segunda-feira, maio 31, 2010

Difícil manter-se puro, mas é nosso dever tentar




É muito difícil manter-se puro ou se purificar quando voluntariamente damos ouvidos e olhos às impurezas várias que estão disponíveis em toda parte.

Há quem diga que é preciso ver de tudo - e alguns vão até mais longe e querem experimentar de tudo – para ser sábio, para ficar “esperto” e não ser um bobo. Mas como isso é ilusório!

Como podem pensar que macular a alma com todo tipo de baixeza pode ser bom? Como podem pensar que irão ter vidas saudáveis com aquelas imagens fixadas em suas mentes? Muitos nem mesmo se dão conta do quanto estão perdidos, do quanto a sua consciência moral está adormecida –talvez mortalmente – e julgam que os que buscam fugir das ocasiões de pecado, dos maus filmes, dos ambientes deletérios, são todos uns bobocas, uns fanáticos. Acham que são muito inteligentes por saberem que existe tal ou qual imoralidade de tal ou qual forma, pois assim estão prevenidos, estão mais instruídos e sábios.

Quanto vazio, quanta perda de sentido! Como podem pensar que é melhor se atirar na frente do perigo para ficar imune a ele? Não é isso o que dizem os santos. Eles dizem que devemos fugir sempre, não encarar o perigo, não deixar que a ocasião de pecado chegue tão perto. Não podemos confiar em nós mesmos. Nunca se sabe se vamos cair e qual vai ser o tamanho da queda. Então porque arriscar?

Essa vida passa tão depressa, tudo aqui é transitório, então porque beirar o precipício nessas brincadeiras mortais? Porque é tão difícil abrir mão de certos prazeres, de certos caprichos, se estes no fim das contas podem nos perder para sempre? Não será mais válido abdicar de algumas coisas para poder ter a vida eterna? Não será mais válido buscar a recompensa prometida por Deus aos puros de coração?

Somente os puros verão a Deus, então porque se entregar tão perigosamente aos maus divertimentos, às modas indecentes, aos costumes corrompidos dos homens descristianizados de nosso tempo? Vale a pena? Claro que não, pois o que está em jogo é a salvação das almas e com isso não se pode brincar nunca.

Nosso Senhor pode voltar a qualquer momento, a hora da morte de cada um só Deus sabe, então é importante que busquemos viver de forma a não nos envergonharmos – pelo menos não mais do que já devemos nos envergonhar por causa de nossa baixeza oriunda do pecado original – quando formos chamados à presença Dele. Imagine se o seu encontro com Ele acontece quando você está assistindo um programa imoral ou dançando de forma libertina? Como apresentar-se assim diante daquele que lavou suas vestes no Batismo, que deu Seu sangue para que você tivesse a vida eterna?

Já pensou nisso? Pense. E veja se vale a pena sujar a alma com as indecências que nos são apresentadas hoje como sendo coisas boas, normais, pois afinal de contas, todo mundo faz.

sexta-feira, maio 28, 2010

A perfeição consiste em fazer a vontade de Deus



"A perfeição consiste em fazer a vontade de Deus, em ser o que Ele quer que sejamos"
(Santa Teresinha do Menino Jesus)

quarta-feira, maio 26, 2010

As regras e toda a modéstia possível

vida
Artigos novos no site do Apostolado Moda e Modéstia:


Sobre a utilidade das regras, de Thais dos Santos Domingues

Trechinho:

“Situações que foram acontecendo no meu trabalho, em lugares públicos, na própria Igreja, e que me deixaram desprotegida e exposta. Antes eu não tinha consciência sobre isso. Nos últimos tempos, eu tinha, e ficava bastante constrangida e insegura nessas situações.
Puxa vida, um dos meus objetivos com a modéstia não era justamente agir com caridade para com os homens à minha volta, evitando expor a eles visões que os levassem ao pecado? E, tendo aberto a minha mente e o meu coração para a modéstia, eu não estava buscando proteger a mim mesma de ser alvo de olhares e pensamentos impuros? Se eu queria atingir esses dois objetivos, eu precisava estar protegida e segura.”


E o meu “
Vestir-nos com toda a modéstia possível”, que foi escrito a partir deste trecho do Catecismo de são Pio X:

“Ao levantar da cama e enquanto nos vestimos, deveríamos pensar que Deus está presente, que aquele dia pode ser o último da nossa vida; e, entretanto levantar-nos e vestir-nos com toda a modéstia possível.” (Catecismo de São Pio X, questão 970)

segunda-feira, maio 24, 2010

O necessário treino da mortificação

vida
“Há preceitos graves que não se podem observar em certos momentos senão por meio de atos heróicos. Ora, em conformidade com as leis psicológicas, ninguém é geralmente capaz de praticar atos heróicos, se não se foi antecipadamente preparando para isso com alguns sacrifícios, ou, por outros termos, com atos de mortificação.” (A. Tanquerey)

No mundo no qual vivemos, principalmente nos dias de hoje que são fortemente marcados pelo hedonismo, falar em mortificação, em jejum, em penitência é coisa de maluco. Basta tocar de leve em qualquer um desses pontos que logo se é olhado como um extraterrestre ou um pobre medieval largado numa máquina do tempo e caído direto no século XXI.

Diz o Catecismo de São Pio X:


“Mortificar-se quer dizer privar-se, por amor de Deus, daquilo que agrada, e aceitar o que desagrada aos sentidos ou ao amor próprio.”

Hoje não se admite que alguém abra mão de certas coisas - de prazeres e até mesmo de caprichos - por espírito religioso, pelo menos nunca se esta religião for o cristianismo professado pela Igreja Católica. Podem-se fazer sacrifícios para emagrecer, para ficar mais bela, para estar na moda e parecer mais atraente: dietas malucas, técnicas dolorosas de embelezamento, andar em um salto fino de onze centímetros em ruas esburacadas e escorregadias... Tudo isso pode, todos estes pequenos sacrifícios são válidos, pois são feitos para a vaidade e o capricho de cada um. Mas ai de quem fizer um jejum, de quem se abster de ver, comer, usar certas coisas por amor a Deus, por mandamento da Igreja. Ai dele! Vai ser olhado com estranhamento e pode até mesmo ser julgado e condenado como fanático. Até mesmo entre católicos já vi este tipo de condenação, de forma velada, ainda não tão abertamente, mas já vi.

Ora, em um ambiente como este, onde todos fazem o que querem e somente se privam de algo por vaidade ou avareza, como entender o heroísmo? Como compreender a busca pela pureza, pela castidade, pela perfeição? Como estar preparado para momentos graves? Impossível.

Hoje, talvez mais do que nunca, é necessário pensar seriamente no necessário treino da mortificação. Ao menos para os que querem vencer a si mesmos e viver de acordo com o plano divino.

sábado, maio 22, 2010

O Pró-Vida de Anápolis precisa de nossa ajuda!

Irmãos, vamos nos mobilizar para ajudar o Pe. Lodi neste grande apostolado que ele faz.
Mensagem do Pe. Lodi:

Prezados amigos

O Pró-Vida de Anápolis, já fragilizado pela condenação judicial sofrida pelo uso da palavra "abortista", vê-se agora em dificuldades para fazer uma reforma na Casa da Gestante, o lugar onde são hospedadas as grávidas necessitadas.

A Casa necessita de uma pintura geral e de uma reforma nas instalações elétricas (incluindo troca de lâmpadas e chuveiros). Uma rachadura em um dos cômodos, causada por infiltração, precisa ser reparada.

O tanquinho usado para lavar roupas está em funcionando em situação precária após um curto-circuito. Seria conveniente trocá-lo por uma máquina de lavar ou, pelo menos, por um tanquinho novo. O armário da cozinha também precisa ser substituído.

Estimamos que uma reforma completa (incluindo a aquisição de novos aparelhos) ficaria por volta de R$ 3.000,00.

Com um dinheiro menor, poderíamos fazer uma reforma parcial, atendendo apenas às necessidades mais urgentes.

A receita do Pró-Vida de Anápolis é constituída de contribuições mensais dos sócios e doações avulsas, além da venda de impressos (livros).

Ultimamente a receita vem caindo, ao mesmo tempo que os gastos aumentaram com o conserto da máquina duplicadora com a qual imprimimos o boletim mensal "Aborto. Faça alguma coisa pela vida!".

Se estiver a seu alcance fazer alguma doação em prol da reforma da Casa da Gestante, deposite-a na: Conta Corrente 7070-X, Agência 0324-7, Banco do Brasil, Titular: Pró-Vida de Anápolis, CNPJ 01.813.315/0001-10.

Tenha a bondade de enviar-nos um e-mail (provida2@terra.com.br) informando a doação para fins de lançamento contábil.

Deus lhes pague.

O escravo de Jesus em Maria,

--
Pe. Luiz Carlos Lodi da Cruz
Presidente do Pró-Vida de Anápolis
Telefax: 55+62+3321-0900
Caixa Postal 456
75024-970 Anápolis GO
http://www.providaanapolis.org.br
"Coração Imaculado de Maria, livrai-nos da maldição do aborto"

sexta-feira, maio 21, 2010

Purificação e negação

vida
Somente os puros verão a Deus e temos que buscar esta purificação agora, já, aqui mesmo. Não podemos esperar para nos purificar para quando estivermos no purgatório, não podemos deixar para amanhã quando estivermos velhinhos. Temos que começar este trabalho aqui. E se pensarmos que fazemos isso por amor a Deus, tudo fica mais fácil, - o jugo suave, o fardo leve – tudo toma um sentido mais alto.

Como buscar esta purificação? No mundo louco no qual vivemos hoje isso começa com negações: não olhar para tudo à nossa volta, não ver programas que atentem contra a fé e a moral (hoje em dia isso é coisa quase impossível de se conseguir, pois a televisão oferece o tempo todo imoralidades, consumismo, negação da fé), não freqüentar certos lugares, não ler certos livros ou revistas, etc.

São coisas que no início podem parecer difíceis, mas se quisermos realmente, se tivermos vontade de vencer, orando e vigiando, com a graça de Deus conseguiremos!

quarta-feira, maio 19, 2010

O dia do cristão: como viver um dia piedoso

vida
O dia do cristão: trechos extraídos do Catecismo de São Pio X ensinando como viver um dia piedoso.


***


969) Que deve fazer um bom cristão, pela manhã, apenas acorda?
Um bom cristão, pela manhã, apenas acorda, deve fazer o sinal da Cruz, e oferecer o coração a Deus, dizendo estas ou outras palavras semelhantes: "Meu Deus, eu vos dou o meu coração e a minha alma."

970) Em que deveríamos pensar ao levantar da cama e enquanto nos vestimos?
Ao levantar da cama e enquanto nos vestimos, deveríamos pensar que Deus está presente, que aquele dia pode ser o último da nossa vida; e, entretanto levantar-nos e vestir-nos com toda a modéstia possível.

971) Depois de se levantar e de se vestir, que deve fazer um bom cristão?
Um bom cristão, apenas se tenha levantado vestido, convém pôr-se na presença de Deus e ajoelhar, se pode, diante de alguma devota imagem, dizendo com devoção: "Eu Vos adoro, meu Deus, e Vos amo de todo o coração; dou-Vos graças por me terdes criado, feito cristão e conservado nesta noite; ofereço-Vos todas as minhas ações, e peço-Vos que neste dia me preserveis do pecado, e me livreis de todo o mal. Assim seja". Reza depois o Padre-Nosso, a Ave-Maria, o Credo, e os atos de Fé, de Esperança e de Caridade, acompanhando-os com um vivo afeto do coração.

972) Que práticas de piedade deveria fazer todos os dias o cristão?
O cristão, podendo, deveria todos os dias:
1° - assistir com devoção à santa Missa;
2° - fazer uma visita, por breve que fosse, ao Santíssimo Sacramento;
3° - rezar o terço do santo Rosário.

973) Que se deve fazer antes do trabalho?
Antes do trabalho, convém oferecê-lo a Deus, dizendo do coração: "Senhor, eu Vos ofereço este trabalho, dai-me a vossa bênção"

974) Para que fim se deve trabalhar?
Deve-se trabalhar para glória de Deus e para fazer a sua vontade.

975) Que convém fazer antes da refeição?
Antes da refeição convém fazer o sinal da Cruz, estando de pé, e depois dizer com devoção: "Senhor, abençoai-nos a nós e ao alimento que vamos tomar, para nos conservarmos no vosso santo serviço".

976) Depois da refeição, que convém fazer?
Depois da refeição, convém fazer o sinal da Cruz, e dizer: "Senhor, eu Vos dou graças pelo alimento que me destes; fazei-me digno de participar da mesa celeste".

977) Quando nos vemos atormentados por alguma tentação, que devemos fazer?
Quando nos vemos atormentados por alguma tentação, devemos invocar com fé o Santíssimo Nome de Jesus ou de Maria, ou recitar fervorosamente alguma oração jaculatória, como, por exemplo: "Dai-me a graça, Senhor, que eu nunca Vos ofenda"; ou então fazer o sinal da Cruz, evitando porém que as outras pessoas, pelos sinais externos, suspeitem da tentação.

978) Quando uma pessoa reconhece ou duvida que cometeu algum pecado, que deve fazer?
Quando uma pessoa reconhece, ou duvida que cometeu algum pecado, convém fazer imediatamente um ato de contrição, e procurar confessar-se quanto antes.

979) Quando fora da Igreja se ouve o sinal de elevação da hóstia na Missa solene, ou da bênção do Santíssimo Sacramento, que se deve fazer?
É bom fazer, ao menos com o coração, um ato de adoração, dizendo, por exemplo: "Graças e louvores se dêem a todo o momento ao Santíssimo e diviníssimo Sacramento".

980) Que se deve fazer quando tocam às Ave-Marias, pela manhã, ao meio-dia e à noite?
Ao toque das Ave-Marias, o bom cristão recita o Anjo do Senhor com três Ave-Marias.

981) A noite, antes de deitar, que devemos fazer?
À noite, antes de deitar, convém pôr-nos, como pela manhã, na presença de Deus, recitar devotamente as mesmas orações, fazer um breve exame de consciência, e pedir perdão a Deus dos pecados cometidos durante o dia.

982) Que haveis de fazer antes de adormecer?
Antes de adormecer, farei o sinal da Cruz, pensarei que posso morrer naquela noite, e oferecerei o coração a Deus, dizendo: "Meu Senhor e meu Deus, eu Vos dou todo o meu coração. Trindade Santíssima, concedei-me a graça de bem viver e de bem morrer. Jesus, Maria e José eu Vos encomendo a minha alma".

983) Além das orações da manhã e da noite, por que outra forma se pode recorrer a Deus no decurso do dia?
No decurso do dia pode-se invocar a Deus freqüentemente com outras orações breves, que se chamam jaculatórias.

984) Dizei algumas jaculatórias.
- Senhor, valei-me;
- Senhor, seja feita a vossa santíssima vontade;
- Meu Jesus, eu quero ser todo vosso;
- Meu Jesus, misericórdia;
- Doce Coração de Jesus, que tanto nos amais, fazei que eu Vos ame cada vez mais;
- Doce Coração de Maria sede minha salvação.

985) É útil recitar, durante o dia, muitas jaculatórias?
É muito útil recitar, durante o dia, muitas jaculatórias, e podem recitar-se também com o coração, sem proferir palavras, caminhando, trabalhando, etc.

986) Além das orações jaculatórias, em que outra coisa deveria exercitar-se com freqüência o cristão?
Além das orações jaculatórias, o cristão deveria exercitar-se na mortificação cristã.

987) Que quer dizer mortificar-se?
Mortificar-se quer dizer privar-se, por amor de Deus, daquilo que agrada, e aceitar o que desagrada aos sentidos ou ao amor próprio.

segunda-feira, maio 17, 2010

Os Zumbis Mornos

vida
O mundo nunca foi um lugar fácil depois da Queda. E já ouvi dizer que cada pessoa sempre pensa que sua época é pior que as outras. Mas não posso deixar de pensar em como os dias de hoje são realmente difíceis e em alguns aspectos horríveis.

Uma das coisas que me doem mais – fora o aborto, a eutanásia, o suicídio, entre outros horrores – é a falta de vontade de buscar Deus, é a acomodação das pessoas em suas vidas miseráveis, acesas para o mundo como os terríveis letreiros de Las Vegas, mas apagadas para o Criador. Vivem correndo, trabalham feito loucas, namoram, casam, separam, engravidam, tomam pílula, amanhecem dentro de boates, torram dinheiro em futilidades, pensam que vivem bem, querem sempre o Carpe Diem, mas estão todas na realidade brincando com fogo à beira do precipício.

Há outras que estão dentro da fé, que aparentemente têm vida espiritual, mas que na realidade já pararam de buscar e estão perigosamente paradas, achando que podem contemporizar com o mundo e ainda assim viver do jeito que Deus quer. Não se importam em se aperfeiçoar realmente, provavelmente por medo de terem que deixar de fazer certas coisas que no fundo sabe que são condenáveis, que são perigosas para suas almas.

A falta da busca pela perfeição faz com que as pessoas estacionem por pouco tempo e logo regridam em sua vida espiritual. Como elas não querem avançar, acham que o que vivem já está muito bom, correm o sério risco de cair feio e talvez nunca mais levantar.

Como hoje as pessoas não querem mais fazer sacrifícios, por pequenos que sejam, qualquer proposta de aperfeiçoamento pode soar como fanatismo, radicalismo ou algo do gênero. É por isso que vemos tanta tibieza, tanta gente morna, que às vezes parece mais morta do que viva.

Será que é por isso que hoje em dia faz tanto sucesso história de zumbis, vampiros, mortos-vivos em geral? Estão as pessoas se identificando com a morte desta maneira, vivendo loucamente na gula ansiosa para consumir tudo o que é oferecido para diversão e distração das mentes, mas sem se importar com a saúde da alma? Vendem suas almas para o hedonismo e passam as vidas como zumbis, destruindo o esqueleto nas boates, arriscando os pescoços em corridas e festivais orgíacos, ou simplesmente com o controle-remoto na mão, mudando de canal em canal em busca de um pouco mais de emoção? Querem sugar cada gota da vida fútil dos programas de auditório, das novelas imorais, dos talk-shows de cabeças-de-vento, dos reality shows obscenos, como vampiros buscam por sangue ou talvez como zumbis sentados no sofá em frente a tevê com os cérebros destruídos por conta de tanta loucura jogada para dentro de suas mentes através das janelas da alma que são os olhos humanos.

Embora os zumbis e vampiros sejam frios, esta espécie de morto-vivo é morna. Vive como se estivesse tudo bem, mas na realidade não consegue ter a consciência em paz, pois no fundo da alma sabe que não está vivendo de acordo com aquilo para o qual foi feito.

A boa notícia é que há redenção para estes zumbis. Basta que busquem o calor da oração - com sinceridade, no intuito de querer realmente fazer a vontade de Deus -, para que o fogo da graça os faça voltar à vida.
vida

sexta-feira, maio 14, 2010

Perseverança Final e Oração

Por Santo Afonso de Ligório
vida
Algumas vezes em tentações mais fortes, a graça suficiente que Deus não nega a ninguém poderia bastar para resistirmos ao pecado. Mas devido às nossas más tendências, ela não nos bastará; necessitamos então de uma graça especial. Quem reza alcança esta graça; quem não reza, não a consegue e se perde.

Tratando-se particularmente da graça da perseverança final, isto é, de morrer na amizade de Deus, o que é absolutamente necessário para a nossa salvação, do contrário estaremos para sempre perdidos, esta graça Deus não a dá senão a quem pede (84). Este é um dos motivos porque muitos não se salvam, pois são poucos os que cuidam de pedir a Deus a graça da perseverança final.


Rezar Sempre

Resumindo a oração é necessária não só por necessidade de preceito (nota), mas ainda por necessidade de meio. Isto quer dizer: quem não reza, é impossível que se salve. A razão é que não podemos alcançar a salvação sem o auxílio da graça de Deus e Deus só dá esta graça a quem lhe pede. Sendo contínuas as tentações e os perigos de perdermos a amizade de Deus contínuas também devem ser as nossas orações. Por isso escreveu Santo Tomás: “A oração contínua é necessária ao homem” para entrar o céu.(85). No momento que deixarmos de nos recomendar a Deus, o demônio nos vencerá (86).

Embora a graça da perseverança final não possa ser merecida por nós, como ensina o Concílio de Trento, contudo pode-se merecê-la de certo modo com a oração (87). O Senhor quer nos dar suas graças, mas quer que as peçamos; quer até mesmo ser importunado e como que constrangido com nossas orações, como escreve S. Gregório (88). Dizia Santa Maria Madalena de Pazzi que quando pedimos as graças a Deus, Ele não só nos atende, mas de certo modo nos agradece (89). Sim, porque sendo Deus a bondade infinita, deseja comunicar-se com as pessoas tendo, por assim dizer, um desejo enorme de distribuir-lhe seus bens; mas Ele quer que peçamos. Por isso quando uma pessoa lhe pede, é tanto o seu prazer que de certa forma se vê obrigada a agradecer.

Portanto, se queremos permanecer na amizade de Deus até a morte, precisamos sempre nos fazer mendigos e ter a boca aberta para pedir a Deus que nos ajude, repetindo sempre:

- “Meu Jesus, misericórdia! Não permitais que eu me separe de vós. Meu Deus, ajudai-me, socorrei-me!”

A oração freqüente dos antigos monges do deserto era: “Senhor, atendei às minhas preces, vinde depressa em meu auxílio” (90). Senhor, ajudai-me depressa, porque se demorardes, eu cairei na desgraça e me perderei.

É preciso fazer assim principalmente nos momentos de tentações. Quem não faz assim, está perdido!

Confiança na oração

Tenhamos grande fé na oração; Deus prometeu atender aquele que lhe pede: “Pedi e recebereis”. Porque vamos duvidar, se o Senhor se obrigou com sua promessa e Ele não pode faltar à promessa de nos conceder a graça que lhe pedimos? (92) Quando recorremos a Deus tenhamos plena confiança de que Deus nos atenderá e alcançaremos aquilo que queremos. “Tudo o que pedirdes na oração, crede que o recebereis, e ser-vos-á dado”.

Mas alguém poderá dizer:
- Sou um pecador, não mereço ser ouvido
- Mas Jesus é que disse: “todo aquele que pede recebe”, seja justo ou pecador. Ensina Santo Tomás que a força da oração para obtermos a graça, não vem dos nossos méritos mas da misericórdia de Deus que prometeu ouvir aquele que lhe pede. Nosso Salvador para nos tirar todo o receio quando rezamos, nos diz: “Em verdade, em verdade vos digo, o que pedirdes ao Pai, em meu nome, ele vo-lo dará”. É como se dissesse: Pecadores, não tendes merecimentos para ganhar as graças. Fazei assim, quando desejardes as graças: pedi ao meu Pai em meu nome, isto é, pelos meus merecimentos e pelo meu amor; pedi quanto quiserdes e vos será dado.

Notemos a expressão “em meu nome”, isto em, em nome do Salvador. Por isso tudo que pedimos deve ser graças referentes à nossa salvação; é bom reparar que a promessa não se refere a bens temporais. Os bens temporais quando são úteis à salvação eterna, ele nos concede mas quando não são, ele nos nega. Pedindo bens temporais lembremo-nos de pedi-los com a condição de que sejam úteis à nossa alma. Quando são graças espirituais então não existem condições, mas confiança e confiança infalível. Podemos dizer “Pai Eterno em nome de Jesus Cristo livrai-me desta tentação e dai-me a santa perseverança, dai-me o vosso amor, dai-me o céu”. Todas essas graças podemos pedi-las a Jesus Cristo em seu nome, isto é, pelos seus méritos, pois aqui existe a promessa de Jesus: “Tudo que pedirdes a meu Pai em meu nome, eu o farei”.

Quando rezamos a Deus não nos esqueçamos de nos recomendar à dispensadora das graças, Maria. Deus é quem dá as graças, mas é pelas mãos de Maria que ele as dá. Como diz São Bernardo: “Busquemos as graças e busquemo-las por meio de Maria, porque o que ela procura para nós sempre acha; nada lhe pode ser recusado”. Se Maria pede também por nós, estamos seguros, porque as orações de Maria são todas ouvidas e nunca rejeitadas.


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(84) Santo Agostinho, De dono perseverantiae, c. 16, n. 39. ML 45-1017.
(85) Sto. Tomás de Aquino, Sum. Theol. 3, q. 39, a. 5, c
(86) Lc 18, 1; Ts 5,17
(87) Concílio de Trento, Sess. 6, c. 13 – Sto. Agostinho, De dono perseverantiae, 1. 6, c. 10. ML 45-999
(88) S. Gregório, Ps. paenitentialis Os CIX), n. 2. ML 79-633

(Santo Afonso de Ligório. A Prática do Amor a Jesus Cristo. 18 ed. Aparecida, SP: Editora Santuário, 1996. pg. 111)


quarta-feira, maio 12, 2010

O sono dos gatos

Um momento fofura para apreciar esses animais lindos, fofos e misteriosos que são os gatos!


Hoje todos estão num "momento soneca".


Que lindo!

A Carta do Além






Esta carta é impressionante. Li há anos atrás e reli esta semana. Vale mesmo ler isso!

***

A Carta do Além
De. Theol. Bernhardin Krempel, C.P.

Imprimatur do original alemão; Brief aus dem Jenseits: Treves, 9/11/1953. N. 4/53. Aprov. Ecles. Deste opúsculo: Taubaté - est. De S. Paulo - 2/11/1955.

À Guisa de Prefácio

Com os homens, Deus se comunica por muitos modos. Além de ser a própria Sagrada Escritura a Carta Magna de Deus aos homens, escrita e transmitida por homens autorizados, narra ela muitas comunicações divinas feitas por visões, inclusive sonhos. Deus continua a prevenir, ainda, por sonhos. É que sonhos não são sempre meros sonhos sem base.

A Carta do Além transcrita abaixo conta a história da condenação eterna de uma jovem. À primeira vista parece uma história bastante romanceada. Bem consideradas, porém, as circunstâncias, chega-se à conclusão de que ela não deixa de ter o seu fundo histórico, como base do seu sentido moral e do seu alcance transcendental.

A carta em apreço foi encontrada tal qual entre os papéis de uma freira falecida, amiga da jovem condenada. Relata a freira os acontecimentos da existência da companheira como fatos históricos sabidos e verificados, e sua sorte eterna comunicada em sonho. A Cúria diocesana de Treves (Alemanha) autorizou sua publicação como sumamente instrutiva.

A Carta do Além apareceu primeiro em livro de revelações e profecias, juntamente com outras narrações. Foi o R. Pe. Bernhardin Krempel C. P., doutor em teologia, quem a publicou em separado e quem lhe emprestou mais autoridade, provando-lhe, nas Anotações, a absoluta concordância com a doutrina da Igreja Católica sobre o assunto.

No Apêndice seguem alguns esclarecimentos complementares sobre o Inferno. O primeiro ponto assinala dois trabalhos literários que por caminhos diferentes chegam à mesma conclusão que o Inferno deve existir e que de fato existe. Nos seguintes pontos expõe-se sumariamente quais são os que trilham o caminho do Inferno e quais os meios que temos à mão para nos salvar do maior perigo da vida, de cair no Inferno.

Informações preliminares

Entre os papéis deixados por uma jovem que morreu num convento como freira, foi encontrado o seguinte depoimento:

"Tinha eu uma amiga. Quer dizer, éramos mutuamente achegadas como companheiras e vizinhas de trabalho no mesmo escritório M. Quando mais tarde Âni se casou, nunca mais a vi. Desde que nos conhecêramos, reinava entre nós, no fundo, mais amabilidade que amizade. Por isso eu sentia dela pouca falta, quando, após seu casamento, ela foi morar no bairro elegante das vilas, bem longe do meu casebre.

Quando no outono de 1937 passei minhas férias no lago Garda, minha mãe escreveu-me, em meados de setembro: "Imagine, Âni N. morreu. Num desastre de automóvel perdeu a vida. Ontem foi enterrada no cemitério do Mato".

Essa notícia espantou-me. Sabia eu que Âni nunca fora propriamente religiosa. Estava ela preparada, quando Deus a chamou de repente?

Na outra manhã assisti na capela da casa do pensionato das irmãs, onde eu morava, à santa missa em sua intenção. Rezava fervorosamente por seu descanso eterno e nessa mesma intenção ofereci também a Santa Comunhão.

Mas o dia todo eu sentia certo mal estar, que foi aumentando mais ainda pela tarde. Dormia inquieta. Acordei de repente, ouvindo como se sacudida a porta do quarto. Liguei a luz. O relógio, no criado mudo, marcava meia noite e dez minutos. Nada, porém, eu podia ver. Nenhum barulho havia na casa. Apenas as ondas do lago Garda batiam, quebrando-se monotonamente, no muro do jardim do pensionato. De vento, nada eu ouvia.

Tinha eu, todavia, a impressão de que ao acordar eu tivesse percebido, além das batidas na porta, um ruído como que de vento, parecido ao do meu chefe de escritório, quando mal humorado me atirava uma carta amolante sobre a escrivaninha. Refleti um momento, se devia levantar-me.

Ah! Tudo não passa de cisma, disse-me resoluta. Não é senão produto de minha fantasia sobressaltada pela notícia da morte. Virei-me, rezei alguns Pai-Nossos pelas almas, e adormeci de novo.

* * *
Sonhei então que me levantava de manhã às 6 horas, indo à capela da casa. Quando abri a porta do quarto, dei com o pé num maço de folhas de carta. Levantá-las, reconhecer a escrita de Âni e dar um grito, foi coisa de um segundo.

Tremendo, segurei as folhas nas mãos. Confesso que fiquei tão apavorada, que nem podia proferir o Pai-Nosso. Fiquei presa de uma quase sufocação. Nada melhor que fugir dali e ir-me para o ar livre. Arranjei malmente os cabelos, pus a carta na bolsa e saí à pressa de casa. Fora, subi o caminho que seguiu tortuoso para cima, por entre oliveiras, loureiros e quintas de vilas, e para além da mundialmente célebre estrada "Gardesana".

A manhã despontava radiante. Nos outros dias eu parava a cada cem passos, encantada pela magnífica vista que me ofereciam o lago e a magnificamente bela ilha Garda. O suavíssimo azul da água refrescava-me; e como uma criança olha admirada para o avô, assim eu olhava sempre admirada de novo o cinzento monte Baldo que se ergue na margem oposta do lago, crescendo de 64 m acima do nível do mar até 2.200 m de altura.

Hoje eu não tinha olhos para tudo isso. Depois de caminhado um quarto de hora, deixei-me cair maquinalmente sobre um banco encostado em dois ciprestes, onde, no dia anterior, eu tinha lido prazerosamente "A donzela Teresa". Pela primeira vez eu via nos ciprestes símbolos da morte, coisa que neles nunca reparava no Sul, onde tão freqüentemente se encontram.

Peguei a carta. Faltava-lhe a assinatura. Sem a mínima dúvida era a escrita de Âni. Nem mesmo faltavam nela a grande "S"-voluta, nem o "T" francês, a que se havia acostumado no escritório para irritar o Sr. G.

O estilo não era o dela. Pelo menos não falava como de costume. Sabia ela tão amavelmente conversar e rir com seus olhos azuis e seu gracioso nariz. Somente quando discutíamos assuntos religiosos é que ela se tornava mordaz e caía no rude tom da carta. (Eu própria entrei agora na excitada cadência da mesma).

Eis aí:

A CARTA DO ALÉM DE ANI, V.,

Palavra por palavra, tal qual a li no sonho:

"Clara! Não rezes por mim. Sou condenada. Se te comunico isso e se a respeito de algumas circunstâncias da minha condenação te dou pormenorizadas informações, não creias que eu o faça por amizade. Aqui não amamos a ninguém mais. Faço-o, como "Parcela daquele Poder que sempre quer o Mal e sempre produz o Bem".

Em verdade, eu queria também ver-te aqui, onde eu para sempre vim parar. [S. Tomas de Aquino, Summa Theológica (S. Th.) Supplementum (Suppl.) q. 98, a. 4: "Os réprobos querem que todos os bons sejam condenados".]

Não estranhes esta minha intenção. Aqui pensamos todos da mesma forma. A nossa vontade está petrificada no mal - no que vós chamais "mal". Mesmo quando fazemos algo de "bem", como eu agora, descerrando-te os olhos sobre o Inferno, não o fazemos com boa intenção.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 1: "Neles o autodeterminado querer é sempre de todo perverso".]

Lembra-te ainda:

Fez 4 anos que nos conhecemos, em M. Tinhas 23 anos e já trabalhavas no escritório havia meio ano, quando lá entrei. Tiravas-me bastante vezes de embaraços; davas-me a mim, principalmente, freqüentes bons avisos. Mas que é que se chama "bom"!

Eu louvava, então tua "caridade". Ridículo... Tuas ajudas provinham de pura ostentação, como, aliás, eu já suspeitava. Nós aqui não reconhecemos bem algum em ninguém!

Conheceste minha mocidade. Cumpre preencher, aqui, certas lacunas.

* * *
Conforme o plano de meus pais, eu não devia nunca haver existido. Aconteceu-lhes um descuido, a desgraça da minha concepção. Minhas duas irmãs já tinham 15 e 14 anos, quando eu vim à luz.

Oxalá nunca eu tivesse nascido! Oxalá pudesse eu agora aniquilar-me, fugir a esses tormentos! Não há volúpia comparável à de acabar minha existência, como se reduz a cinzas um vestido, sem mesmo deixar vestígios.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 3, r. ib. ad 3: "Enquanto a inexistência liberta de uma vida de terríveis castigos, seria ela para os condenados um bem maior do que sua miserável existência... Assim desejam a não existência."] Mas é preciso que eu exista; é preciso que eu seja tal como eu me tenho feito: com a falha total da finalidade da minha existência.

Quando meus pais, ainda solteiros, mudaram-se da roça para a cidade, perderam o contato com a Igreja. Assim era melhor. Mantinham relações com pessoas desligadas da religião. Conheceram-se num baile e viram-se "obrigados" a casar meio ano depois. No ato do casamento pegaram neles só algumas gotas de água benta, suficientes apenas para atrair mamãe à missa domingueira raríssimas vezes por ano. Nunca ela me ensinava a rezar direito. Esgotava-se nos cuidados de cada dia, ainda que a nossa situação não fosse ruim.

Semelhantes palavras como rezar, missa, água benta, igreja, só escrevo com íntima repugnância, com incomparável nojo. Detesto profundamente os freqüentadores de igreja, assim como todos os homens e coisas em geral.

Tudo se nos torna tormento. Cada conhecimento recebido ao falecer, cada lembrança da vida e do que sabemos, se transforma numa flama incandescente.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 7, r.: "Nada há nos réprobos, que não lhes seja matéria e causa de tristeza... Assim dirigindo sua atenção sobre coisas conhecidas".]

E todas essas lembranças nos mostram aquele medonho lado que fora uma graça que desprezamos. Como isso atormenta! Não comemos, não dormimos, nem andamos com as pernas. Espiritualmente acorrentados, nós réprobos, fitamos estarrecidos a nossa vida falhada, uivando e rangendo os dentes, atormentados e cheios de ódio.

Ouves tu? Bebemos aqui ódio como água. Odiamo-nos mutuamente.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 4, r.: "Nos réprobos domina um ódio total".]

Mais do que tudo, odiamos a Deus. Procuro tornar-te isso compreensível. Os bem aventurados no Céu devem amá-Lo. Porque O vêem desveladamente em Sua arrebatadora beleza. Isso torna-os indescritivelmente felizes. Sabemos isso e é esse conhecimento que nos torna furiosos.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 9, r.: "Ante o dia do juízo universal sabem os réprobos que os bem aventurados se encontram numa inefável glória."]

Os homens, na terra, que conhecem Deus pela criação e revelação podem amá-Lo; não são forçados a fazê-lo.

O crente - furiosa eu te digo aqui - que contempla, meditando, cristo estendido na cruz, O amará.
Mas a alma de quem Deus se acerca, fulminante, como vingador e justiceiro, como Quem foi repelido, essa O odeia, como nós O odiamos.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 8, ad 1, ib. ad 5, r.: "Os réprobos só enxergam em Deus o castigador e impedidor (do mal, que desejam ainda fazer). Mas como só O enxergam no castigo, efeito da sua justiça, odeiam-nO".] Odeia-O com toda a força de sua má vontade. Odeia-O eternamente. Em virtude da deliberada resolução de ficar afastada de Deus, com que terminou a vida terrena. E essa perversa vontade, não podemos revogá-la mais, nem jamais quereremos revogá-la. Compreendes tu agora por que o Inferno há de ser eterno? Porque a nossa obstinação nunca derrete, nunca termina.

Forçada acrescento que Deus é propriamente ainda misericordioso para conosco. Disse "forçada". A razão é esta: ainda que voluntariamente escreva esta carta, não me é possível mentir, como eu bem queria. Assento no papel muitas informações contrariamente à minha vontade. Também a corrente de injúrias que queria despejar, tenho de reengolí-la.

Deus era misericordioso para conosco pelo que não deixou a nossa vontade produzir e efetivar na Terra todo o mal que desejávamos fazer. Se Ele nos tivesse deixado a esmo, teríamos aumentado muito a nossa culpa e castigo. Deixou-nos morrer prematuramente - como a mim - ou introduziu circunstâncias atenuantes.

Agora Ele se nos torna misericordioso por que não nos obriga a nos aproximar Dele, porém a ficarmos neste lugar distante do Inferno, diminuindo-nos o tormento.[S. Th. I, q. 21, a. ad. 1.: "Na condenação dos réprobos aparece a misericórdia de Deus... , no que os castiga menos do que merecem". - Em outro lugar nota o santo doutor da Igreja, que isso é o caso sobretudo com os que neste Mundo eram misericordiosos para com os outros (S. Th. Suppl. q. 99, a. 5, ad 1.)]

Cada passo mais perto de Deus dar-me-ia maior sofrimento do que a ti um passo mais perto de uma fogueira. Ficaste espantada um dia quando te contei, em passeio, o que meu pai me dissera alguns dias antes da minha primeira comunhão: "Cuida, Anita, que ganhes bonito vestido; o mais não passa de burla".

Quase me teria mesmo envergonhado do teu espanto. Agora rio-me disso. O mais bem feito, em toda essa burla, era permitir-se a comunhão apenas aos 12 anos. Eu já estava, então, assaz possuída do prazer do mundo, que postergava facilmente tudo quanto era religião, e não levei a comunhão a sério.

O novo costume de deixar as crianças receberem a comunhão aos 7 anos põe-nos furiosos. Envidamos todos os meios para burlar isso, fazendo crer que para comungar cumpre haver compreensão. É preciso que as crianças já tenham cometido antes alguns pecados mortais. O "branco" Deus será menos prejudicial, então, do que recebido quando a fé, a esperança e o amor, frutos do batismo - escarro sobre tudo isso - ainda estão vivos no coração da criança. Lembras-te que já sustentei esse mesmo ponto de vista na Terra?

Torno a meu pai. Ele brigava muito com minha mãe. Raras vezes te frisei isso: tinha vergonha. Ah! que é vergonha? Coisa ridícula! A nós tudo nos é indiferente.

Meus pais não dormiam mais no mesmo quarto. Eu dormia com minha mãe, papai no quarto ao nosso lado, aonde podia voltar a qualquer hora da noite. Ele bebia muito e gastou a nossa fortuna. Minhas irmãs estavam empregadas e precisavam do seu próprio dinheiro, como diziam. Mamãe começou a trabalhar. No último ano de sua amargurada vida, papai batia em mamãe muitas vezes, quando não lhe queria dar dinheiro. Para mim ele era sempre bonzinho. Um dia, contei-te isso e ficastes escandalizada sobre o meu capricho - e de que não te escandalizastes em mim? - um dia, pois, devolveu duas vezes sapatos novos, porque a forma dos saltos não me era bastante moderna.[Os assinalados traços sobre o pai de Âni e as ocorrências subsequentes são fatos.]

Na noite em que uma apoplexia vitimou meu pai mortalmente, aconteceu algo que nunca te confiei, por temer desagradável interpretação de tua parte. Hoje, porém, deves sabê-lo. Esse fato é memorável, porque foi pela primeira vez que o meu atual espírito carrasco se acercou de mim.
Eu dormia no quarto de minha mãe. Suas respirações regulares denotavam seu profundo sono. De repente ouvi chamar meu nome. Uma voz desconhecida murmurou: "Que acontecerá, se teu pai morrer?"

Eu não amava mais meu pai, desde que ele começara a maltratar minha mãe. Já não amava propriamente ninguém: só me prendia a alguns que eram bons para mim. - Amor sem intuito natural existe quase só nas almas que vivem em estado de graça. Nele eu não vivia. Respondia assim ao misterioso interlocutor: "Com certeza ele não morre".

Após breve intervalo, ouvi a mesma bem compreendida pergunta sem me incomodar de saber, de onde provinha. "Qual o que! Ele não está morrendo" escapou-me casmurra. Pela terceira vez fui interrogada: "Que acontecerá se teu pai morrer?"

De relance me surgiu no espírito como meu pai freqüentes vezes voltava para casa meio bêbado, ralhando e brigando com mamãe e quanto ele nos envergonhava perante os vizinhos e conhecidos!

Gritei, então embirrada: "Pois não, é quanto merece! Que morra!"

Depois, ficou tudo quedo.

Na manhã seguinte, quando mamãe foi para arrumar o quarto de papai, encontrou a porta fechada. Ao meio dia abriram-na à força. Papai encontrava-se meio vestido em cima da cama - morto, um cadáver. Ao procurar cerveja na adega, deve se ter resfriado. Desde muito, estava adoentado. - (Será que Deus fez depender da vontade de uma criança, a quem o homem demonstrava bondade, o conceder-lhe mais tempo e ocasião para se converter?)

* * *
Marta K. e tu me fizestes ingressar na associação das moças. Nunca te escondi que achava as instruções das duas diretoras, duas senhoras X., assaz vigaristas. Achava os jogos bastante divertidos. Conforme sabes, cheguei, em breve, a sustentar nele papel preponderante. Isso era o que me lisonjeava. Também as excursões me agradavam. Deixei-me até levar algumas vezes a confessar-me e comungar. Propriamente não tinha nada para confessar. Pensamentos e sentimentos comigo não entravam em conta. Para coisas piores eu não estava madura ainda.

Admoestaste-me um dia: "Âni, se não rezares mais, perder-te-ás". Eu rezava realmente muito pouco; e também só contrariada, de má vontade.

Tinhas tu, sem dúvida, razão. Todos os que no Inferno ardem, não rezaram, ou não rezaram bastante. A oração é o primeiro passo para Deus. Sempre decisivo. Mormente a oração para aquela que é a mãe do Cristo, cujo nome não nos é lícito pronunciar. A devoção a Ela arranca ao demônio inúmeras almas, que os pecados lhe teriam infalivelmente atirado às mãos.

Furiosa continuo - por ser forçada: rezar é o mais fácil que se pode fazer na Terra. Justamente a essa facilidade Deus ligou a salvação.

A quem reza com assiduidade, Deus dá, paulatinamente, tanta luz e fortalece-o tanto que o mais afogado bode de pecador se pode definitivamente levantar pela oração, ainda que esteja submerso na lama até ao pescoço.

Nos últimos anos da vida eu deveras não rezava mais e assim me privava das graças, sem as quais ninguém se pode salvar.

Aqui não recebemos mais graça alguma. Mesmo que a recebêssemos, com escárnio a rejeitaríamos. Todas as vacilações da existência terrestre acabaram no além.

* * *
Na vida terrena pode o homem passar do estado de pecado para o estado de graça. Da graça pode cair no pecado. Freqüentes vezes caí por fraqueza; raramente por maldade. Com a morte, terminou essa inconstância do sim e do não, caindo e levantando-se. Pela morte, cada um entra no estado final, fixo e inalterável.

À medida que avança a idade, tornam-se menores os saltos. É verdade que, até à morte, a gente se pode converter a Deus ou virar-Lhe as costas. No morrer se decide o homem, entretanto, com as últimas tremuras da vontade, maquinalmente, tal como se acostumara na vida.

Bom ou mau hábito tornou-se uma segunda natureza. Esta o arrasta no derradeiro momento. Assim também arrastou à mim. Anos inteiros eu vivera afastada de Deus. Consequentemente, decidi-me no último chamamento da graça, contra Deus. Não que o haver pecado muitas vezes me fosse uma fatalidade, mas porque eu não me queria mais levantar.

Repetidas vezes me admoestaste a assistir à pregação e a ler livros devotos. Eu escusava-me regularmente com a falta de tempo. Havia eu de aumentar ainda mais a minha incerteza íntima?
Cumpre-me aliás afirmar: Quando cheguei a esse ponto crítico, pouco antes da minha saída da associação das moças, ter-me-ia sido muito difícil enveredar por outro caminho. Sentia-me insegura e infeliz. Diante da minha conversão, levantou-se um paredão. Deves tê-lo desapercebido. Tu o tinhas imaginado tão fácil, quando uma vez me disseste: "Faça, pois, uma boa confissão, Âni, e tudo ficará bem".

Eu suspeitava que assim fosse. Mas o mundo, o demônio e a carne já me seguravam nas suas garras.

Na atuação do demônio eu não acreditava nunca. Agora atesto que, a pessoas como eu então era, o demônio influencia poderosamente.[A influência dos maus espíritos encerra-se nos apelidos "demônio" ou "diabo". Como comprovação da sua existência bastam dois textos da S. Escritura: "Irmãos, sede sóbrios e vigiai! Vosso inimigo, o demônio, anda por aí como um leão rugindo e procurando a quem puder devorar". (1 Petr. 5, 8). O rugir nãos e refere ao que satanás faz muito alarme com as suas tentações, porém à avidez com que ele nos procura perder. - S. Paulo escreve aos Efésios (*, 12): "Ponde a armadura de Deus, para que possais resistir às astúcias do demônio. Nossa luta não é contra carne e sangue (homens), porém contra os poderes dos tenebrosos dominadores deste Mundo e contra os maus espíritos dos ares."]

Só muitas orações alheias e as minhas próprias, juntamente com sacrifícios e sofrimentos, teriam conseguido arrancar-me dele.

E isso deveras só paulatinamente. Poucos possessos. O demônio não pode tirar o livre arbítrio àqueles que se entregam à sua influência. Contudo, como castigo de sua apostasia quase total de Deus, Este permite que o "Mau" neles se aninhe.

Odeio também o demônio. Todavia gosto dele, porque ele procura perder-vos: ele e seus auxiliares, os anjos caídos com ele desde os princípios do tempo. Há miríades. Vagueiam pela terra inúmeros como enxames de moscas, sem que sejam suspeitados.[S. Th. Suppl. q. 98, a. 6, ad 2: "Não é tarefa dos homens condenados, perderem e tentarem outros, porém dos demônios."]

A nós homens réprobos não nos incumbe de vos tentar; isso cabe aos espíritos caídos. Aumentam, sim, ainda mais os seus tormentos toda vez que arrastam uma alma humana ao Inferno. Mas de que não é capaz o ódio![S. Th, q. 98, a. 4, ad 3: "O crescente número dos réprobos aumenta ainda os sofrimentos de todos. Mas são de tal modo cheios de ódio e inveja, que antes querem sofrer mais com muitos, do que menos sozinhos."]

Ainda que eu andasse por veredas tortuosas, Deus me procurava. Eu preparava o caminho à graça, por serviços de caridade natural, que por inclinação de minha índole, não raras vezes prestava.

Às vezes atraía-me Deus para uma Igreja. Lá eu sentia certa nostalgia. Quando cuidava da minha mãe doente, apesar do meu trabalho no escritório durante o dia, e sacrificava-me realmente um tanto, atuavam sobre mim poderosamente essas atrações de Deus.

Uma vez - foi na capela do hospital, aonde me levaste no tempo livre de meio dia - fiquei tão impressionada, que me encontrei a um passo apenas da minha conversão. Eu chorava.

Em seguida, porém, vinha o prazer do mundo derramar-se, como uma torrente, por sobre a graça. Os espinhos aforaram o trigo. Com a explicação de que religião é sentimentalismo conforme sempre se dizia no escritório, lancei também essa graça, como outras, debaixo da mesa.
Repreendestes-me um dia que, em vez de genuflexão, fiz numa igreja uma ligeira inclinação da cabeça. Tomastes isso como preguiça e não parecias suspeitar de que, já então, não acreditava mais na presença de Cristo no Sacramento. Agora creio nela, porém só naturalmente, como se acredita em tempestade, cujos sinais e efeitos se percebem.

Nesse ínterim, havia-me arranjado, eu própria, uma religião. Agradou-me a opinião generalizada no escritório, de que, após a morte, a alma voltaria para este Mundo em outro ser e passaria por outros e mais outros seres, numa sucessão sem fim.

Com isso liquidei o angustiante problema do além e imaginava tê-lo tornado inofensivo. Por que não me lembraste a parábola do gozador rico e do pobre Lázaro, em que o narrador, Cristo, imediatamente após a morte, mandou um para o Inferno, o outro para o Paraíso? Mas o que terias conseguido? Nada mais do que com tuas demais palavras beatas.

Aos poucos eu própria arranjei um deus: bem privilegiado para se chamar deus; a mim bastante longe para não me obrigar a relações com ele; assas confuso, para se transformar, à vontade e sem mudar de religião, num deus panteístico ou até tornar-me orgulhosa deísta.

Esse "deus" não tinha um céu para me galhardear nem inferno para ame amedrontar-me. Deixei-o em paz. Nisso consistia a minha adoração a ele.

No que se ama, acredita-se facilmente. No curso dos anos tinha-me eu assaz persuadido da minha religião. Vivia-se bem com ela, sem que ela me incomodasse.

Só uma coisa lhe teria quebrado a nuca: uma dor profunda, prolongada. Mas este sofrimento não veio. Compreende agora: "A quem Deus ama, Ele castiga!"

Era um dia de estio, em julho, quando a associação das moças organizava uma excursão para A. Gostava eu sim das excursões. Mas não das beatarias anexas!

Outra imagem, diferente da de Nossa Senhora das Graças de A., estava, desde pouco, no altar do meu coração. O grã-fino Max N. do armazém ao lado. Pouco antes conversáramos divertidamente algumas vezes. Convidara-me, nessa ocasião, para fazermos uma excursão naquele mesmo domingo. A outra com que costumava andar, estava no hospital.

Reparara, sim, que eu tinha deitado um olhar sobre ele. Mas eu não pensava ainda em casar-me com ele. Era afortunado, porém amável demais para com muitas e quaisquer mocinhas; até então eu queria um homem que me pertencesse exclusivamente, como única mulher. Certa distância sempre me era própria. [Isso era verdade. Com toda a sua indiferença religiosa Âni tinha algo de nobre em seu ser. Espanto-me de que também pessoas "honestas" possam cair no Inferno, se são assaz desonestas para fugirem do encontro com Deus]

Nessa excursão, Max cumulou-me de todas as amabilidades. Conversações de beatas é que não tivemos, como vocês. No outro dia, no escritório, repreendestes-me porque não vos acompanhei até A. Contei-te os meus divertimentos domingueiros.

Tua primeira pergunta era: "Estivestes na missa?" Louca! Como podia assistir à missa, desde que combinamos a saída para 6 horas! Lembras-te, ainda, que juntei excitada: "O bom deus não é tão mesquinho como os vossos padrecos?" Agora, cumpre-me confessar-te que, apesar de sua infinita bondade, Deus toma tudo mais a sério do que os padres.

Após esse primeiro passeio com Max, assisti mais uma só vez à vossa reunião. Na solenidade de Natal. Certas coisas me atraíam. Mas interiormente, já estava apartada de vocês. Cinemas, bailes, excursões, seguiam-se. Brigávamos às vezes, Max e eu, mas eu sabia prendê-lo sempre a mim.

Mui desagradável me foi a rival que, de volta do hospital, se comportava furiosamente. Propriamente a meu favor. Minha calma distinta causou grande impressão a Max e obrigou-lhe, afinal, a decisão de me preferir.

Eu sabia denegri-la, rebaixá-la. Falando com calma: por fora, realidades objetivas; por dentro, atirando peçonha. Semelhante sentimentos e insinuações conduzem rapidamente ao Inferno. São diabólicos, no verdadeiro sentido da palavra.

Por que te conto isso? Para constar como fiquei definitivamente livre de Deus.

Para esse afastamento não foi preciso que eu chegasse com Max muitas vezes às últimas familiaridades. Compreendi que me rebaixaria aos seus olhos, se me deixasse esvaziar antes do tempo. Por isso me retinha, vedava.

Realmente estava eu sempre pronta para tudo que achava útil. Cumpria-me conquistar Max. Para isso nada achava caro de mais. Amamo-nos aos poucos, pois que ambos possuíamos valiosas qualidades que podíamos apreciar mutuamente. Fui talentosa e tornei-me hábil e conversadora. Cheguei, assim, a prender Max nas mãos, segura de que o possuía sozinha, pelo menos nos últimos meses antes do casamento.

Nisso consistia minha apostasia de Deus, em fazer de uma criatura o meu deus. Em coisa alguma pode isso realizar-se tão plenamente como entre pessoas de diferentes sexo, se o amor se afoga na matéria. Isso torna-se seu encanto, seu aguilhão e seu veneno. A "adoração" que eu me prestava em Max, tornou-se-me uma religião vivida.

* * *
Era no tempo quando, no escritório, tão virulentamente eu caia em cima das corridas à igreja, dos padrecos, do murmurejar de rosário e das demais bugigangas.

Emprenhastes-te, mais ou menos inteligentemente, em proteger tudo isso; aparentemente sem suspeitares de que para mim, em última análise, não se tratava dessas coisas, mas propriamente de ponto de apoio contra minha consciência que eu estava procurando - dele eu precisava ainda - para justificar racionalmente a minha apostasia.

No fundo eu vivia revoltada contra Deus. Tu não percebias isso. Sempre me consideravas ainda católica. Como tal, queria eu também ser chamada; até mesmo pagava a contribuição para a igreja. Certa "ressalva" não me podia fazer mal, pensava eu.

Por mais certas que às vezes fossem tuas respostas, de mim ressaltavam, porque tu não devias ter razão. Em face dessas nossas relações entrecortadas a dor da nossa separação era pequena, quando meu casamento nos distanciou.

Antes do meu casamento, confessei-me e comunguei mais essa vez. Era uma formalidade. Meu homem pensava como eu. De resto, por que não haveríamos de satisfazê-la? Cumprimo-la como qualquer outra formalidade.

Vós o chamais "indigno". Após aquela "indigna" comunhão eu tinha mais sossego de consciência. Era essa a última.

Nossa vida matrimonial decorria, em geral, em boa harmonia. Em quase todos os pontos tínhamos a mesma opinião. Também nisso: não nos queríamos impor o encargo de filhos. No fundo, meu marido desejava ter um - naturalmente não mais. Eu soube arrancar-lhe, finalmente, essa idéia. Eu gostava mais de vestidos e mobílias finas, de tertúlias de chá, de passeios de automóvel e de semelhantes divertimentos.

Era um ano de prazeres terrenos entre o casamento e minha repentina morte.

Cada domingo passeávamos de automóvel ou visitávamos parentes de meu esposo. (De minha mãe eu me envergonhava então). Esses nadavam bem como nós, na superfície da existência. Interiormente, porém, nunca me sentia deveras feliz. Algo roía-me sempre na alma. Eu desejava que pela morte, a qual sem dúvida havia de demorar muito tempo ainda, tudo acabasse.

Mas é como em criança eu ouvira uma vez falar, em sermão, que deus recompensa já neste Mundo o bem que alguém pratica. Se não pode recompensá-lo no outro mundo, fá-lo na Terra.
Sem o esperar, recebi uma herança (da tia Lote). Meu marido teve a sorte de ver o seu salário consideravelmente aumentado. Assim pude instalar mimosamente a nossa casa nova.

* * *
Minha religião estava às últimas, como um vislumbre do ocaso no firmamento longínquo. Os bares e cafés da cidade e os restaurantes por onde passávamos nas viagens, não nos aproximaram de Deus.

Todos os que lá freqüentavam, viviam como nós: de fora para dentro, não de dentro para fora.

Visitando uma célebre catedral, nas viagens de férias, procurávamos deleitar-nos com o valor artístico das obras primas. O sopro religioso que irradiavam, mormente as da Idade Média, eu sabia neutralizá-lo, escandalizando-me em qualquer circunstâncias da visita. Assim, a um irmão leigo que nos conduzia, eu criticava o estar um tanto sujo e desajeitado; criticava o comércio de piedosos monges que fabricavam e vendiam licor; criticava as eternas badaladas dos sinos chamando para igrejas, onde se trata apenas de dinheiro.

Assim eu conseguia afastar de mim a graça, cada vez que me batia à porta.

Mormente deixava meu mau humor derramar-se livremente sobre tudo que tratava de antigas representações do Inferno em livros, cemitérios e outros lugares, onde se viam os demônios fritarem as almas em fogo vermelho ou amarelo, e seus sócios, de cauda comprida, trazerem-lhes mais e mais vítimas.

Clara, o Inferno pode ser mal desenhado, porém nunca ser exagerado.

Sobretudo escarnecia eu sempre do foto do Inferno. Lembras-te como numa conversa sobre isso eu te meti um fósforo aceso debaixo do nariz burlando: "É assim que cheira!"

Tu apagaste tão logo a chama. Aqui ninguém a extingue. Digo-te mais: o fogo de que fala a Bíblia, não significa tormento de consciência. Fogo significa fogo. Cumpre entendê-lo em sentido real, quando Aquele declarou: "Afastai-vos de mim, vós, malditos, ide para o fogo eterno". Literalmente!

Como pode o espírito ser tocado pelo fogo material? Perguntas. Como então pode, na Terra, tua alma sofrer, segurando teu dedo na chama? Tua alma também não se queima, mas que dor tem de aturar o homem todo!

Semelhantemente estamos nós aqui presos ao fogo em nosso ser em nossas faculdades. Nossa alma fica privada do seu vôo natural; não podemos pensar nem querer o que queremos.[S. Th. Suppl. q. 70, a. 3, r.: "O fogo do Inferno atormenta o espírito pelo que o impede de executar o que quer; não pode atuar onde quer e quanto quer."]

Não procures esclarecer o mistério contrário às leis da natureza material: o fogo do Inferno queima sem consumir.

O nosso maior tormento consiste em que sabemos exatamente que nunca veremos Deus. Quanto pode torturar o que na terra nos era indiferente! Enquanto a faca está em cima da mesa, deixa-te fria. Vês-lhe o fio, porém não o sentes. Mas entra a faca na carne e gritarás de dor.

Agora sentimos a perda de Deus; antes só a vimos.["A separação de Deus é um tormento tão grande como Deus" (Frase atribuída a S. Agostinho. Cf. Houdry, Biblioteca concionatorum - Veneza, 1786, vol. 2, sob Infernus, § 4, p. 427)]

Todas as almas não sofrem igualmente. Quanto mais frívolo, maldoso e decidido alguém foi no pecar, tanto mais lhe pesa a perda de Deus, e tanto mais torturado se sente pela criatura abusada.

Os católicos condenados sofrem mais do que os de outra crença, porque receberam e desaproveitaram, em geral, mais luzes e mais graças.

Quem sabia mais, sofre mais do que aquele que menos conhecimentos tinha. Quem pecou por maldade sofre mais do que aquele que caiu por fraqueza. Mas nenhum sofre mais do que mereceu. Oxalá isso não fosse verdade, para que eu tivesse motivo para odiar!

Tu me disseste um dia: ninguém cai no Inferno sem que o saiba. Foi isso revelado a uma santa. Ria eu disso, no entanto me entrincheirava atrás desta reflexão: nesse caso me ficaria suficiente tempo para me converter - assim eu pensava no íntimo.

O enunciado calha. Antes do meu fim repentino, de certo não conhecia o Inferno tal qual é. Nenhum ente humano o conhece. Mas eu estava exatamente inteirada disso: Se tu morreres, entrarás na eternidade como revoltada contra Deus. Suportarás as conseqüências.

Conforme declarei já, não voltei atrás, mas perseverei na mesma direção, arrastada pelo costume, com que os homens agem tanto mais calculada e regularmente, quanto mais velhos ficam.

* * *

Minha morte ocorreu do seguinte modo:

Há uma semana - falo de acordo com a vossa contagem, porque calculada pelas dores, eu poderia já estar ardendo no Inferno havia dez anos - faz pois uma semana que meu marido e eu fizemos, num domingo, uma excursão, que foi a última para mim.

Radiante despontara o dia. Eu sentia-me bem, como raras vezes. Perpassou-me, porém, um sinistro pressentimento.

Inesperadamente, na viagem de volta, meu marido que vinha guiando o carro, e eu ficamos ofuscados pela luz de um automóvel que vinha em sentido contrário e com grande velocidade. Meu marido perdeu a direção.

Jesus! Estremeci. Não como oração, mas como grito. Sentia uma dor esmagadora por compressão - uma bagatela em comparação com o tormento atual. Perdi então os sentidos.

Estranho! Naquele manhã mesma, nascera-me inexplicavelmente a idéia: poderias, enfim, mais uma vez ir à missa. Soava-me como súplica. Claro e decidido cortou meu "Não" o fio da idéia. Com isso devo acabar definitivamente. Tomo sobre mim todas as conseqüências. Agora as suporto.
* * *

O que aconteceu após a minha morte, tu conheces. A sorte de meu marido, de minha mãe, do meu cadáver e enterro, tudo te é conhecido até nos pormenores, como sei por uma intuição natural que todos nós temos.

Do mais que acontece no Mundo, só temos um conhecimento confuso. Mas o que nos tocava de perto conhecemos. Assim conheço também teu paradeiro.["As almas de falecidos não têm seguro conhecimento de pormenores, porém apenas um enuviado conhecimento geral da natureza material". (S. Th. Suppl. q. 98, a. 3).]

* * *
Acordei das trevas no momento da minha morte. Vi-me de repente envolvida de luz ofuscante. Era no mesmo lugar onde estava o meu cadáver. Aconteceu como em teatro, quando de repente apagam as luzes, a cortina é ruidosamente removida e aparece a cena tragicamente iluminada: a cena de minha vida.

Como num espelho, assim eu vi minha alma. Vi as graças pisadas aos pés, desde a juventude até o último "Não" dado a Deus.

Apossou-se de mim a impressão como que de assassino levado ao tribunal à frente da sua vítima inanimada. - Arrepender-me? Nunca! [S. Th. Suppl. q. 98, a. 2, r.: "Os maus não se arrependem propriamente dos pecados, por lhes serem afeitos maliciosamente. Arrependem-se, porém enquanto são castigados pelas penas dos pecados".] - Envergonhar-me? Jamais!

Entretanto nem me era possível permanecer na vista de Deus, negado e reprovado por mim. Restava-me uma só coisa: a fuga.

Assim como Caim fugiu do cadáver de Abel, assim minha alma se atirou longe desse aspecto horrível.

Esse era o Juízo particular.

O invisível juiz falou: "Afasta-te!" Logo caiu minha alma, como uma sombra sulfúrica, no lugar do tormento eterno. [É certo que o Inferno é um local determinado. Mas onde esse local fica situado, ninguém o sabe].
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Últimas informações de Clara

"Assim finalizou a carta de Âni sobre o Inferno. As últimas palavras eram quase ilegíveis, tão tortas estavam as letras. Quando eu acabara de ler a última palavra, a carta toda virou cinza.

Que é que lá ouço? Por entre os duros acentos das linhas que eu imaginava ter lido ressoou doce som de sino. Acordei de vez. Achei-me ainda deitada no meu quarto. A luz matinal da aurora penetrava nele. Da igreja paroquial vinham as badaladas das ave-marias.

Pois tudo era apenas um sonho?

Nunca eu sentira na Saudação Angélica, tanto consolo como após esse sonho. Pausadamente fui rezando as três ave-marias. Tornou-se-me então claro, claríssimo: ela cumpre segurar-te, à bendita Mãe do Senhor, venerar a Maria filialmente, se não quisesse ter a mesma sorte que te contou - ainda que em sonho - uma alma que jamais verá Deus.

Espantada e tremendo ainda pela visão noturna levantei-me, vesti-me depressa e fugi para a capela da casa.

O coração palpitava-me violenta e descompassadamente. Os hóspedes, ajoelhados mais perto de mim, olhavam-me preocupados. Talvez pensassem que, por haver eu corrido escada abaixo, estivesse tão excitada e vermelha.

Uma bondosa dama de Budapeste, grande sofredora, franzina como uma criança, míope, todavia fervorosa no serviço de Deus e de longo alcance espiritual, disse-me à tarde no jardim: "Senhorita, Nosso Senhor não quer ser servido no expresso".

Mas ela percebia então que outra coisa me havia excitado e ainda me preocupava. Ajuntou bondosamente: "Nada te deve angustiar - conheces o aviso de S. Teresa - nada te deve alarmar. Tudo passa. Quem possui Deus, nada lhe falta. Só Deus basta."

Quando sussurrava isso mesmo, sem qualquer tom de mestra, parecia-me ler na minha alma.
"Deus só basta". Sim, Ele há de me bastar, neste e no outro mundo. Quero ali possuí-Lo um dia, por mais sacrifícios que aqui eu tenha ainda de fazer para vencer. Não quero cair no Inferno."
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A eternidade das penas do Inferno é um dogma: seguramente o mais terrível de todos. Tem suas raízes na S. Escritura. Cf. Mt. 25, 41 e 46; 2 Thess. 1, 9; Jud. 13; Apoc. 14, 11 e 20, 10; todos eles são textos irrefutáveis, em que "eterno" não se deixa trocar e interpretar por "longo".

Se não fora conveniente ilustrar esse dogma num caso particular, nem o próprio Nosso Senhor teria pedido fazê-lo na parábola do rico folgazão e do pobre Lázaro. Lá fez o mesmo que aqui vem feito: desenhou o Inferno e como se pode cair nele. Não o fez por prazer sensacional, porém levado pela mesma intenção que ocasionou esta publicação.

A finalidade deste folheto encontra sua expressão no seguinte conselho: "Desçamos ao Inferno ainda vivos, para que moribundos nele não caiamos". Este conselho dirigido a cada um não é senão a paráfrase do salmo 54: "Descendant in infernum viventes, videlicet, ne descendant morientes", a qual se encontra numa obra (erradamente) atribuída a S. Bernardo (Patr. Lat. Migne, vol. 184, Col. 314 b).
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Fonte: Lepanto

terça-feira, maio 11, 2010

O Inferno Existe


Estou lendo um livro que tenho que divulgar e recomendar:

"O Inferno Existe: Provas e Exemplos", do Servo de Deus Pe. André Beltrami, SDB, de 1897.

É um livro que contém dezenas de casos reais, de histórias de gente que morreu e voltou para contar que está no inferno, de gente que por pouco não foi para lá.

Vivemos num tempo em que mesmo padres não acreditam mais no inferno - e olhe que Jesus falou nada menos de quinze vezes sobre isso! -, em que as pessoas fecham os olhos para as realidades da eternidade preferindo dar ouvidos a falsas doutrinas, na ânsia louca de negar a verdade para não terem que mudar de vida.

Que este livro possa ajudar as pessoas a se voltarem para o que importa, para buscar o sentido e para entender a gravidade da vida.

Como diz um rapaz nesta obra:
"Isso de expôr-se por um talvez ao perigo de sofrer por tôda a eternidade é mesmo uma extravagância sem limites; se há tais néscios, não quero imitar.”



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segunda-feira, maio 10, 2010

Padre Pio e a televisão

“Padre Mariano de Santa Croce (...) diz-nos (...) que Padre Pio é contrário a televisão; disse a uma de suas filhas espirituais que vendesse aquela que tem e não permitiu que fossem colocadas na clínica – aquelas que lá estão pertencem em caráter pessoal a alguns médicos. Em seguida, sempre falando sobre a televisão, Padre Mariano diz que, além do perigo moral, existe o perigo da perda de tempo: “Quando se começa, não se larga mais!”

(PERONI, Luigi. Os meus encontros com Padre Pio: diário de um filho espiritual, notas e fragmentos de história. São Paulo: Paulinas, 2007 (Coleção Memória). Pg. 93)


Este diálogo aconteceu em 1957! Imaginem o que diria hoje o santo Padre Pio sobre a televisão...

Eu já não vejo tevê por conta própria há algum tempo (principalmente quando se trata da tevê aberta), vejo apenas involuntariamente quando outras pessoas assistem em minha presença. Somente assisto algumas séries e filmes, buscando sempre selecionar com cuidado. Pode parecer bobagem para muita gente, mas para quem está buscando a purificação, para que é cristão e quer fazer o que Ele mandou – Sede perfeitos como o Pai é perfeito – então certas coisas devem ser repensadas com cuidado.

E o hábito de ver televisão - que é tão cheia de imoralidades e atentados contra a fé, tão instigadora do vício - é algo que deve ser repensado urgentemente por quem quer ser purificado, por quem quer agradar a Deus.

Santo Padre Pio de Pietrelcina, rogai por nós!

sábado, maio 08, 2010

Rezemos pelos sacerdotes!


Neste mês de maio, oremos pelos sacerdotes!

Alguém comentou algo assim: Nosso Senhor escolheu doze apóstolos e um o traiu. Hoje o mundo só dá atenção ao traidor. Mas e os outros que são fiéis? Destes ninguém quer lembrar!

Este vídeo é muito bonito. Para nos lembrar da importância do sacerdote em nossas vidas:


sexta-feira, maio 07, 2010

A Educação Infantil na Idade Média

Por Ricardo da Costa*

No Brasil, a Idade Média ainda é citada por muitos néscios como um tempo de ignorância e barbárie, um tempo vazio, um tempo em que a Igreja escondeu os conhecimentos que naufragaram com o fim do Império Romano para dominar o “povo”. Nesse movimento consciente e ideológico em direção às trevas, o clero teve como aliado principal a nobreza feudal. Juntos, nobreza e clero governaram com coturnos sinistros e malévolos todo o ocidente medieval, que permaneceu assim envolto em uma escuridão de mil anos, soterrado, amedrontado e preso a terra num trabalho servil humilhante [2] .


Quem ainda acredita piamente nesse amontoado de tolices ficará agradavelmente surpreso, espero, com o tema desse trabalho, que não poderia ser mais propício. Minhas perguntas básicas serão: existiu educação na Idade Média? E ciência? E as crianças? É incrível, mas há quase quarenta anos atrás o próprio Jacques Le Goff perguntou: “teria havido crianças no Ocidente Medieval?” [3] Seguindo a trilha deixada por Philippe Ariès [4] , ele buscou a criança na arte e não a encontrou. É verdade. Apressadamente concluiu então que a criança foi um produto da cidade e da burguesia [5] e, portanto, o mundo rural não a conheceu. Pior: a conheceu sim, mas a desprezou, marginalizando-a [6] .


Deixo claro então que minha perspectiva será bastante diferente. Responderei sim a todas àquelas perguntas, opondo-me a Jacques Le Goff e a Philippe Ariès [7] . Para provar isso, dividi minha narrativa em duas partes: primeiro, busquei a condição infantil registrada pela História na Alta Idade Média (séculos V-X) para, a seguir, tratar da estruturação das ciências que Ramon Llull (1232-1316) apresentou a seu filho Domingos quando, em um ato de puro amor paterno, escreveu um livro para ele, a Doutrina para crianças [8] .

Falei há pouco de amor paterno. O amor é uma forma muito profunda e especial de afeto, difícil de ser descrito, difícil de ser registrado a não ser nas emoções daqueles que o compartilham. Por isso, a História registra sempre o que se veste, onde se vive, o que se come, mas dificilmente narra como se ama, especialmente a intensidade e a forma do amor [9] . Os tipos de textos consultados pelos historiadores - as Crônicas, por exemplo - estão mais atentos aos acontecimentos importantes, aos personagens e à política. Assim, ofereceram pouco espaço para o mundo infantil, deixando muitas perguntas que não puderam ser respondidas satisfatoriamente. Por exemplo: como pais e filhos exprimiam seus carinhos, suas incompreensões? De que forma as crianças apreenderam o mundo existente? Como reagiram à escola e aos estudos?


De qualquer maneira, o fato é que, historicamente, o papel da criança sempre foi definido pelas expectativas dos adultos [10] , e esse anseio mudou bastante ao longo da história, embora a família elementar e o amor tenham existido em todas as épocas [11] . Vejamos então o caso medieval.


A primeira herança da Antigüidade não é nada boa: a vida da criança no mundo romano dependia totalmente do desejo do pai. O poder do pater familias era absoluto: um cidadão não tinha um filho, o tomava. Caso recusasse a criança - e o fato era bastante comum - ela era enjeitada. Essa prática era tão recorrente que o direito romano se preocupou com o destino delas [12] . E o que acontecia à maioria dos enjeitados? A morte [13] .


A segunda herança que a Idade Média herda da Antigüidade, a cultura bárbara, foi-nos passada especialmente por Tácito. Ele nos conta que a tradição germânica em relação às crianças era um pouco melhor que a romana. Os germanos não praticavam o infanticídio, as próprias mães amamentavam seus filhos e as crianças eram educadas sem distinção de posição social [14] . O povo germânico era composto por um conjunto de lares, com dois poderes distintos: o matriarcal, exercido no seio da família, e o patriarcal, predominante na política e na organização social [15] . No entanto, o destino das crianças naqueles clãs, como na cultura romana, também dependia da vontade paterna (direito de adoção, de renegação, de compra e venda). A criança aceita ficava aos cuidados dos parentes paternos (agnatos) e o destino dos bastardos, órfãos e abandonados era entregue aos parentes maternos, especialmente a tios e avós maternos [16] .


Dessas duas tradições culturais que se mesclaram e fizeram emergir a Idade Média, concluo que o status da criança naquelas sociedades antigas era praticamente nulo. Sua existência dependia do poder do pai: se fosse menina ou nascesse com algum problema físico, poderia ser rejeitada. Seu destino, caso sobrevivesse, era abastecer os prostíbulos de Roma e o sistema escravista [17] . Até o final da Antigüidade as crianças pobres eram abandonadas ou vendidas; as ricas enjeitadas - por causa de disputas de herança - eram entregues à própria sorte [18] .


Nesse contexto histórico-cultural é que se compreende a força e o impacto do cristianismo, que rompeu com essas duas tradições [19] . O Cristo disse:


Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus. (Mt 18, 1-4).


A tradição cristã abriu, portanto, uma nova perspectiva à criança, uma mudança revolucionária [20] . No entanto, foi um processo bastante lento, um processo civilizacional levado a cabo pela Igreja. Primeiro, por força das circunstâncias. Por exemplo, dos séculos V ao VIII, na Normandia, o índice de mortalidade infantil era muito elevado, 45%, e a expectativa de vida bem pequena, 30 anos [21] . À primeira vista, esses dados arqueológicos poderiam sugerir ao historiador um sentimento de descaso para com a criança: a regularidade da morte poderia criar nos espíritos de então uma apatia, um medo de se apegar a algo tão frágil que poderia morrer à primeira doença [22] .


Paradoxalmente, ao invés disso, a documentação nos mostra que havia um grande apego dos pais aos filhos, apesar da mortalidade infantil. Em sua História dos Francos, Gregório de Tours nos conta o sentimento de tristeza e a lamentação de Fredegunda (concubina e depois esposa do rei dos francos Chilperico), quando da morte de crianças:


Essa epidemia que começou no mês de agosto atacou em primeiro lugar a todos os jovens adolescentes e provocou sua morte. Nós perdemos algumas criancinhas encantadoras e que nos eram queridas, a quem nós havíamos aquecido em nosso peito, carregado em nossos braços ou nutrido por nossa própria mão, lhes administrando os alimentos com um cuidado delicado [...] O rei Chilperico também esteve gravemente doente. Quando entrou em convalescença, seu filho mais novo, que não era ainda renascido pela água e pelo Espírito Santo, caiu enfermo. Assim que melhorou um pouco, seu irmão mais velho, Clodoberto, foi atingido pela mesma doença, e sua mãe Fredegunda, vendo-o em perigo de morte e se arrependendo tardiamente, disse ao rei: “A misericórdia divina nos suporta há muito tempo, nós que fazemos o mal, porque sempre ela nos tem advertido através das febres e outras doenças, mas sem que nos corrijamos. Nós perdemos agora os nossos filhos, eis que as lágrimas dos pobres, as lamentações das viúvas e os suspiros dos órfãos os matam e não nos resta esperança de deixar os bens para ninguém. Nós entesouramos sem ter para quem deixar. Os tesouros ficarão privados de possuidor e carregados de rapina e maldições! Nossas adegas não abundam em vinho? Nossos celeiros não estão repletos de trigo? Nossos tesouros não estão abarrotados de ouro e de prata, de pedras preciosas, de colares e outras jóias imperiais? Nós perdemos o que tínhamos de mais belo! Agora, por favor, venha! Queimemos todos os livros de imposições iníquas e que nosso fisco se contente com o que era suficiente ao pai e rei Clotário.” (Gregório de Tours, Historiae, V, 34) (os grifos são meus) [23]


Pois bem. Fredegunda, uma das mulheres mais cruéis da História, apesar de filha de seu tempo bárbaro, chora a morte de seus filhos e afirma que perdeu o que tinha de mais belo [24] . Mesmo nessa aristocracia merovíngia rude e cruel – no pior sentido da palavra [25] – há espaço para amor materno.


Por sua vez, fora do mundo secular, um espaço social lentamente impôs uma nova perspectiva à educação infantil: o monacato [26]. Os monges criaram verdadeiros “jardins de infância” nos mosteiros [27], recebendo indistintamente todas as crianças entregues [28], vestindo-as, alimentando-as e educando-as, num sistema integral de formação educacional [29].


As comunidades monásticas célticas foram as que mais avançaram nesse novo modelo de educação, pois se opunham radicalmente às práticas pedagógicas vigentes das populações bárbaras, que defendiam o endurecimento do coração já na infância [30]. Pelo contrário, ao invés de brutalizar o coração das crianças para a guerra e a violência, os monges o abriam para o amor e a serenidade [31].


As crianças eram educadas por todos do mosteiro até a idade de quinze anos. A Regra de São Bento prescreve diligência na disciplina: que as crianças não apanhem sem motivo, pois “não faças a outrem o que não queres que te façam.” [32] Toco aqui em um ponto importante e de grande discussão na História da Educação. O sistema medieval e monástico previa a aplicação de castigos. Na Bíblia há passagens sobre os castigos com vara que devem ser aplicados aos filhos [33]; na Regra de São Bento há várias passagens (punição com jejuns e varas [34], pancadas em crianças que não recitarem corretamente um salmo [35]), e esse ponto foi muito destacado e criticado pela pedagogia moderna, que, no entanto, não levou em consideração as circunstâncias históricas da época [36]. Por exemplo, Manacorda interpreta os castigos do período antigo e medieval como puro sadismo pedagógico [37], linha de interpretação que permaneceu ao lado da imagem do monge medieval como uma pessoa frustrada e desiludida amorosamente e que, por esse motivo, buscava a solidão do mosteiro [38].


Naturalmente isso se deve a um anacronismo e preconceito que não condizem com a postura de um historiador sério. Basta buscar os textos de época que vemos a felicidade dos egressos dos mosteiros pelo fato de terem sido amparados, criados e educados. Darei apenas dois breves exemplos. Ao se recordar do mosteiro onde passou sua infância, São Cesário de Arles (c. 470-542) diz:


Essa ilha santa acolheu minha pequenez nos braços de seu afeto. Como uma mãe ilustre e sem igual e como uma ama-de-leite que dispensa a todos os bens, ela se esforçou para me educar e me alimentar. [39]


Por sua vez, Walafried Strabo (806-849), então jovem monge, nos conta em seu Diário de um Estudante:


Eu era totalmente ignorante e fiquei muito maravilhado quando vi os grandes edifícios do convento (...) fiquei muito contente pelo grande número de companheiros de vida e de jogo, que me acolheram amigavelmente. Depois de alguns dias, senti-me mais à vontade (...) quando o escolástico Grimaldo me confiou a um mestre, com o qual devia aprender a ler. Eu não estava sozinho com ele, mas havia muitos outros meninos da minha idade, de origem ilustre ou modesta, que, porém, estavam mais adiantados que eu. A bondosa ajuda do mestre e o orgulho, juntos, levaram-me a enfrentar com zelo as minhas tarefas, tanto que após algumas semanas conseguia ler bastante corretamente (...) Depois recebi um livrinho em alemão, que me custou muito sacrifício para ler mas, em troca, deu-me uma grande alegria... [40]


Esses são apenas dois de muitos exemplos que contam a felicidade e a alegria que os medievais sentiram com o fato de terem tido a sorte de serem acolhidos em um mosteiro. Assim, devemos sempre confrontar em retrospecto as regras com a vida cotidiana, o sistema institucional com o que as pessoas pensavam dele, para então construirmos um juízo de valor mais adequado e menos sujeito a anacronismos.


Para completar o entendimento do sentido civilizacional dos mosteiros medievais, basta confrontarmos sua vida cotidiana - de educação e disciplina voltada para uma formação ética e moral das crianças - com o mundo exterior. Por exemplo, no período carolíngio (séculos VIII a X), apesar do avanço da implantação da família conjugal simples (modelo cristão) com uma média de 2 filhos por casal e um período de aleitamento de dois anos, a prática do infanticídio continuava comum, a idade média dos casamentos era muito baixa (entre 14 e 15 anos de idade), a poligamia e a violência sexual eram recorrentes, pelo menos na aristocracia [41] e ainda havia a questão da escravidão de crianças [42]. Confronte você, caro leitor, essa realidade com a vida de uma criança em um mosteiro.


Por sua vez, os bispos carolíngios do século IX tentaram regulamentar o casamento cristão, redigindo uma série de tratados (espelhos) [43]. Neles, o casamento era valorizado, a mulher reconhecida como pessoa com pleno direito familiar e em pé de igualdade com o marido e a violência sexual denunciada como crime grave e do âmbito da justiça pública [44] . Para o nosso tema, o que interessa é que as crianças também foram objeto de reflexão nesses espelhos: a maternidade foi considerada um valor (charitas) e o casal tinha a obrigação de aceitar e reconhecer os filhos [45].


Assim, a ação da ordem clerical foi dupla: de um lado, os bispos lutaram contra a prática do infanticídio, de outro, os monges revalorizaram a criança, que passou por um processo de educação direcionada, de cunho integral e totalmente igualitária – por exemplo, as escolas monacais carolíngias davam preferência a crianças filhas de escravos e servos ao invés de filhos de homens livres, a ponto de Carlos Magno ser obrigado a pedir que os monges recebessem também para educar crianças filhas de homens livres [46]. Estes séculos da Alta Idade Média foram cruciais para a implantação do modelo de casamento cristão conhecido por todo o mundo ocidental, para a valorização da mulher como parceira e igual do marido e para a idéia de criança como ser próprio e com necessidades pedagógicas específicas [47]. Por fim, a sociedade era pensada como o conjunto de pessoas casadas (ordo conjugatorum), e a criança tinha um papel fundamental nessa estrutura, pois era o fim último da união.
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Mulher, criança, minorias revalorizadas na Idade Média em relação à Antigüidade. Para completar esse quadro compreensivo, quero responder à terceira pergunta feita no início: qual era o conceito de educação que alicerçava esse novo sistema pedagógico medieval? Essa é uma resposta relativamente mais simples. Para os homens da época, as palavras eram transparentes: havia um prazer muito grande em saborear o sentido etimológico delas. Os intelectuais de então diziam que o homem é um ser que esquece suas experiências. Ele consegue resgatá-las através da linguagem [48]. Assim, a expressão educação era entendida como estando associada à sua raiz etimológica latina: educe, “fazer sair”. Como o conhecimento já existia inato no indivíduo, restava responder à seguinte pergunta: de que modo o estudante era conduzido da ignorância ao saber? [49] Como o aluno aprendia? Essa era a questão básica dos educadores medievais. Preocupados com a forma da aquisição, os pedagogos de então tiveram uma importante consciência: cabia ao professor “acender uma centelha” no estudante e usar seu ofício para formar e não asfixiar o espírito de seus alunos [50]. Muito moderna a educação medieval! [51]

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[1] Este artigo é dedicado ao meu amigo e colega de trabalho, Prof. Josemar Machado Oliveira (UFES), que certa vez presenteou-me com um belo livro (GIMPEL, Jean. A Revolução Industrial da Idade Média. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1977) e aproveitou o ensejo para dizer-me que não existiu ciência na Idade Média!
[2] Um excelente livro que apresenta estes mitos e os destrói completamente é HEERS, Jacques. A Idade Média, uma impostura. Porto: Edições Asa, 1994.
[3] LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984, vol. II, p. 44.
[4] ARIÈS, Philippe. L’enfant et la vie familiale sous l’Ancien Régime, Paris, 1960.
[5] LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval, op. cit., p. 45.
[6] LE GOFF, Jacques. “Os marginalizados no ocidente medieval”. In: O Maravilhoso e o Quotidiano no Ocidente Medieval. Lisboa: Edições 70, p. 169.
[7] Le Goff recupera o tema da criança como não-valor em sua biografia São Luís (Rio de Janeiro: Editora Record, 1999, p. 84), citando uma farta bibliografia como apoio à sua tese mas somente uma fonte: João de Salisbury (“Não há a necessidade de recomendar muito a criança aos pais, porque ninguém detesta sua carne” - Policraticus, ed. C. Webb, p. 289-290), justamente uma passagem de um texto medieval onde se afirma o amor dos pais em relação aos filhos como algo comum!
[8] Utilizarei minha tradução feita a partir da edição de Gret Schib. RAMON LLULL. Doctrina pueril. Barcelona: Editorial Barcino, 1957.
[9] MARQUES, A H. de Oliveira. A Sociedade Medieval Portuguesa - aspectos de vida quotidiana. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1987, p. 105.
[10] BURKE, Peter. História e teoria social. São Paulo: Editora Unesp, 2002, 71-72.
[11] Interessante afirmação do antropólogo Jack Goody. Citado em GUICHARD, Pierre. “A Europa Bárbara”. In: BURGUIÈRE, André, KLAPISCH-ZUBER, Christiane, SEGALEN, Martine e ZONABEND, Françoise (dir.). História da Família. Tempos Medievais: Ocidente, Oriente. Lisboa: Terramar, 1997, p. 18.
[12] ROUSSELL, Aline. “A política dos corpos: entre procriação e continência em Roma”. In: DUBY, Georges e PERROT, Michelle (dir.): História das Mulheres no Ocidente. A Antigüidade. Porto: Edições Afrontamento / São Paulo: Ebradil, s/d, p. 363.
[13] VEYNE, Paul. “O Império Romano”. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges (dir.). História da vida privada I. Do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 23-24.
[14] “Limitar o número de filhos ou matar algum dos recém-nascidos é crime; assim seus bons costumes podem mais que as boas leis em outras nações. De qualquer modo, eles crescem desnudos e sem asseio até chegarem a ter esses membros e corpos que admiramos. Os filhos são nutridos com o leite de suas mães, nunca de criadas ou amas-de-leite. Não há distinção entre o senhor e o escravo em nenhuma delicadeza de criança. Passam a vida entre os mesmos rebanhos e na mesma terra até que a idade e o valor distingam os nobres.”― TÁCITO. “Germania”. In: Obras Completas. Madrid: M. Aguilar, Editor, 1946, p. 1026.
[15] GUICHARD, Pierre. “A Europa Bárbara”, op. cit., p. 24.
[16] GUICHARD, Pierre. “A Europa Bárbara”, op. cit., p. 28.
[17] DE CASSAGNE, Irene (PUC - Buenos Aires - Argentina). Valorización y educación del Niño en la Edad Media, p. 20 (artigo consultado em www.uca.edu.ar)
[18] ROUSSELL, Aline. “A política dos corpos: entre procriação e continência em Roma”, op. cit., p. 364.
[19] Um dos melhores ensaios a respeito é de JOHNSON, Paul. História do Cristianismo. Rio de Janeiro: Imago, 2001, especialmente as páginas 11-148.
[20] DE CASSAGNE, Irene. Valorización y educación del Niño en la Edad Media, op. cit., p. 20.
[21] ROUCHE, Michel. “Alta Idade Média ocidental”. In: ARIÈS, Philippe e DUBY, Georges (dir.). História da vida privada I. Do Império Romano ao ano mil. São Paulo: Companhia das Letras, 1991, p. 442-443.
[22] Essa idéia - da indiferença como conseqüência do mau hábito - está muito bem expressa no conceito de banalização do mal criado por Hannah Arendt em sua obra Origens do Totalitarismo (São Paulo: Companhia das Letras, 1990).
[23] Tradução de Edmar Checon de Freitas (doutorando em História Medieval pela UFF) a partir da versão francesa de R. Latouche (GRÉGOIRE DE TOURS. Histoire des Francs. Paris: Les Belles-Lettres, 1999, p. 295-296).
[24] “Fredegunda foi concubina de Chilperico (neto de Clóvis). Ele casou-se com Galasvinta, filha do rei visigodo Atanagildo, e sua irmã, Brunilda, desposou Sigisberto, meio-irmão de Chilperico (Hist., IV, 27-28). Galasvinta acabou assassinada por ordem de Chilperico, ficando Fredegunda como sua primeira esposa (Hist., IV, 28); Gregório insinua uma influência de Fredegunda na morte da rival. Chilperico e Fredegunda figuram nas Historiae como um casal malévolo e sanguinário. A passagem sobre a morte de seus filhos tem de ser lida nesse contexto. Contudo, é importante destacar a forma escolhida pelo autor para sublinhar o castigo divino: a perda dos filhos e herdeiros. O tema da morte das crianças era caro a Gregório. Por sua vez, no capítulo V (22), é narrada a morte de Sansão, outro filho pequeno de Chilperico e Fredegunda. Nascido durante um cerco sofrido por Chilperico - em guerra com o irmão Sigisberto - ele foi rejeitado pela mãe (que temia sua morte). O pai salvou-o e Fredegunda acabou batizando a criança, que morreu antes dos 5 anos. Mais tarde nasceu um outro filho do casal, Teuderico, ocasião na qual o rei libertou prisioneiros e aliviou impostos (Hist., VI, 23, 27). Novamente a desinteria vitimou a criança, com cerca de 1 ano de vida (Hist., VI, 34). O único herdeiro de Chilperico, Clotário, nasceu já no fim de sua vida (Hist., VI, 41; ele foi assassinado em 584). Tornou-se ele rei sob o nome de Clotário II, tendo unificado o regnum Francorum. Chilperico teve outros filhos, de sua primeira mulher, Audovera. Teodeberto morreu no campo de batalha (Hist., IV, 50); Clóvis e Meroveu (Hist., V, 18) foram mortos a mando do pai, o primeiro sob a instigação de Fredegunda. Na ocasião, ela suspeitara de malefícios contra seus filhos, recentemente mortos, nos quais Clóvis estaria envolvido; ela também ordenou a tortura de algumas mulheres suspeitas (Hist., V, 39).” ― FREITAS, Edmar Checon de.
[25] LE GOFF, Jacques. A civilização do ocidente medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1984, vol. I, p. 58-60.
[26] JOHNSON, Paul. História do Cristianismo, op. cit., especialmente as páginas 167-188.
[27] DE CASSAGNE, Irene. Valorización y educación del Niño en la Edad Media, op. cit., p. 21.
[28] “Sabe-se que as escolas dos mosteiros acolhiam tanto os nobres rebentos da aristocracia quanto os pobres filhos dos servos.” ― NUNES, Rui Afonso da Costa. História da Educação na Idade Média. São Paulo: EDUSP, 1979, p. 113.
[29] Mesmo Manacorda, um crítico do período, afirma que “...devemos reconhecer que, na pedagogia cristã, ela (a maxima reverentia) é um elemento novo de consideração da idade infantil” ― MANACORDA, Mario Alighiero. História da Educação - da Antigüidade aos nossos dias. São Paulo: Cortez, 1989, p. 118.
[30] Por exemplo, em sua Guerra Gótica, o historiador bizantino Procópio de Cesaréia († 562) nos conta que “...nem Teodorico permitira aos godos enviar os filhos à escola de letras humanas, antes dizia a todos que, uma vez dominados pelo medo do chicote, nunca teriam ousado enfrentar com coragem o perigo da espada e da lança (...) Portanto, querida soberana - diziam a ela - manda para aquele lugar esses pedagogos e põe tu mesma ao lado de Atalarico alguns coetâneos: estes, crescendo junto com ele, o impelirão para a coragem e a valentia segundo o uso dos bárbaros (I, 2)” ― Citado em MANACORDA, Mario Alighiero. História da Educação - da Antigüidade aos nossos dias, op. cit., p. 135-136.
[31] ROUCHE, Michel. “Alta Idade Média ocidental”, op. cit., p. 446.
[32] Regra de São Bento (depois de 529 d.C.), cap. 70. Documento consultado na INTERNET: http://www.ricardocosta.com/bento.htm
[33] “O que retém a vara aborrece a seu filho, mas o que ama, cedo o disciplina.” (Prov. 13:24); “Não retires da criança a disciplina, pois, se a fustigares com a vara não morrerás. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno.” (Prov. 23.13-14)
[34] “Os meninos e adolescentes ou os que não podem compreender que espécie de pena é, na verdade, a excomunhão, quando cometem alguma falta, sejam afligidos com muitos jejuns ou castigados com ásperas varas, para que se curem.” ― Regra de São Bento, cap. 30 (http://www.ricardocosta.com/bento.htm)
[35] “As crianças por tal falta recebam pancadas” ― Regra de São Bento, cap. 45.
[36] Mesmo nesse aspecto, o das surras, há de se relativizar: um dos maiores sucessos editoriais no Brasil, o livro Meu Bebê, Meu Tesouro, de DELAMARE, defendia que as crianças deveriam levar uma surra todos os dias!
[37] MANACORDA, Mario Alighiero. História da Educação - da Antigüidade aos nossos dias, op. cit., p. 119. Naturalmente Manacorda se refere ao sadismo por parte de quem aplicava o castigo, isto é, os monges. Falo isso porque, certa vez, ao ler parte desse texto em sala de aula na UFES, uma aluna ficou em dúvida se o sadismo era por parte de quem batia ou de quem apanhava!
[38] “Pode haver, com efeito, alguns casos particulares desses tipos. Mas os monges são pessoas que fizeram e fazem livremente a sua opção pela vida silenciosa e penitente, por amor a Deus que transborda na caridade para com o próximo.” ― NUNES, Rui Afonso da Costa. História da Educação na Idade Média, op. cit., p. 91-92. [39] San Cesáreo de Arles, Sermo ad monacho, CCXXXVI, 1-2, Morin, t. II, p. 894. Citado em DE CASSAGNE, Irene. Valorización y educación del Niño en la Edad Media, op. cit., p. 22.
[40] Citado em MANACORDA, Mario Alighiero. História da Educação - da Antigüidade aos nossos dias, op. cit., p. 135. Esse belo texto medieval também é analisado em NUNES, Rui Afonso da Costa. História da Educação na Idade Média, op. cit., p. 157-159 (SÖHNGEN, C. J. De medii aevi puerorum institutione in occidente. Diss. Amsterdam 1900).
[41] TOUBERT, Pierre. “O período carolíngio (séculos VII a X)”. In: BURGUIÈRE, André, KLAPISCH-ZUBER, Christiane, SEGALEN, Martine e ZONABEND, Françoise (dir.). História da Família. Tempos Medievais: Ocidente, Oriente. Lisboa: Terramar, 1997, p. 69-84.
[42] “O comércio de escravos fora rigorosamente interdito em 779 e 781 (...) mas continuou, não obstante (...) Agobardo mostra-nos que este comércio vinha de longe (...) conta-nos que no começo do século IX chegara a Lião um homem, fugido de Córdova, onde tinha sido vendido como escravo por um judeu de Lião. E afirma a este propósito que lhe falaram de crianças roubadas ou compradas por judeus para serem vendidas.” ― PIRENNE, Henri. Maomé e Carlos Magno. Lisboa: Publicações Dom Quixote, s/d., p. 228.
[43] Christopher Brooke analisa a história do casamento (O casamento na Idade Média. Lisboa: Publicações Europa-América, s/d) sem, contudo, tratar da ética conjugal dos espelhos carolíngios, preferindo fazer seu recorte nos séculos feudais (XI-XII).
[44] “O modelo conjugal que a elite religiosa procura então impor como regulador da violência social implica, além disso, um reconhecimento da mulher enquanto pessoa, enquanto consors de pleno direito na sociedade familiar (...) A perfeita igualdade entre os cônjuges é um dos temas mais constantes da literatura matrimonial, em plena concordância com a legislação que, desde meados do século VIII, não cessa de proclamar que a lei do matrimônio é uma só, tanto para o homem como para a mulher.” ― TOUBERT, Pierre. “O período carolíngio (séculos VII a X)”, op. cit., p. 87. Também é desnecessário dizer que a violência sexual da época era contra a mulher.
[45] “Esta temática deverá ser relacionada com a luta que nessa época se travava contra as práticas contraceptivas, o aborto provocado e o infanticídio. Comporta igualmente um dever de educação cristã que tem como resultado, em Teodulfo de Orleães, uma definição do officium paterno e materno.” ― TOUBERT, Pierre. “O período carolíngio (séculos VII a X)”, op. cit., p. 87. [46] “Que ajuntem e reúnam ao redor de si não só filhos de condição servil, mas também filhos de homens livres.” ― Da Admonitio generalis, cap. 72. In: BETTENSON, H. Documentos da Igreja cristã. São Paulo: ASTE, 2001, p. 168.
[47] Todos esses avanços jurídicos em relação à mulher e à criança foram acompanhados, paradoxalmente, por um discurso clerical anti-feminino! Para esse tema, ver especialmente DUBY, Georges. Eva e os padres. Damas do século XII. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. De qualquer modo, é fato que a mulher moderna ocidental hoje desfruta de uma posição social melhor que no Oriente, especialmente nos países de cultura islâmica.
[48] “O gosto que os autores medievais tinham pela etimologia derivava de uma atitude com relação à linguagem bastante diferente da que geralmente temos hoje. Na Idade Média, ansiava-se por saborear a transparência de cada palavra; para nós, pelo contrário, a linguagem é opaca e costuma ser considerada como mera convenção (e nem reparamos, por exemplo, em que coleira, colar, colarinho, torcicolo e tiracolo se relacionam com colo, pescoço).” ― LAUAND, Luiz Jean. Cultura e Educação na Idade Média. São Paulo: Martins Fontes, 1998, p. 106.
[49] Esse é um ponto no qual a pedagogia medieval difere enormemente da moderna, pois é quase senso comum hoje afirmar que as crianças são receptáculos vazios (tabula rasa) e o educador enche-as de conteúdo. [50] PRICE, B. B. Introdução ao Pensamento Medieval. Lisboa: Edições Asa, 1996, p. 88.
[51] Este trabalho é a primeira parte da palestra intitulada "Reordenando o conhecimento: a educação na Idade Média e o conceito de ciência expresso na obra Doutrina para Crianças (c. 1274-1276) de Ramon Llull" proferida na II Jornada de Estudos Antigos e Medievais: Transformação social e Educação - 10 e 11 de Outubro de 2002 - Universidade Estadual de Maringá (UEM), evento coordenado pela Profª Drª Terezinha Oliveira.


*Prof. Adjunto de Hist. Medieval da UFES
Universidade Federal do Espírito Santo.
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