A língua dupla do Vaticano II
Por D. Williamson
Traduzido por Andrea
Patrícia
Caros Amigos e Benfeitores,
Temos boas noticias de primeiro e segundo plano. As
boas notícias de primeiro de plano são sobre sete novos sacerdotes da América
do Norte. (…)
As boas notícias de Segundo plano são sobre a contínua
realização dos desejos do Arcebispo Lefebvre de que aparecessem livros
analisando o desastre do Concílio Vaticano II. Quando a Igreja Católica bateu naquele iceberg, a
necessidade urgente era colocar os homens nos botes salva-vidas para salvar a Tradição
Católica, em particular o verdadeiro sacrifício da Missa e o verdadeiro sacerdócio
sacrificante. Mas o Arcebispo
viu que uma vez que o problema imediato foi resolvido, então serenas análises
aprofundadas seriam necessárias para ver como e por que o iceberg foi atingido.
Esta carta é acompanhada por folhetos apresentando
dois desses livros. "O Problema da Reforma Litúrgica", da Angelus
Press em Kansas City, é a tradução em Inglês do livro dos sacerdotes da FSSPX
que foi anunciado na carta de abril do Seminário, acompanhado por um folheto
cor-de-rosa (com uma batalha naval na capa). Este livro não é estritamente sobre o Concílio, mas
vai ao coração das consequências litúrgicas do Concílio, a Missa Novus Ordo. Os leitores podem se lembrar de como o livro argumenta
a partir de uma grande quantidade de citações dos próprios fabricantes da
liturgia "renovada", de que esta liturgia representa, de fato uma
nova religião. A Ressurreição
em vez da Paixão de Nosso Senhor, “resurrefixos” para substituir crucifixos, rapidamente resume a
diferença entre o Catolicismo e esta nova religião. Amor e felicidade sem penitência ou dor. Eu poderia
querer que isso fosse verdade, mas eu sei que isso é falso!
O Segundo folheto apresenta os dois primeiros volumes
do que deve ser uma maciça análise de onze volumes, desta vez diretamente sobre
o próprio Concílio Vaticano II, por um leigo brasileiro que agora vive nos EUA,
o Sr. Átila Sinke Guimarães.
A série é intitulada “Eli, Eli, Lamma Sabacthani”, que
é o grito de angústia de Nosso Senhor na cruz: "Meu Deus, meu Deus, por
que me abandonaste?". Claramente, a série vai dizer que o Concílio
Vaticano II foi como outra crucificação de Nosso Senhor. O Volume I “In the
Murky Waters of Vatican II” ["Nas águas turvas do Concílio Vaticano
II"], surgiu em 1997. O Volume IV, “Animus Delendi” (Desejo de
Destruir), apareceu no ano passado. O Sr. Guimarães espera publicar os
restantes nove volumes um por ano durante os próximos nove anos, o que é uma grande
empresa e "uma consumação a ser devotadamente desejada”.
O Sr. Guimarães descreve no Volume I como ele foi
discípulo do Dr. Plínio Corrêa de Oliveira, fundador da TFP (Tradição, Família,
Propriedade), um dos principais movimentos leigos católicos do pós-guerra criado
no Brasil e agora espalhado por vários países. Foi o Dr. Plínio, que em 1982
pediu ao Sr. Guimarães para realizar a sua análise do Concílio Vaticano II. Por
dezesseis anos o Sr. Guimarães mergulhou no estudo de grande quantidade de
sermões, discursos, escritos, livros do espírito dominante do Concílio. Suas
conclusões, tradicionais em vez de conservadoras, causaram uma separação entre
ele e a TFP, de modo que agora ele está publicando por sua própria conta. No entanto, no
início do Volume I, ele presta uma bela homenagem ao falecido Dr. Plínio e à
TFP, porque ele recebeu muito de ambos.
Agora, a Fraternidade São Pio X tem sérios problemas
com o Dr. Plínio como líder católico, especialmente com relação aos seus
últimos dias, e com a TFP, principalmente por causa do papel insuficiente que
esta parece atribuir ao sacerdócio católico em seu planejado resgate da
civilização cristã. Dada a
decadência esquerdista do clero brasileiro nos anos imediatamente antes do
Vaticano II, quando a TFP foi criada, este plano contraditório é compreensível,
mas não é menos contraditório. Isso pode ajudar a explicar como a liderança da
TFP já se voltou para o excesso oposto, uma aceitação implícita do Concílio
Vaticano II. (Na verdade, quando o pastor é atingido em Roma, as ovelhas católicas
ficam dispersas).
Quanto à FSSPX, ela só pode aprovar o fato de o Sr.
Guimarães já não estar com os líderes da TFP por causa de sua aceitação
implícita do Concílio. No entanto,
isso não significa que a FSSPX aprova necessariamente tudo o que ele diz, assim
como ele não tem de concordar com tudo o que foi dito e feito pela FSSPX. Na verdade,
nestes dois primeiros volumes a aparecer, não há nenhum traço da FSSPX e pouco
do Arcebispo Lefebvre. Não importa. Como Otelo diz: "É a causa, minha alma, é a causa",
e o Sr. Guimarães presta um grande serviço à causa da Tradição Católica.
No primeiro volume ele apresenta o plano de todos os
onze volumes: Vol. I, a "letra" do Concílio Vaticano II; volumes II a
V, o "espírito do Concílio", volumes VI a XI o pensamento e frutos do
Concílio.
No Volume I, ele declara que a marca distintiva do
Concílio Vaticano II é a ambiguidade. Na Introdução Geral ele escreve:
"Depois de algum tempo de análise e reflexão, chegamos à conclusão de que
é difícil harmonizar os textos conciliares entre si. Eles apresentam uma
dicotomia fundamental (divisão) da linguagem. ¾ da linguagem Conciliar
pareceu-nos ter sido projetada para ser possível de ser interpretada do ponto
de vista tanto da sadia e tradicional doutrina católica, ou, surpreendentemente,
dos ensinamentos da corrente neomodernista que se instalou em muitas
posições-chave na Igreja de hoje. Tal linguagem parece ser uma obra-prima de
contínua ambiguidade. Tecida como uma
preciosa renda Flamenga fora dos preciosos fios do vocabulário da Tradição,
ela, no entanto, parece revelar o espectro de uma mentalidade completamente
diferente. Assim o
progressismo entrou nos documentos oficiais do Magistério com a cabeça
decorosamente coberta pelo véu rendado da antiga linguagem tradicional"
(pg. 35, 36, tradução ligeiramente adaptada).
Aqui o Sr. Guimarães acerta bem no alvo. Os documentos
do Vaticano II são uma mistura contínua de duas coisas que não se misturam: o Catolicismo
e a Revolução. Enquanto se
insiste em que se misture o que não se pode misturar, se está afirmando que
contraditórios não contradizem, se está suspendendo na cabeça de alguém a lei
da não-contradição, e se está destruindo a capacidade da pessoa pensar. A Sabedoria
Divina diz: "Eu odeio a boca de língua dupla" (Prov. 8, 13). Entre
outras coisas, uma língua dupla apodrece o cérebro.
Por exemplo, como pode um cardeal escrever, como fez
recentemente, que não havia nenhum problema doutrinário entre Roma (Conciliar)
e o Arcebispo Lefebvre?
Porque
a adesão resoluta ao Concílio Vaticano II tem dissolvido sua ideia de doutrina.
Como ele pode escrever, como fez recentemente, que em 2001 já não existem tais
"dificuldades" entre Roma (Conciliar) e a FSSPX como havia no tempo
do Arcebispo Lefebvre, porque, desde então, a Igreja tem sido
"purificada"? Porque o duplipensar persistente destruiu em sua cabeça
o sentido de noções como "pureza". Como ele pode escrever, como ele
fez recentemente, que não existem mais dessas heresias como havia no tempo de
Atanásio? Porque o incessante
Conciliarismo cegou o Cardeal para o triunfo ao seu redor do que São Pio X
chamou "a síntese de todas as heresias", Modernismo, ou, como
renovado pelo Concílio Vaticano II, Neomodernismo. Para o cardeal dizer que os católicos hoje não têm
nenhuma heresia em particular como a de Ário, quando suas mentes (e a dele) são
lavadas pelo Neomodernismo, é como alguém dizendo que não há poças em um campo
quando o campo está totalmente inundado!
Ambiguidade é realmente a chave para o Vaticano II, e
é a chave para a apresentação do Sr. Guimarães do Concílio Vaticano II, no
resto de seu Volume I. Ele termina com
dois capítulos sobre a destruição, por essa ambiguidade, da fé e da unidade da
Igreja, de seus clérigos e leigos. Tem razão. Documentos fadados a satisfazer
ao mesmo tempo conservadores e progressistas terminariam justificando a
contradição, que por sua vez terminaria gerando a contradição, a guerra civil e
a destruição mútua no interior da Igreja.
O outro volume do Sr. Guimarães apresentado no folheto
em anexo não é realmente o vol. II, mas o vol. IV, a primeira parte do "Desire
to Destroy", que ele pretende publicar ao lado da segunda parte, vol. V.
Isso é porque ele deseja pôr a descoberto o elemento inteiramente destrutivo
operando no Vaticano II, também conhecido como Revolução. Com uma grande
quantidade de citações diretas dos cérebros que dirigiram o Concílio Vaticano
II intelectualmente e politicamente, ele mostra como a intenção deliberada
deles era destruir a Igreja Católica hierárquica, sagrada e militante. Estes
progressistas tinham um projeto (capítulo 1) para esvaziar a Igreja (cap.2), um
plano claro (cap.3) para rebaixar a Igreja como uma monarquia (cap.4), para
desacreditá-la como mestra da verdade (cap.5), para dissolver o seu caráter
santo e Romano (cap.6), e por estes meios fabricar uma inteira Neo-Igreja
(cap.7).
De forma interessante, o Sr. Guimarães mostra
claramente em "Desire to Destroy" (I) que os vilões em seus próprios
escritos não esconderam aquilo que eles ainda sentiam necessidade de disfarçar
pela ambiguidade no Vaticano II, com a finalidade de obter o controle da
Igreja. Assim, o
disfarce no Concílio pode ter sido bom, mas os clérigos do Concílio deveriam ter
discernido melhor. (Alguns bispos assim o fizeram). Conclusão: "Vigiai e orai". E leiam “Eli,
Eli, Lamma Sabacthani”.
Caros leitores, esta é uma guerra gloriosa, e agora
temos sete novos guerreiros de Winona nas linhas de frente. Como São Tomé
Apóstolo disse de seu amado Mestre, "Vamos nós também, para que possamos
morrer com ele" (Jo. 11, 15).
Carta de junho de 2001.