quinta-feira, maio 31, 2018

Casamento, Bebês e Progressismo

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Por Lyle J. Arnold, Jr.
Traduzido por Andrea Patrícia

Muitos casamentos começam erroneamente com grandes sonhos de romance e realização



"Eu quero alguém, que ande comigo por um mar de grama, que aponte uma pequenina flor mimosa à mesma distância que eu estava para apontá-la para ele" (1).

Então as donzelas falantes de toda a parte, ressoadas por suas contrapartes masculinas de toda a parte, que esperam por alguém que irá realizar um casamento feito no céu. Olhando para a taxa global de divórcios (chamados ilusoriamente de anulamentos na Igreja), a evidência é esmagadora de que a maioria dos casamentos não é feita no céu. Ou, se foram, uniões celestiais foram rejeitadas. O caminho dessa florzinha só pode ser alcançado através da porta estreita da graça, "e poucos são os que a encontram" (Mat. 7, 14).
A maioria das pessoas não possui o heroísmo para levar uma vida celibatária. O casamento cristão, entretanto, carrega em si um poder similar aquele por trás da virgindade, que é uma renúncia tornada possível através da fé. As provações do casamento cristão e da virgindade cristã podem ser temperadas apenas pela oração e pelos Sacramentos. A renovação diária dos votos só pode acontecer através da dedicação a nosso Senhor e a Nossa Senhora.
Mutatis mutandis, uma vez que a bebida matrimonial seja absorvida, e que o vinho da dádiva sacramental de Deus dá alegria, há um gosto de "eternidade nas vestimentas do tempo" (2). O Céu espera por novos amantes para provar do banquete de Deus, e experimentar o que Shakespeare chamou de "o verdadeiro êxtase do amor" (3). Mas amor é entrega, primeiro a Deus e a Sua vontade para ser fecundo no casamento; segundo, entrega de si, não 50-50, mas 100% de um ao outro. Infelizmente, hoje acontece o oposto, onde até mesmo aqueles com recursos consideráveis rejeitam o aumento de descendentes.
Rei Lear, chocado pela ingratidão de sua filha Goneril, invoca a natureza como força para torná-la desprovida de filhos.
"Ouça, Natureza, ouça, querida deusa, ouça!
Suspenda vosso propósito, se pensas
Em tornar esta criatura fecunda!
Ao ventre dela transmita esterilidade!
Deixe secos seus órgãos de procriação;
E que de seu corpo degenerado nunca nasça
Um bebê para honrá-la" (4).


Quantos católicos desgraçam seus votos de casamento hoje, ao adotar a prece a natureza acima! Mas hoje não é necessário invocar a natureza para violar o propósito de seu Autor. Se alguém não quer filhos, ele se previne por meios artificiais ou os mata no ventre. Os repugnantes Maniqueus eram conhecidos por cuspir aos pés de mulheres grávidas, mas eles eram apenas amadores. Graças a tecnologia negra e à máquina assassina do aborto, muitas das mulheres americanas de hoje tornaram-se bestas trans-feminizadas. Elas mataram oito milhões de sua prole desde a decisão togada de 1973.
"Crescei e multiplicai-vos." (Gen. 1, 28) Esta e a seguinte repreensão do Antigo Testamento deveriam ser  bradadas por sacerdotes no púlpito: "Você quer saber sobre quem o Demônio tem poder? É sobre aqueles que casam como o cavalo e a mula" (Tob. 6, 16-17).
Infelizmente, a mensagem da Humanae Vitae para aquém desta injunção. Em vez de promover ativamente a fecundidade, a encíclica entrega uma passiva mensagem politicamente correta sobre responsabilidade marital (5). A comissão consultora papal até mesmo achou que a natalidade é um problema, e isso em seu próprio título: "’Comissão Papal para o Estudo do Problema da Família, da População e da Taxa de Natalidade'; eles não são mais bona, ou seja, “coisas boas” (6).
Como John Galvin escreve em seu artigo “Humanae vitae, Heroica, Deficiente – ou Ambas?",
"Humanae vitae constrói passo a passo um caso de controle de natalidade. Primeiro ela discute a ‘séria dificuldade’ de população, admitindo o argumento que o controle de população advoga. Depois ela fala sobre ‘paternidade responsável’ elogiando uma decisão para "evitar novos nascimentos" (7).
Em qualquer discussão sobre a Humanae vitae, ele observa corretamente que nunca se duvida de um fato singular:
“A encíclica falhou totalmente em sua missão de ensinar e persuadir católicos. As estatísticas mostram que o consumo de anticoncepcionais está em toda a parte. Dados disponíveis amplamente indicam que apenas cinco por cento das mulheres em anos férteis estão abstendo-se totalmente do uso de contraceptivos artificiais” (8).

A razão para isso é a deficiência de ensino católico sólido na Humanae Vitae (diferente de todos os documentos prévios sobre o assunto). São cinco as deficiências:
  1. Falta de referências às Escrituras,
  2. Falta de referências à Tradição,
  3. Falta de referências ao Magistério,
  4. Confiança na Filosofia Consequencialista,
  5. Confiança na Fenomenologia Personalista (9).
Pode-se imaginar que um pároco de hoje possa "esperar que cerca de 97% a 99% de seus recém-casados estão usando métodos antinaturais de controle de natalidade" (10). Bispos progressistas garantem que esse pecado mortal marital permaneça enraizado. Seguindo as diretrizes de diálogo do Vaticano, poupa-se esforço. Na história oficial da Diocese da Califórnia que eu conheço, o Bispo "exortou" os leigos a aceitar a Humanae vitae. Entretanto, ele admitiu um contra-comentário que embora a consciência católica "não possa ignorar" a encíclica, na análise final "a consciência individual tem a última palavra" (11).
Qui tacet, consentire videtur, quem cala consente. Observe a heresia de progressismo e os canais através dos quais ela opera. Se você quer manter as pessoas vivendo em estado de pecado mortal pelo uso de controle artificial de natalidade, fique em silêncio. Isto é progressismo passivo, notoriamente presente em legiões de homilias paroquiais de Domingo. Se você quer que eles permaneçam em pecado mortal, diga a eles para tomarem suas próprias decisões, o que pressupõe moral subjetiva. Isto é progressismo ativo.
Imperador Leopoldo II, com sua esposa Maria Ludovica, e 8 dos seus 16 filhos


Em Irmãos Karamazov de Dostoievsky, o Grande Inquisidor falou sobre algo que deveria ser transmitido para toda a Hierarquia Católica, de cima a baixo. O Anticristo irá inverter o Sermão da Montanha. Em vez de procurar primeiro o Reino de Deus, cabe à humanidade moderna reordenar prioridades. Primeiro vem o que é necessário para a segurança econômica moderna, depois vem o mandamento de Nosso Senhor. Aqui, então, está a marca do espírito progressista.

Quando se trata de casamento e bebês, olhe primeiro para o que isso vai custar a você. Se você "crescer e multiplicar" seus problemas não irão igualmente crescer, enquanto suas economias irão pari passu descrescer? O clero progressista criou mentalidades como: "Meu confessor me disse que: ‘A decisão individual tem a última palavra', e a minha clama por ‘responsabilidade’ familiar. O Vaticano II finalmente nos trouxe de uma era de opressão moral para a era do progresso".

Na Conferência de Caná em Chicago em 1957, quando os católicos foram ensinados sobre a verdade com clareza e simplicidade sobre o plano de Deus para o matrimônio, foi declarado:

"Felicidade e sucesso no casamento podem resultar apenas do cumprimento do plano de Deus ao estabelecer o matrimônio. Nós queremos saber, portanto, o que Deus desejou quando Ele criou `homem e mulher' e abençoou o casamento como a união de `dois numa só carne' dizendo `crescei e multiplicai-vos’ (12).

Existia então clareza, assim como o silêncio, as ambiguidades deliberadas e as mentiras desavergonhadas existem hoje. Possa Nossa Senhora recrutar mais guerreiros para lutar a "guerra suja" (13) do progressismo e pôr um fim nesse esgoto que polui as almas, exalando seu vapor da pior heresia da História.

1. Tad Tuleja, Quirky Quotations, NY, Galahad Books, 1992, p. 17.
2. Fulton J. Sheen, Three to Get Married, NY, Apleton-Century-Crofts, 1951, p. 307.
3. Ibid, p. 33.
4. Shakespeare, Rei Lear, Primeiro Ato.
5. John Galvin "Humanae Vitae, Heroic, Deficient – or Both?", Latin Mass magazine, Winter 2002, p. 10.
6. Ibid.
7. Ibid.
8. Ibid, p. 7.
9. Ibid, pp. 11-14.
10. Catholic Family News, janeiro 2006, p. 11.
11. Jeffrey M. Burns & Mary Carmen Batiza, We Are the Church, A History of the Diocese of Oakland, France, Editions du Signe, 2001, 67.
12. "Beginning Your Marriage." apud John Galvin, op. cit., p. 16.
13. Veja "Has the Pope Forgotten What Communism Is?" postado no site TIA.


Original aqui.

terça-feira, maio 29, 2018

segunda-feira, maio 28, 2018

Comentários Eleison: Aborto totalitário

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DLXVII (567) (26 de maio de 2018)



ABORTO TOTALITÁRIO 



Pode o Brexit proteger dos estrangeiros os litorais da Inglaterra,
Quando o próprio país mata os seus sem nenhuma trégua?

Ao comparar a vida natural com a vida sobrenatural, alguns podem pensar que à luta contra o aborto é dada importância demasiada. Em igualdade de condições, não se gastaria melhor o tempo e o esforço investidos nessa luta defendendo-se de alguma forma a vida da Graça em vez de limitar-se a preservar uma vida natural ainda por nascer? Mas na sociedade atual dificilmente essas condições são iguais.
É possível que seja dada importância em demasia à luta contra o aborto, já que é somente a vida natural que está sendo defendida, e não a vida sobrenatural. Em condições normais, o mesmo tempo e o mesmo esforço seriam mais bem gastos defendendo por qualquer meio a vida da graça do que defendendo a vida não nascida da natureza, mas na sociedade atual as condições não são normais. Acima de tudo, resta tão pouca fé em nosso mundo sem Deus, que falar do sobrenatural com a maioria das pessoas dos dias de hoje é como falar-lhes em grego: “Deus, céu, inferno, eternidade – do que raios você está falando?”. Mas se ainda lhes resta um pingo de decência, elas ainda podem conceber que é um crime transformar o santuário da vida, o ventre de uma mãe, em uma prisão de morte. Portanto, que Deus abençoe os católicos que fazem o que podem para impedir o aborto.

Mas atualmente eles estão enfrentando o Estado totalitário da Inglaterra. Um ativista antiaborto de muitos anos escreve que uma nova técnica de “aconselhamento nas ruas”, que se envolve mais diretamente com as mulheres que vêm a abortar, provocou uma reação draconiana do sistema, sem dúvida porque foi eficaz, pelo menos em curto prazo. Na primeira PSPO (Public Space Protection Order [Ordem de Proteção do Espaço Público]) do país, o Conselho local votou a favor de confinar os antiabortistas em uma área de gramado a cem metros do local onde se realizam os abortos, onde eles não devem ser mais do que quatro, e sem que lhes seja permitido: exibir cartazes maiores que o tamanho A3; mencionar aborto, bebê, mãe, feto, alma, matar, inferno ou assassinato; exibir qualquer imagem; emitir falas ou músicas amplificadas, gritar mensagens relacionadas ao aborto; e até mesmo rezar em voz alta. Essas restrições entraram em vigor em 23 de abril, e poderiam ser aplicadas mais amplamente por este Conselho local e também por outros. As multas por desafiar as restrições podem chegar a mil libras esterlinas.

O que pode-se dizer? A Inglaterra está cometendo suicídio. O Conselho local decidiu impor as restrições em 23 de abril possivelmente porque é o Dia de São Jorge, quando a Inglaterra celebra seu santo padroeiro, como se proteger o aborto fosse um ato de patriotismo ou de amor ao país! Mas o que é mais antinatural para uma mulher do que destruir o fruto de seu próprio ventre, ou mais antissocial para um homem do que encorajá-la a fazê-lo? Quão longe deve uma mulher ter chegado no caminho da autodestruição para consentir no assassinato literal de sua maternidade, o principal propósito de sua existência depois da salvação de sua própria alma. “Contudo, a mulher será salva pela geração dos filhos, se permanecer na fé, na caridade e na santidade, unidas à modéstia”, diz a Escritura (1 Tim. 2, 15), que é a Palavra não de um suposto misógino, mas de Deus.

Fiel ao seu gênio, Shakespeare se apoderou da essência da autodestruição da mulher em algumas linhas que ele coloca na boca de Lady Macbeth (Ato 1, Cena 5) enquanto ela se esforça para convencer o marido a assassinar Duncan, seu rei, primo e amigo, enquanto este estivesse como convidado sob o teto de Macbeth. Em palavras aterrorizantes, ela pede aos demônios que lhe tirem toda a ternura e compaixão feminina:

“...Vinde a mim, espíritos

Que inclinais sobre pensamentos mortais! Tirai-me aqui o sexo

E preenchei-me dos pés ao topo da cabeça,

Da mais terrível crueldade, tornai meu sangue espesso,

Bloqueai todo acesso e passagem para o remorso

Para que nenhuma investida compungida da natureza

Abale meu propósito decaído, nem mantenha paz entre

A vontade e o gesto! Vinde a meus seios maternais

E fazei de meu leite fel, seus executores de crimes...

Ela prossegue oprimindo os escrúpulos de Macbeth, e ele mata Duncan, a primeira de muitas outras vítimas.

Leitores, por favor, orem pela Inglaterra, que foi uma vez o Dote de Maria, e ainda é o objeto de seu cuidado materno.

Kyrie eleison.

segunda-feira, maio 21, 2018

Comentários Eleison: Sonhos Piedosos - II

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DLXVI (566) (19 de maio de 2018)


Sonhos Piedosos  – II


A política não pode resolver os infortúnios da Igreja.
Somente a Fé pode derrubar seus adversários mundanos.

Se há algo certo sobre a Tradição Católica e o Concílio Vaticano II é que eles são irreconciliáveis. É tentador pensar que possam ser reconciliados, certamente porque a letra dos dezesseis documentos do Concílio inclui certo número de verdades católicas. Mas o espírito do Concílio se dirige a uma nova religião centrada no homem, e, como o espírito inspirou a letra dos documentos, mesmo as verdades católicas que contém estão dominadas pelo “aggiornamento” conciliar, e tornaram-se parte deste. De fato, as verdades católicas (e a hierarquia) foram usadas pelos modernistas como transmissoras de seu veneno liberal, como um cavalo de Troia para suas heresias. Portanto, mesmo as verdades católicas estão envenenadas nos documentos conciliares. Assim, em 1990 Dom Lefebvre viu e disse que o Vaticano II estava 100% infectado pelo subjetivismo, enquanto em 2001 Dom Fellay disse que os documentos do Vaticano II são 95% aceitáveis.

É verdadeiramente tentador fazer de conta que a Tradição Católica e o Vaticano II são reconciliáveis. Por este caminho não preciso mais ficar dividido entre seguir ao mesmo tempo a Autoridade Católica e a Verdade Católica, porque desde o Concílio, como disse o Arcebispo, os católicos foram forçados ou a obedecer aos Papas conciliares e distanciarem-se da Tradição Católica, ou a separar-se da Tradição e “desobedecer” a estes Papas. Daí a tentação de fingir de um jeito ou de outro que a Tradição e o Concílio são reconciliáveis. Mas o fato de que eles são irreconciliáveis é a realidade mais importante que governa hoje a vida da Igreja, e continuará sendo assim até que a Autoridade da Igreja volte à Verdade Católica de sempre.

Neste meio tempo, entretanto, o atual Superior Geral da Fraternidade do Arcebispo, Dom Fellay, está convicto de que a Tradição Católica e os romanos conciliares podem se reconciliar entre si, e desde que aprovou o GREC em 1990, esforçou-se por reuni-los. Seu problema é que não entende como o modernismo mantém as aparências católicas para que eles atuem como um cavalo de Troia para enganar almas católicas, enquanto não há um verdadeiro cavalo católico debaixo do que aparenta ser um. Mas Dom Fellay acredita que o cavalo falso tem todos os ingredientes de um cavalo verdadeiro, de modo que, com o terno e amoroso cuidado da Fraternidade, se tornará mais uma vez um cavalo católico. Muitos tradicionalistas permitiram-se crer nesta política equivocada e seguir sua liderança em direção aos romanos conciliares, mas os romanos, de sua parte, não foram enganados. Eles jogaram com sua política fazendo aparentes concessões à Fraternidade e à Tradição (por exemplo, autorizações para confessar, ordenar e realizar matrimônio) e simulando repetidamente que ele está à beira de obter reconhecimento canônico para a Fraternidade, de modo que “só falta o selo para o acordo’. Mas, diferentemente dele, os romanos têm claro em suas mentes que a Tradição Católica é irreconciliável com o Concílio deles, e é por isso que todas as vezes em que a levaram até à beira, insistiram para que a Fraternidade se submeta ao seu Concílio.

Entretanto, a cada “concessão” que Dom Fellay aceitou para a Fraternidade, os romanos têm-no feito entrar ainda mais em sua armadilha, e ficou difícil para ele voltar atrás. A cada “concessão”, o acordo com Roma se tornou mais e mais uma realidade prática, com ou sem o “selo final”. Ao segurá-lo, por culpa própria de Dom Fellay, os romanos podem jogar com ele como um pescador joga com o peixe – pois como ele pode agora desfazer as “concessões” dadas e admitir que seus vinte anos de política foram um erro? – Mais ainda, que sua política foi um erro desde o princípio? Ao carecer da fé do Arcebispo, ele não entendeu corretamente o problema da Igreja e o “problema” da Fraternidade, e confiou na política humana para tentar resolver ambos. Mas, é claro, os romanos com dois mil anos de experiência foram os políticos mais hábeis – “Sua Excelência, basta de jogos. Por vinte anos fizemos todas as concessões, o senhor não fez nenhuma (grande mentira, já que aceitar as “concessões” conciliares é por si só fazer uma concessão a Roma). Antes de julho, ou o senhor aceita o Concílio, ou nós o excomungamos e mostramo-lo ao mundo como um fracasso. Escolha!”

Esta é sem dúvida uma versão nua e crua de como os astutos romanos podem pressionar o Superior Geral, mas ele é que nunca deveria ter mendigado à Autoridade sem Verdade. No caso da Igreja Católica, uma Autoridade sem Verdade é, com efeito, uma Autoridade ineficaz.
Kyrie eleison.

* Traduzido por Leticia Fantin.

quinta-feira, maio 17, 2018

Mulheres "oprimidas" pela Igreja?

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"Se você pode liderar um pais, declarar guerra ou escrever um livro, então você não é ''oprimida''. E a veneração da Igreja Católica por tantas mulheres históricas refutam as alegações de que a Igreja Católica é misógina. A maioria dessas mulheres foram apenas mães, isso significa que você não precisa ser uma guerreira feito Joana D'arc para ser uma grande mulher, ser mãe é glorificante e de longe não é opressor, Só há gloria na criação de seus filhos, a não ser que você ache que ficar com sua família e cuidar de seus próprios filhos seja opressivo demais pra você".

A Decadência da Universidade

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Por Fausto Zamboni




A universidade medieval estava “à altura do seu tempo”, pois reunia o saber mais alto, na época, direcionando-o para salvar do “naufrágio vital”; criando um cammin na selva oscura da vida, e não um simples ornamento, como é o que hoje chamamos “cultura geral”.

Tal função foi-se perdendo ao longo da história, para ceder lugar a atividades mais especializadas. O resultado é que o homem médio, diz Ortega, aquele que dirige a sociedade democrática nas suas diversas esferas, é inculto, conhecedor apenas do objeto da sua especialidade e ignorante em todo o resto; terá um comportamento deplorável em tudo que transcende a sua estrita esfera profissional.

A universidade se modificou profundamente no decorrer do último século, e não é possível entender a situação dos cursos de Letras sem o conhecimento destas transformações. Além da grande expansão, acompanhada de mudanças fundamentais na estrutura e nas finalidades, houve uma multiplicação dos cursos e das especialidades e a perda do senso de unidade. Vivemos numa época de fragmentação de todos os níveis da vida e a universidade – que agora é, frequentemente, chamada de multiversidade ou pluriversidade – está trocando o todo pelas partes, preocupando-se antes em capacitar especialistas e técnicos do que em educar. Toynbee (1975) via a especialização como algo desfavorável, porque a educação necessita de um conceito integral de realidade: para governar o mundo e a própria vida não se requer um saber especializado, mas o mais abrangente possível.

Predomina uma nova figura – o especialista 89 – que não se confunde com as antigas categorias dos sábios e ignorantes. É, como diz Ortega y Gasset (2002, p. 183), “um sábio ignorante [...] que se comportará em todas as questões que ignora, não como um ignorante, mas com toda a petulância de quem na sua questão especial é um sábio”. Nos problemas mais decisivos, que se relacionam ao sentido da vida, como a política, a arte e a religião, “tomará posições de primitivo, e ignorantíssimo; mas as tomará com energia e suficiência, sem admitir – e isto é o paradoxal – especialistas dessas coisas” (ORTEGA y GASSET, 2002, p. 184).

No lugar do antigo predomínio da filosofia e da teologia, que davam uma forma organizada e hierárquica ao conjunto do conhecimento, houve uma multiplicação de ciências emancipadas do controle unificador da filosofia. O resultado, como notou o professor Clarck Kerr (1963), é que a universidade se tornou um conjunto heterogêneo de instituições vagamente relacionadas com a educação superior, mas unidas por problemas comuns de estacionamento.

Na falta de clareza quanto aos objetivos, diversidade tornou-se a palavra mágica que justifica a variedade desordenada. Não que a diversidade, em si, seja um mal; pelo contrário, a possibilidade de escolha é desejável, mas quando a diversidade torna-se um fim em si mesmo, é porque ninguém acredita seriamente no valor de nenhuma das alternativas. O que temos, nesse caso, é uma profunda descrença na possibilidade de conhecer a verdade, que se traduz numa tolerância a diversos modelos igualmente duvidosos. Seria mais correto, então, dizer que se trata de conformismo, pois “a única diversidade verdadeira vem da diferença de princípios sobre os fins últimos — reflexão séria e convicção sobre, por exemplo, se a salvação, a sabedoria ou a glória é o melhor” (BLOOM, 1990, p. 375).

Enquanto as antigas universidades apresentavam uma visão dos objetivos da vida, visando formar o homem devoto, sábio ou prudente, os estudos atuais evitam tratar seriamente as questões mais importantes: quando falam dos grandes temas — como o sentido da vida —, os professores falam como homens privados, diletantes, sem qualquer conexão com o assunto de suas especialidades (BLOOM, 1990).

Não há uma visão que unifique a grande diferença de métodos e concepções do mundo entre as humanidades e as áreas técnicas, que “não têm nenhuma ligação vital, e sua relação, tensa, se dá mais na área administrativa” (BLOOM, 1990, p. 362). O ensino de cultura geral, segundo Carpeaux (1999, p. 217-8), é uma das questões mais graves da vida espiritual da nossa época. Limitada apenas ao ensino secundário, numa época de pouca maturidade do aluno, é uma cultura puerilizada, adaptada à sua faixa etária. Depois, no ensino superior, justamente no momento em que chegam à maturidade, há apenas conhecimento especializado. O contato com a literatura, a história e a filosofia se dará apenas através da mídia: toda a cultura desse homem será, então, puerilizada ou massificada90.

São esses homens, adestrados na sua especialidade e infantis em todo o resto, que ditarão a opinião média na sociedade, ocupando os espaços e opinando sobre tudo, “com a autoridade que o grau acadêmico lhe confere [...] Esta catástrofe irrompe sob o signo do progresso91” (CARPEAUX, 1999, p. 217-8).

Ao abandonar a sua missão original, a universidade, privilegiando mais a especialização do que a síntese do conhecimento, provocou um sentimento de insegurança nos intelectuais, especialmente nas humanidades, que requerem uma visão abrangente. Para defender-se dessa sensação de precariedade, os professores tratam como inexistente ou irrelevante a unidade do conhecimento.

Como resultado, proliferam trabalhos especializados sobre assuntos os mais diversos, importantes e secundários, mas falta um elemento imprescindível, que é a capacidade de síntese, que agora só se produz por acaso. A ciência precisa, diz Ortega y Gasset (2002, p. 185), “de tempo em tempo, como orgânica regulação de seu próprio incremento, um trabalho de reconstituição, e [...] isso requer um esforço de unificação, cada vez mais difícil, que cada vez complica regiões mais vastas do saber total”.

Não se trata, como observa Gusdorf (1970, p. 282), de produzir algo como uma enciclopédia no sentido moderno, uma organização quantitativa do conhecimento, sem unidade orgânica, “um gigantismo que ultrapassa em muito a medida humana”. Enkiklos  para os gregos, é a forma circular, símbolo da perfeição, à qual tende a síntese vital dos conhecimentos.

Para Allan Bloom, essa crise é resultado de "...uma incoerência e incompatibilidade entre os primeiros princípios com os quais interpretamos o mundo, uma crise intelectual da maior magnitude, que corresponde à crise da nossa civilização. [...] a crise consiste [...] à nossa incapacidade em discuti-la ou mesmo reconhecê-la. A educação liberal floresceu quando preparou o caminho para a discussão de uma visão unificada da natureza e do lugar do homem dentro dela, que os melhores espíritos debateram ao mais alto nível. Entrou em decadência quando o que ficava para além dela eram apenas especialidades, cujas premissas não levam a nenhuma visão global. O mais elevado é o intelecto parcial: não há sinopses." (BLOOM, 2001, p. 294).

Notas:

89  Sobre a fé excessiva na especialização, Maritain (1968, p. 48) nos alerta que “se nos lembrarmos que o animal é um especialista perfeito, fixando-se toda sua capacidade de aprender numa determinada tarefa a ser executada, concluiremos que um programa de educação que visasse apenas formar especialistas [...] teria como resultado, verdadeiramente falando, a animalização progressiva da mente humana [...] o culto excessivo da especialização desumaniza a vida do homem”.

90 Carpeaux acreditava que a preparação profissional deveria caber ao ensino secundário, para que as universidades pudessem dedicar-se à cultura superior.

91 Carpeaux escreve, contudo, numa época em que o ensino secundário proporcionava a leitura dos clássicos da literatura e a aquisição de pelo menos uma língua clássica. Hoje, o homem médio é desprovido até da cultura puerilizada; é apenas pueril e inculto.



(Extraído da Tese de Fausto Zamboni: Literatura, Ensino e Educação Liberal, p. 90 a 93. Disponível aqui:



domingo, maio 13, 2018

Comentários Eleison: Sonhos Piedosos - I

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DLXV (565) (12 de maio de 2018)




Sonhos Piedosos – I


Pobre Menzingen perdida em seus sonhos piedosos.
A gentileza neomodernista não é o que parece.


Em junho do ano passado um confrade na França escreveu um bom artigo sobre se a Fraternidade Sacerdotal São Pio X deveria ou não obter das autoridades da Igreja em Roma um status canônico que protegeria os interesses da própria Fraternidade. Obviamente, o quartel general desta em Menzingen, na Suíça, acredita que obterá tal status, e se o atual Superior Geral for reeleito para um terceiro mandato em julho, esse é o objetivo que a Fraternidade continuará a perseguir. No entanto, é bastante menos óbvio que esse objetivo deva ser perseguido. Um argumento de oito páginas inteiras de Ocampo nº 127 de junho de 2017 está resumido abaixo em uma única página.

A posição do artigo é a de que a Fraternidade não pode de modo nenhum colocar-se sob as poderosas autoridades da Igreja imbuídas dos princípios da Revolução Francesa tal como incorporados no Vaticano II, porque são os Superiores que moldam os assuntos, e não o contrário. Dom Lefebvre fundou a Fraternidade para resistir à traição da fé católica pelo Vaticano II. Ao submeter-se aos conciliaristas, a Fraternidade estaria unindo-se aos traidores da Fé.

As autoridades da Igreja são os bispos diocesanos e o Papa. Quanto aos bispos, aqueles francamente hostis à Fraternidade podem ser menos perigosos do que aqueles que podem ser amigáveis, mas não entendem as exigências absolutas da Tradição Católica, que não são apenas exigências da Fraternidade Sacerdotal São Pio X. Quanto ao Papa, se suas palavras e ações o mostram trabalhando contra a Tradição Católica, a qual é seu dever defender, então os católicos têm o direito e o dever de protegerem-se a si mesmos tanto contra o modo pelo qual ele está abusando de sua autoridade, como contra a própria necessidade inata deles de seguir e obedecer à autoridade católica. Ora, em teoria, um Papa conciliar pode prometer uma proteção especial para a Tradição da Fraternidade, mas na prática ele deve, por suas próprias convicções, esforçar-se para que a Fraternidade reconheça o Concílio e abandone a Tradição. Dada então sua grande autoridade como Papa para impor sua vontade, a Fraternidade deve manter-se fora de seu caminho.

A experiência mostra que os tradicionalistas que se incorporam à Roma conciliar podem começar simplesmente guardando silêncio sobre os erros conciliares, mas geralmente acabam por aceitar esses erros. O acordo inicial para ficarem silenciosos é, no final das contas, fatal para sua profissão de fé. E pelo declínio natural de um compromisso a outro, eles podem até acabar perdendo a Fé. Foi a Fé que fez o Arcebispo Lefebvre dizer que, a menos que os romanos conciliares voltem à doutrina das grandes encíclicas papais antiliberais – o que eles não fizeram desde o seu tempo e não estão prestes a fazer no momento –, um diálogo maior entre os romanos e os tradicionalistas é inútil, e – ele poderia ter acrescentado – positivamente perigoso para a Fé.

O artigo também lista oito objeções a essa posição, apresentadas aqui em itálico com as mais breves das respostas:

1 Com a Prelazia Pessoal, Roma oferece à Fraternidade uma proteção especial. Proteção dos bispos diocesanos, talvez, mas não da autoridade suprema do Papa na Igreja.  2 As exigências de Roma para o acordo vêm diminuindo. Somente porque as concessões à cooperação prática são mais eficazes para obter a submissão dos católicos, como bem sabem os comunistas. 3 A Fraternidade insiste em ser aceita por Roma “tal como somos”, isto é, Tradicional. Para os Romanos, isso significa “como vocês serão, uma vez que a cooperação prática tenha feito vocês verem como somos bons”. 4 Assim, a Fraternidade continuará a atacar os erros do Concílio. Nada há de mudar. Roma pode em seu tempo insistir em mudanças cada vez maiores. 5 Mas o Papa Francisco gosta da Fraternidade!  Tanto quanto o grande Lobo Mau gostava de Chapeuzinho Vermelho! 6 A Fraternidade é virtuosa demais para deixar-se enganar por Roma. Tola ilusão! O próprio Arcebispo foi inicialmente enganado pelo Protocolo de 5 de maio de 1988. 7 Várias comunidades tradicionais incorporaram-se à Roma sem perder a verdadeira Missa. Mas várias delas passaram a defender erros importantes do Concílio. 8 O Papa Francisco como pessoa está no erro, mas sua função é sagrada. Reconhecer a sacralidade de sua função não pode-me obrigar a seguir seus erros pessoais, isto é, o mau uso de sua função. A verdadeira Fé está acima do Papa.

   
Kyrie eleison.

       *Traduzido por Cristoph Klug.

sexta-feira, maio 11, 2018

A educação é possível tanto na escola como fora dela

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Antes do texto de Zamboni, faço um comentário:

Se nós tivéssemos um estado católico de fato, a história seria outra. Cristo deve reinar em toda a Sociedade, e as liberdades individuais só podem existir de fato sob a luz da Igreja, das Leis de Deus: liberdade para escolher o Bom, o Belo e o Verdadeiro.

Tenham em mente estas palavras ao lerem o texto abaixo.

Para saber mais sobre a escola moderna (e como ela é diferente da escola fundada pela Igreja), leia este post de meu blog sobre educação domiciliar:
Homeschooling, Escolas, Católicos, Protestantes


Trecho do Ensaio de Zamboni:


(...) nem sempre os “direitos” nominalmente adquiridos – como é o caso da obrigatoriedade escolar – são uma garantia de mais liberdade individual nem de maior participação democrática. O pressuposto da maioria das reformas educacionais é que um pequeno grupo de pessoas sabe o que é o melhor para o restante da população, e pode usar a força para distribuir seus benefícios.

A escola geralmente foi implantada desde cima, e em alguns casos até contra a vontade da população “beneficiada”. Frequentemente, foi usada como veículo de doutrinação religiosa e política, em regimes democráticos e autoritários, e como preparação de mão-de obra qualificada para a indústria. Seja nas democracias, seja em regimes tirânicos, a escolarização universal mostra um afã de uniformizar, suprimir diferenças e vozes discordantes; enfim, tende a um controle total, chegando até ao desejo de moldar a mente e o comportamento dos cidadãos.

O que vemos, na Europa, Estados Unidos e Brasil, é um percurso crescente rumo à centralização e diminuição das liberdades no campo educacional. Se a educação é concebida em termos econômicos, como alavanca para o desenvolvimento e redução da pobreza, então se trata de um caminho coerente84. O Estado, nesse caso, tem o dever de buscar a solução mais eficaz: educação compulsória, progressão continuada etc. A liberdade humana e as exigências intelectuais, então, são consideradas menos importantes que a prosperidade; o homem é uma peça na engrenagem social concebida pelo homo economicus85. Se o Estado, porém, sob o pretexto de cuidar do bem-estar social, usa a instrução para tornar-se demasiado forte e eficiente, acaba por transformar os cidadãos em fracos, dependentes e manipulados.

A economia, contudo, não é a medida de todas as coisas, e as tentativas dos governos de erradicar o analfabetismo e a pobreza não devem suprimir as liberdades individuais, especialmente na esfera educativa. Devemos reafirmar, como Isaiah Berlin (2005, p. 300), “uma rejeição violenta da noção de que os homens devem ser fabricados como tijolos para as estruturas sociais projetadas ou para o benefício de algum grupo ou líder privilegiado”.

Apesar de tudo, a confiança no potencial da escola e na capacidade do Estado de conduzir a instrução não foram abaladas, mas, pelo contrário, são consideradas inquestionáveis, lançando ao descrédito a simples possibilidade de contestá-las. Soa estranha a reivindicação das escolas, ou mesmo dos pais, de adotar modelos educativos próprios, sem interferência da regulamentação estatal. No entanto, o fato é que a Educação, até há pouco tempo, gozava de autonomia em relação ao poder político.

Não precisamos endossar a descrença absoluta na instituição escolar; ela é produto de uma época que viu a desfiguração das escolas e a sua instrumentalização para fins políticos. Muitos dos críticos da escola não conseguiram resultados positivos dignos de nota, com suas propostas alternativas. Sobretudo, não devemos decair na crença de que a criança, deixada livre para aprender, poderá adquirir uma educação formal por conta própria, com facilidade. A educação formal pressupõe o uso de professores ou livros que a oriente, mesmo no caso da educação em casa.

A educação é possível tanto na escola como fora dela. A história mostra que é possível a existência de escolas de alto nível: os jesuítas, durante alguns séculos, deram, dentro de edifícios escolares, uma educação de qualidade à elite intelectual europeia. Sócrates, porém, ensinava em qualquer lugar e ocasião que se lhe apresentasse; o filósofo Santo Alberto Magno lecionava em praça pública. Isso mostra como a total falta de infraestrutura e de recursos financeiros não é impedimento para uma boa educação, e que esta não se confunde com o aparato material criado para apoiá-la.

Notas:

84 A educação é vista sob a lógica da relação custo-benefício, um investimento financeiro em vista do retorno, como podemos ver nesta declaração do Banco Mundial, o maior financiador da educação primária em todo o mundo: “a educação é a pedra angular do crescimento econômico e do desenvolvimento social e um dos principais meios para melhorar o bem-estar dos indivíduos. Ela aumenta a capacidade produtiva das sociedades e suas instituições políticas, econômicas e científicas e contribui para reduzir a pobreza, acrescentando o valor a eficiência ao trabalho dos pobres...” (apud TORRES, 1996, p. 131). Estão ali ausentes os aspectos não quantificáveis, que constituem, talvez, a parte mais importante da educação.

(Extraído da Tese de Fausto Zamboni: Literatura, Ensino e Educação Liberal, p. 79, 80. Disponível aqui: