A Necessidade do Purgatório e a dor da Perda
Por Dr.
Remi Amelunxen
Traduzido
por Andrea Patrícia
As chamas do Purgatório são mostradas a Virgílio e
Dante
Algumas
pessoas perguntaram: "Por que as almas devem sofrer antes de poderem ver a
face de Deus?" O Sacramento da Penitência não remove suficientemente os
efeitos do pecado da alma e paga o débito exigido para o perdão?”.
De
acordo com os teólogos, não é a culpa do pecado mas o débito de dor
procedente do pecado que exige expiação. (1) O pecado produz dois efeitos na
alma: a culpa por ofender Deus e a pena a ser paga por tal crime. No Sacramento
da Confissão o sacerdote absolve a culpa quando a pessoa está devidamente arrependida.
Isso é chamado de dor de culpa, que é removida pela absolvição.
Entretanto,
o preço da pena ainda tem que ser pago. Quando a penitência imposta pelo
sacerdote não é suficiente para igualar a pena devida a Justiça Divina, outra
coisa precisa ser paga. Essa outra coisa que não foi devidamente compensada é
chamada de débito de dor. Se, quando a pessoa morre, ela ainda
possui este ultimo débito, ela precisa prestar satisfação por isso diante da Justiça
Divina sofrendo no Purgatório.
O
débito de sofrimento vem de todas as faltas cometidas durante a vida, especialmente
dos pecados mortais. Embora a culpa seja remida por uma boa confissão, os pecados
não foram expiados pelos frutos dignos da penitência exterior. O que constitui
este débito de dor é o restante das muitas penas pelas quais ainda não foi
prestada satisfação, uma espécie de mancha, que coloca um obstáculo à união da alma
com Deus.
Santa
Catarina de Gênova afirma que mesmo que, embora as Almas do Purgatório estejam
necessariamente livres da culpa de pecado, ainda há uma barreira entre elas e a
união com Deus enquanto as imperfeições existem. (2) No seu Tratado sobre o Purgatório,
ela explica que a alma sente esta barreira dentro dela mesma e deseja fazer a
expiação exigida pela Justiça Divina:
“Vejo
que a divina Essência é de tal pureza que qualquer alma, a menos que seja
absolutamente imaculada, não pode suportar a visão. Se, na presença da Divina
Majestade, a alma encontra em si mesma o mínimo átomo de imperfeição, em vez de
habitar lá com uma mancha, ela mergulharia a si mesma nas profundezas do
Inferno. Encontrando um meio de apagar suas manchas no Purgatório, a alma
[voluntariamente] lança a si mesma nisso. Ele sente-se feliz porque, sob o
efeito de uma grande misericórdia, um lugar é dado a ele onde ele pode
libertar-se dos obstáculos para atingir a máxima felicidade.” (3)
Assim,
as almas sofrendo no Purgatório compreendem completamente e abraçam as dores que
elas devem suportar. Elas veem claramente como mesmo o mais leve obstáculo
levantado pelos resquícios do pecado é grave diante de Deus.
As almas sofrem com resignação as dores do Purgatório
Em
seu livro Purgatory Explained, Pe. Schouppe observa: “As almas estão em
contínua união com Deus no Purgatório. Elas são perfeitamente resignadas com a
vontade Dele, ou melhor, sua vontade está tão transformada naquela de Deus que
elas não podem desejar senão o que Deus deseja.… Elas purificam-se voluntariamente
e amorosamente, porque esse é o Divino prazer.”(4)
Pe.
Schouppe faz uma longa lista de pecados que exigem expiação. São os seguintes: pecados
de luxúria (pensamentos, palavras e ações impuras), pecados de mundanismo e dar
escândalo, pecados de vida de prazer e busca de conforto, pecados de tibieza, pecados
de negligência em receber a Santa Comunhão e falta de respeito na oração, pecados
de falta de mortificação dos sentidos e da língua, pecados contra a justiça, pecados
de omissão, pecados contra a castidade, pecados de abuso de graças, e pecados contra
os Dez Mandamentos, especialmente pecados da carne.
A
culpa de dor ainda existe para todos estes pecados mesmo depois que uma boa
confissão tenha sido feita. É por isso que o Purgatório é uma misericórdia de Deus.
Para aqueles que não fizeram expiação suficiente nesta vida, há um lugar após a
morte onde suas almas sofrerão voluntariamente – embora grandemente – para que
possam ser purificadas.
A Dor da Perda
Todas
as Almas do Purgatório sofrem a dor da perda da visão de Deus. Algumas, entretanto,
sofrem apenas esta dor e não a dor dos sentidos com a qual iremos lidar no
próximo artigo.
No seu Tratado sobre o Purgatório, Santa Catarina
de Gênova explica quão grande é a dor da perda
De
fato, a tortura da dor da perda é, de acordo com todos os Santos e Doutores da Igreja,
muito mais aguda que a dor dos sentidos. Nós não podemos entender isso porque
temos pouquíssimo conhecimento do Soberano Bem para o qual fomos criados. Mas,
na próxima vida, o Bem inefável assemelha-se para as almas ao que o pão é para
o homem faminto, ou a água fresca para aquele que está morrendo de sede, ou
como a saúde para uma pessoa doente torturada por uma longa enfermidade. (5)
Em Castelo
Interior ou Moradas, Santa Teresa D’Ávila fala sobre a dor da perda: “A dor
da perda, ou a privação da visão de Deus, excede todos os mais excruciantes
sofrimentos que podemos imaginar, porque as almas necessitando ir rumo a Deus, como
o centro de suas aspirações, são continuamente repelidas por Sua Justiça. Você
pode imaginar a si mesmo como um marinheiro náufrago que, após longa batalha
contra as ondas, chega enfim próximo de alcançar a praia, apenas para ver-se
constantemente puxado para trás por uma mão invisível. Que torturante agonia! No
entanto a das almas do Purgatório é milhares de vezes maior.” (6)
Todas
as almas do Purgatório sofrem a dor da perda, mas algumas almas sofrem apenas
isso, a privação da visão de Deus. Nós podemos imaginar, entretanto, que esta é
uma punição leve.
Isso
é justificado pelas palavras de São João Crisóstomo em sua 47a Homilia:
"Imagine" ele diz, “os tormentos do mundo. Você não encontrará algum
que seja igual a privação da visão beatífica de Deus." (7)
(Continua)
Notas:
- F. X. Schouppe, Purgatory
Explained by The Lives e Legends of the Saints, Rockford: TAN, 2006,
p. 86.
- Catherine of Genoa,
Traité du Purgatoire, chap 3, in ibid., p. 87.
- F.X. Schouppe, Purgatory
Explained, p. 56.
- Ibid., p. 27.
- Ibid., page 30.
- Ibid.
- Ibid.