segunda-feira, janeiro 07, 2019

Comentários Eleison: Hamlet = Apostasia

Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DXCIX (599) (5 de janeiro de 2019)






HAMLET = APOSTASIA

O mundo está apodrecido, rapazes, mas é indubitável:
Se ele está assim por toda parte, Deus permanece imutável.  


Se Hamlet é possivelmente a mais desconcertante, provavelmente a mais interessante, e indubitavelmente a mais moderna de todas as trinta e sete peças teatrais de Shakespeare, isto se dá por uma mesma razão: há um elefante na sala. Esse elefante é a apostasia da Inglaterra, que abandonou a Fé católica, que estava sendo triturada pelo governo inglês quando Shakespeare escreveu a peça, por volta de 1600 d.C., o que o estava levando ao desespero, porque ele era um católico devoto. Então (1) Hamlet é a mais intrigante de suas peças para a multidão de leitores pós-católicos, de aficionados por teatro e de críticos, que não têm nem ideia de que "Reforma" foi o maior desastre que já se abateu sobre a Inglaterra. (2) É a mais desconcertante das peças porque é fundamental e conflituosa em relação à Idade Média que passou e a Idade Moderna que se seguiu. (3) É a mais moderna, porque nos últimos quatrocentos anos praticamente o mundo inteiro passou a compartilhar da apostasia da Inglaterra.

(1) Mas quem se importa com a apostasia hoje em dia? Quantas pessoas sabem ao menos o que a palavra significa (um afastamento da fé católica)? Houve um tempo, como em 1600 na Inglaterra, em que o diabo perseguiu ferozmente a fé, de modo que Shakespeare teve de disfarçar a fé em suas peças para não ser enforcado, eviscerado e esquartejado. Mas hoje o Diabo destrói muito mais almas, fazendo com que elas acreditem que a religião é de tão pouca importância que qualquer um pode escolher qualquer religião que queira, ou inclusive nenhuma. E os vis meios de comunicação estão tão inundados de erros e imoralidade que a massa de pessoas não se dá mais conta destes (vejam o livro Shadowplay, de Clare Asquith, para a codificação católica em todas as obras de Shakespeare). Mas se a mãe incestuosa de Hamlet, a rainha Gertrude, realmente representa a Inglaterra cometendo incesto com o protestantismo, que o cunhado dela representa, é de estranhar que nossos contemporâneos se encontrem incapazes de perceber a melancolia do príncipe Hamlet?

(2) A peça é fundamental e conflituosa porque, como nenhuma outra peça de Shakespeare, está suspensa entre o mundo medieval e a Nova Ordem Mundial, e porque o próprio Shakespeare estava sendo sacudido até a medula pelo aparente sucesso da erradicação da Fé em seu amado país, como se pode ler em sua obra, desde a amargura do Príncipe até quase todos os que o rodeiam, especialmente seu verdadeiro amor, Ofélia. Ora, um católico não é amargo, mas Shakespeare estava assim ao escrever Hamlet (essa amargura, porém, não durou muito). Leiam o valiosíssimo livro de John Vyvyan, The Shakespearean Ethic, se quiserem discernir o padrão moral subjacente a todas as peças teatrais que foi a gloriosa herança do Shakespeare da Inglaterra medieval. Está presente até mesmo em Hamlet, sobretudo no desprezo do Príncipe por Ofélia para abrir espaço em seu coração para a vingança. Mas em Hamlet, como em nenhuma outra obra, a corrupção da sociedade – nem mais nem menos que por apostasia – é tão terrível que o Príncipe antissocial surge como um herói absoluto, o primeiro de uma longa lista de heróis antiautoritários (cf. Hollywood) que precisam anular todo respeito natural pela autoridade social. A apostasia mata a sociedade.

(3) Assim, Hamlet é a mais moderna das peças de Shakespeare, porque é a peça que mais se afasta do modelo medieval ou se sobrepõe a ele. Shakespeare escreveu muitas obras depois dela, mas nunca mais se sentiu tentado a substituir o amor pela vingança ou a voltar do Novo para o Antigo Testamento. Ele recuperou sua calma e equilíbrio enquanto ainda escrevia magníficas peças de teatro, mas em 1611 ele abandonou o cenário e Londres, deixando os puritanos tomarem o controle da Inglaterra e levarem eventualmente todo mundo para longe de Deus. Hoje, gerações de jovens amamentados pelos anti-heróis se transformaram em anti-homens, com pouco ou nada restando neles de sua herança medieval. Mas a natureza humana não mudou, e os seres humanos ainda precisam de homens para liderá-los, e é por isso que as meninas estão tentando-se transformar em homens, e os jovens dos dois sexos desprezam cada vez mais um ao outro. Em uma frase de Macbeth, "A confusão fez sua obra-prima".

Se vocês lerem Hamlet, tenham cuidado com o Fantasma no Primeiro Ato. Se vocês são católicos, sabem que o Deus Todo-Poderoso nunca deixaria uma alma sair do Purgatório para buscar vingança. Então, de onde poderia vir o Fantasma senão do Inferno? Nesse caso, o príncipe é realmente um herói? A amargura de Shakespeare era compreensível, mas distorceu sua teologia. Rapazes, adorem e amem a Jesus Cristo, amem a Sua Mãe, rezem o seu Rosário e liderem as moças. É para isso que elas precisam de vocês.

Kyrie eleison.

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