Quinta-feira, Julho 09, 2009

Mulher: recriar o mundo

Por Sheila Morataya
Traduzido e adaptado por Andrea Patrícia



Por suas qualidades próprias, a mulher pode transformar o mundo e fazer com que voltem o olhar para Cristo.

“A mulher tem uma atitude particular para transmitir a fé e, por isso, Jesus recorreu a ela para a evangelização. Assim aconteceu com a Samaritana que, depois de ter aceito a fé em Cristo, apressa-se a comunicá-la a outros”
João Paulo II


O apostolado é importante. Levar a mensagem do amor de Cristo a outros nunca é fácil, mas a mulher tem a dádiva de qualidades muito típicas dela para levar o apostolado. Vejamos algumas delas, do pensamento do Vigário de Cristo.

A iniciativa humilde

Mulheres como Teresa de Calcutá deixaram a muitas, o testemunho contundente do que pode chegar a obter uma mulher verdadeiramente humilde. Esta grande mulher, sempre dizia que seu coração pertencia inteiramente a Cristo e em suas conversações, ao lhe perguntar sobre a mulher, animava a todos a olhar à Virgem, pois Ela é o modelo por excelência para o desenvolvimento do feminino.

Aprofundando em Maria, cada vez que tenha seu tempo de oração, peça seu conselho para revelar a você o sentido pleno de sua feminilidade. A iniciativa humilde inata em ti como mulher, virá à luz ao sair ao encontro de maneira espontânea para fazer apostolado com seus amigos ou pessoas que vão chegando a sua vida.

Respeito às pessoas

Fixaste-te na forma como os menininhos jogam quando têm, por exemplo, um ano de idade, no máximo dois? E, o que dizer das meninas? Enquanto os meninos utilizam a força nos jogos, entre meninas o respeito sempre está presente. Trata-se de outra qualidade inata feminina. O respeito, a consciência dele, está ancorada no profundo do coração da mulher.

A mulher sabe, muito dentro de si mesma, que seu papel fundamental é unir, fazer paz, acolher ao outro e isto o manifesta desde muito menina, através de seus jogos. Como mulheres é muito importante que tomemos isto em conta na hora de educar, quer dizer, aproveitar esse potencial na menina enquanto ao mesmo tempo se vai educando aos filhos varões também neste sentido.

Forma de compartilhar a fé

Quando uma mulher conhece o amor de Cristo, não pode ficar calada. Deve sair correndo a compartilhá-lo tal como o fez a Samaritana ou Maria Madalena quando esteve frente a Cristo ressuscitado.

E é que a mulher que conhece O Senhor se apaixona, e esse amor é uma chama enorme que tem a capacidade de alcançar aos outros e iluminá-los. A forma de compartilhar a fé na mulher é distinta ao homem. É também um presente de Deus, pois não impõe nada, mas sim prova através de mudanças na conduta e paz no olhar, a transformação que somente o amor pode fazer no interior de uma pessoa.

Por isso a mulher é uma privilegiada na hora de orar por seu marido, por seus filhos, pelo mundo, porque é predileta aos olhos de Deus; porque escolheu a uma de nós, Nossa Santíssima Mãe, para trazer seu filho ao mundo.

Conclusão

É bom, então, que nos fixemos em como a Virgem orava, para que dela aprendamos tudo isso que nos falta para sermos mulheres completas, apóstolos para a paz e defensoras da família.

O apostolado é uma obrigação prazeirosa, e a mulher conta com um potencial enorme para realizá-lo com eficácia. Como pede a Igreja no Catecismo “os laicos cumprem também sua missão profética evangelizando, com o anúncio de Cristo comunicado com o testemunho da vida e da palavra. Nos laicos, esta evangelização ‘adquire uma nota específica e uma eficácia particular pelo fato de que se realiza nas condições gerais de nosso mundo’ (Lumen Gentium 35).

Este apostolado não consiste só no testemunho de vida; o verdadeiro apostolado procura ocasiões para anunciar a Cristo com sua palavra, tanto aos não crentes... como aos fiéis” (905 e 906).

Original em Sheila Moarataya

Quarta-feira, Julho 08, 2009

Tens obrigação de dar exemplo

por São Josemaria Escrivá


“Tens obrigação de dar exemplo”

Tens necessidade de vida interior e de formação doutrinal. Sê exigente contigo! Tu – cavalheiro cristão, mulher cristã – deves ser sal da terra e luz do mundo, porque tens obrigação de dar exemplo com uma santa desvergonha. – Há de urgir-te a caridade de Cristo e, ao te sentires e saberes outro Cristo desde o momento em que Lhe disseste que O seguias, não te separarás dos teus iguais – parentes, amigos, colegas –, tal como o sal não se separa do alimento que condimenta. A tua vida interior e a tua formação abrangem a piedade e o critério que deve ter um filho de Deus, para temperar tudo com a sua presença ativa. (Forja, 450)

O Senhor suspira por levar-nos a um passo maravilhoso, divino e humano, que se traduz em abnegação feliz, de alegria com dor, de esquecimento próprio. Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo (Mt XVI, 24.). Eis um conselho que todos nós já escutamos. Temos que decidir-nos a segui-lo de verdade: que o Senhor possa servir-se de nós para que, situados em todas as encruzilhadas do mundo – estando nós mesmos situados em Deus –, sejamos sal, fermento, luz. Assim, tu em Deus, para iluminar, para dar sabor, para dilatar, para fermentar.

Mas não esqueçamos que não somos nós que criamos essa luz; apenas a refletimos. Não somos nós que salvamos as almas, estimulando-as a praticar o bem: somos apenas um instrumento, mais ou menos digno, dos desígnios salvíficos de Deus. Se chegássemos a pensar que o bem que fazemos é obra nossa, a soberba voltaria, mais retorcida ainda; o sal perderia o sabor, o fermento apodreceria, a luz se converteria em trevas. (Amigos de Deus, 250)

Textos de São Josemaria Escrivá. Opus Dei

Terça-feira, Julho 07, 2009

Quando copiar era um estímulo intelectual

por Pierre Riché


Não há nada de original em pensar que, no princípio da vida monástica, os monges eram copistas e leitores assíduos. Se no século V eles copiavam manuscritos, era para escapar da ociosidade e para ganhar o sustento. Cultivavam essa atividade, mas também fabricavam pães, ou outros objetos de artesanato. Contentavam-se com um único livro, a Bíblia, cujas passagens aprendiam e sabiam de cor, sobretudo os salmos. A palavra bibliotheca foi empregada para designar os diferentes livros da Bíblia. A regra de São Bento (480-540), à qual sua ordem religiosa (conventos beneditinos), era submetida, menciona apenas o estudo das Escrituras.

Um outro italiano, Cassiodoro (490-581), fundou um mosteiro para organizar o estudo de textos religiosos e profanos. Antigo ministro do imperador bizantino Teodorico, Cassiodoro converteu-se à vida religiosa em meados do século VI e, após criar um mosteiro em uma das suas propriedades na Calábria, decidiu recopiar uma grande parte das obras latinas. No livro “As Instituições”, fez uma espécie de catálogo analítico de sua biblioteca, e o elogio dos copistas: "Ao reler as escrituras, eles enriquecem sua inteligência, multiplicam os preceitos do Senhor, por meio das suas transcrições. Feliz aplicação, estudo digno de louvor: pregar pelo trabalho das mãos, abrir e dar seus dedos às línguas, levar silenciosamente a vida eterna aos homens, combater as sugestões do diabo pela pena e pela tinta...". Depois da morte de Cassiodoro, uma parte dos seus livros religiosos foi transferida para a biblioteca de Latrão, sede do bispado de Roma. De lá, muitos acabaram na Inglaterra.

O Renascimento carolíngio foi gestado nos mosteiros da Gaula no sul da França, a partir do final do século VII. Com efeito, os monges de Luxeuil fizeram os manuscritos com uma nova escritura, tal como podemos ver no Lectionnaire - Lecionário - de Luxeuil. Os escribas, que recopiavam os livros vindos de Roma, aperfeiçoaram a escritura, ancestral da Carolina, a escrita caligráfica surgida na Europa entre os séculos VIII e IX, que originou a distinção de maiúsculas e minúsculas nas modernas escritas européias. Nas margens do Loire (a cerca de 200 km de Paris), as abadias de Saint-Martin-de-Tours e de Fleury (hoje Saint-Benoît-sur-Loire) possuíam ateliês de escritura já ativos. Nas margens do Sena, os mosteiros de Saint-Denis e Saint-Wandrille participaram igualmente dessa produção de manuscritos em miniaturas, mais bem escritos e, até mesmo, mais bem adornados.

Desse modo, assim que Carlos Magno restaurou as escolas e os scriptoria em todo o reino [leia mais no dossiê "Carlos Magno, a espada e a fé", História Viva, ed. 22], ele investiu no trabalho dos mosteiros. Em sua célebre Admoestação geral, coleção de antigos cantos eclesiásticos, trechos da missa e responsórios, ele insiste em que cada clérigo e cada monge deveria aprender a gramática, o cálculo, o canto e as notas tironianas. E especifica que o trabalho dos escribas não seria confiado a jovens, mas a homens de idade adulta, de modo que os missais, os evangeliários e os livros de salmos não tivessem nenhum erro. A partir de então, a nova escrita iria se impor em todos os scriptoria. Chamada de Carolina, por causa de Carlos Magno, ela se caracterizava pelo tamanho pequeno, bem legível e regular, que encontramos na escrita atual, desde que os primeiros impressores do século XV a escolheram entre muitas outras.

Jamais será excessivo insistir sobre o prodigioso trabalho dos scriptoria carolíngios. Milhares de manuscritos foram recopiados - quase oito mil foram conservados: as obras dos fundadores da Igreja, de gramáticos, poetas, prosadores. Graças aos copistas, uma grande parte da herança literária latina foi salva e preservada. Cícero, Virgílio, Tácito e muitos outros só se tornaram conhecidos pelo trabalho dos carolíngios.

Ao mesmo tempo, os escribas e os pintores fabricavam manuscritos de luxo. Na corte carolíngia, as bíblias, os evangeliários e os livros de salmos, ricamente adornados com iluminuras, eram depositados e preservados na capela real. Carlos, o Calvo, neto de Carlos Magno, foi um entusiasta dos belos manuscritos. Quando esteve em Roma para receber a coroa imperial das mãos do papa João VIII, levou de presente uma Bíblia magnífica.

As bíblias de Tours estão entre as mais belas editadas naquela época. Na Alemanha, os mosteiros de Saint-Gall, Reichenau e Fulda também possuíam equipes de escribas e de pintores.

Enquanto sob Carlos Magno os escribas recopiaram, sobretudo, obras religiosas, foi sob seus sucessores, Luís, o Pio, e Carlos, o Calvo, que ocorreu o que ficou conhecido como o "segundo Renascimento carolíngio", quando os autores profanos tiveram uma importância até então desconhecida, como os textos de César e Seutônio.

Nessa época, certos manuscritos eram sobrecarregados de sinais, chamados de "neumas", ou seja, notas musicais que permitem cantar o texto. Os monges as utilizavam para o canto a capela, mas também o faziam os alunos das escolas, para decorar os poemas dos salmos. A divisão do império carolíngio entre os netos de Carlos Magno - ocorrida na segunda metade do século IX - e as invasões normandas seguidas das húngaras complicaram a vida monástica. Mosteiros caíram nas mãos dos aristocratas laicos, ou foram arruinados pelos invasores. Muitos monges escaparam carregando relíquias e manuscritos para locais onde puderam se refugiar, sobretudo na região da Borgonha.

No começo do século X, foi fundado o mosteiro de Cluny (Borgonha), que se transformou no modelo das abadias reformadas, algumas décadas mais tarde. Outras reformas e reconstruções aconteceram em locais diversos, e a vida religiosa e o estudo renasceram nos mosteiros, em meados daquele século. As bibliotecas foram reconstituídas, e os scriptoria reativados. O século X caracterizou-se - pelo menos na sua segunda metade - por uma renovação intelectual e artística que prolongou o Renascimento carolíngio.

Os mosteiros que produziam manuscritos são numerosos. Entre eles, houve exemplos extraordinários. Na Alemanha, os otonianos foram os sucessores dos carolíngios - Oto I restaurou o Império germânico em 962 -, e o mosteiro de Saint-Gall foi o de maior prestígio. Centenas de manuscritos saíram do seu scriptorium, fosse para servir à biblioteca, da qual se conhece o catálogo, fosse para serem trocados por manuscritos de outras bibliotecas, particularmente a do mosteiro vizinho em Reicheneau, ou para serem vendidos. Ricos manuscritos, belamente adornados com iluminuras, foram executados nessas abadias. Na segunda metade do século X, muitas obras de luxo, destinadas à corte e ao bispo, foram escritas e pintadas em Reichenau.

No norte da Itália, a abadia de Bobbio, fundada pelos irlandeses no século VII, possuía a maior biblioteca do Ocidente. Um catálogo da época descreve 650 manuscritos. E foi o que entusiasmou um erudito de Reims, logo que foi nomeado abade de Bobbio em 982. No começo da sua formação, Gerbert d'Aurillac iniciou os estudos de teologia, ciências, aritmética e astronomia. Depois de uma temporada em Reims, ele foi para Bobbio.

Em sua correspondência, fala sobre os livros que encontrou, e de que modo comissionou a confecção de manuscritos. Ele exigiu do seu arcebispo permissão para recopiar obras provenientes de outras abadias. Hoje esta biblioteca só é conhecida em função de um inventário feito por um abade antes da peregrinação à Terra Santa. Além disso, Gerbert foi convidado por seu aluno, o imperador Oto I, a subir ao trono de São Pedro, sob o nome de papa Silvestre II (ano de 999), quando então legou uma parte dos seus livros à corte imperial, os quais ainda podem ser consultados na biblioteca do bispado de Bamberg (Baviera, Alemanha).

A Aquitânia, que vegetara desde a reconquista carolíngia em meados do século VIII, teve monges prósperos no século XI e tornou-se uma das cortes mais letradas e cultas da França. O abade Abbon do mosteiro Saint-Benoît-sur-Loire no ano 1000 e contemporâneo de Gebert tinha estreitas relações com a Inglaterra, com a qual fazia intercâmbios. Nos séculos X e XI, as abadias da Inglaterra eram tão ativas quanto as do continente. Em Canterbury e Winchester, escribas e pintores deixaram esplêndidos manuscritos litúrgicos.

Na segunda metade do século XI, as abadias se transformaram. A herança da cultura carolíngia cedeu espaço a uma outra cultura unicamente religiosa. Na França, em especial na abadia de Saint-Bernard de Clairvaux (abadia cisterciense), os manuscritos religiosos tiveram a prioridade, e os responsáveis pelas iluminuras foram restritos a uma ascese artística. A austeridade era de rigor: o ouro e as iniciais ornadas foram banidos. Em Paris, freqüentemente se contratava o trabalho de escribas fora do mosteiro. Nessa época, os fabricantes de livros apareceram nas cidades.

Até o final da Idade Média, cada mosteiro continuou a ter seu scriptorium. Mas o belo período da grandiosa produção de manuscritos havia terminado. Foram a escola episcopal, a biblioteca eclesiástica da cidade e, depois, no século XIII, as universidades que ficaram encarregadas de produzir os manuscritos.

Os escribas trabalhavam cercados do seu material: cartuchos de tinta, penas, raspadeiras, folhas de pergaminho. O pergaminho, fornecido pelo abade, era um material caro, que podia ser comprado, ou fornecido pelos membros do mosteiro. Quando uma solicitação de um manuscrito era feita ao scriptorium, o requerente podia enviar o pergaminho necessário, como podemos constatar na carta de Gerbert, dirigida ao abade de Saint-Julien-de-Tours.

O pergaminho era preparado previamente, a partir de pele de vitela ou de carneiro. Imersas num banho de cal durante alguns dias, essas peles eram espichadas e raspadas dos dois lados, depois cortadas e, eventualmente, tingidas numa cor púrpura para os manuscritos de luxo. Quando faltava pergaminho, era possível reutilizar as folhas já escritas de um manuscrito incompleto ou usado, raspando-se cuidadosamente sua superfície. Ao contrário do que se disse muitas vezes, os monges não substituíam de forma sistemática as obras profanas por textos religiosos. Graças a esses palimpsestos, posteriormente pôde-se descobrir textos antigos pela leitura de pergaminhos, com o auxílio de uma lâmpada de Wood, que emite raios ultravioletas.

Uma vez preparado, o pergaminho recebia um acabamento: uma grande folha podia ser recortada em quatro pedaços (de onde vem a expressão in quarto), ou em oito (de onde vem a expressão in octavo). Esses pedaços podiam ser encadernados em formatos pequenos, que continham um número maior de fólios. Mais tarde, o pergaminho foi apresentado em forma de rolo, como os antigos volumina, sobretudo para usos litúrgicos.

O escriba sentava-se num banco, os pés pousados sobre um escabelo. Colocava o pergaminho sobre os joelhos ou, ainda melhor, sobre uma escrivaninha. Na mão direita, segurava a pena que molhava no tinteiro. Ele podia ter uma raspadeira na mão esquerda. Um manuscrito de Bamberg mostra as etapas do trabalho do escriba em pequenos desenhos. Ele talhava a pena, escrevia seu rascunho numa tabuinha de cera. Essas tabuinhas sempre foram utilizadas na Idade Média, e se acompanhavam de estiletes de metal, que tinham uma ponta de um lado, e na outra uma parte achatada para apagar a escrita. No lugar da tabuinha de cera, o escriba podia usar um velho manuscrito ou, ainda melhor, escutar o ditado do leitor.

Antes de começar, o escriba experimentava a pena, ao traçar algumas letras do alfabeto nas margens, ou os primeiros versos de um salmo. Pode-se também encontrar reflexões pessoais do tipo: "Como o pergaminho é felpudo"; "Como está frio hoje"; "A lâmpada emite uma luz ruim"; ou, ainda, "Agora é a hora do almoço". Como o silêncio devia reinar no scriptorium, pode-se imaginar os escribas passando essas reflexões, uns para os outros.

O trabalho era difícil durante o inverno, sobretudo pela penumbra. Por causa do esforço de olhar fixamente os manuscritos, os monges poderiam ficar cegos. Aquele que ditava o texto, o dictator, o fazia com rapidez. Os monges tinham dificuldade de seguir o ditado.

Raramente o escriba trabalhava sozinho. A arrumação do mosteiro de Saint-Gall previa sete assentos no scriptorium. Apesar de os nomes não serem registrados, era muito fácil reconhecer a mudança da mão. A duração da execução de um livro variava segundo a habilidade dos copistas e os mais hábeis se vangloriavam de fazer um livro em dois dias ou de copiar 30 folhas por dia. Em geral, era preciso dois a três meses para copiar um manuscrito de dimensão média. Depois do manuscrito terminado, era necessário reler e corrigir os erros. Muitos escribas eram inexperientes, alguns quase analfabetos, e recopiavam os textos de uma maneira automática, sem compreender seu conteúdo. Aqueles que escreviam a partir do ditado acabavam usando uma ortografia fonética.

O chefe do ateliê revia o manuscrito. Um bom revisor corrigia a pontuação e a ortografia, sublinhava uma palavra incompreensível e marcava a margem com a palavra que julgava conveniente e adequada. Depois do término do manuscrito, se fosse um livro luxuoso de salmos ou um evangeliário encomendado por um bispo, ou por um príncipe, o pintor sucedia o escriba. Ele decorava as iniciais, enquadrava as páginas, pintava o que ficara em branco, segundo seu próprio talento ou segundo o estilo da escola onde fora formado. Temos então o manuscrito copiado, corrigido e ornamentado.

Em seguida, era necessário reunir as folhas, formar os cadernos para fazer um códice. Sobre o desenho já citado de Bamberg, pode-se ver o monge dobrar, costurar as folhas, cortar e depois preparar as encadernações. Desde a época carolíngia, a encadernação era utilizada para os livros valiosos, e era feita com peles de cervos. Assim, Carlos Magno autorizou os monges de um mosteiro francês a caçar cervos para criar um estoque do couro destinado à encadernação. A superfície lisa das encadernações era confiada a ourives, ou a artesãos que trabalhavam com marfim.


Pierre Riché é professor emérito de História Medieval na Universidade de Paris X, Nanterre; publicou livros relacionados à História da cultura e da educação na idade média ocidental, entre eles, La Vie Quotidienne dans L´Empire Carolingien ( Paris, 1973).


Fonte: História Viva

Segunda-feira, Julho 06, 2009

Desmascarando farsas

vida
Dois textos muito bons, de sites distintos, que ajudam a desmascarar duas farsas:

1- O primeiro é uma resposta muito bem elaborada e documentada sobre o falso documentário "O Estado do Vaticano". Um estudo de Fernando Nascimento que vale a pena conferir:



2- O segundo é um texto sobre o verdadeiro Che Guevara, onde é mostrada a verdadeira face deste que hoje é tido como herói por muitos desavisados e ingênuos (não quero nem lembrar dos que sabem quem ele foi e ainda assim o defendem...). Aí está:

Sexta-feira, Julho 03, 2009

Pe. Paulo Ricardo, Tolkien e O Senhor dos Anéis

vida
Muito interessantes os vídeos do Padre Paulo Ricardo sobre Tolkien e O Senhor dos Anéis. Ele faz uma pequena biografia do autor e comenta sobre aspectos de sua obra mais conhecida. Sabedoria, amizade, ecologia, bem e mal: a obra do grande literato inglês fala sobre isso e muito mais!

O vídeo está dividido em quatro partes:

Parte I:


Parte II:


Parte III:


Parte IV:

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Religião, Revelação, pseudo-religião

vida

Alguns trechos do sexto bate-papo do escritor Yuri Vieira com o filósofo e jornalista Olavo de Carvalho sobre religiões, revelação, transcendência, seitas, sociedades secretas, formação do feudalismo. Os grifos são meus.

Este bate-papo é interessante para pensar em alguns dicursos insanos de gente que não conhece nada sobre o assunto, mas que ainda assim não deixa de opinar à vontade! E suas opiniões são sempre baseadas em idéias de gente desonesta, mal-intencionada, confusa, iludida ou até mesmo psicótica.



Yuri: você faz uma diferenciação entre religiões e seitas usando o critério da revelação, não é?

Olavo: se você quiser distinguir o que é uma religião, tomando o conceito de religião no sentido mais elástico e já não muito exato, ainda assim você pode distinguir do que é uma pseudo-religião, uma falsificação, porque uma religião tem um conjunto de elementos sem os quais não perfaz, ou seja, as religiões são origens de civilizações, se você não tem ali elementos suficientes para sustentar uma civilização inteira, não é uma religião de maneira alguma.

(...) a humanidade no seu conjunto, não é impossível que ela se equivoque, mas é muito improvável. Agora que ela se equivoque e que só um fulaninho depois de milênios apareça e diga ‘eu sou o primeirão a saber a verdade’, bastaria isso acontecer para que toda a estrutura da realidade imediatamente fosse uma loucura.

Yuri: então não se pode falar de uma religião evolutiva?

Olavo: pode e não pode. Por exemplo, o cristianismo na sua essência não pode evoluir porque está completo na vida, paixão, morte e ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo, aí está todo o cristianismo. Mas enquanto doutrina ele não só pode evoluir como ele evolui porque as sucessivas interpretações vão melhorando. Às vezes elas pioram também, mas de um modo geral se obtém mais clareza a respeito do que seria a expressão doutrinal da revelação originária.

Yuri: por que que a Igreja não aceita um Swedenborg, por exemplo?

Olavo: é difícil você aceitar ou rejeitar o Swedenborg, porque a obra dele é imensa, abrange uma sucessão de visões que ele teve do céu e do inferno e que não dá pra dizer nem que sim, nem que não, pode ser até aceito como uma revelação pessoal, mas como doutrina é quase impossível.

Yuri: a Bíblia está fechada, ela não aceita mais nenhuma atualização?

Olavo: a Bíblia não vai ter acréscimo, nem tem porque ter.

Yuri: então a Bíblia nunca poderia ter um livro do Swedenborg nela.

Olavo: mas isso não teria nem pé nem cabeça, porque a última “atualização” da Bíblia foram os relatos diretos da vida do Cristo, tirados ou de testemunhos diretos ou de primeira geração e ali acabou.

Yuri: para os judeus foi uma aberração juntar o Antigo ao Novo Testamento.

Olavo: mas preste atenção, o NT não é uma revelação [no sentido de conteudo ditado, revelado], é o que aconteceu, é a vida de Jesus. Então o AT e o NT não se colocam no mesmo plano, não são espécies do mesmo gênero. Por exemplo, quando Moisés desce do Monte Sinai com os Dez Mandamentos ele vem com conteúdo revelado. Moisés não é revelado, é um ser humano natural. Aquelas palavras é que são reveladas, são ditadas a ele como lei. Não existe nada disso no Cristianismo. O Cristianismo é uma série de acontecimentos e eles são propriamente uma revelação (...) no caso da vida do Nosso Senhor Jesus Cristo e vida dele inteira é revelação.

Yuri: então discutir religião é uma coisa extremamente complicada, não?

Olavo: dá pra discutir religião sim, mas toda discussão tem que ser com base no conhecimento dos fatos, com os dados da experiência. Como as pessoas não tem isso, então elas pegam palavras e imantam essas palavras com um poder mágico e discutem em torno das palavras. No Brasil isso aí é a única coisa que as pessoas sabem fazer. Elas acham que pensar é isto: é você formar uma frase, depois você falar outras frases que confirmam a mesma frase. Quando você “expreme” a frase para saber a que fato da ordem concreta aquilo corresponde, você vê que é impossível.

Yuri: na verdade é uma discussão formal...


Olavo: não, é uma discussão verbal. São palavras e as palavras provocam reações emocionais imediatas sem passar pela representação da realidade. Isso aí é o modo brasileiro de pensar, se é que isso é pensar. Isso para mim não é pensar é somente falar. O brasileiro, além de ser analfabeto, tem pouco domínio da linguagem, então quando ele consegue formar uma frase, aquilo deu tanto trabalho para ele, ele se sente tão vitorioso porque conseguiu formar a frase, que ele acredita nela. Acredita que ela [a frase] é a realidade pelo simples fato de que ele conseguiu dizê-la, conseguiu formulá-la. E a formulação da frase é o ato mágico pelo qual o sujeito acha que apreendeu a realidade. Então veja, o aprendizado da linguagem vem antes do conhecimento da vida. Um garoto de quatorze anos tem que ter mais ou menos o domínio da língua, tem que ser capaz de falar. Mas ele não tem o conhecimento dos fatos, isso aí ele demora mais trinta, quarenta, cinquenta anos para ele adquirir. Como no Brasil todo mundo é obrigado a tomar posição já na adolescência, então o sujeito tem uma série de opiniões que são construídas em torno de reações emocionais à palavra. É claro que isso pode acontecer em qualquer parte do mundo, mas como no Brasil não tem, no Brasil só existe isso. Toda discussão pública no Brasil é discussão em torno de palavras imantadas de valores emocionais. É discussão de maluco, está totalmente fora da realidade sempre.


Quarta-feira, Julho 01, 2009

"Aprendei de Mim"

por Santo Agostinho


O que significa seguir, se não imitar? Prova disso é que Cristo sofreu por nós, deixando-nos um exemplo, como diz o Apóstolo, para que Lhe sigamos os passos (1P 2, 21).

Felizes os pobres em espírito.
Imitai Aquele que, sendo embora rico, Se fez pobre por vossa causa (2Co 8, 9).

Felizes os mansos.
Imitai Aquele que disse: aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração (Mt 11, 29).

Felizes os que choram.
Imitai Aquele que chorou sobre Jerusalém (Lc 19, 41).

Felizes os que têm fome e sede de justiça.
Imitai Aquele que disse: o Meu alimento é fazer a vontade dAquele que Me enviou (Jo 4, 34).

Felizes os misericordiosos.
Imitai Aquele que socorreu o homem que fora atacado pelos salteadores e que jazia à beira da estrada, desesperado e meio morto (Lc 10, 33).

Felizes os puros de coração.
Imitai Aquele que não teve pecado e em cujos lábios não se encontrou malícia (1P 2, 22).

Felizes os pacificadores.
Imitai Aquele que disse acerca dos que O perseguiam: Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem (Lc 23, 24).

Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça.
Imitai Aquele que sofreu por vós, deixando-vos o exemplo, para que sigais os Seus passos.

Vejo-Te, ó bom Jesus, com os olhos da fé que abriste em mim, vejo-Te gritando e dizendo, como se pregasses ao género humano: «Vinde a Mim e aprendei de Mim».


Santo Agostinho (354-430), Bispo de Hipona (norte de África) e Doutor da Igreja. Tratado sobre a virgindade, 27, 35 ; PL 40 , 411, 416 (Bouchet, Lectionnaire, pp. 510-511)