segunda-feira, março 27, 2017

Comentários Eleison: Declinando lentamente

Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DVI (506) – (25 de março de 2017):

DECLINANDO LENTAMENTE I

Se eu não vivo à altura do que penso,
Para o nível de minha vida estarão meus pensamentos em descenso.


                Aqui segue um testemunho abreviado dos Estados Unidos, que coloca o dedo na ferida:

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X mudou sua imagem (“rebranded”), e não é mais a mesmo que era. Tal como a FSSPX original pertencia à Igreja Católica, assim a Neofraternidade pertence à Neoigreja. Para os mais velhos o suficiente para recordar, é como se fosse novamente o Vaticano II, mas ainda pior, porque desta vez não há ataque doutrinário direto nem um Concílio importante; em vez disso, a revolução está sendo propagada por uma lenta, quase imperceptível, transformação social.

Por enquanto mantém-se as aparências de Tradição, o Movimento Tradicionalista está sendo lentamente mudado desde dentro. As coisas externamente e materialmente parecem ser mais bem-sucedidas do que nunca, com quantidades crescentes de dinheiro e edifícios, mas interna e espiritualmente há decadência, porque a doença do modernismo está infectando imperceptivelmente as fileiras. Uma variedade de sintomas indica que o modernismo é o mesmo, como por exemplo, os novos e jovens sacerdotes de rostos felizes da Fraternidade que são como os "sacerdotes da paz" dos anos 60 e 70, como o chamava o grande Cardeal Mindszenty. Mas, ao contrário da geração anterior de sacerdotes, eles não têm masculinidade, assim como alguns dos principais professores leigos da Neofraternidade.

Assim, a Missa pode ainda ser Tradicional, mas toda a cultura ao seu redor é Novus Ordo. Os tradicionalistas querem preservar a Antiga Missa e os Sacramentos, e alguns também a moral do Catecismo, mas ao mesmo tempo eles querem ter tudo mais que o mundo moderno tem para oferecer. Isso faz com que muitos chamados católicos tradicionais, fora da Missa e dos Sacramentos, sejam em grande parte indistinguíveis dos suas contrapartes no resto do mundo moderno. As estatísticas são as mesmas quando se trata de divórcio, nulidade, "mães solteiras", etc. Se os tradicionalistas querem ir com o mundo moderno, não podem ficar com a verdadeira religião. É um ou outro.

Tal como é, o Movimento Tradicionalista está agora se abrindo ao mundo, a fim de se tornar socialmente aceitável e normal; e o processo de modernização está em andamento, lenta mas seguramente. Há uma nova e jovem geração a cargo, e eles estão mudando as coisas. Os velhos, excêntricos, embaraçosos intransigentes foram substituídos, e a Tradição tem uma nova imagem, um rosto jovem, feliz e amigável. A Igreja oficial teve seu “aggiornamento” há cinquenta anos, a Fraternidade está sendo atualizada hoje. A velha geração que lutou tantas batalhas para preservar as coisas está agora sendo substituída por uma nova geração que nunca conheceu o Novus Ordo, ou como ele veio a ser, e nunca teve de lutar por nada. Os jovens de hoje tendem a ter crescido em uma bolha tradicional, e têm muito pouco conhecimento da guerra de ontem, base da de hoje. Antes do Concílio, Bella Dodd testemunhou a infiltração comunista na Igreja. Estamos certos de que o mesmo não está acontecendo agora com o movimento tradicionalista?

Era tudo muito previsível. Não sendo infalível nem indefectível, a Fraternidade passa agora pelo que a Igreja atravessou há cinquenta anos – infiltração, compromisso, desintegração e o mesmo processo de autodemolição. O Arcebispo Lefebvre teria notado a mudança radical imediatamente, mas um grande número de sapos na panela da Fraternidade nem sequer notou o quanto a temperatura da água está subindo. O Arcebispo "transmitiu o que recebeu", mas como pode a nova geração transmitir o que não está mais recebendo? Portanto, ouvimos agora que a "inevitável reconciliação" está ao alcance da mão. A FSSPX será aceita como parte da Neoigreja, e, inversamente, terá de aceitar a Neoigreja. Agora será apenas uma das muitas capelas laterais do Panteão da Nova Ordem Mundial. E, quanto à "reconciliação", qual lado cedeu ao outro? A Igreja Conciliar tornou-se católica? Longe disso!

Veja na próxima semana outros exemplos da mesma testemunha.


Kyrie eleison.

As portas de Wiktor Bernatowicz





sábado, março 25, 2017

Meu Senhor, muito obrigada pela Virgem Santíssima!



Meu Senhor, meu Deus, muito obrigada por ter criado a Virgem Santíssima, Mãe Amável, tão pura, tão misericordiosa! quisera eu amá-la por todos aqueles que ainda não a amam!

Meu Deus, o Senhor que ama a pureza só poderia ter criado para ser mãe do Vosso Filho uma mulher puríssima, imaculada, perfeita! Que riqueza! O Senhor que criou o céu, o mar, todo o universo tão lindo, criou também a mais bela mulher de todos os tempos. O Senhor quis nos dar como mãe Vossa filha mais amada, esposa do Espírito Santo, a mãe de Nosso Senhor Jesus Cristo, O Salvador! Como poderei agradecê-Lo o bastante? Sinto que por mais que eu agradeça, ainda não é o bastante, mas não importa, agradeço assim mesmo.

Obrigada, Senhor! Que esta Mãe Amorosa rogue por todos nós, principalmente pelos que mais precisarem.


Salve 25 de março! Salve Maria Santíssima!

quinta-feira, março 23, 2017

Chesterton lança seu encantamento sobre Tolkien

Tradução do artigo Chesterton Casts a Spell on Tolkien, escrito por Joseph Pearce.

Traduzido por Ageu Marinho
O grande G. K. Chesterton teve um impacto formidável em mim para que abraçasse a doutrina Cristã. Não seria, de fato, exagero algum dizer que ele foi a maior influência individual, abaixo da graça, na minha conversão. Assim, fiquei extremamente grato por descobrir, durante as pesquisas para o meu livro Literary Converts [nota do tradutor: algo como Os Convertidos pela Literatura], que Chesterton também fora uma influência significativa nas conversões de muitos outros, incluindo escritores como Maurice Baring, Ronald Knox, e Graham Greene, bem como o ator Sir Alec Guinness.
Ele também foi uma influência marcante sobre C. S. Lewis, que havia descoberto Chesterton durante a Primeira Guerra Mundial, enquanto se recuperava num hospital de campanha, na França. Pouco depois foi a obra seminal de Chesterton, O Homem Eterno, que permitiu a Lewis enxergar o panorama de história Cristã que estava colocado diante dele de uma forma que fizesse sentido, uma epifania que foi um marco significativo na jornada de Lewis para a conversão Cristã. Foi, todavia, aquela famosa “longa conversa noturna” entre Lewis, J. R. R. Tolkien e Hugo Dyson em setembro de 1931 que se provou decisiva para a aceitação do Cristianismo por parte de Lewis. O tópico daquela “conversa noturna” foi o que eu chamo de “ a filosofia do mito de Tolkien”, uma compreensão da inestimável verdade a ser descoberta nos mitos e contos de fadas. Foi essa filosofia subjacente que daria forma ao trabalhos de Lewis e Tolkien nos anos que se seguiriam, e desse modo abençoaram a civilização com jóias literárias, tais quais O Senhor dos Anéis e As Crônicas de Narnia. Embora essa “conversa noturna” seja merecidamente celebrada por ter semeado as sementes de tão belos frutos literários, não é tão amplamente sabido que a “filosofia do mito de Tolkien” é ela mesma um fruto das sementes plantadas por Chesterton na sua obra Ortodoxia, publicada em 1908, quando Tokien tinha dezesseis anos de idade.
Quando jovem, Tolkien foi um ávido leitor de Chesterton. Ele deve ter conhecido bem a obra Ortodoxia. Não é de surpreender, portanto, que muitas das convicções próprias de Tolkien a respeito da filosofia do mito, segundo foram delineadas em sua importante preleção publicada On Fairy Stories [N. do T.: Sobre Contos de Fadas, ensaio contido no livro Árvore e Folha], são encontradas no capítulo da Ortodoxia intitulado The Ethics of Elfland [N. do T.: livremente traduzido neste texto como A Ética no País das Fadas]. Pegue, por exemplo, a asserção de Tolkien na sua preleção, de que os contos de fadas “estavam evidentemente envolvidos em primeiro lugar não com a possibilidade, mas com a qualidade de ser desejável,” e a compare com estas linhas de A Ética no País das Fadas:
As coisas em que eu mais acreditei então [quando ele era uma criança], as coisas em que eu mais acredito agora, são aquelas coisas chamadas contos de fadas. Elas parecem-me coisas completamente razoáveis. […] O país das fadas não é nada além do que o território ensolarado do senso comum. Não é a terra que julga o céu, mas o céu que julga a terra; então ao menos para mim não era a terra que criticava o país das fadas, mas o país das fadas que criticava a terra.
A asserção de Tolkien de que os mitos ou contos de fadas estão principalmente interessados em ser desejáveis encaixa-se com a asserção de Chesterton segundo a qual o país das fadas encaixa-se com o céu, no sentido de que o país das fadas é o domínio da retitude moral, o reino da bondade, verdade e beleza, o qual todo bom homem anseia. É o céu (o lugar da perfeição permanente) que julga a terra (o lugar da imperfeição transitória). É o bem que julga o mal (e é bom que ele o faça). É o verdadeiro que julga o falso; é o belo que julga o feio.
Esta verdadeira ordem das coisas, a qual o céu e o país das fadas compartilham, é o modo como as coisas deveriam ser, é o que ajusta os nossos eixos morais, o que põe as coisas de volta ao caminho certo, ou com o lado certo virado pra cima. Se esta nobre ordem das coisas é revertida de forma que o mal presida o julgamento do bem e o falso julgue o verdadeiro, nós estamos na presença do caos que o dragão traz, ou do feitiço maligno da bruxa. Dragões e bruxas adotam muitas formas, no nosso mundo assim como no mundo das fadas. Como Tolkien declara, a verdadeira ordem das coisas encontrada nos contos de fadas é algo para ser desejado, especialmente num mundo como o nosso, que está cheio de dragões e em desesperada necessidade de caçadores de dragões. Esta qualidade de ser desejável que têm os contos de fadas não apenas se encaixa com as coisas do céu que podem ser ditas “dove-winged”, para tomar emprestada uma expressão de Hopkins, à medida que é uma semente de desejo plantada pelo Espírito Santo para nos guiar até Ele. Nesse sentido, aqueles que viram suas costas para os contos de fadas estão virando suas costas para o céu.
Há, não obstante, um sentido no qual aqueles que viram suas costas para os contos de fadas também estão virando suas costas para o próprio mundo no qual vivem porque, como Chesterton insiste, nós não vivemos no melhor de todos os mundos possíveis, mas no melhor de todos os mundos impossíveis. Se tivermos os olhos da humildade, os olhos do espanto, nós perceberemos que estamos vivendo num conto de fadas, e não apenas qualquer um desses velhos conto de fadas, mas no melhor de todos os contos de fadas. Em “A Ética no País das Fadas”, Chesterton procura nos lembrar que “a vida era tão preciosa quanto era surpreendente”: “era um êxtase porque era uma aventura; era uma aventura porque era uma oportunidade.” Não importava se nós nos considerávamos pessimistas ou otimistas. O que importava era que nós estávamos na história da vida e deveríamos ser gratos por isso:
A bondade do conto de fadas não foi afetada pelo fato de que haveriam mais dragões que princesas; era bom estar num conto de fadas. A prova de toda felicidade é gratidão; e me senti grato, embora eu dificilmente soubesse a quem. Crianças são gratas quando o Papai Noel põe nas suas meias brinquedos ou doces de presente. Poderia eu não ser grato ao Papai Noel quando ele coloca nas minhas meias duas pernas milagrosas de presente? Nós agradecemos às pessoas pelos charutos e chinelos de presente de aniversário. Posso não agradecer a ninguém pelo presente de aniversário de ter nascido?
Para reformular a prosa lucidamente bela de Chesterton na linguagem do filósofo e teólogo, podemos dizer que a gratidão é o fruto da humildade e que ela abre os olhos para o admirável presente da maravilha. É somente quando nossos olhos estão abertos desta maneira que podemos verdadeiramente ver e apreciar o maravilhoso conto de fadas no qual nos encontramos. Esta realidade crucial, que está no coração do verdadeiro realismo a ser encontrado nos contos de fadas, estava enfatizada de maneira igualmente forte por Tolkien na sua aula publicada. Ao discutir o dom do que ele chama “recuperação”, nos contos de fadas, as palavras de Tolkien são um reflexo exato das de Chesterton:
Recuperação (que inclui a devolução e renovação da saúde) é uma reconquista — reconquista de uma visão limpa. Eu não digo “ver as coisas como elas são” juntando-me assim aos filósofos, todavia aventuro-se a dizer “ver as coisas da forma como nós estamos (ou estávamos) destinados a vê-las” — como coisas separadas de nós mesmos. Precisamos, em qualquer caso, limpar nossas janelas; de forma que as coisas vistas claramente possam estar desembaraçadas do borrão pardo da banalidade ou familiaridade — da possessividade. […] Essa banalidade é na verdade o castigo pela “apropriação”: as coisas que são repetitivas, ou (num mau sentido) familiares, são as coisas que nós temos nos apropriado, legalmente ou mentalmente. Dizemos que as conhecemos. Elas se tornam aquelas coisas que uma vez nos atraíram por seu brilho, ou sua cor, ou formato, e nós lançamos mãos sobre elas, e as trancamos em nossos mealheiros, as adquirimos, e as adquirindo deixamos de olhar para elas.
Essa cegueira singular, que Tolkien satirizaria com grande efeito em seu próprio grande conto de fadas, O Hobbit, apelidando ela de doença do dragão, é a mesma cegueira para as maravilhas da vida sobre a qual Chesterton escreve. Aqueles que não têm a humildade para enxergar com os ohos de espanto não estão apenas cegos para os brinquedos ou doces de presentes, ou charutos e chinelos, mas até mesmo para “a dádiva das duas pernas milagrosas” com as quais eles andam, ou para o maravilhoso “presente de aniversário de ter nascido” com o qual eles têm sido abençoados.
Considerando a congruência entre o senso de gratidão e encanto e a discussão de Tolkien de “recuperar” e a reconquista de uma visão limpa, não deveria ser nenhuma surpresa que Tolkien continue sua própria discussão pagando tributo à “Fantasia Chestertoniana” que “foi usada por Chesterton para denotar a estranheza das coisas que têm se tornado banais, quando elas são repentinamente vistas a partir de um novo ponto de vista.” Há poucas dúvidas de que Chesterton habilitara o jovem Tolkien a enxergar a realidade a partir de um novo e surpreendente ponto de vista quando este lera pela primeira vez Ortodoxia. Sua influência inspiraria o futuro do autor de O Senhor dos Anéis a formular sua própria visão de “A Ética no País das Fadas”, expressada na preleção “Sobre Contos de Fadas” e em suas próprias histórias magníficas. Não há dúvida de que o grande G. K. Chesterton lançou um encantamento sobre o grande J. R. R. Tolkien pelo qual todos os amantes da Terra-média deveriam estar inestimavelmente agradecidos.

Joseph Pearce é um colaborador senior no The Imaginative Conservative. Ele é escritor em casa e diretor do Center for Faith and Culture at Aquinas College in Nashville, Tenessee. Suas obras incluem a recém-publicada biografia de Chesterton: Sabedoria e Inocência: Vida de G. K. Chesterton


www.sociedadechestertonbrasil.org

terça-feira, março 21, 2017

Oscar Wilde morreu católico


A conversão de Oscar Wilde

Depois de uma juventude de homossexualidade e escândalos, o escritor inglês se arrependeu ao fim da vida e morreu recebendo os sacramentos da Igreja.

Por Francesco Agnoli | Tradução: Equipe CNP — No dia 30 de novembro de 1900, morria, em Paris, o escritor Oscar Wilde, autor do famoso romance "O Retrato de Dorian Gray". A sua figura é frequentemente instrumentalizada e mal compreendida, tanto na profundidade de sua obra quanto no drama de sua vida. Por isso, pode ser útil recordar ao menos algumas coisas.
Wilde nasce em Dublin, no atual território da Irlanda, em 16 de outubro de 1854. O seu pai, sir William, é um médico de muito renome, que "muda com mais frequência de amante que de camisa". Sua mãe, Jane, "não é muito dada ao cuidado da casa, nem à educação moral dos filhos" [1].
William e Jane vivem uma relação "aberta", com todas as suas consequências. Quando Oscar nasce, a mãe, "que esperava ardentemente uma menina", fica desiludida e termina projetando sobre o filho homem os seus desejos: o pequeno Oscar é vestido como menina, "enfeitado com laços e rendas", e sofre tanto com as imposições da mãe quanto com a ausência do pai. Muitos biógrafos jogam luz sobre o fato de que Wilde tinha interiorizado uma figura negativa de pai, e isso o impediu de desenvolver plenamente a sua virilidade e o seu senso de paternidade. O escritor vai acabar procurando, em outras figuras masculinas, o pai que nunca teve, além de ser, dentro da própria família, o marido infiel e o pai ausente que ele tanto desprezava em seu pai.
Wilde logo se separa de sua família e vai para a universidade, primeiro ao Trinity College, de Dublin, e depois a Oxford. Em certos aspectos ele vai continuar sendo "uma eterna criança", incapaz de "amadurecer, pelo menos no plano afetivo".
Seu pai não é para ele objeto de admiração. De fato, Oscar não aprova "a libertinagem desenfreada do pai e não exclui que, justamente como reação aos excessos paternos, ele tenha concebido desde a adolescência uma espécie de relutância a estabelecer relações de compromisso com as mulheres". Ele se casará, amará a sua mulher, mas, assim como o seu pai, jamais conseguirá fazê-lo verdadeiramente, alternando os remorsos e o desejo de reatar o casamento com a insegurança e a instabilidade de suas múltiplas e fugazes relações com mulheres, homens e adolescentes. O vértice de sua depravação – como ele mesmo dirá – levará o escritor, depois do sucesso, à prisão, bem como a uma saúde frágil, graças ao uso prolongado de álcool... até o fim dos seus dias.
Encarcerado em 1895, depois de ser acusado de relações homossexuais com vários adolescentes e prostitutos, Wilde escreve da prisão à sua mulher, Constance: "Perdoa-me... os meus pecados têm sido tremendos e imperdoáveis". Wilde sente vergonha da sua vida passada, anela por sua regeneração, por seu renascimento, faz com que lhe dêem um Evangelho, os escritos dos cardeais Newman e Manning, a História dos Papas... e planeja escrever, uma vez fora do cárcere, alguma coisa sobre São Francisco, quase como uma reparação por sua "selvagem perseguição do prazer que torna áridos o corpo e o espírito". Em 1897, ele escreve uma carta ao seu amante, o lorde Alfred Douglas, que leva o título De profundis – as palavras iniciais do Salmo 130.
Em 30 de novembro de 1900, Oscar Wilde morre, depois de ter entrado para a Igreja Católica— da qual sempre havia sido admirador confesso — e de ter recebido o sacramento da Extrema Unção [2].
Assim como Charles Baudelaire, Paul Verlaine, Arthur Rimbaud e Joris-Karl Huysmans (que depois se tornará oblato beneditino), todos tendo passado, uns mais outros menos, por um forte relacionamento com a fé religiosa, também Wilde não pode ser compreendido senão remontando à sua pergunta: são os prazeres do mundo, os "frutos terrestres", que saciam a fome do homem, ou, ao contrário, a nossa "inquietude", para citar Agostinho, é saciada somente pelo encontro com Deus?
Reportamos abaixo algumas frases de seu livro De profundis, escrito quando o poeta já não estava mais sobre um palco, mas debaixo do pedestal sob o qual ele mesmo quis se meter, para ser, por si mesmo, o sentido da própria vida; escrito quando, no lugar dos prazeres sensuais e da dissipação, restaram apenas a dor e a solidão; quando a tentativa de construir uma vida esplêndida, para além do bem e do mal, "como se Deus não existisse" e "tudo fosse permitido", terminou se revelando um fracasso:
"Devo dizer a mim mesmo que eu me arruinei, e que ninguém, grande ou pequeno, pode ser arruinado, exceto por sua própria mão. Estou quase pronto para dizê-lo. Estou tentando dizê-lo, ainda que, no presente momento, talvez não seja o que pensem. Essa cruel acusação eu trago sem piedade contra mim mesmo. Foi terrível o que o mundo fez para mim, mas muito mais terrível foi o que eu fiz a mim mesmo. [...] Diverti-me sendo um vagabundo, um dândi, um homem da moda. Acerquei-me das naturezas mais baixas e das mentes mais mesquinhas. Tornei-me o dissipador do meu próprio gênio, e trouxe-me uma curiosa alegria desperdiçar uma eterna juventude. Cansado de ficar nas alturas, deliberadamente desci às profundezas, à procura de uma nova sensação. O que me era o paradoxo na esfera do pensamento tornou-se para mim a perversidade na esfera da paixão. O desejo, no fim das contas, era uma doença, ou uma loucura, ou os dois. Cresci sem prestar atenção às vidas dos outros. Senti prazer no que me agradava, e fui em frente. Esqueci que toda pequena ação do dia comum constrói ou destrói o caráter e que, portanto, o que alguém fez na câmara secreta um dia terá que clamar do alto dos telhados. Deixei de ser senhor de mim mesmo. Deixei de ser o capitão da minha alma, e não sabia. Permiti que o prazer me dominasse. Terminei terrivelmente desgraçado. Só me resta agora uma coisa, a humilhação absoluta."
Depois, falando de Jesus, ele escreve que:
"Piedade ele tem, é claro, pelos pobres, por aqueles que são encerrados nas prisões, pelos humildes, pelos miseráveis; mas ele tem muito mais compaixão dos ricos, dos hedonistas obstinados, daqueles que desperdiçam a sua liberdade tornando-se escravos das coisas, daqueles que usam roupas finas e vivem em casas de reis. Riquezas e prazer pareciam-lhe ser, na verdade, tragédias maiores que a pobreza ou o sofrimento. [...] No Natal consegui a posse do Novo Testamento em grego e, toda manhã, depois de limpar minha cela e polir meus metais, leio um pouco dos Evangelhos, uma dúzia de versos tomados por acaso. É uma forma agradável de começar o dia. Todo o mundo, mesmo que em uma vida turbulenta e indisciplinada, deveria fazer o mesmo."
Isto era o que esperava Oscar Wilde: que Jesus tivesse piedade também dele e de seu hedonismo desenfreado, do qual ele tinha se aproximado para construir a própria felicidade, mas que se tornou, contudo, o motivo da sua ruína.
Fonte: La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: Equipe Christo Nihil Præponere

Referências

  1. MEI, Francesco. Oscar Wilde (Le Vite). Milano: Rusconi, 1987.
  2. GULISANO, Paolo. Il Ritratto di Oscar Wilde. Milano: Ancora, 2009, p. 181.

segunda-feira, março 20, 2017

Borboletas azuis na árvore


As borboletas azuis são belíssimas!

domingo, março 19, 2017

Comentários Eleison: Vida Católica?

Comentários Eleison - por Dom Williamson

Número DV (505) - (19 de março de 2017):


VIDA CATÓLICA?


As mais fortes tempestades se acalmam quando Deus manda.
Os piores homens não podem causar danos quando Deus guarda.

            Outro jovem me escreveu sobre o problema de viver como um católico no mundo que atualmente nos rodeia. Mas que católico consegue não ter problemas nesse mundo de hoje? Suas perguntas sobre o mundo e a Igreja estão em itálico, às quais seguem alguns conselhos do autor destes Comentários:          

            É mais e mais difícil para eu viver uma vida de acordo com a Fé católica. Com relação ao mundo, tão logo eu passe a ganhar minha própria vida, deveria pensar em me mudar para outro país, como por exemplo, a França, a fim de buscar lá os meios para fundar uma família cristã (por exemplo, esposa, sacerdotes católicos que defendam a Tradição, etc.)? Quanto à Missa, a Missa Tradicional mais próxima de minha cidade está em B., onde há uma capela da Neofraternidade e outra capela que depende da Neoigreja. O que Sua Excelência me recomendaria fazer? Não conheço nenhum sacerdote da Resistência em meu país, nem mesmo de muitos católicos verdadeiros – que correspondam ao modo como entendo isto.

A respeito do mundo, eu não recomendaria que você se mudasse para qualquer outro país. É muito provável que encontrasse lá os mesmos problemas, e teria cortado suas raízes nativas em seu próprio país. Você pode pensar que essas raízes em uma cidade moderna não valem muito, mas elas estão melhores do que nada. “Mais vale um pássaro na mão do que dois voando”. Você arriscaria pular “de a panela para a frigideira”, em vez de pular da panela para a mesa da cozinha. A Providência pôs você na cidade onde tem agora sua família e seus amigos. As soluções hoje são bem mais internas do que externas, sobretudo quando a Guerra Mundial pode começar em pouco tempo (todo o Sistema americano está contra Trump, e quer guerra!).

            O mesmo em relação à frequência na Missa. A “outra capela” que você menciona já foi melhor do que é hoje. De modo semelhante à FSSPX, como você sabe. A apostasia hoje está em toda parte. Eu não tomaria decisões geográficas. Você poderia juntar-se um dia ao sacerdote que parece melhor, e pouco depois ele enlouqueceria também. Isto tem acontecido frequentemente na Igreja atualmente. A solução deve ser mais interna do que externa.

            No que concerne à solução interna, como você lê os “Comentários Eleison”, então sabe como frequente e repetidamente eu recomendo que se reze todos os quinze Mistérios do Rosário diariamente. Bons livros (e boa música) também ajudam consideravelmente a nutrir e a proteger a mente e o coração. Leia os que realmente lhe interessam, porque você aproveitará esses livros bem mais do que aqueles que ler somente por dever. Deus Todo-Poderoso vê da eternidade em que desastre o mundo moderno se meteu. Ele vê também da eternidade que ainda há almas hoje que querem ir para o Céu. É imaginável que nas grandes cidades infernais atuais Ele deixaria essas almas sem nenhum recurso enquanto elas querem permanecer no caminho para o Céu?

            No entanto, Ele previu que todo o exterior cairia sob o controle de Seus inimigos: chamadas telefônicas, e-mails, drones, universidades, política, lei, medicina, etc., etc. Eis porque eu acho que o que Ele quer dizer ao permitir tal poder aos Seus inimigos é conduzir-nos de volta para Ele e para uma verdadeira prática de Sua santa religião apesar do pior que os Papas e sacerdotes possam fazer. Portanto, em minha opinião, contente-se em assistir à Missa Tridentina menos contaminada que houver em qualquer lugar perto de você, faça regularmente a Confissão com qualquer sacerdote que ainda esteja disposto a escutar Confissões e que não diga a você que um pecado não é um pecado, e encontre um modo de rezar todos os dias os quinze Mistérios do Rosário. E então “mantenha sua alma paciente” e silenciosamente peça a Deus que mostre a você o caminho para o Céu, e que intervenha aqui embaixo antes que tudo esteja perdido. Apesar de todas as aparências, Ele continua em perfeito controle.


Kyrie eleison.

segunda-feira, março 13, 2017

Alice por Arthur Rackham




Alice no País das Maravilhas, belas ilustrações de Arthur Rackham, 1907:








domingo, março 12, 2017

Comentários Eleison: Quarto Bispo

Comentários Eleison - por Dom Williamson
Número DIV (504) - (11 de março de 2017):


QUARTO BISPO


Onde as almas se esforçam para o Paraíso, os bispos devem existir,
A Vienna, na Virgínia, em 11 de maio, tentem ir!

Desde o verão de 2012, quando a Fraternidade Sacerdotal São Pio X decidiu oficialmente mudar de rumo e abandonar a posição doutrinária tomada primeiramente quarenta anos antes pelo Arcebispo Lefebvre, tem sido interessante observar a Providência em ação para garantir a defesa da Igreja. Poder-se-ia esperar uma revolta generalizada em defesa da verdade de Deus. Resistência dentro da Fraternidade? Existente, mas até agora demasiado silenciosa. E fora? Existente, mas apenas como uma dispersão de leigos e um punhado de sacerdotes, fragmentados por divisões por falta de uma autoridade reconhecida. Os católicos precisam de autoridade. E essa necessidade é tão grande que enquanto a Verdade está sendo drenada para fora da Neoigreja centrada no homem, e da Neofraternidade centrada em Roma, as almas ainda se agarram a cada uma por causa dos restos de autoridade Papal na primeira, e da autoridade católica legada à última pelo Arcebispo.

Mas a Verdade permanece como propósito da Autoridade, e a Autoridade não é o propósito da Verdade. Dada a natureza humana decaída, a Autoridade é a indispensável defensora e garantidora da Verdade, mas vem após a Verdade e não antes. Tomem por exemplo uma das últimas instruções de Nosso Senhor a Pedro antes de deixá-lo à frente do governo da Igreja (Lc XXII, 31-32): “Simão, Simão, eis que Satanás vos busca (plural) com instância para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por ti (singular), para que a tua fé não falte (Verdade); e tu, uma vez convertido (Verdade), confirma os teus irmãos (Autoridade)”. E quando no Domingo de Ramos, alguns dias antes, os fariseus haviam tentado repreender Nosso Senhor pelo estrondo alegre que seus discípulos faziam, tão necessária era a adoração a Deus na Verdade que Nosso Senhor respondeu (Lc XIX, 40): “Digo-vos que, se eles se calarem, clamarão as mesmas pedras.”

Na Neoigreja de hoje, a Autoridade está mesclando o erro Conciliar com a Verdade Católica no motor da Igreja, que é como misturar água com gasolina (petróleo) no motor de um automóvel ­– o carro está quebrado, a Igreja está paralisada. E enquanto o Arcebispo Lefebvre enfrentou essa deficiência não apenas, mas principalmente com sua sagração de quatro bispos para manter a autoridade católica que defendesse a Verdade de Deus, seus sucessores à frente do que foi sua Fraternidade estão fazendo o máximo para submeter sua defesa da Verdade à paralisada e paralisante Autoridade de Roma! Se esses sucessores pensam seriamente que uma vez que estão “dentro da Igreja oficial” eles estarão numa posição de converter os neomodernistas, são eles excessivamente ingênuos. Já estão cessando seu fogo contra o Vaticano II. Quando precisamente imaginam eles que serão capazes de abrir fogo novamente?

Nestas circunstâncias bastante excepcionais, deve haver discípulos de Nosso Senhor que digam a Verdade – de modo a poupar o esforço das pedras! Esses discípulos podem não estar unidos como se estivessem sob a verdadeira Autoridade (sempre tendo em conta a fraqueza humana). Eles podem estar “angustiados e abatidos”, eles podem sofrer “tribulação e perseguição” (ver Cor IV, 8-9), mas eles têm de estar por aí enquanto a Verdade estiver sendo mantida em cativeiro. Será um tempo longo? Deus sabe. Muitos de nós esperávamos que Ele interviesse há muito tempo, mas Deus tem um pavio muito longo. No entanto, Ele ainda há de intervir, se ainda resta alguma coisa para ser salva. Paciência.

Enquanto isso, esses discípulos precisam de um punhado de bispos para assegurar uma mínima continuação na Verdade do ensino episcopal e dos sacramentos da Confirmação e das Ordens Sacras. Em 1988 o Arcebispo consagrou quatro deles pela mesma razão, dois para a Europa, um para a América do Norte e outro para a América do Sul. Neste momento, a “Resistência” tem dois na Europa e um na América do Sul. Existe uma lacuna na América do Norte. Se Deus quiser, no próximo dia 11 de maio o Pe. Gerardo Zendejas será consagrado bispo na paróquia tradicional do Pe. Ronald Ringrose em Vienna, Virgínia, EUA. Por favor, rezem pela bênção do Deus Todo-Poderoso sobre esta cerimônia — e pelo bom tempo!

Kyrie eleison.

*Traduzido por Cristoph Klug.


sexta-feira, março 10, 2017

Tolkien: dois náufragos



"Neste mundo decaído, um homem e uma mulher devem amar-se, não como se fossem a “estrela guia” um do outro — porque afinal são ambos humanos, demasiado humanos —, mas, sim, como se fossem dois náufragos agarrados à mesma tábua numa noite escura."
J.R.R. Tolkien

domingo, março 05, 2017

Comentários Eleison: "Santos sacerdotes"?

Comentários Eleison - por Dom Williamson
Número DIII (503) - (4 de março de 2017):


 "SANTOS SACERDOTES"?


Quando sacerdotes adormecem as almas de tanto acalanto.
Que mais resta de nossa Mãe Celestial além de seu pranto?

Por uma grande graça de Deus, um leitor destes "Comentários" que está imerso no mundo atual pela família e pelo trabalho, conseguiu manter, no entanto, uma percepção do que realmente está-se passando ao seu redor – o grande drama diário da salvação ou da danação das almas com as quais ele depara. Não é uma percepção confortável. Ele poderia desejar não ver mais o que vê, mas por outra grande graça de Deus, não pretende voltar a dormir. Ele sabe o que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X costumava representar, e tirava grande proveito disso. Agora, da perspectiva de um simples leigo, sem nenhuma pretensão de fazer uso de argumentos mais elevados, ele observa que a Fraternidade não é mais o que era, pois se juntou à brigada adormecida, e se pergunta o que vai fazer. Suas palavras não podem ser encontradas na Internet, mas devem estar nos corações de muitos católicos tristes. Ei-las aqui, em itálico:

Já mencionei isso antes, mas continuo vendo isso no trabalho. As almas estão famintas, e estão murchando sob o peso do pecado e as pressões desta anticultura que engolfa a todos nós. Quase todos os outrora católicos com quem já conversei ou mostraram-se indignados com todos os abusos ocorridos na Igreja (imagino, todavia, que muitos usem isso como uma grande racionalização para seus próprios pecados), ou viram nos sacerdotes nada mais que homens egoístas que não morreram para si mesmos nem se puseram como Cristo. A visão que têm da Igreja está obscurecida por tanta infidelidade e por tanto pecado.

Não há dúvida de que os abusos na Igreja servem de desculpa para que católicos renunciem à Fé, mas que responsabilidade dos sacerdotes, que, mesmo sem causar escândalo grave público, no entanto, por seu exemplo, deixam de inspirar e elevar! Sacerdotes da Fraternidade – os senhores costumavam inspirar e elevar – onde os senhores estão agora?

Honestamente, eu ousaria dizer que The Angelus Press (revista da FSSPX nos EUA) já não está mais na vanguarda. Precisamos ser sacudidos de nossa complacência (eu sei que eu mesmo preciso em razão de minha natureza humana caída!). Precisamos ser sacudidos de nossa preguiça intelectual. Não há nada de errado em escrever belamente sobre questões espirituais e doutrinais; na verdade, eu não acho que ninguém pode acusar AP de promover heresias, mas... e aqui está a ironia... se nenhuma dessas ideias está entrelaçada no tecido da vida cotidiana ou aborda qualquer dos problemas da modernidade, então a Igreja se torna apenas uma "coisa doce" para acalmar-nos das realidades da vida real.

Aqui está o problema. Sacerdotes reais lidam com "as realidades da vida real". "Senhor, dá-nos santos sacerdotes", reza a FSSPX. Mas infelizmente, não estão agora os "santos sacerdotes" propensos a significar sacerdotes acalentadores? E os sacerdotes deveriam estar acalentando as almas para confortá-las ​​nesta vida, ou não deveriam antes desconfortá-las ​​neste "vale de lágrimas", de modo que todos os seus desejos se direcionem para a vida eterna?

Estou-me tornando cada vez mais indiferente ao que a FSSPX faz porque nós leigos não temos nenhuma influência sobre o que eles fazem. Então, se eles querem precipitar-se no esquecimento, na obscuridade e na irrelevância, que é o que eu acho que vai acontecer, então que sigam em frente. A glória da FSSPX costumava ser a de que ela era a única resistência organizada contra os embustes conciliares a partir de uma rejeição por princípios, não da autoridade, mas de qualquer coisa que estivesse a destruir a Fé. Infelizmente, a FSSPX está usando o mesmo princípio de autoridade – bom em si mesmo – para cooptar qualquer oposição ao erro, enquanto a autoridade está destinada a estar ao serviço da verdade. Então, muito honestamente, eu não tenho ideia do que vou fazer, praticamente falando. Nós ainda frequentamos a FSSPX, mas (ao menos no meu caso) o fervor que eu tinha com a FSSPX está quase extinto. Paciência. Em meio a tudo isto, Cristo é Aquele que dará a vitória.

A Neofraternidade não está realmente a caminho de tornar-se tão irrelevante para a vida eterna como a Neoigreja?

Kyrie eleison.