa Sião, e baseado naquele negócio absurdo
do corpo de Jesus levantando da tumba, Pedro levanta todo o problema novamente.
No coração de Jerusalém! E ele está convertendo milhares ao Nazareno, como eles
O chamam. É preciso colocar um fim nisso (Atos II, III, IV)!
Ora, se Pedro baseia seu argumento na Ressurreição, então
para parar seu disparate de uma vez por todas, o melhor não seria descobrir o
corpo de Jesus e apresentá-lo triunfantemente em público? (“Sinto muito Pedro,
caro companheiro, mas...”). E é provável que Anás e Caifás fossem menos ricos,
determinados, inteligentes, astuciosos e poderosos do que são seus sucessores
hoje? Caso em que, com um motivo tão forte para encontrar o corpo de Jesus, nós
podemos duvidar que eles teriam encontrado, se ele estivesse lá para ser
encontrado? Neste caso, se, como é obviamente o caso, eles falharam em parar
Pedro a continuar seu caminho, pode haver alguma outra explicação para seu
fracasso do que o corpo não ter sido encontrado em lugar algum por seres
humanos porque ele havia levantado dos mortos por Deus?
Resumindo, quer pensemos nos amigos de Nosso Senhor ou
em Seus inimigos, o sucesso gigantesco da religião Cristã pode ser contabilizado
apenas pela Ressurreição de Nosso Senhor dos mortos ser um fato duro, muito
duro. Dizer o contrário é negar a história ou negar a natureza humana.
Mas então surge a objeção perniciosa: “Ah, mas quem
precisa ARGUMENTAR a base de nossa bela religião? A Fé está acima de meros
argumentos. É tudo tão adorável, e mais adorável por ser acreditada sem raciocínio”.
A objeção é perniciosa porque parece colocar a fé bem
acima da razão, de onde pertence. Entretanto, na verdade isso desconecta a Fé
da razão completamente, e torna a fé questão de sentimento ou sensação. Mas os
homens naturalmente conhecem tal verdade na mente não nos sentimentos. Portanto,
neste julgamento a fé, deixará de ser verdade, e a Igreja será transformada
numa mera fábrica de BSIs (Bons Sentimentos Internos).
Então a questão não é se a Ressurreição faz-me sentir
bem ou não, porque isso depende de se ela é verdade ou não, o que é uma questão
inteiramente diferente. A totalidade da Cristandade está doente com a noção de
que a religião é questão de sentimento, não de verdade. Mentes piegas nunca
fazem mártires. O protestantismo há muito foi apodrecido com “sentimentos”, mas
o drama é que desde o Concílio Vaticano II, inúmeros “católicos” sofrem da
mesma desconexão da religião com a realidade. Mas homens sempre irão insistir mais
cedo ou mais tarde a viver na realidade – eles têm que fazer isso – então se a
religião é desconectada disso, é a religião que será atirada pela janela. O
atual colapso da Igreja “Católica” sente-sente é certo e apropriado.
Então o fato histórico da Ressurreição é uma verdade
acessível à razão, operando a partir de um conhecimento da história e da
natureza humana, que todos os homens partilham. Sendo assim a religião católica
não é apenas minha preferência pessoal, mas possui uma aderência e um clamor a
todas as mentes humanas, e pelas suas mentes, em suas vidas. “Aquele que não crê
será condenado” (Mc XVI, 16). Como pode ser assim se a crença é apenas uma
questão de BSIs?
Que a Mãe de Deus possa obter para todos nós mentes
católicas e corações católicos!
*Carta de março de 1997.
Traduzido de:
Bishop Richard Williamson. Letters
from the Rector of Saint Thomas Aquinas Seminary,. True
Restoration Press.

