domingo, março 15, 2020

Comentários Eleison: Malícia do Modernismo - II

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLXI (661) – (14 de março de 2020):


Malícia do Modernismo – II


Ante Deus, somente a humildade convém ao homem.
Ante Deus, o orgulho, se puder, destrói um homem.

A malícia do modernismo é um assunto muito extenso, e não menos do que aquele de um mundo inteiro voltando-se contra seu Criador no final de um processo que dura vários séculos, desde que, no auge da Idade Média, a Cristandade tombou, passando da ascensão para a queda. A ascensão havia começado no ano 33 d.C., evidentemente, quando Nosso Senhor Encarnado fundou a única Igreja verdadeira de Deus com Seu sacrifício na cruz. A Idade Média poderia ser datada desde o Pontificado de Gregório Magno (590-604) até a eclosão do protestantismo e o início da era moderna em 1517, tendo durado quase um milênio.

Mas havia uma grande diferença, naturalmente, na atitude da humanidade em relação a Cristo e Sua Igreja antes e depois da Idade Média: antes da Idade Média, o Cristianismo se mostrava cada vez mais como sendo o melhor fundamento para a civilização, enquanto após a Idade Média isto passou a ser demonstrado amplamente, de modo que, nesse período, sua superioridade em relação a todas as outras religiões teve de ser reconhecida mesmo enquanto ele estava sendo recusado na prática. Isso significa que todos os pretendentes substitutos do Catolicismo que surgiram após a Idade Média são caracterizados por uma hipocrisia que precisava ser cada vez mais sutil para que eles pudessem fazer-se passar por verdadeiros substitutos do Catolicismo.

Assim, Lutero rejeitou brutalmente o Catolicismo, mas ainda fingiu que sua revolução era uma "Reforma", e depois que a Igreja Católica o expulsou, os jansenistas revolucionários criaram no século XVI uma forma protestante de catolicismo. Os jansenistas, por sua vez, transformaram-se em liberais no século XVIII, fingindo ter em sua maçonaria um culto iluminado superior ao dos protestantes e ao dos católicos, e quando a verdadeira Igreja repudiou resolutamente a Maçonaria no mesmo século XVIII, então os liberais se disfarçaram de católicos liberais no século XIX, e de liberais “atualizados” ou superiores aos católicos no século XX. São Pio X rapidamente diagnosticou e descartou esse modernismo na Pascendi, mas este, fazendo-se passar ainda mais sutilmente por um catolicismo atualizado, varreu com ele quase toda a Igreja no Vaticano II (1962-1965); e, no século XXI, o disfarce já era tão bom que até mesmo a Fraternidade Sacerdotal São Pio X oficial, fundada para resistir a esse neomodernismo, também foi essencialmente varrida.

Humanamente falando, é assustador perceber em 2020 como resta pouca resistência católica a essa ascensão do Diabo e a seus ataques contra a Igreja, mas foi isso que o Deus Sapientíssimo escolheu permitir, e, sem dúvida, Ele ainda está cuidando de Seu “pequeno rebanho”, como Nosso Senhor o chama: “Não temais, ó pequeno rebanho, porque foi do agrado de vosso pai dar-vos (seu) reino. Vendei o que possuis, e dai esmola. Provede-vos de tesouro inexaurível no céu, aonde não chega o ladrão, e (ao qual) a traça não rói. Porque onde está o vosso tesouro, aí está também o vosso coração”. (Lc. XII, 32-34). Em outras palavras, renuncie ao dinheiro e ao materialismo, porque Nosso Senhor nos adverte que não podemos servir a dois deuses ao mesmo tempo, e se servimos a Mamon, não podemos servir a Deus (Mt. VI, 24).

E se reconhecermos como somos vulneráveis aos erros, às mentiras e às blasfêmias sutis do diabo que dominaram o mundo que nos rodeia, então, como antídoto, rezemos o Rosário de Nossa Senhora, de preferência todos os 15 Mistérios por dia, porque Ela e somente Ela o coloca sob seus pés, como qualquer boa imagem dela, quadro ou estátua, nos lembra; e hoje em dia o mal é tão avassalador que os 15 mistérios não são demais, se rezá-los integralmente for razoável e possível.

E como é que uma humilde donzela judia pode ser mais forte do que Satanás com todas as suas "pompas e obras" é o segredo de Deus revelado tanto por Nosso Senhor: “Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos prudentes, e as revelaste aos pequeninos” (Mt. XI, 25), como por São Paulo: “Mas as coisa loucas segundo o mundo escolheu-as Deus para confundir os sábios; e as coisas fracas segundo o mundo escolheu-as Deus para confundir os fortes” (1 Cor. I, 27). Na próxima semana, veremos mais atentamente a hipocrisia do modernismo.

Kyrie eleison.

domingo, março 08, 2020

Comentários Eleison: Malícia do Modernismo - I

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLX (660) – (7 de março de 2020):


Malícia do Modernismo - I


Líderes católicos, quando vocês compreenderão,
A praga que está cravada em sua Igreja?

Se a Fraternidade Sacerdotal São Pio X não é mais uma destacada ponta de lança da defesa da Fé Católica, como foi sob o Arcebispo Lefebvre (1905-1991), isso certamente se deve a que seus sucessores à frente da Fraternidade nunca entenderam tão bem quanto ele toda a malícia desse erro que está devastando a Igreja atualmente, que é o modernismo. De fato, cita-se o Arcebispo no final de seus dias dizendo que se ele tivesse lido mais cedo em sua carreira a Histoire du catholicisme libéral et du catholicisme social en France de 1870 à 1914 [História do catolicismo liberal e do catolicismo social na França de 1870 a 1914], do Pe. Emmanuel Barbier (1851-1925), teria dado aos seus seminaristas uma direção diferente. Se esse comentário é realmente autêntico, sugere que até o Arcebispo teria sido atingido pela malícia da modernidade. Da mesma forma, cita-se o valente fundador do periódico Si si no no na Itália, Don Francesco Putti (1909-1984), como tendo dito ao seu bom amigo, o Arcebispo: "Metade dos seus seminaristas são modernistas".

E é fácil subestimar a malícia da modernidade, porque ela vem desenvolvendo-se no Ocidente há séculos, e porque todos os ocidentais estão empapados nela, do berço ao túmulo. Dessa modernidade veio o modernismo na Igreja, precisamente para adaptar-se a ela, e essa mesma modernidade serviu de pano de fundo para todos os Padres do Concílio na década de 1960, e para os sucessores do Arcebispo a partir da década de 1980. De fato, só pode ter sido por uma graça especial de Deus que o Arcebispo viu o problema tão claramente como o fez.
Mostremos como a falta de compreensão sobre o modernismo subjaz à maioria dos erros de seus sucessores:

1. 95% dos textos do Vaticano II são aceitáveis. Pelo contrário, o Arcebispo Lefebvre disse que o problema com o Vaticano II não está tanto em seus grandes erros de liberdade religiosa, colegialidade e ecumenismo como está no subjetivismo que impregna todos os seus textos, pelo qual a verdade objetiva, Deus e a Fé Católica se dissolvem no nada. Pela revolução copernicana elaborada na filosofia por Kant (1724-1804) e denunciada por Pio X na Pascendi (1907), em vez de o sujeito girar em torno do objeto, dali em diante o objeto é que giraria em torno do sujeito. E é em torno dessa loucura que o mundo inteiro agora gira.

2. É verdade que o Concílio foi mau, mas hoje está perdendo o controle sobre os romanos. Sério? E a Pachamama? Desde quando temos visto essa idolatria pública nos Jardins do Vaticano e nas igrejas de Roma?

3. Não adianta nada a Fraternidade esperar que Roma se converta de seu modernismo, e se os romanos estão dispostos a aceitar-nos 'como somos', significa que Roma está a caminho da conversão, e então devemos chegar a um acordo. De fato, é inútil esperar que os modernistas romanos se convertam, porque são liberais. É preciso um milagre para converter um liberal (Pe. Vallet), porque o liberalismo é uma armadilha cômoda e lisonjeira da qual humanamente falando é virtualmente impossível sair sem um milagre, e esse milagre para o mundo e a Igreja será a Consagração da Rússia, e não uma Fraternidade que segue o caminho dos liberais. Se eles aceitam “tal como é” a anteriormente recalcitrante FSSPX, isso se dá somente porque a FSSPX não é mais antiliberal como era antes, porque o sal da Fraternidade perdeu seu sabor (cf. Mt. V, 13).

4. Precisamos de paciência e tato para entendermos como os romanos pensam a fim de não ofendê-los. Para entendermos como esses modernistas em Roma pensam, precisamos de humildade, realismo e recursos contundentes da Pascendi para assegurarmo-nos de que entendemos corretamente o vírus de seu modernismo, vicioso e altamente contagioso, antes de aproximarmo-nos deles. O que eles mais precisariam, se pudessem suportá-lo, é sentirem-se ofendidos e escandalizados com seu próprio modernismo, até que compreendam o que o Pe. Calmel quis dizer com: "Um modernista é um herege combinado com um traidor".

5. Não se assinou nenhum acordo formal entre Roma e a Fraternidade; portanto, ainda não se causou dano algum. Houve um dano imenso em uma série de acordos parciais, por exemplo, sobre confissões e matrimônios, pelos quais um grande número de sacerdotes e leigos da Fraternidade compreendem cada vez menos o que seu Fundador quis dizer quando escreveu em seu último livro que qualquer sacerdote que desejasse manter a Fé deveria ficar longe desses romanos. Eles podem ser homens "gentis". Eles podem ter "boas intenções". Mas, objetivamente, eles estão matando a Madre Igreja.

Kyrie eleison.



segunda-feira, março 02, 2020

Comentários Eleison: Frutos de Valtorta

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLIX (659) - (29 de fevereiro de 2020):




FRUTOS DE VALTORTA


Pode ser do diabo a oposição feroz que o Poema padece,
No entanto, o número de seus leitores só cresce.

Nosso Senhor Jesus Cristo nunca esperou que suas ovelhas fossem, e menos ainda que elas fingissem ser, grandes teólogos, mas esperou que elas tivessem bom senso suficiente para poderem julgar por seus frutos alguém ou algo que viesse a confundi-las. “Por seus frutos os conhecereis” – MT. VII, 15-20. Ora, as obras de Maria Valtorta (celibatária italiana acamada, 1897-1961), especialmente seu Poema do Homem-Deus (1943-1947), são altamente controversas, sendo seus defensores tão entusiasmados quanto os seus atacantes são violentos. Então, quais são os frutos delas? Aqui está um testemunho recebido recentemente pelo editor destes "Comentários", adaptado como de costume para o presente número:

Gostaria de compartilhar com vocês minha surpresa com o Poema do Homem-Deus, de Maria Valtorta, depois de minha paciente leitura de todos os dez volumes, e depois de discutir com o editor dos livros e com os escritores que apoiam Maria Valtorta. Eu já tinha ouvido o senhor citando essa mística italiana em particular, mas o ataque ao Poema pelo Pe. H. e a subsequente estigmatização daquele pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X me fizeram esperar dez anos antes de lê-lo. No entanto, a Providência finalmente colocou em minhas mãos uma cópia desta versão tão detalhada do Evangelho e de uma biografia de Maria Valtorta, que eu li cuidadosamente, com lápis na mão para fazer anotações. Após cinco meses de trabalho duro, fiquei surpreso ao descobrir o quão ortodoxos são os dez livros e quanto bem eles fizeram à minha alma e a toda minha família.

Existem dominicanos que os condenam. Eu acho isso lamentável. Eles realmente os leram? Sinto-me como se fosse um tabu falar sobre isso abertamente. Também estudei tudo sobre como a obra surgiu (foi aprovado por Pio XII), e considero injusto o modo como os tradicionalistas colocaram essa nobre alma vítima em juízo e a condenaram. Temo por seus críticos por não acharem que suas revelações não sejam verdadeiramente de Nosso Senhor e não sejam destinadas ao nosso próprio tempo.

Os números anteriores de seus “Comentários” de 2011 e 2012 sobre o “Poema” são um verdadeiro consolo para alguém como eu, que sente como se estivesse cometendo uma falta quando usa como alimento espiritual diário “O Evangelho, como me foi revelado” (o título alternativo do poema). Temos uma variedade de versões desta monumental Vida de Jesus: não apenas os dez volumes completos para adultos, mas também belos livros ilustrados para crianças a partir dos oito anos de idade e uma versão simplificada para crianças de 13 anos. O resultado é que toda a família está unida nessas páginas luminosas sobre o Homem-Deus e Suas relações com o mundo, com Sua Mãe e, sobretudo para os nossos tempos, com Judas Iscariotes. Suas relações com os outros onze apóstolos, com as mulheres santas e com Seus inimigos são igualmente edificantes.

Para entender a Paixão da Igreja de hoje, sofrendo e morrendo pelas mãos de seus próprios ministros, é particularmente útil comparar o caráter moderno e a natureza liberal de Judas, traidor da Igreja tal como se retrata no Poema, com nossos próprios clérigos conciliares, mas também acrescentaria com o "cristão" liberal sonolento dentro de cada um de nós. Pois, com efeito, o drama se desenrola não somente na cabeça da Igreja, mas também através das famílias que renunciam à luta por viver de acordo com o Evangelho, exatamente como se revelou à Maria Valtorta... (Aqui termina o testemunho do leitor).

Para concluir, o poema do Homem-Deus de Maria Valtorta é altamente controverso, mas não há por que sê-lo. Por um lado, não está em pé de igualdade com os quatro Evangelhos ou com as Sagradas Escrituras, nem foi declarado autêntico pela Igreja, nem é necessário para a salvação, nem é do gosto de todos os católicos sérios, nem é considerado como qualquer uma dessas coisas por qualquer católico em sã consciência. Por outro lado, assim como no Sudário de Turim ou na Tilma de Nossa Senhora de Guadalupe, as evidências surpreendentes da autenticidade do Poema parecem aumentar com o passar do tempo. Ele colocou inúmeras almas no caminho espiritual da conversão ou da perfeição em direção à salvação. E tem sido calorosamente recomendado e aprovado por muitos católicos sérios, incluindo teólogos e Bispos. Como disse Pio XII sobre o poema: Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Kyrie eleison.

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

Comentários Eleison: Autoridade do Arcebispo - II

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLVIII (658) – (22 de fevereiro de 2020):




AUTORIDADE DO ARCEBISPO - II


A autoridade vem de cima, não de baixo.
Se cortada em cima, ela não pode fluir.

DCLV - na teoria, a autoridade do Papa é indispensável para a Igreja. DCLVI - na teoria, os sacerdotes precisam absolutamente do Papa para uni-los.
DCLVII - na prática, a autoridade do Arcebispo Lefebvre foi seriamente prejudicada por não ter o suporte do Papa vivo na época. DCLVIII - na prática, o Arcebispo exerceu a autoridade que ainda possuía de pelo menos três maneiras diferentes, de acordo com os sujeitos sobre os quais a exerceu: aqueles que pediram que ele exercesse autoridade sobre eles nos termos dele, aqueles que pediram apenas uma autoridade parcial em seus próprios termos, e aqueles que não pediram nenhuma.

Observe-se antes de tudo como a classificação não é feita pela autoridade, mas pelos que estão sob ela. Em outras palavras, os sujeitos são os que "dão as ordens". Essa situação anormal na Igreja é o resultado direto do Vaticano II, onde a Autoridade Católica minou-se a si mesma radicalmente por sua traição plena à Verdade Católica, quando tentou substituir a religião objetiva de Deus por um substituto feito pelo homem, e mudar a Igreja Católica centrada em Deus pela Neoigreja centrada no homem. Por esse Concílio, todos os sacerdotes católicos foram essencialmente desacreditados, como seguem sendo-o até hoje, e continuarão sendo-o, até que os clérigos voltem a dizer a Verdade de Deus; somente então eles recuperarão sua autoridade plena.

Aqueles que pediram ao Arcebispo que exercesse sua autoridade nos termos dele foram, naturalmente, os membros das Congregações Católicas que ele mesmo fundou, principalmente a dos sacerdotes seculares, mas também a dos religiosos e religiosas e a dos terciários. Ele fez as Congregações do modo mais normal possível, com graus de obediência a si mesmo como Superior Geral, com votos nas ordenações para sacerdotes e promessas solenes no ingresso formal dos sacerdotes, Irmãos ou Irmãs em suas correspondentes Congregações. Na história da Igreja, os votos são para Deus, e, em caso de necessidade, muitas vezes têm sido dissolvidos (discretamente) pela autoridade romana, como é normal. As promessas dependem antes da escolha daqueles que as fizeram, e aqui a autoridade do Arcebispo foi seriamente comprometida, conforme relatado nos "Comentários" da semana passada, por ele ter sido condenado oficialmente pelo Papa e por seus confrades Bispos. Se um sacerdote decidisse deixar a Fraternidade pelo liberalismo à esquerda ou pelo sedevacantismo à direita, o Arcebispo não podia, como ele dizia, fazer nada além de cortar todo contato futuro, para que esses sacerdotes não pudessem fingir que ainda estavam em bons termos com a Fraternidade. Eles haviam escolhido ficar por sua própria conta.

Aqueles que, em segundo lugar, pediam ao Arcebispo que exercesse sua autoridade nos próprios termos deles, por exemplo, para receber o sacramento da Confirmação, ele prontamente satisfaria, na medida do possível dentro das normas da Igreja, por causa da crise da Igreja que faz com que seja questionável a validade das Confirmações conferidas com o Neorrito de Confirmação. Por um lado, dizia ele, os católicos têm direito a sacramentos seguramente válidos, e se, por outro lado, eles não queriam nada mais com ele, essa era uma escolha deles, e a responsabilidade era deles perante Deus.

E, em terceiro lugar, para aqueles que lhe pedissem que não exercesse autoridade sobre eles de maneira nenhuma, como um grande número de sacerdotes tradicionais que simpatizavam com sua Fraternidade, mas que nunca quiseram se juntar a ela, ele sempre foi generoso com qualquer contato, amizade, encorajamento ou conselho que pudessem ter pedido, mas nunca fingiu ou se comportou remotamente como se tivesse alguma autoridade sobre eles. E o mesmo com os leigos. Muitos católicos nunca concordaram com a posição que ele adotou, aparentemente oposta ao Papa, mas ele era impecavelmente cortês e estava pronto para responder as perguntas, se o sujeito que perguntasse merecesse nem que fosse minimamente uma resposta. E foi a objetividade e a razoabilidade de suas respostas que transformaram muitos neoeclesiásticos em tradicionalistas que se colocariam sob seu ministério ou sob a orientação de seus sacerdotes.

Resumindo, o Concílio paralisou a Autoridade da Igreja, mas onde havia vontade havia um caminho, ou pelo menos um caminho substituto, para que as almas buscassem a salvação eterna, o que é extremamente difícil sem os sacerdotes. Por meio do Arcebispo, especialmente, mas não unicamente, Deus garantiu esse caminho substituto para as almas, que ainda está aí.

Kyrie eleison.

domingo, fevereiro 16, 2020

Comentários Eleison: Autoridade do Arcebispo - I

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Comentários Eleison – por Dom Williamson
Número DCLVII (657) – (15 de fevereiro de 2020):


AUTORIDADE DO ARCEBISPO – I


Os sacerdotes católicos estão divididos atualmente.
Católicos, rezem para que eles se apoiem uns aos outros novamente.


Ilustremos a relação entre a Verdade Católica e a Autoridade Católica com o exemplo concreto do Atanásio dos tempos modernos que Deus nos deu para mostrar-nos o caminho durante nossa crise pré-apocalíptica: o Arcebispo Lefebvre (1905-1991). Quando a multidão de líderes da Igreja foi persuadida no Vaticano II a mudar a natureza da Fé, e alguns anos depois, em nome da obediência, a abandonar o verdadeiro rito da Missa, o Arcebispo, pela força de sua fé, permaneceu fiel à Verdade imutável da Igreja, e mostrou que ela é o coração e a alma de sua Autoridade divina. Como diz o provérbio espanhol, "a obediência não é serva da obediência".

Certamente o Arcebispo acreditava na autoridade da Igreja de dar ordens aos seus membros em todos os níveis para a salvação de suas almas. É por isso que, nos primeiros anos de existência da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (1970-1974), ele se esforçou para obedecer ao Direito Canônico e ao Papa Paulo VI, na medida do possível; mas quando os oficiais enviados de Roma para inspecionar seu Seminário em Écône afastaram-se da verdade católica nas coisas que diziam aos seminaristas, ele escreveu sua famosa Declaração de novembro de 1974, em protesto contra o abandono da fé católica da parte de toda a Roma em favor da nova religião conciliar, e esta Declaração serviu como o principal documento para aquilo que surgiu como o movimento Tradicional na Missa de Lille no verão de 1976.

Ora, o próprio Arcebispo sempre negou resolutamente que fosse o líder da Tradição, porque até hoje a Tradição Católica é um movimento não oficial, e não possui nenhum tipo de estrutura oficial. Ele também não era o único líder entre os tradicionalistas, nem todos concordavam com ele ou lhe prestavam homenagem. No entanto, um grande número de católicos viu nele seu líder, confiou nele e o seguiu. Por quê? Porque eles viram nele a continuação daquela fé católica somente pela qual eles poderiam salvar suas almas. Em outras palavras, o Arcebispo pode não ter tido autoridade oficial sobre eles, porque a jurisdição é uma prerrogativa dos oficiais da Igreja devidamente eleitos ou nomeados, mas ele construiu até sua morte uma enorme autoridade moral por sua fidelidade à verdadeira fé. Em outras palavras, sua verdade criou sua autoridade, extraoficial, mas real, enquanto a falta de verdade dos oficiais vem minando a autoridade destes desde então.

A dependência da autoridade, pelo menos a autoridade católica, em relação à verdade, não podia estar mais clara.

No entanto, com a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, que o Arcebispo fundou em 1970, as coisas foram um pouco diferentes, porque recebeu da Igreja oficial alguma jurisdição do Bispo Charrière, da Diocese de Genebra, Lausanne e Friburgo, uma jurisdição que ele apreciava, porque demonstrava que ele não estava inventando as coisas à medida que as levava adiante, mas estava realizando uma obra da Igreja. E assim ele fez o possível para governar a FSSPX como se ele fosse o chefe normal de uma congregação católica normal sob Roma, o que a defesa da verdadeira fé lhe dava todo o direito de fazer. No entanto, os romanos públicos e oficiais usaram toda a sua jurisdição para dar-lhe a mentira, alienando dele assim uma multidão de católicos que de outra forma o teriam seguido.

Ademais, a Neoigreja que eles estavam criando ao seu redor significava que, mesmo dentro da Fraternidade, sua autoridade estava seriamente enfraquecida. Por exemplo, se antes do Concílio um sacerdote insatisfeito com seu Bispo diocesano solicitava entrar na diocese de outro, o segundo Bispo naturalmente consultava o primeiro sobre o solicitante, e se o primeiro aconselhasse o segundo a não ter nada que ver com ele, isso era o fim imediato da solicitação. Mas, ao contrário, se um sacerdote da Fraternidade insatisfeito com ela solicitasse ingressar em uma diocese da Neoigreja, o Bispo da Neoigreja podia muito bem "recebê-lo de volta ao rebanho oficial" como fugitivo do "cisma lefebvriano". Assim, o Arcebispo não era apoiado por seus irmãos Bispos, o que significava que ele não podia disciplinar seus sacerdotes dentro da Fraternidade como deveria ter podido fazer. Sua autoridade andava sobre cascas de ovos, na medida em que não tinha à sua disposição nenhuma sanção para manter os sacerdotes rebelados sob controle. Portanto, a falta de verdade na Neoigreja deixou a verdade na Fraternidade sem a autoridade católica que lhe correspondia para protegê-la.

Portanto, para compensar a falta de unidade na verdade vinda da hierarquia, os sacerdotes tradicionais de hoje devem exercer uma tolerância acima do normal em relação aos outros, e os católicos tradicionais devem rezar mais do que de costume para que seus sacerdotes encontrem essa tolerância. Não é impossível.

Kyrie eleison.