sexta-feira, fevereiro 20, 2009

Escutar para pôr em prática

por São João da Cruz
vida
O Pai celeste disse uma única palavra: é o Seu Filho. Disse-a eternamente e num eterno silêncio. É no silêncio da alma que Ele se faz ouvir. Falai pouco e não vos metais em assuntos sobre os quais não fostes interrogados. Não vos queixeis de ninguém; não façais perguntas ou, se for absolutamente necessário, que seja com poucas palavras. Procurai não contradizer ninguém e não vos permitais uma palavra que não seja pura.

Quando falardes, que seja de modo a não ofender ninguém e não digais senão coisas que possais dizer sem receio diante de toda a gente. Tende sempre paz interior assim como uma atenção amorosa para com Deus e, quando for necessário falar, que seja com a mesma calma e a mesma paz. Guardai para vós o que Deus vos diz e lembrai-vos desta palavra da Escritura: "O meu segredo é meu" (Is 24,16)...

Para avançar na virtude, é importante calar-se e agir, porque falando as pessoas distraem-se, ao passo que, guardando o silêncio e trabalhando, as pessoas recolhem-se. A partir do momento em que aprendemos com alguém o que é preciso para o avanço espiritual, não é preciso pedir-lhe que diga mais nem que continue a falar, mas pôr mãos às obras, com seriedade e em silêncio, com zelo e humildade, com caridade e desprezo de si mesmo. Antes de todas as coisas, é necessário e conveniente servir a Deus no silêncio das tendências desordenadas, bem como da língua, a fim de só ouvir palavras de amor.


S. João da Cruz (1524-1591), carmelita, doutor da Igreja. "Conselhos e Máximas" (n° 307-319 in trad. Oeuvres spirituelles, Seuil 1947, p. 1226)

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

As Cruzadas - Agredidos e Agressores

por Vittorio Messori*






"Admitido que alguém, na história, devesse pedir desculpa a outro, deveriam ser os católicos a pedir perdão por um ato de autodefesa, pela tentativa de ter pelo menos aberto o caminho da peregrinação aos lugares de Jesus, como foi o ciclo das cruzadas?"

Sempre foi chamada "praça das Cruzadas". Há pouco mais de um ano é "praça Paulo VI". À mudança de nome do largo milanês, junto à insigne basílica de São Simpliciano, não está alheia a Faculdade Teológica da Itália Setentrional que se abre para ela. Dizem que houve pressões clericais para que se mudasse o nome daquele logradouro. Sentiam que era embaraçoso, mais para certos meios católicos que para as autoridades laicas. Este acontecimento milanês não é senão uma confirmação, entre tantas, de um fato desconcertante: depois de dois séculos de propaganda incessante, a "legenda negra" construída pelos iluministas como arma da guerra psicológica contra a Igreja Romana, terminou por instilar um "problema de consciência" na intelligentsia católica, além do imaginário popular.

Foi, na realidade, no século dezoito europeu que, completando a obra da Reforma, se firmou o rosário, tornado canônico, das "infâmias romanas". No que diz respeito às Cruzadas, a propaganda anticatólica chegou até a inventar o nome, como o termo "Idade Média", excogitado pela historiografia "iluminista". Os que há novecentos anos tomaram de assalto Jerusalém considerariam estúpidos os que lhes tivessem dito que davam cumprimento àquilo que seria chamado de "primeira Cruzada". Para eles, era iter, peregrinatio, succursus, passagium.

Os "panfletários", em suma, inventam um nome e constróem em torno uma "legenda negra". Não é só isso: será essa mesma propaganda européia que "revelará" ao mundo muçulmano o ter sido ele o "agredido". No Ocidente, a obscura invenção "cruzada" terminou por impregnar com sentimento de culpa certos homens da própria Igreja, ignorantes de como as coisas ocorreram.

Quem foi o agredido e quem é o agressor?

Quando em 638 o Califa Omar conquista Jerusalém, esta era, há mais de três séculos, cristã. Pouco depois, sequazes do Profeta [Maomé] invadem e destróem as gloriosas igrejas, primeiro do Egito e, depois, de todo o norte da África, levando à extinção do cristianismo em lugares que tinham tido bispos como Santo Agostinho. Depois foi a vez da Espanha, da Sicília, da Grécia, daquela que será chamada Turquia e onde as comunidades fundadas pelo próprio São Paulo tornaram-se montes de ruínas. Em 1453, depois de sete séculos de assalto, capitula e é islamizada a própria Constantinopla, a segunda Roma. O rolo islâmico atinge os Bálcãs, e, como por milagre, é detido e obrigado a retirar-se das portas de Viena.

Entretanto, até o século XIX, todo o Mediterrâneo e todas as costas dos países cristãos que ficam em face, são "reservas" de carne humana: navios e países serão assaltados por incursões islâmicas, que retornam às covas magrebinas cheios de butins, de mulheres e jovens para os prazeres sexuais dos ricos e de escravos obrigados a morrerem de cansaço ou para serem resgatados a preços altíssimos pelos Mercedários e Trinitários. Execre-se, com justiça, o massacre de Jerusalém em 1099, mas não se esqueçam de Maomé II, em 1480, em Otranto, simples exemplo de um cortejo sanguinolento de sofrimentos.

Ainda hoje: quais países muçulmanos reconhecem aos outros que não aos seus, os direitos civis ou a liberdade de culto? Quem se indigna com o genocídio dos armênios, ontem e dos sudaneses cristãos, hoje? O mundo, segundo os devotos do Corão, não está ainda agora dividido em "território do Islam" e "território de guerra", todos os lugares, ainda não muçulmanos, mas que devem se tornar tais, por bem ou por mal? Não é esta a ideologia subentendida por muitos na imigração maciça rumo à Europa?

Uma simples revisão da história, mesmo nas suas linhas gerais, confirma uma verdade evidente: uma Cristandade em contínua posição de defesa em relação a uma agressão muçulmana, desde o começo até hoje (na África, por exemplo, está em curso uma ofensiva sanguinolenta para islamizar as etnias que os sacrifícios heróicos de gerações de missionários tinham levado ao batismo). Admitido que alguém, na história, devesse pedir desculpa a outro, deveriam ser os católicos a pedir perdão por um ato de autodefesa, pela tentativa de ter pelo menos aberto o caminho da peregrinação aos lugares de Jesus, como foi o ciclo das cruzadas?


Vittorio Messori* in Frente Universitária LepantoCorriere dela Sera - 26 de julho/1999

* Vittorio Messori. Autor de best-sellers, com milhões de exemplares vendidos em todo o mundo. Único autor que publicou um livro-entrevista com o Papa João Paulo II («Cruzando o limiar da esperança») e entrevistou o cardeal Joseph Ratzinger («Informe sobre a Fé»), que depois chegaria a ser Papa.

MESSORI, Vittorio: As Cruzadas - Agredidos e Agressores. Disponível em: Sociedade Católica.

quinta-feira, fevereiro 05, 2009

Quem acredita no Filho tem a vida eterna

Verbo
«Quem acredita no Filho tem a vida eterna; quem se recusa a acreditar nEle não verá a vida» (Jo 3, 36)



[Santa Catarina ouviu Deus dizer:] No último dia do julgamento, quando o Verbo, meu Filho, revestido da sua majestade, vier julgar o mundo com o seu poder divino, não virá como aquele pobre miserável que era quando nasceu do seio da Virgem, num estábulo, entre os animais; ou tal como morreu, entre dois ladrões. Então, o meu poder estava escondido nele; eu deixava-o suportar, como homem, penas e tormentos. Não que a minha natureza divina tivesse estado separada da natureza humana, mas eu deixava-o sofrer como um homem para expiar as vossas faltas. Não, não será assim que Ele virá no momento supremo: ele virá em todo o seu poder e em todo o esplendor da sua própria pessoa...


Aos justos, inspirará, ao mesmo tempo que um medo respeitoso, um grande júbilo. Não que o seu rosto mude: o seu rosto, em virtude da natureza divina, é imutável, pois ele é um só, comigo, e, em virtude da natureza humana, o seu rosto é igualmente imutável, pois assumiu a glória da ressurreição. Aos olhos dos reprovados, ele surgirá terrível, porque é com esse olhar de espanto e perturbação, que trazem dentro de si próprios, que o verão os pecadores.


Não é isso que se passa com um olho doente? No sol brilhante, nada vê além das trevas, enquanto que o olho são vê nele a luz. Não é que a luz tenha qualquer defeito; não é o sol que se modifica. O defeito está no olho cego. É assim que os reprovados verão o meu Filho nas trevas, no ódio e na confusão. Será por culpa da sua própria enfermidade, e não por culpa da minha majestade divina, com a qual o meu Filho surgirá para julgar o mundo.


Santa Catarina de Sena (1347-1380), terceira dominicana, co-padroeira da Europa.
Do livro “O Diálogo”.



quarta-feira, fevereiro 04, 2009

Pais da Igreja refutam exegese espírita com mais de um milênio de antecedência

Por Adversus Haeresis






"Mas eu vos digo que Elias já veio, mas não o conheceram; antes, fizeram com ele quanto quiseram. Do mesmo modo farão sofrer o Filho do Homem". (Mt 17,12) "Os discípulos compreenderam, então, que ele lhes falava de João Batista". (Mt 17,13)


Os sequazes do espiritismo em seus 150 anos de existência, forçando a interpretação da Escritura, insistem em ver em S. João Batista a reencarnação do profeta Elias. Com mais de 1500 anos de antecedência os Padres da Igreja refutavam as mesmas fábulas:


São Jerônimo

“A João, pois, se lhe chama Elias, não como o entendem os filósofos néscios e alguns hereges, que sustentam a volta das almas, mas sim que veio, segundo outra passagem do Evangelho, no espírito e no poder de Elias (Lc1) e teve a mesma graça e a mesma medida do Espírito Santo. Também são iguais a austeridade de vida e severidade de espírito de Elias e João, um e outro cingiam um cinto no deserto. Aquele se viu obrigado a fugir por haver repreendido o rei Acab e a Jezebel por suas impiedades (1Re 19): e este é decapitado por haver repreendido a Herodes e a Herodíades, por suas bodas ilícitas(Mc 6).” (AQUINO, S. Tomás de. Catena Áurea)

Original disponível aqui.


Orígenes, homilia 3 in Matthaeum

“Quando diz o Senhor, referindo-se a João, 'Elias já veio' não deve entender-se que veio na alma de Elias, porque isto seria cair no erro da reencarnação, tão contrário à verdade da Igreja, senão que veio, como profetizou o anjo (Lc 1,17), no espírito e na virtude de Elias.

Original disponível aqui.


Orígenes

“Não diz na alma de Elias, mas sim no espírito e na virtude de Elias. O espírito, que havia estado em Elias, veio a pousar sobre São Jõao, e do mesmo modo sua virtude.”

Original disponível aqui.


Orígenes, ut sup

“Responde, pois, aos levitas e aos sacerdotes: "Não sou", conhecendo o fim a que se propõem nesta pergunta. Pois a referida pergunta não tendia a averiguar se ambos estavam animados de um mesmo espírito, mas sim se João era o mesmo Elias, que foi arrebatado e que agora aparecia sem novo nascimento, como os judeus esperavam. Mas alguém dirá, crendo na transmigração dos corpos, que é contrário à razão admitir que o filho de Zacarias, nascido na velhice de tão grande sacerdote, contra o que se podia esperar humanamente falando, fosse desconhecido pelos sacerdotes e os levitas, ignorando seu nascimento, e mais quando, especialmente São Lucas, disse que se havia suscitado um grande temor entre os que habitavam nas cercanias (Lc 1,65). Mas acaso lhes parece que devem perguntar em sentido tropológico, porque esperavam que Elias viria antes do fim e à frente de Cristo. Como se perguntassem: és tu, acaso, o que anuncias que o Cristo haverá de vir no fim do mundo? Mas lhes responde com precaução: "Não sou". Mas não deve chamar a atenção que assim como a respeito do Salvador havia muitos que sabiam que havia nascido de Maria, e sem embargo alguns deles se enganavam (crendo que Ele era João Batista, Elias, ou algum dos profetas), assim também a respeito de São João; ainda que não se ocultasse a muitos que era filho de São Zacarias, duvidavam alguns se acaso seria Elias o que havia aparecido a São João. E como havia existido muitos profetas em Israel, se esperava um de quem Moisés havia vaticinado, especialmente por aquelas palavras: "O Senhor suscitará um profeta dentre vossos irmãos, a ele obedecereis como a mim" ( Dt 18,18). Perguntam-no pela terceira vez, não já simplesmente se é um profeta, mas sim se é o profeta, isto é, com a singularidade que expressa o artigo grego. Por isto segue: "És tu o profeta?" O povo de Israel havia compreendido em todos os profetas que nenhum deles era aquele de quem havia vaticinado Moisés. O qual (como havia sucedido a Moisés) estaria entre Deus e os homens, e transmitiria aos discípulos o testamento recebido de Deus. E atribuíam eles este nome não a Jesus Cristo, mas sim que criam que seria distinto de Cristo. São João sabia da verdade que Cristo era o verdadeiro profeta, por isso acrescenta: "E respondeu não".

Original disponível aqui.

Orígenes

“Dirá alguém que São João ignorava se ele era Elias, e sem dúvida usarão desta razão os que consintam na opinião trilhada e o testemunho da transmigração, como se as almas se revestissem de novos corpos. Mas perguntam os judeus, por meio dos levitas e os sacerdotes, se era Elias, dando fé à crença tradicional deles e não estranha à doutrina cabalística de seus padres, de que as almas podem de novo formar outros corpos. E por isso disse São João: "eu não sou Elias", porque na realidade desconhecia sua vida primitiva. Mas é lógico supor que sendo iluminado pelo Espírito como profeta, e havendo referido tantas coisas de Deus e de seu Unigênito, ignorava de si mesmo se alguma vez sua alma havia estado em Elias?

Original disponível aqui.


São João Crisóstomo, homilia in Matthaeum, hom., 58.

“Chama Elias a João, não porque fôra Elias em pessoa, mas sim porque desempenhava o ministério dele, e porque foi o precursor da primera vinda como Elias o será da segunda.”
Citações traduzidas por mim.

***
E ainda há aqueles que ousam utilizar os nomes dos primeiros padres - chamados "Pais da Igreja" - para defender doutrinas que são contrárias ao que eles pregavam. São muitos os espíritas que repetem que Orígenes defendeu a reencarnação ou a transmigração, quando a partir de uma simples leitura de seus textos pode-se constatar que ele nunca defendeu tais idéias, pelo contrário, rejeitava-as.
Muitos reencarnacionistas defendem a idéia de que no cristianismo primitivo acreditava-se em reencarnação. Nada mais errado, como pode-se averiguar através dos escritos dos primeiros cristãos.
"Quem tem ouvidos, ouça". (São Mateus 11,15)

segunda-feira, fevereiro 02, 2009

O que não pode mudar com os tempos

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É com crescente tristeza que tenho visto pessoas reclamando mudanças, apegando-se a falsos profetas na vã esperança de um mundo sem religião a não ser a sua própria. Essa religião pessoal eu chamo de “sentimentalismo relativista”.

“Somente a ortodoxia católica fez o homem feliz: é como os muros postos ao redor de um precipício onde pode brincar uma porção de crianças”. (G. K. Chesterton)

Tais pessoas pregam sua própria forma de ver a vida, arrumam “novidades” para si e para os outros, envenenando mentes e corações, e em sua ignorância, ou prepotência, esquecem de que estão “sentados em ombros de gigantes”. Desconhecem que o melhor que existe hoje em nossa civilização é fruto da Igreja. Foi uma construção de séculos em que a Igreja conservou as obras dos grandes autores da Antiguidade, criou e construiu hospitais, criou escolas para todos, criou a Universidade, elevou a dignidade da mulher e das crianças e como e não bastasse guardou o depósito da fé na íntegra!

“Nove dentre dez do que chamamos novas idéias são simplesmente erros antigos. A Igreja Católica tem como uma de suas principais funções prevenir que os indivíduos comentam esses velhos erros; de cometê-los repetidamente, como eles fariam se deixados livres”. (G. K. Chesterton)

Os relativistas, sentimentalóides que são, seguem a correnteza e não se dão conta do triste estado de suas almas. Brigam encarniçadamente com a Igreja porque esta não muda com o sabor dos ventos, ao contrário, contraria a correnteza da tirania do relativismo. Por isso mesmo é tão odiada.

“Uma coisa morta pode seguir a correnteza, mas somente uma coisa viva pode contrariá-la.” (G. K. Chesterton)

Nadando contra a maré do relativismo que prega a tolerância às mudanças daquilo que não deve ser mudado, Chesterton é uma voz que clama no deserto:


“A Igreja não pode mudar com os tempos [...]. Sua missão é salvar toda a luz e toda a liberdade que podem salvar-se, opor-se ao arrastre descendente do mundo e esperar dias melhores [...]. Não necessitamos de uma Igreja que se mova com os tempos. Necessitamos de uma Igreja que mova ao mundo. Necessitamos de uma Igreja que o aparte de muitas das coisas para as quais agora se inclina [...]. Para qualquer Igreja será esta a prova histórica de se é ou não a verdadeira Igreja”.(G. K. Chesterton, The New Witness)


Falsos profetas e falsas religiões vivem mudando ou defendem mudanças estruturais que terminam por descaracterizar suas próprias doutrinas. São evolucionistas e progressistas que não se contentam com o que é perene e tal qual o anjo caído tramam “revoluções por minuto”.


“E eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela.” (Mateus 16,18)

A sabedoria de Deus é eterna, não muda com os tempos.


Fonte das frases de Chesterton: Adversus Haeresis